escritas.org desde 1996
Olga Savary

Olga Savary

1933–2020 · viveu 86 anos BR BR

Olga Savary é uma escritora brasileira.

n. 1933-05-21, Belém · m. 2020-05-15, Teresópolis

36 810 Visualizações

Pitúna-Ára

Exilada das manhãs,
de noite é que me visto.

Caminho só pela casa
e o viajar na casa escura
faz soar meus passos mudos
como em floresta dormida.

Me vêem, eu que não me vejo,
as coisas — de corpo inteiro.

O real está me sonhando,
o real por todo lado.
Não sou eu que vivo o medo;
em seu tapete de sombras,
por ele é que sou vivida.

Aonde me levam estes passos
que não soam e que não vão:
às armadilhas do vôo
como a paisagem no espelho
espatifado no chão?

O escuro é tanque de limo
para minha sombra escolhida
pela memória do dia.
Deixo o mel e ordenho o cacto:
cresço a favor da manhã.

Rio, 1972


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977.

NOTA: Pitúna-Ára (tupi) = noite-di
Ler poema completo
Biografia
Olga Savary (Belém PA, 1933) publicou seu primeiro livro de poesia, Espelho Provisório, em 1970. No ano seguinte recebeu o Prêmio Jabuti de Autor Revelação, concedido pela Câmara Brasileira do Livro. Entre 1975 e 1987 traduziu obras de Jorge Semprúm, Julio Cortázar, Mario Vargas Llosa, Octávio Paz, Pablo Neruda e Román Cano. Conquistou, em 1977, o prêmio de Poesia concedido pela Associação Paulista de Críticos de Arte, pelo livro Sumidouro. Representou o Brasil, em 1985, no Poetry International, na Holanda. Em 1997 ocorreu a publicação de seu livro de contos O Olhar Dourado do Abismo, com prefácio de Dias Gomes e xilogravuras de Rubem Grilo. Sua obra poética, de tendências contemporâneas, abrange os livros Altaonda (1979), Magma (1982), Linha d'água (1987) e Retratos (1989), entre outros. Segundo o crítico Felippe Fortuna, "ao estrear numa década violenta da história política do País, Olga Savary atravessou-a com a delicadeza da linha-d´água no papel, sem se permitir a poesia engajada: ela é, de fato, poeta dos elementos, das formas naturais, das pequenas elegias.".

Poemas

16

Sextilha Camoniana

Daqui dou o viver já por vivido.
Quero estar quieta, sozinha agora,
igual a uma cobra de cabeça chata,
ficar sentada sobre os meus joelhos
como alguém coagulado em outra margem.
Daqui dou o viver já por vivido.

Rio, 1973


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 892

Altaonda

Para Carlos Drummond de Andrade


Alta onda,
Altaonda, constrói o teu retrato
de raro sal de ferro, violento,
e esta imagem me invadindo as tardes,
eu deixando, certo certo
contaria todos os meus ossos.

Então é isso:
o rigor da ordem sobre o ardor da chama
de história simples com alguma coisa de fatal,
estátua banhada por águas incansáveis.
tigre saltando o escuro
nos degraus da escada, apenas pressentido.
este ir e vir sobre os passos dados,
rua sem saída, esbarro no muro,
Altaonda, diz teu silêncio,
um silêncio ao tumulto parecido,
um mistério que é teu signo e mapa
sumindo no fundo do mar.


In: SAVARY, Olga. Sumidouro. Pref. Nelly Novaes Coelho. Il. Aldemir Martins. São Paulo: Massao Ohno: J. Farkas, 1977
1 843

Construção

Eles são donos do mundo
e não sabem disso.
Daqui os vejo
bem no alto contra o espaço,
eles vem e vão
pássaros sérios
deslocando nuvens
Daqui os vejo criando
essa explosão precisa
de ferro cimento e paciência
— agora um bem pensado
esqueleto de superpostas vigas.
E a gente fica cismando como é belo
o que eles criam e o simples permanecer
de um operário no alto da sua construção.
O pequeno quadrado (que será elevador)
desce e sobe por ossos de madeira
do poço por eles trabalhado.
Eles constróem o mundo
eles divididos mas tão fortes
eles são o mundo
e não se importam.

Eles levantam os castelos de agora
castelões provisórios no alto de suas torres.

1 695

Hai-kai

Se fosses um buda
eu seria a pedra
de tua fonte.

O poeta e o aviador

Entre teu céu
e o meu
leve sussurro de asas.

1 690

Ouro Preto

Para Lilli Correia de Araújo


Ouro Preto no inverno, uma manhã,
é cicatriz
No alto, a praça nítida
e o bairro de Antônio Dias,
embaixo, derruído em bruma.
Por entre a cortina azul
filtra-se o azul no azul
do vidro da janela antiga:
— Bom dia, magia.
(Deitada vejo tudo — intacta —
como uma boneca de corda
sem corda há muito tempo).

Ouro Preto, 08 de julho de 1970


In: SAVARY, Olga. Espelho provisório. Pref. Ferreira Gullar. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1970
1 565

David

Não sendo bicho nem deus
nem da raiz tendo a força
ou a eternidade da pedra,
o poeta nas palavras
põe essa força de nada:
sua funda é o poema.

1 322

Vídeos

50

Comentários (1)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.
Re

Cara Sra. Olga Savary, Prazer em contatá-la. Meu nome é Renata, trabalho numa editora e gostaria de conversar sobre um projeto. Por favor mande seu telefone ou e-mail para [email protected] Grande abraço, Renata Bravo Assistente editorial