Lista de Poemas

Esta Canção

"aquilo que é, já foi;
e aquilo que há de ser já foi;
Deus fará vir outra vez o que já se passou."
Eclesiastes, 3:15

Esta canção rateia a tarde clara
buscando a minha voz que é sua fonte.
Assim voltam os pássaros ao campo,
assim volta o horizonte ao horizonte.

Sou o doido que canta para si,
cônscio de não saber nem do que inventa;
recriando o criado, ele sorri,
ciente de que não faz nem acrescenta.

Tudo já foi, apenas se repete;
este lugar de amor será pregresso
quando for dor a dor que se promete.

Chegou-me agora o que já foi futuro;
assim Deus me prepara o teu regresso
como se planta um poema nascituro.

1 310

Ternura

Compreende: não é a minha Ternura que te nego.
É antes, a casa que não é minha,
A liberdade que não me deram,
As horas que me arrancam.
Minha Ternura, essa está intacta,
Ninguém a pode roubar.
É como a Casa que eu sempre sonhei,
Onde viveriam todos os Amigos,
Como a liberdade de andar pelas ruas sem tempo,
Como as horas da noite que eu guardo para os sonhos
Antes de dormir.


Publicado no livro Acalanto (1952).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.1
2 459

Por Ti Deixei

"Portanto, deixa o homem
a seu pai e a sua mãe,
e se une a sua mulher;
e são uma só carne."
Gênesis, 2:24
Por ti deixei, do meu rebanho lento
a alva timidez; da minha casa
o fogo acolhedor tornado brasa
e a brasa morta transformada em pranto.

Das mãos de minha mãe ficou-me o manto,
da boca de meu pai restou-me a frase
e estes meus olhos são cisternas rasas
onde à tardinha vem beber o vento.

Ponho a teus pés o meu desejo triste
que se renova numa força eterna,
e te ofereço uma faqueza a mais;

pedaço do meu tronco que partiste,
carne, que foste um pouco de meu cerne!
À minha própria carne tornarás.

1 383

Primeiro Foi a Noite

"No princípio criou Deus o céu e a terra.
Gênesis, 1:1
Primeiro foi a noite. E a noite feita,
desta engendrou-se a luz, julgada boa.
Depois, fez-se o agudo desespero do céu.
E a terra. E as águas separadas.

E um mar se fez, da lúcida colheita
das águas inferiores. A coroa
tornou-se firmamento. "Haja luzeiros" —
ordenou-se às estrelas debulhadas.

Houve flores estáticas e flores
que procuravam flores; e houve a fome
de carne e amor e dessa fome as dores

e das dores o Homem. Deste, esquiva,
toda fome, sua fêmea, e no seu sexo,
mais uma vez a noite primitiva.

1 474

Salvo

Salvo
a falácia da queda e o seu após
nada tenho a constatar
do que caiu sobre nós.
Digo-te qual suponho:
o que passou, passou.
Não ponho sobre ti o peso do meu sonho,
nem do que velo, nem do que findou.
Salvo a falácia do erro
tudo o mais fui eu:
quem nasceu e se pôs de pé,
quem cresceu e não cresceu,
quem humilhou e perdoou,
quem finalmente morreu

e hoje chora ao pé da cova
pelo dorido do que aconteceu.

1 538

Através da Vida

Através da vida o homem
vai sendo ludibriado.
Deitando-se em qualquer porta
o homem percebe que ficou de lado.
E depois constatando
que a mulher não lhe foi dada
para amá-lo, como está dito.
Foi-lhe dada para nada.
A mulher ao longo da vida
percebe que foi sendo usada
e que agora está no fim.
E que nunca recebeu um sim.
Os filhos que ali estão
estão ali porque estão.
Não tinham sido queridos.
Tinham só acontecido.
E os filhos que ali estão,
não sabem de coisa alguma.
Vão à escola se vão à escola.
Se não vão, inventam uma.

Depois que morre a gente descansa
e a terra é quente, mesmo na morte.
Depois da morte eu descansarei
e não terei medo da morte.
E não olharei para o alto, temendo
o alto peso da terra.
Mas estarei dormindo e dormindo.
De forma eterna e só então eterna.


Publicado no livro Os Arcos da Memória (1971).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.17
1 414

Noite Afora

A quem devo dizer que em tua carne
se sobreleva o tempo e o duradouro,
mancha de óleo no azul, alaga e intensifica
o contratempo a que chamei amor?

A quem devo dizer dos meus perigos
quando, o corcel furioso, olhei ao longe
e não vi mais limites que o oceano
nem mais convites que o das ondas frias?

Como antepor o corte nas montanhas
— Liberdade — ao dever que a si mesma impõe a terra
de estender-se conforme o espaço havido?

Malícia do destino, ardil composto outrora...
Arde a grama da noite em que te vais embora,
e essa chama caminha, essa chama, essas vinhas,

essas uvas, cortadas noite afora.


Poema integrante da série Noite Afora.

