Poemas neste tema
Vida e Existência
Armindo Trevisan
O Círculo
Que ela
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
estivesse lá e sózinhos
Palpássemos o coração e desaprendêssemos
Como as ancas teriam a natural vacilação
E caminhasse para o ar desabotoando
O perito em silêncio e oferecesse
O corpo à natureza da terra e lhe sentisse
Os lábios mortos e desenrolasse a escuridão
De suas pernas livres e depois fêmea
Reclinasse a cabeça sobre a minha sombra
Ah nem os pássaros devorarão
A inconsciência de frutos como soube
Perdê-la e juntos sairmos para
A carnalidade do dia.
955
Regina Souza Vieira
A Abóbora Menina
Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
1 127
Regina Souza Vieira
A Abóbora Menina
Tão gentil
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
de distante, tão macia aos olhos
vacuda, gordinha,
de segredos bem escondidos
estende-se à distância
procurando ser terra
quem sabe possa
acontecer o milagre:
folhinhas verdes
flor amarela
ventre redondo
depois é só esperar
nela desaguam todos os rapazes.
1 127
Regina Souza Vieira
Mensagem Impossível
Há palavras
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
que não se pronunciam
não se sibilam, sequer se murmuram
Com elas só pensamos, só dizemos
De nós para nós os nossos segredos
invioláveis a quaisquer ouvidos
que também em estando possuídos
de outros similares grandes enredos
não nos seriam de compreensão.
Há palavras imensas e caladas
No silêncio de nosso fundo interior
São palavras quase de grande horror
Nem seriam ouvidas, se ditas
Só interessam a nós mesmos.
Difícil é falar do homem, do ser
Que consigo mesmo, sozinho pensa
Num vocabulário que lhe é pessoal
Tendo de lhe ser todo especial
E só em seu coração ameniza
Tantas palavras estranhas e frias
que falando idioma estrangeiro.
Em tom solene de tão forasteiro
Desconhecem todas as nossas dores.
Há então no mundo um dicionário
De palavras, aos outros estranhas
Que em seus diferentes momentos
São ou de alegrias ou de tormentos
Mas são vocábulos particulares
Seres vivos em diferentes lares
Palavras chamadas a nos decifrar.
Mas nosso enigma é profundo
Difícil são idiomas se entenderem
Capazes de a nós nos decifrarem
Todos nós somos intraduzíveis.
726
Mariana Ianelli
Testamento
"Chora,
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
935
Mariana Ianelli
Testamento
"Chora,
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
irmão pequeno, chora,
Cumpre a tua dor, exerce o rito da agonia.
Porque cumprir a dor é também
cumprir o seu próprio destino."
(Mário de Andrade - Rito do Irmão Pequeno)
A vida, para desejares
viver.
Um rosto emprestado de Deus
suscita da calada
para ser um rosto de homem,
teu voto de beleza.
O tempo de vir
é fortuna que não escolheste,
tua mãe é o primeiro regaço que não escolheste,
primeiro amor para amar, exaltado e fiel.
Mais tarde, o teu corpo desiludido
ou transformado em fonte,
um amigo arrastado no vento,
adágio seduzido,
mais tarde e de novo o silêncio,
que já não é o teu sereno,
mas uma tristeza inimiga
mais leal para ti que o teu corpo,
que o teu nome sonoro
e as concessões pela mãe.
Procuras um amor natural
como quando nada sabias,
mas a perda de Deus te ensinou,
como aos outros, a desconfiar.
Uma doçura é tão próxima,
mas e o teu pavor de amar ...
Na concha acanhada, durante,
escutas o sangue no passeio pelos dedos,
escutas no peito uma autonomia ignota.
Daí compreendes o sigiloso
de perseverar e doer ...
Tu és a vida que não veio,
e que mais sinceramente, no entanto,
está perto da tua nitidez.
És teu próprio filho emudecido, desatento.
Mesmo que sintas frio, como sentes.
935
Emídia Felipe
A Meu Pai
Cansado
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
918
Emídia Felipe
A Meu Pai
Cansado
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
de lutar, o guerreiro subiu ao monte mais alto e disse: " – Mestre,
não quero me entregar, mas sou fraco. Quero acreditar, mas minha
fé é pouca.
Quero vencer, mas estou cansado. Não quero ser covarde, mas tenho
medo."
