Lista de Poemas

O Pai

(Para o Edgar)

O Pai, por que só trabalha?
Era melhor pai em casa,
pai no jardim vendo rosa,
pai consertando o telhado,
mas o Pai trabalha fora.
Era melhor pai passeando,
no parque correndo junto,
pai ensinando lição,
pai vendo televisão.

Mas o Pai trabalha fora
pra sustentar os meninos.
— Pai, por que você não canta?
— E eu lá sou passarinho?


In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
3 029

Corintiano

Não posso sair de casa
há polícias na rua
não posso ir para o trabalho
meu trabalho está cercado
não posso falar em liberdade
é proibido.

Posso apenas dormir
comer um pouco beber
e gritar "gol".
Mesmo assim só quando o meu time ganha.


Poema integrante da série Canas.

In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
1 436

Macunaíma

(...)

Meu filho, cresce ligeiro,
para ir pra São Paulo
e ganhar dinheiro.

Adeus mato cheiroso orvalho da manhã
adeus água de prata cascata
adeus ramo de arruda hortelã
a mata está a pique de acabar
jandaia buriti jussara aracuã
cresce depressa pra dandar
meu filho
pra ganhar
vintém
cresce depressa e entrega a mata
ao invasor
meu filho pra ganhar
vintém
Quanta floresta! É ouro verde na divisa
brasileiro vai ganhar
vintém

cresce depressa e sem caráter brasileiro
e vende a mata
pra ganhar
vintém

Na cidade das máquinas doente
Macunaíma sobrevive e pensa:
nas ruas, cipoal de muita gente,
só o ato de brincar
é que compensa.

Para a tristeza, o amor;
para a preguiça
o amor, e para a febre
mordidas de saúva da paixão.

Muita saudade
e muita pouca ação
os males do Brasil
são.

Macunaíma, audaz tumucumaque,
menino inventador, herói de araque,
lá vai ele, criador de boi-bumbá;
voltando para a terra antes que acabe,

para o seu galho em antes que desabe,
para as florestas
cada vez mais menos,
para as montanhas, já
montes de Vênus,
para os campos,
agora mais pequenos...

Macunaíma encolhe igual sanfona
na charanga brasílico-amazona.

(...)


In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
3 063

Olha, que no Verão

Olha, que no verão a lua nasce
vermelha dentro d'água
nesta praia.
Acendamos o fogo para vê-la
e para ver-nos. Já é quase noite
o mar só faz de conta com sua água múltipla
breve virá o rastro de ouro e sangue.

A lua sempre comoveu mulheres
seus ciclos, suas datas,
seus períodos
a lua sempre motivou os gatos
maré de bons resquícios
sexo e fluido;

gemendo nos amamos
e gemendo explodimos nos sismos do parto.
As mulheres são fossos onde a lua dorme
e desperta furiosa
a cada quatro casas.

Nada mais do que sou
me basta
neste instante;
o que fui já passou há muito tempo;
não devemos voltar nem pra recolher os destroços
fossem de ouro os restos
não voltemos;

deixa na praia os pedaços de troncos
ou joga-os na fogueira
de areia e ossos.

Pode tardar a lua; a hora não importa
à senhora dos sulcos e das lavras do mar.
Ela tem o seu tempo, o tempo das crateras
o lívido da pele do seu centro
o ouro do seu carmim
no nascimento.

Pode tardar a lua
Vem
O fogo
é dentro


In: PALLOTTINI, Renata. Ao inventor das aves. São Paulo: Edicon: J. Scortecci, 1985. (Aldebaran
1 483

Vestibular

De novo acomodo o corpo
(que de novo me incomoda)
na carteira de pau áspero;
de novo tomo a caneta.

De novo passo entre as filas
ponho a mão no ombro trêmulo
de alguma estudante tímida
(e agora sou professora).

De novo é aquela angústia,
não saber o que se sabe
ser de novo examinada
e de novo posta à prova.

De novo adivinho o amor,
olho-me e olho; já fui
o que hoje sou. Já sofri
o que sofro. E vem de novo

esse temor, como novo.
Ensino, ou sou ensinada?
Estou acima, ou me afogo?
De novo perco o respiro
ou já domino a questão?

