Poemas neste tema
Vida e Existência
Manuel Machado
Melancolia
Sinto-me, às vezes, triste
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.
como uma tarde do outono velho;
de saudades sem nomes,
de aflições melancólicas tão cheio...
Meu pensamento, então,
vaga junto às tumbas dos mortos
e em torno dos ciprestes e salgueiros
que abatidos, se inclinam... e me lembro
de historias tristes, sem poesia... Historias
que têm quase brancos meus cabelos.
1 351
Manuel Machado
A chuva
Eu tive uma vez amores.
Hoje é dia de lembranças.
Eu tive uma vez amores.
Houve sol e houve alegria.
Um dia, já bem passado...,
houve sol e houve alegria.
De tudo, que me há ficado?
Da mulher que me amava,
de tudo, que me há ficado?
...O aroma de seu nome,
a lembrança de seus olhos
e o aroma de seu nome.
Hoje é dia de lembranças.
Eu tive uma vez amores.
Houve sol e houve alegria.
Um dia, já bem passado...,
houve sol e houve alegria.
De tudo, que me há ficado?
Da mulher que me amava,
de tudo, que me há ficado?
...O aroma de seu nome,
a lembrança de seus olhos
e o aroma de seu nome.
1 155
Alfonsina Storni
Vou dormir
Dentes de flores, cofia de sereno,
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...
Mãos de ervas, tu ama-de-leite fina,
Deixa-me prontos os lençóis terrosos
E o edredom de musgos escardeados.
Vou dormir, ama-de-leite minha, deita-me.
Põe-me uma lâmpada a cabeceira;
Uma constelação; a que te agrade;
Todas são boas: a abaixa um pouquinho
Deixa-me sozinha: ouves romper os brotos...
Te embala um pé celeste desde acima
E um pássaro te traça uns compassos
Para que esqueças... obrigado. Ah, um encargo:
Se ele chama novamente por telefone
Diz-lhe que não insista, que sai...
3 564
César Vallejo
Pedra preta sobre pedra branca
Morrerei em Paris com aguaceiro,
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
um dia do qual tenho já a lembrança.
Morrerei em Paris - e não me apresso -
talvez em uma quinta-feira, como é hoje, de outono.
Quinta-feira será, porque hoje, quinta, que proseio
estes versos, os úmeros hei posto
a mau e, jamais como hoje, hei voltado
com todo meu caminho, a ver-me só.
César Vallejo há morto, lhe batiam
todos sem que ele lhes faça nada
davam-lhe forte com um pau e duro
Também com uma corda, são testemunhos
os dias de quinta e os ossos úmeros,
a solidão, a chuva, os caminhos...
1 466
Jose Luis Appleyard
O tempo
Já é ontem porém então era sempre
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
879
Jose Luis Appleyard
O tempo
Já é ontem porém então era sempre
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
879
Jose Luis Appleyard
O tempo
Já é ontem porém então era sempre
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
um trasladar de horários imutáveis.
Desde a noite ao sol.
Cada semana
era distinta e igual a seguinte.
A criança desdenha o calendário
e seu patrão relógio era o cansaço.
Idade sem equinócios, só o tempo
de ser feliz então ignora-lo.
879
Miguel Ángel Asturias
Credo
Creio na Liberdade, Mãe de América
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!
Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens
que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.
criadora de mares doces na terra,
e em Bolívar, seu filho, Senhor Nosso
que nasceu em Venezuela, padeceu
sob o poder espanhol, foi combatido,
sentiu-se morto sobre o Chimborazo,
ressuscitou na voz de Colômbia,
tocou ao Eterno com suas mãos
e está parado junto a Deus!
Não nos julgues, Bolívar, antes do dia último,
porque cremos na comunhão dos homens
que comungam com o povo, só o povo
faz livres aos homens, proclamamos
guerra a morte e sem perdão aos tiranos
cremos na ressurreição dos heróis
e na vida perdurável dos que como Tu,
Libertador, não morrem, fecham os olhos e se
ficam velando.
1 531
Mario Benedetti
Ontem
Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
3 026
Mario Benedetti
Ontem
Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
3 026
Mario Benedetti
Ontem
Ontem passou o passado lentamente
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
com sua vacilação definitiva
sabendo-te infeliz à deriva
com tuas dúvidas estampadas na testa.