Depois, sentou-se em uma pedra, baixou a cabeça e viu como sua
espada
reluzia apesar dos arranhões. Lembrou-se de cada combate que
havia trazido
cada arranhão. Levantou-se, tomou a espada em suas mãos,
empunhou-a com
firmeza e, vendo o sol refletir na sua lâmina, olhou ao redor
... Viu muito
até a linha do horizonte, viu muitas coisas. Seu pensamento,
porém, viajou
muito além de onde seu olhar podia alcançar. Refez então
a sua fala: "-
Mestre, é preciso pensar ser forte para continuar? É preciso
pensar ser
grande a fé para acreditar? É preciso estar intacto para
vencer? É preciso
ter coragem para enfrentar a escuridão?"
Certo de que havia encontrado a resposta, o guerreiro desceu o monte
com a
certeza de que bastava a ele confiar em si e em seu Senhor para seguir
em
frente e cumprir sua jornada.
918
Luiz Felipe Coelho
No princípio, era o verbo
Ando,
mesmo sem saber as respostas,
nem ao menos as perguntas,
tropeçando,
quando triste,
em vermelhos céus do fim da tarde,
esquecendo,
quando a chuva vem me acordar,
da alegria de um novo dia...
Meus sentimentos reclamam comigo
Como é desastrado! - furiosos,
varro os cacos e saio,
assobiando para disfarçar.
mesmo sem saber as respostas,
nem ao menos as perguntas,
tropeçando,
quando triste,
em vermelhos céus do fim da tarde,
esquecendo,
quando a chuva vem me acordar,
da alegria de um novo dia...
Meus sentimentos reclamam comigo
Como é desastrado! - furiosos,
varro os cacos e saio,
assobiando para disfarçar.
925
Sylvio Persivo
Fernando Pessoas
Sendo tantos numa mesma pessoa,
Muitas vezes, não sabia quem era
Ele mesmo. E seu ser, que procurava
Reter o mundo todo em si, era todo
Mundo por ser capaz de sentir
A beleza de todas as coisas. Nem
Mesmo se preocupava em buscar
Razões para os fatos serem como são,
Pois sabia, se alguma coisa sabia,
Que explicar jamais resolve:
É apenas outra forma de ilusão.
E de ilusões se fez tantos, tantos
Que foi muitos, em muitos cantos,
Sendo um só. E vive, apesar de ser pó!
Muitas vezes, não sabia quem era
Ele mesmo. E seu ser, que procurava
Reter o mundo todo em si, era todo
Mundo por ser capaz de sentir
A beleza de todas as coisas. Nem
Mesmo se preocupava em buscar
Razões para os fatos serem como são,
Pois sabia, se alguma coisa sabia,
Que explicar jamais resolve:
É apenas outra forma de ilusão.
E de ilusões se fez tantos, tantos
Que foi muitos, em muitos cantos,
Sendo um só. E vive, apesar de ser pó!
880
Sylvio Persivo
Fernando Pessoas
Sendo tantos numa mesma pessoa,
Muitas vezes, não sabia quem era
Ele mesmo. E seu ser, que procurava
Reter o mundo todo em si, era todo
Mundo por ser capaz de sentir
A beleza de todas as coisas. Nem
Mesmo se preocupava em buscar
Razões para os fatos serem como são,
Pois sabia, se alguma coisa sabia,
Que explicar jamais resolve:
É apenas outra forma de ilusão.
E de ilusões se fez tantos, tantos
Que foi muitos, em muitos cantos,
Sendo um só. E vive, apesar de ser pó!
Muitas vezes, não sabia quem era
Ele mesmo. E seu ser, que procurava
Reter o mundo todo em si, era todo
Mundo por ser capaz de sentir
A beleza de todas as coisas. Nem
Mesmo se preocupava em buscar
Razões para os fatos serem como são,
Pois sabia, se alguma coisa sabia,
Que explicar jamais resolve:
É apenas outra forma de ilusão.
E de ilusões se fez tantos, tantos
Que foi muitos, em muitos cantos,
Sendo um só. E vive, apesar de ser pó!
880
Sylvio Persivo
Fernando Pessoas
Sendo tantos numa mesma pessoa,
Muitas vezes, não sabia quem era
Ele mesmo. E seu ser, que procurava
Reter o mundo todo em si, era todo
Mundo por ser capaz de sentir
A beleza de todas as coisas. Nem
Mesmo se preocupava em buscar
Razões para os fatos serem como são,
Pois sabia, se alguma coisa sabia,
Que explicar jamais resolve:
É apenas outra forma de ilusão.
E de ilusões se fez tantos, tantos
Que foi muitos, em muitos cantos,
Sendo um só. E vive, apesar de ser pó!