De novo sofro e transpiro
porque hoje sou a mestra
tão escassa como sempre
e como sempre carente.

Olho-me quieta de novo
e vejo toda essa gente.
Passas de novo a meu lado
e me pões a mão no ombro

e me marcas com teu sopro
e me deixas tua sombra.


In: PALLOTTINI, Renata. Cantar meu povo. São Paulo: Massao Ohno, 198
1 744

Quando os Céus se Cerrarem

"ouve tu então nos céus e perdoa
o pecado do teu povo Israel
e torna a levá-lo à terra
que tens dado a seus pais.
I Reis, 8:34

Quando os céus se cerrarem, não por seca,
mas por extrema dor, sobre o teu povo,
que pecou contra ti e ainda peca
e pecará, o mísero, de novo,

e houver fome na terra, não de trigo
ou de carne, mas fome de ternura,
para estancar a fúria do inimigo
e a sua enorme e súbita loucura,

ouve do céu, Senhor, ouve e perdoa:
a gente que ontem fez a tua casa
e a fez grandiosa, e a fez dourada e boa

hoje, expulsa do Anjo e de sua asa,
entrepara e pergunta, se esqueceste:
para que herança, ó Deus, nos elegeste?

1 466

O Pão Amargo

"Ela foi sentar-se em frente dele a boa distância,
como a de um tiro de arco;
pois disse:
que não veja eu a morte do menino.
Sentada em frente dele,
levantou sua voz e chorou."
Gênesis, 21:16
O pão amargo e a água consumada
do odre seco em cáustico deserto;
sob o mirrado arbusto a esquiva sombra
se nega pela areia e é como um rastro.

Sem planta fresca, a fruta apetecida
traz a longínqua fixação do incerto;
quando a brasa arenosa for alfombra
tornar-se-á carícia o fogo do astro.

Para a criança adormecida ao braço
o olhar alonga, e faz como se fosse
para nos olhos tê-la, traço a traço.

Lembrando a noite aquela e a face gêmea
que lhe roçara a face em mágoa doce,
a escrava chora a condição de fêmea.

1 580

Saudade da Feira de

Saudade da feira de Casa Amarela:
entrava por uma rua, saía por outra rua,
e tinha peixe-agulha fritando e tinha pretá
e tinha refresco e menino de frete,

saudade do Mercado da Bahia, saía por uma porta
entrava por outra e tinha rede (de casal, moça!)
e tinha faca de ponta e vatapá com pimenta,
acarajé com pimenta, tinha cara de pimenta,

saudade do Mercado de Maceió, tinha sarapatel,
tinha fruta, uma fruta pequenina e amarela,
foi ver era tomate, mas não esse do sul,

saudade do Mercado de Caldas, entrava por uma porta
saía por um portão que era pra guardar cavalo,
tinha doce, tinha passarinho que nem por dois contos
[eu vendo,
tinha pinhão e sorvete de amendoim,

pra que ir tão longe? Saudade do Mercado de Moji
e pronto, entra por uma porta sai por outra
e é sempre a mesma coisa, tem fumo de Rio Comprido
[e de Rio Curto
e de Rio Preto e de Rio Branco, tem caipiras que só
mesmo em São Paulo, tem cachorrinho ensinado, tem
[pé no chão
e Deus me livre de ser bairrista, mas tem uma
[rapadura, oi.



Publicado no livro O Monólogo Vivo (1956).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.3
1 630

Por Vós, Senhora

"o meu hálito se fez estranho a minha mulher..."
Jó, 19:17

Por vós, Senhora, dei o quanto hei dado:
minha parcela de aflição, incertas
as minhas tíbias mãos, no entanto abertas;
as flores e os afetos consumados.

Também por vós hei sido o quanto hei sido:
regato de cautela, pensamento
por vós pensado, inquieto tempo havido
por vós enlouquecido em sentimento.