In: PALLOTTINI, Renata. Noite afora. São Paulo: Brasiliense, 197
1 561

Poema da Rua Maria Antonia

Por sobre o muro
voam bombas e garrafas incendiadas
pedras agudas e palavras
duras.
Por sobre o muro
voa a lembrança de um amor que houve
uma visão passada e deslocada
que tenta ultrapassar o muro e do alto
proclamar-se intocada.
Mas as garrafas incendeiam tudo
e a palavras
tornam menos urgente o amor antigo
e mais urgente o aviso:
esta é a guerra das guerras
guerra civil dos que foram amigos.
Por sobre o muro
espio com espanto o pátio incendiado
os jovens que se atingem entre lágrimas
os feridos e os gestos e os detalhes.
Minha cabeça ponho sobre o muro.
É uma cabeça desligada do seu corpo
como a cabeça de um guilhotinado
de olhos abertos.
Com meus olhos abertos sobre o muro
vejo o sangue e a fumaça da contenda.
Não posso distinguir qual dos lados do muro
é o mais claro, o mais limpo, o mais certo, o mais justo.
Meus olhos na cabeça decepada,
Buscam ansiosamente sobre o muro
o caminho mais curto, a razão mais sensata,
ou pelo menos a mais desinteressada.
Meus olhos, na cabeça desnorteada
procuram com inútil desespero
a arma de lutar, a faca de se defender
o punho de atacar.
Na cabeça infeliz meus olhos são culpados
de verem o que aos mortos foi negado.


In: PALLOTTINI, Renata. Coração americano. Pref. Luiz Carlos Cardoso. Il. Aldemir Martins. 2.ed. São Paulo: Feira de Poesia, 1979

NOTA: "Poema da Rua Maria Antonia" é a quarta parte do poema "Simposium", composto de 10 partes
1 714

O Carro

O carro corre ao longe numa boa
feito a nuvem que passa,
feito o vento que voa.

A máquina do carro é o fino;
o ruído ardido
é o defeito que tem tudo que é feito.
Senão, tudo era chato
e perfeito.


In: PALLOTTINI, Renata. Café com leite. São Paulo: Quinteto, 1988. p.1
2 658

Cântico dos Cânticos - 2:16

(O meu amor é meu e eu sou dele; ele apascenta
o seu rebanho entre os lírios.)

O meu amor é meu e eu sou dele.
O linho horizontal é nossa casa
e eu me aninho a dormir sob sua asa;
amo-o com minha boca e minha pele.

Ele é quem vela, e não me diz que vele
porque sua é a chama e minha a brasa.
O seu fervor ao meu fervor se casa,
clara coma de luz que nos impele.

Desci ao campo raso: ele é meu campo
onde me deito e a erva se derrama;
é meu olhar que voa, pirilampo.

Sem terra irei por terra: ele me chama.
Vou sem saber por onde, ao mar ou monte.
Sem sua boca eu já não sei ser fonte.

28-09-59


Publicado no livro Livro de Sonetos (1961).

In: PALLOTTINI, Renata. Chão de palavras. São Paulo: Círculo do Livro, 1977. p.9
1 877

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Identificação e contexto básico

Renata Pallottini foi uma escritora, poeta, dramaturga, contista e tradutora brasileira. Nasceu em São Paulo em 10 de janeiro de 1931 e faleceu na mesma cidade em 30 de novembro de 2019. Destacou-se como uma das vozes mais importantes da poesia brasileira contemporânea.

Infância e formação

Passou a infância e a juventude em São Paulo. Sua formação literária foi sólida e eclética, combinando estudos formais com uma vasta experiência de leitura e vivência cultural. A paixão pela palavra e pela arte moldou sua trajetória desde cedo.

Percurso literário

Renata Pallottini iniciou sua carreira literária com a publicação de poemas e contos em jornais e revistas. Ao longo de sua trajetória, publicou diversos livros de poesia, que lhe renderam reconhecimento nacional. Também atuou como dramaturga e contista, demonstrando versatilidade em sua criação literária. Sua atividade como tradutora foi igualmente relevante, vertendo para o português obras de autores estrangeiros.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Sua obra poética é vasta e diversificada, abordando temas como o amor, a morte, a solidão, a memória, a passagem do tempo, a condição feminina e a crítica social. Seu estilo é marcado por uma linguagem rica e expressiva, que transita entre o coloquial e o erudito, o lírico e o reflexivo. Explora tanto o verso livre quanto formas mais estruturadas, com forte musicalidade e densidade imagética. O tom de sua poesia varia, mas frequentemente carrega uma profundidade existencial e uma sensibilidade aguçada.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Renata Pallottini viveu e produziu em um período de intensas transformações culturais e sociais no Brasil e no mundo. Sua obra dialoga com as correntes literárias de seu tempo, mas mantém uma identidade autoral forte e inovadora. Esteve inserida nos círculos literários de São Paulo, participando ativamente da vida cultural da cidade e do país.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Pouco se divulga sobre os detalhes íntimos de sua vida pessoal, mas é sabido que dedicou sua vida à arte e à literatura com paixão e rigor. Sua experiência como mulher e artista em um contexto muitas vezes desafiador certamente moldou sua visão de mundo e sua escrita.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Renata Pallottini obteve reconhecimento em vida por sua obra literária, tanto pela crítica especializada quanto pelo público leitor. Suas poesias foram incluídas em antologias e a autora foi objeto de estudos acadêmicos e homenagens.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Sua obra se insere na tradição da poesia moderna brasileira, mas com características únicas. Ela contribuiu para a renovação da linguagem poética e para a ampliação dos temas abordados na poesia contemporânea. Seu legado reside na força de sua voz lírica e na profundidade de suas reflexões.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Renata Pallottini é frequentemente analisada sob a ótica da sua capacidade de expressar a complexidade dos sentimentos humanos, a fragilidade da existência e a beleza encontrada no cotidiano. Sua obra convida à introspecção e à contemplação.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Sua versatilidade como escritora, transitando entre poesia, prosa e teatro, é um dos aspetos notáveis de sua carreira. A tradução de obras significativas também demonstra sua profunda conexão com a literatura mundial.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Faleceu em 2019, deixando um importante acervo literário. Sua obra continua a ser lida, estudada e celebrada, garantindo sua memória e seu lugar de destaque na literatura brasileira.