Olga Savary

Olga Savary

1933–2020 · viveu 86 anos BR BR

Olga Savary foi uma figura proeminente na literatura brasileira, conhecida pela sua poesia introspectiva e pela sua atuação incansável na divulgação cultural. Sua obra aborda temas profundos como a identidade, o amor, a solidão e a condição humana, com uma linguagem ao mesmo tempo lírica e contundente. Para além da sua produção poética, Olga Savary destacou-se como tradutora, ensaísta e organizadora de importantes antologias e eventos literários, contribuindo significativamente para o cenário cultural do Brasil e para a projeção de outros escritores.

n. 1933-05-21, Belém · m. 2020-05-15, Teresópolis

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Pitúna-Ára

Exilada das manhãs,
de noite é que me visto.

Caminho só pela casa
e o viajar na casa escura
faz soar meus passos mudos
como em floresta dormida.

Me vêem, eu que não me vejo,
as coisas — de corpo inteiro.

O real está me sonhando,
o real por todo lado.
Não sou eu que vivo o medo;
em seu tapete de sombras,
por ele é que sou vivida.

Aonde me levam estes passos
que não soam e que não vão:
às armadilhas do vôo
como a paisagem no espelho
espatifado no chão?

O escuro é tanque de limo
para minha sombra escolhida
pela memória do dia.
Deixo o mel e ordenho o cacto:
cresço a favor da manhã.

Rio, 1972


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977.

NOTA: Pitúna-Ára (tupi) = noite-di
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Biografia

Identificação e contexto básico

Olga Savary foi uma poeta, tradutora e ensaísta brasileira.

Infância e formação

Nascida no Rio de Janeiro, teve uma infância marcada pela influência de uma família ligada à cultura. Sua formação acadêmica incluiu estudos em literatura, o que lhe proporcionou uma base sólida para sua futura carreira literária. Desde cedo, demonstrou um grande interesse pela leitura e pela escrita, absorvendo influências de diversos autores e movimentos literários.

Percurso literário

O percurso literário de Olga Savary começou com a publicação de seus primeiros poemas, que logo chamaram a atenção pela originalidade e profundidade. Ao longo de sua carreira, publicou diversos livros de poesia, consolidando seu nome no cenário literário brasileiro. Foi também uma ativa tradutora e crítica literária.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras de Olga Savary exploram temas existenciais como o amor, a morte, a solidão, a busca por identidade e a fragilidade da condição humana. Seu estilo poético é marcado por uma linguagem lírica e introspectiva, com forte apelo imagético e uma musicalidade singular. Utiliza frequentemente o verso livre, mas com uma cadência e ritmo que conferem aos seus poemas uma estrutura coesa e expressiva. A voz poética é, na maioria das vezes, confessional e profundamente pessoal, dialogando com o universal através da experiência individual. Sua obra dialoga com a tradição literária, mas também incorpora elementos da modernidade, sem se filiar estritamente a um único movimento, transitando entre influências simbolistas e existencialistas.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Olga Savary viveu em um período de intensas transformações culturais e políticas no Brasil. Sua obra reflete as angústias e os questionamentos existenciais comuns ao seu tempo, inserindo-se em um contexto de renovação literária e de busca por novas formas de expressão. Manteve contato com outros escritores e intelectuais de sua época, participando ativamente do circuito cultural.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal A vida pessoal de Olga Savary, embora não seja o foco principal de sua obra, forneceu o substrato para muitas de suas reflexões poéticas sobre as relações humanas, a interioridade e as experiências individuais. Seus relacionamentos e vivências moldaram sua perspectiva sobre o mundo e sobre a arte.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Olga Savary conquistou um lugar de destaque na literatura brasileira, sendo reconhecida por sua voz autêntica e pela qualidade de sua poesia. Sua obra tem sido objeto de estudo e admiração por críticos e leitores, consolidando seu legado.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado A obra de Olga Savary influenciou gerações posteriores de poetas com sua abordagem sensível e profunda da experiência humana. Seu legado reside na capacidade de traduzir em versos as complexidades da alma, deixando um acervo poético de grande valor.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Olga Savary tem sido interpretada sob diversas óticas, destacando-se as análises que exploram suas reflexões sobre a identidade feminina, a melancolia, a busca por sentido e a relação entre o eu e o outro. Suas obras convidam à introspecção e ao diálogo com questões filosóficas e existenciais.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Olga Savary também se dedicou à tradução de importantes autores estrangeiros, ampliando seu alcance e contribuindo para o intercâmbio cultural. Sua atuação na organização de eventos e antologias revela um lado engajado na promoção da literatura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Olga Savary faleceu no Rio de Janeiro, deixando um corpo de obra que continua a ser celebrado e estudado pela sua relevância na poesia brasileira.

Poemas

16

Pitúna-Ára

Exilada das manhãs,
de noite é que me visto.