Ontem passou o passado pela ponte
e levou tua liberdade prisioneira
trocando seu silêncio em carne viva
por teus leves alarmes de inocente.
Ontem passou o passado com sua história
e sua desfiada incerteza
com sua pegada de espanto e de reprovação.
Foi fazendo da dor um costume
semeando de fracassos tua memória
e deixando-te a sós com a noite.
3 026
Octavio Paz
Entre ir e ficar
Entre ir e ficar duvida o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é já baía:
em seu quieto vaivém se mexe o mundo.
Tudo é visível e tudo é efusivo,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o copo, o lápis
repousa à sombra de seus nomes.
Bater do tempo que em minha têmpora repete
a mesma teimosa sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
não me olha, me olho em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem me mover,
eu fico e me vou: sou uma pausa
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é já baía:
em seu quieto vaivém se mexe o mundo.
Tudo é visível e tudo é efusivo,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o copo, o lápis
repousa à sombra de seus nomes.
Bater do tempo que em minha têmpora repete
a mesma teimosa sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
não me olha, me olho em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem me mover,
eu fico e me vou: sou uma pausa
1 619
Octavio Paz
Entre ir e ficar
Entre ir e ficar duvida o dia,
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é já baía:
em seu quieto vaivém se mexe o mundo.
Tudo é visível e tudo é efusivo,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o copo, o lápis
repousa à sombra de seus nomes.
Bater do tempo que em minha têmpora repete
a mesma teimosa sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
não me olha, me olho em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem me mover,
eu fico e me vou: sou uma pausa
enamorado de sua transparência.
A tarde circular é já baía:
em seu quieto vaivém se mexe o mundo.
Tudo é visível e tudo é efusivo,
tudo está perto e tudo é intocável.
Os papéis, o livro, o copo, o lápis
repousa à sombra de seus nomes.
Bater do tempo que em minha têmpora repete
a mesma teimosa sílaba de sangue.
A luz faz do muro indiferente
um espectral teatro de reflexos.
No centro de um olho me descubro;
não me olha, me olho em seu olhar.
Dissipa-se o instante. Sem me mover,
eu fico e me vou: sou uma pausa
1 619
Carlos Enrique Ungo
E que venha a noite
Presenteia-me o riso de teus olhos
a tênue luz de teu sorriso
o milagre de teu nome
em minha boca.
Presenteia-me a umidade de teus beijos
o tíbio manto de teu abraço
o mar embravecido de teu corpo
junto ao meu.
Presenteia-me o amanhecer de tuas paixões
o espelho frágil de tuas chuvas
tua inocência feita mulher
com minhas carícias.
Presenteia-me teu amor
amor
e que venha a noite...
a tênue luz de teu sorriso
o milagre de teu nome
em minha boca.
Presenteia-me a umidade de teus beijos
o tíbio manto de teu abraço
o mar embravecido de teu corpo
junto ao meu.
Presenteia-me o amanhecer de tuas paixões
o espelho frágil de tuas chuvas
tua inocência feita mulher
com minhas carícias.
Presenteia-me teu amor
amor
e que venha a noite...
893
Rafael Días Icaza
Insônia
Sou naufrago, mãe, e te chamo na noite,
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.
Necessito teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me de a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe
Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba
Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
"Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angustia."
Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.
Necessito teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me de a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe
Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba
Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
"Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angustia."
Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.
402
Rafael Días Icaza
Insônia
Sou naufrago, mãe, e te chamo na noite,
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.
Necessito teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me de a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe
Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba
Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
"Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angustia."
Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.
desolado, no firme marchar para a morte,
e de golpe me assalta a ternura infinita
dos primeiros anos. E necessito saber que te achas
perto, que a tua lâmpada vela, pontual, perto de mim.
Necessito teu copo para a má sombra dos pesadelos,
teu apoio de nogueira para o descanso dos sonhos
absurdos teu desencantado sorriso e tuas mãos sobre meus cabelos.
Desolado, desde a má noite, quebro meus punhos em portas infinitas
e chamo, e ninguém me abre.