Muitas vezes, não sabia quem era
Ele mesmo. E seu ser, que procurava
Reter o mundo todo em si, era todo
Mundo por ser capaz de sentir
A beleza de todas as coisas. Nem
Mesmo se preocupava em buscar
Razões para os fatos serem como são,
Pois sabia, se alguma coisa sabia,
Que explicar jamais resolve:
É apenas outra forma de ilusão.
E de ilusões se fez tantos, tantos
Que foi muitos, em muitos cantos,
Sendo um só. E vive, apesar de ser pó!
880
Mariana Ianelli
Busca
Não se
sabe de Clara.
Se me procuram para revelações,
Esvazio o meu rosto e quedo,
Ocultando a sua ida.
Eu aceito, se me acusam.
Sua figura longa vertendo, tardando,
Com a retina em veludo
- Clara, cedendo, num gesto de flor.
Se me encerram, eu não rogo ou protesto.
Sua forma contrária andando na terra,
Invertendo as linhas que seguiam retas,
Sua passagem lenta pelas trilhadas
Se firmou algures...
Mas se aumentam as pesquisas,
Esquadrinham sinais,
Eu vou tomar seus olhos convincentes
E com eles direi :
-"Não há mais Clara".
sabe de Clara.
Se me procuram para revelações,
Esvazio o meu rosto e quedo,
Ocultando a sua ida.
Eu aceito, se me acusam.
Sua figura longa vertendo, tardando,
Com a retina em veludo
- Clara, cedendo, num gesto de flor.
Se me encerram, eu não rogo ou protesto.
Sua forma contrária andando na terra,
Invertendo as linhas que seguiam retas,
Sua passagem lenta pelas trilhadas
Se firmou algures...
Mas se aumentam as pesquisas,
Esquadrinham sinais,
Eu vou tomar seus olhos convincentes
E com eles direi :
-"Não há mais Clara".
892
Jorge Viegas
Saudade
Pairam ascendentes seduções
Nas formas cor de purpura
Da mística brisa distante.
Suaves recordações
Invisíveis fontes puras
Acordam na memória viajante.
Saudade,
Aquele calor sensível
Que se esconde no forro íntimo do sentimento
Aquela onda suave
Que refresca os horizontes da verdade
Aquele arrepio simples
Que se estende pelos sentidos da memória
Aquela fita silenciosa
Que se projecta no interior do peito
Aquele ardor nostálgico
Que se instala na serenidade do horizonte
Aquele murmúrio terno
Que ilumina a canção do olhar
Aquela seiva melancólica
Que alimenta os rios intermináveis do corpo
Há muito que não vejo
Aquele olhar radiante
Sorvendo a sensualidade do ar.
Nas formas cor de purpura
Da mística brisa distante.
Suaves recordações
Invisíveis fontes puras
Acordam na memória viajante.
Saudade,
Aquele calor sensível
Que se esconde no forro íntimo do sentimento
Aquela onda suave
Que refresca os horizontes da verdade
Aquele arrepio simples
Que se estende pelos sentidos da memória
Aquela fita silenciosa
Que se projecta no interior do peito
Aquele ardor nostálgico
Que se instala na serenidade do horizonte
Aquele murmúrio terno
Que ilumina a canção do olhar
Aquela seiva melancólica
Que alimenta os rios intermináveis do corpo
Há muito que não vejo
Aquele olhar radiante
Sorvendo a sensualidade do ar.
1 314
Sylvio Persivo
Possibilidades
Há um espelho onde não me vejo...
Outros não me verão jamais e sempre
Há outros e outros que não refletem
Minha figura. O mesmo ocorre com os beijos
Dados e os que desejei, mas não fiz
O gesto, ou o modo correto, para
Encontrar outros lábios que queria,
Mas teriam me feito mais feliz?
Outros beijos, outros espelhos são
Possibilidades que se perderam
Ou talvez tenham sido só a ilusão
De que fosse possível outra forma
Porque se os fatos não aconteceram
É provável que obedeceram uma norma.
Outros não me verão jamais e sempre
Há outros e outros que não refletem
Minha figura. O mesmo ocorre com os beijos
Dados e os que desejei, mas não fiz
O gesto, ou o modo correto, para
Encontrar outros lábios que queria,
Mas teriam me feito mais feliz?
Outros beijos, outros espelhos são
Possibilidades que se perderam
Ou talvez tenham sido só a ilusão
De que fosse possível outra forma
Porque se os fatos não aconteceram
É provável que obedeceram uma norma.
871
Sylvio Persivo
Possibilidades
Há um espelho onde não me vejo...