Tudo isso é nada, agora que voltastes
a tudo o que vos dei e fiz, as frias
espigas do desprezo e as duras hastes

do tédio. Agora é nada o amor passado
em vós, jamais em mim, que vos daria
Senhora, uma vez mais, o quanto hei dado,

1 421

O Cântaro

"Então, Jacó beijou Raquel e,
levantando a voz,
chorou."
Gênesis, 20: l l

O cântaro poreja a água amena
que do poço brotou, e adoça a areia
e que corre nos ombros, e que enleia
pelas espáduas seu frescor moreno.

O lácteo manto que uma brisa ondeia
desenha formas, cujo talho apenas
a tamareira imita, a flor receia,
o vento afaga e a solidão serena.

Vê-la é um momento, desejá-la um sopro,
ouvir-lhe a voz uma doçura eleita,
roçar-lhe a fronte uma revelação.

O amante, incertas mãos, trêmulo corpo,
beija-lhe os olhos, cuja flor desfeita
catorze anos de vida pagarão.

1 385

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Identificação e contexto básico

Renata Pallottini foi uma escritora, poeta, dramaturga, contista e tradutora brasileira. Nasceu em São Paulo em 10 de janeiro de 1931 e faleceu na mesma cidade em 30 de novembro de 2019. Destacou-se como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

Infância e formação

Passou a infância e a juventude em São Paulo. Sua formação literária foi sólida e eclética, combinando estudos formais com uma vasta experiência de leitura e vivência cultural. A paixão pela palavra e pela arte moldou sua trajetória desde cedo.

Percurso literário

Renata Pallottini iniciou sua carreira literária com a publicação de poemas e contos em jornais e revistas. Ao longo de sua trajetória, publicou diversos livros de poesia, que lhe renderam reconhecimento nacional. Também atuou como dramaturga e contista, demonstrando versatilidade em sua criação literária. Sua atividade como tradutora foi igualmente relevante, vertendo para o português obras de autores estrangeiros.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra poética é vasta e diversificada, abordando temas como o amor, a morte, a solidão, a memória, a passagem do tempo, a condição feminina e a crítica social. Seu estilo é marcado por uma linguagem rica e expressiva, que transita entre o coloquial e o erudito, o lírico e o reflexivo. Explora tanto o verso livre quanto formas mais estruturadas, com forte musicalidade e densidade imagética. O tom de sua poesia varia, mas frequentemente carrega uma profundidade existencial e uma sensibilidade aguçada.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Renata Pallottini viveu e produziu em um período de intensas transformações culturais e sociais no Brasil e no mundo. Sua obra dialoga com as correntes literárias de seu tempo, mas mantém uma identidade autoral forte e inovadora. Esteve inserida nos círculos literários de São Paulo, participando ativamente da vida cultural da cidade e do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se divulga sobre os detalhes íntimos de sua vida pessoal, mas é sabido que dedicou sua vida à arte e à literatura com paixão e rigor. Sua experiência como mulher e artista em um contexto muitas vezes desafiador certamente moldou sua visão de mundo e sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Renata Pallottini obteve reconhecimento em vida por sua obra literária, tanto pela crítica especializada quanto pelo público leitor. Suas poesias foram incluídas em antologias e a autora foi objeto de estudos acadêmicos e homenagens.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra se insere na tradição da poesia moderna brasileira, mas com características únicas. Ela contribuiu para a renovação da linguagem poética e para a ampliação dos temas abordados na poesia contemporânea. Seu legado reside na força de sua voz lírica e na profundidade de suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Renata Pallottini é frequentemente analisada sob a ótica da sua capacidade de expressar a complexidade dos sentimentos humanos, a fragilidade da existência e a beleza encontrada no cotidiano. Sua obra convida à introspecção e à contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua versatilidade como escritora, transitando entre poesia, prosa e teatro, é um dos aspetos notáveis de sua carreira. A tradução de obras significativas também demonstra sua profunda conexão com a literatura mundial.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 2019, deixando um importante acervo literário. Sua obra continua a ser lida, estudada e celebrada, garantindo sua memória e seu lugar de destaque na literatura brasileira.