Mãe: me de a chave de tuas despensas,
sou um homem perdido baixo a chuva cinza:
Ascende o fósforo mais tênue para que eu caminhe
Atravessam a sombra, desde os pórticos da alvorada,
a noiva e seu lenço de açafrão e pérola,
a querida com seus beijos impuros,
todas as esperanças e todos os fracassos,
todos os malabares e os equilíbrios na corda bamba
Volta o homem, desde sua maturidade do seu poderio,
até a comarca em que chorava só baixo a noite imensa,
e voltam a soltar-se os mastins e a derramar-se o vinho dos odres,
e a assinalar com os índices à criança desvalida:
"Vejam aqui ao que come pães do lamento e a angustia."
Mãe: um escuro terror, uma certa sensação de culpa
há neste homem cego que empunha as aldravas
das casas sem donos, em seus erros na noite.
402
Marilina Ross
E que nunca mais
A desenterrar os vivos e aos mortos enterrar
Sobre areias movediças não se pode caminhar
A desentranhar os leitos dos rios e do mar
para que flutuem os restos da verdade
e que nunca mais
A tirar as teias de aranha que teceu nossa memória
Se negamos o passado repetiremos a história
A levantar, se é preciso, o obelisco e sua praça
Que saia à luz do sol o que ocorreu nessas praias
e que nunca mais
A começar a renascer do pior dos infernos
Busquemos braços amigos no sul do hemisfério
e que nunca mais
Ou logramos entre todos que a pátria grande remonte
ou seremos uma estrela a mais na bandeira do norte.
Sobre areias movediças não se pode caminhar
A desentranhar os leitos dos rios e do mar
para que flutuem os restos da verdade
e que nunca mais
A tirar as teias de aranha que teceu nossa memória
Se negamos o passado repetiremos a história
A levantar, se é preciso, o obelisco e sua praça
Que saia à luz do sol o que ocorreu nessas praias
e que nunca mais
A começar a renascer do pior dos infernos
Busquemos braços amigos no sul do hemisfério
e que nunca mais
Ou logramos entre todos que a pátria grande remonte
ou seremos uma estrela a mais na bandeira do norte.
916
Jorge Luis Borges
Dulcia Linquimus Arva
Minha canção de crioulo final,
pela noite acrescida de relâmpagos
no expresso do Sul
que quebra o fundo e perde os campos.
Uma amizade fizeram meus avós
Com esta distância
E conquistaram a intimidade do Pampa
e ligaram a sua destreza
a terra, o fogo, o ar, a água.
Foram soldados e fazendeiros
e apascentaram o coração com manhãs
e o horizonte igual que um bordão
tocou na profundeza da sua austera jornada.
Sua jornada foi clara como um rio
E era fresca sua tarde como o poço de água do quintal
e em seu viver eram as quatro estações
Como os quatro versos de uma estrofe esperada.
Decifraram intratáveis poeiras
Em carretas ou em cavaladas
e os alegrou o resplendor
Com que aviva o sereno a luz da armadura.
Um batalhou contra os godos,
Outro no Paraguai cansou sua espada;
Todos souberam do abraço do mundo
e foi mulher submissa a seu querer a campanha.
Os outros corações foram serenos
Como janela que da ao campo;
Resplandecentes e altos eram seus dias
Feitos de céu e plano.
Sabedoria de terra adentro a sua,
Da laçada que é comida
E da estrela que é vereda
E do violão ascendido.
Sangue negro de estrofe brotou baixo suas mãos;
Sentiram-se confessos no canto de um pássaro.
Sou um caipira e já não sei dessas coisas,
Sou homem da cidade, do bairro, da rua;
Os bondes distantes me ajudam a tristeza
Com essa queixa longa que soltam na tarde.
Retirado do livro Luna de enfrente, 1925
pela noite acrescida de relâmpagos
no expresso do Sul
que quebra o fundo e perde os campos.
Uma amizade fizeram meus avós
Com esta distância
E conquistaram a intimidade do Pampa
e ligaram a sua destreza
a terra, o fogo, o ar, a água.
Foram soldados e fazendeiros
e apascentaram o coração com manhãs
e o horizonte igual que um bordão
tocou na profundeza da sua austera jornada.
Sua jornada foi clara como um rio
E era fresca sua tarde como o poço de água do quintal
e em seu viver eram as quatro estações
Como os quatro versos de uma estrofe esperada.