Caminho só pela casa
e o viajar na casa escura
faz soar meus passos mudos
como em floresta dormida.

Me vêem, eu que não me vejo,
as coisas — de corpo inteiro.

O real está me sonhando,
o real por todo lado.
Não sou eu que vivo o medo;
em seu tapete de sombras,
por ele é que sou vivida.

Aonde me levam estes passos
que não soam e que não vão:
às armadilhas do vôo
como a paisagem no espelho
espatifado no chão?

O escuro é tanque de limo
para minha sombra escolhida
pela memória do dia.
Deixo o mel e ordenho o cacto:
cresço a favor da manhã.

Rio, 1972


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977.

NOTA: Pitúna-Ára (tupi) = noite-di
2 650

Pedido

A Manuel Bandeira


Quando eu estiver mais triste
mas triste de não ter jeito,
quando atormentados morcegos
— um no cérebro outro no peito —
me apunhalarem de asas
e me cobrirem de cinza,
vem ensaiando de leve
leve linguagem de flores.
Traze-me a cor arroxeada
daquela montanha — lembra?
que cantaste num poema.
Traze-me um pouco de mar
ensaiando-se em acalanto
na líquida ternura
que tanto já me embalou.

Meu velho poeta, canta
um canto que me adormeça
nem que seja de mentira.

Caieiras, 25 de janeiro de 1954


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970.

NOTA: Referência ao poema "Vou-me Embora Pra Pasárgada", de Manuel Bandeir
3 051

Água Água

Menina sublunar, afogada,
que voz de prata te embala
toda desfolhada?

Tendo como um só adorno
o anel de seus vestidos,
ela própria é quem se encanta
numa canção de acalanto
presa ainda na garganta.

1 942

Iraruca

Destino é o nome que damos
à nossa comodidade,
à covardia do não-risco,
do não-pegar-as-coisas-com-os-dentes.

Quanto a mim,
pátria é o que eu chamo poesia
e todas as sensualidades: vida.

Amor é o que eu chamo mar,
é o que eu chamo água.


In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.

NOTA: Do tupi = casa de me
2 339

Caiçuçáua

Sempre o verão
e algum inverno
nesta cidade sem outono
e pouca primavera:

tudo isto te vê entrar
em mim todo inteiro
e eu em fogo vou bebendo
todos os teus rios

com uma insaciável sede
que te segue às estações
no dia aceso.

Em tua água sim está meu tempo,
meu começo. E depois nem poder ordenar:
te acalma, minha paixão.


In: SAVARY, Olga. Linha d'água. Pref. Felipe Fortuna. Il. Kazuo Wakabayashi. São Paulo: Massao Ohno; Niterói: Hipocampo, 1987.

NOTA: Do tupi = amor, amad
1 749

Amor

O que será:
este labirinto de perguntas
e resposta alguma,
este insistente rugir
de pássaros, este abrir
as jaulas, soltar o bicho
novelo que há em nós,
delicado/feroz morder
(deixa sangrar)
o outro bicho (deixa, deixa)
e toda esta parafernália
a parecer truque enquanto
obsidiante você mente
embora acreditando nas mentiras
e eu use os piores estratagemas
para cobrir-me a retirada
desse vicioso campo de batalha.

2 026

Gazel

De amor, criei (incriado)
este jardim secreto
de rosas fechadas em seu tédio
e espero
aquele que virá e há de decifrar
hieróglifos de ternura desenhados
pela lua em meu corpo — seu legado.

O amado pedirá em minha boca
o segredo desvendado a todas as perguntas.
Eu lhe responderei sem palavras
mas com o perigoso silêncio parecido
ao rumor da água caindo

sem cessar.

Belém, julho de 1953


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 984

Hai-Kai

Se fosses um buda
eu seria a pedra
de tua fronte.

Belém, 12 de julho de 1953


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 910

Ouro Preto

Para Lilli Correia de Araújo


Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).

Ouro Preto, 08 de julho de 1970


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 545

Altaonda

Para Carlos Drummond de Andrade


Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento,
e esta imagem me invadindo as tardes,
eu deixando, certo certo
contaria todos os meus ossos.

Então é isso:
o rigor da ordem sobre o ardor da chama
de história simples com alguma coisa de fatal,
estátua banhada por águas incansáveis.
tigre saltando o escuro
nos degraus da escada, apenas pressentido.
este ir e vir sobre os passos dados,
rua sem saída, esbarro no muro,
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido,
um mistério que é teu signo e mapa
sumindo no fundo do mar.


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 822

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Cara Sra. Olga Savary, Prazer em contatá-la. Meu nome é Renata, trabalho numa editora e gostaria de conversar sobre um projeto. Por favor mande seu telefone ou e-mail para [email protected] Grande abraço, Renata Bravo Assistente editorial