Decifraram intratáveis poeiras
Em carretas ou em cavaladas
e os alegrou o resplendor
Com que aviva o sereno a luz da armadura.
Um batalhou contra os godos,
Outro no Paraguai cansou sua espada;
Todos souberam do abraço do mundo
e foi mulher submissa a seu querer a campanha.
Os outros corações foram serenos
Como janela que da ao campo;
Resplandecentes e altos eram seus dias
Feitos de céu e plano.
Sabedoria de terra adentro a sua,
Da laçada que é comida
E da estrela que é vereda
E do violão ascendido.
Sangue negro de estrofe brotou baixo suas mãos;
Sentiram-se confessos no canto de um pássaro.
Sou um caipira e já não sei dessas coisas,
Sou homem da cidade, do bairro, da rua;
Os bondes distantes me ajudam a tristeza
Com essa queixa longa que soltam na tarde.
Retirado do livro Luna de enfrente, 1925
1 870
Jorge Luis Borges
Sonha Alonso Quijano
O homem se desperta de um incerto
Sonho de espadas e de campo plano
E se toca a barba com a mão
e se pergunta se está ferido ou morto.
Não o perseguirão os feiticeiros
que hão jurado seu mal baixo a lua?
Nada. Apenas o frio. Apenas uma
Doença dos seus anos postreiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes
e don Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
está passando que aconteceu muito antes.
Quijano dorme sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.
Retirado de La rosa profunda (1975)
Sonho de espadas e de campo plano
E se toca a barba com a mão
e se pergunta se está ferido ou morto.
Não o perseguirão os feiticeiros
que hão jurado seu mal baixo a lua?
Nada. Apenas o frio. Apenas uma
Doença dos seus anos postreiros.
O fidalgo foi um sonho de Cervantes
e don Quixote um sonho do fidalgo.
O duplo sonho os confunde e algo
está passando que aconteceu muito antes.
Quijano dorme sonha. Uma batalha:
Os mares de Lepanto e a metralha.
Retirado de La rosa profunda (1975)
1 931
Roberto Juarroz
Poema dedicado a Antonio Porchia
Havemos amado juntos tantas coisas
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
1 162
Roberto Juarroz
Poema dedicado a Antonio Porchia
Havemos amado juntos tantas coisas
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
que é difícil amá-las separados.
Parece que se houveram afastado de repente
ou que o amor fora uma formiga
escalando os declives do céu.
Havemos vivido juntos tanto abismo
que sem você tudo parece superfície,
orbita de simulados que resvalam,
tensão sem extensões,
vigilância de corpos sem presença.
Havemos perdido juntos tanto nada
que o hábito persiste e se da volta
e agora tudo é ganância de nada.
O Tempo se converte em anti-tempo
porque já não o pensas.
Havemos calado e falado juntos
que até calar e falar são duas traições,
duas substâncias sem justificação,
dois substitutos.
O havemos buscado todo.
O havemos falado todo.
O havemos deixado todo.
Unicamente não nos deram tempo
para encontrar o buraco de tua morte
ainda que fora também para deixá-lo.
1 162
Manuel Machado
Morrer, dormir
- Filho, para descansar
é necessário dormir,
não pensar,
não sentir,
não sonhar...
- Madre, para descansar,
morrer.
é necessário dormir,
não pensar,
não sentir,
não sonhar...
- Madre, para descansar,
morrer.
1 014
Marilina Ross
Quase sem querer
Quase sem querer nascí
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.
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Marilina Ross
Quase sem querer
Quase sem querer nascí
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.
Quase sem querer crescí
Quase sem querer
te conheci.
Gostei de tua risada fresca,
criança crescida
e tua maneira de olhar.
Foi dificil respirar,
comecei a tremer
e quase sem querer
te bejei.
Quase sem querer
me rio
Quase sem querer
sinto a tua falta.
Quase sem querer
me apaixonei
Deste urso carinhoso,
criança crescida
que sem querer também
me amou.
E me enche de carícias
sem a obrigação
de prometer-me
eterno amor.
Quase sem querer
se esquece.
Quase sem querer
se perde.
Quase sem querer
se vai o amor.
Por isso te estou querendo
quase sem querer.
Jurar-te eterno amor, não sei.
Talvez
algum dia
nos surpreenda a velhice
muito juntos,
quase sem querer.
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