Outros não me verão jamais e sempre
Há outros e outros que não refletem
Minha figura. O mesmo ocorre com os beijos
Dados e os que desejei, mas não fiz
O gesto, ou o modo correto, para
Encontrar outros lábios que queria,
Mas teriam me feito mais feliz?
Outros beijos, outros espelhos são
Possibilidades que se perderam
Ou talvez tenham sido só a ilusão
De que fosse possível outra forma
Porque se os fatos não aconteceram
É provável que obedeceram uma norma.
Outros não me verão jamais e sempre
Há outros e outros que não refletem
Minha figura. O mesmo ocorre com os beijos
Dados e os que desejei, mas não fiz
O gesto, ou o modo correto, para
Encontrar outros lábios que queria,
Mas teriam me feito mais feliz?
Outros beijos, outros espelhos são
Possibilidades que se perderam
Ou talvez tenham sido só a ilusão
De que fosse possível outra forma
Porque se os fatos não aconteceram
É provável que obedeceram uma norma.
871
Susana Pestana
Juntos
Pedacinhos de tempo
roubados
Aqui e a ali
ruídos num quarto
que nos salva…
Desejos que nos acalmam.
Quando estamos juntos!
Dois mundos
Um Tejo iluminado
Uma canção
Uma noite de raspão
Juntos
O Azul se esconde
entre portas que se abrem
Períodos nus
desejos submersos
passadeiras com vontades
Quando estamos juntos
Um medo empurrado
Uma madrugada acordada
Uma alma entre nos
Dois corpos alinhados
Juntos
Modelamos a saudade
cega-se a ausência
interrompe-se os vazios
reconcilia-se fragilidades
Por sombras de sílabas.
Quando estamos juntos
….penetramos nos gestos dos nossos corpos
roubados
Aqui e a ali
ruídos num quarto
que nos salva…
Desejos que nos acalmam.
Quando estamos juntos!
Dois mundos
Um Tejo iluminado
Uma canção
Uma noite de raspão
Juntos
O Azul se esconde
entre portas que se abrem
Períodos nus
desejos submersos
passadeiras com vontades
Quando estamos juntos
Um medo empurrado
Uma madrugada acordada
Uma alma entre nos
Dois corpos alinhados
Juntos
Modelamos a saudade
cega-se a ausência
interrompe-se os vazios
reconcilia-se fragilidades
Por sombras de sílabas.
Quando estamos juntos
….penetramos nos gestos dos nossos corpos
958
Susana Pestana
Tempo Descuidado
Sempre que acho
um tempo distraído
Me transborda um sentimento
Fujo? ou esqueço?
Será assim a prenunciada
Mentira?
Na clareza da manhã
Na sombra espessa da noite
O encontro claro
Agarrado
A desfalecida verdade
Será que o Mar
me ilude?
Na tonta ilusão
de sentir braços esfolados
Contraídos no momento
estendidos no desesperado futuro
Encontro passos!
entre silêncios
Uma voz no meio
De mim, me acorda
Nas horas severas
No calmo tempo
presente!
Agarrado a uma entretida saudade
um tempo distraído
Me transborda um sentimento
Fujo? ou esqueço?
Será assim a prenunciada
Mentira?
Na clareza da manhã
Na sombra espessa da noite
O encontro claro
Agarrado
A desfalecida verdade
Será que o Mar
me ilude?
Na tonta ilusão
de sentir braços esfolados
Contraídos no momento
estendidos no desesperado futuro
Encontro passos!
entre silêncios
Uma voz no meio
De mim, me acorda
Nas horas severas
No calmo tempo
presente!
Agarrado a uma entretida saudade
969
Mariana Ianelli
Diário
No teu
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.
1 007
Mariana Ianelli
Diário
No teu
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.
1 007
Mariana Ianelli
Diário
No teu
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.
rosto me contaste
Todas as noites de suicídio interminadas
As juras de amar tua mãe (todas quebradas)
A reconciliação de ti contigo
Na recordação do vaso dando
Milhões de rosas ressequidas
No tempo ultrapassado
Em que resolveste retornar a tua casa.
No teu rosto me revelaste
Todos os montes que galgaras
Num desfile infantil de marcar passo
Revelaste todo fim de tardinha
Em que o gás da rua não te quis iluminar,
Vejo nas tuas olheiras
Como levaste tempo em abraçar
Teu próprio busto,
Revolvidos, contundentes, os teus braços,
Na amizade de ti contigo...
No teu rosto vi os sinais da vergonha
Por teres desejado um filho
Que engordasse tuas ancas,
Vi os indícios desaforados da velhice
E dos pecados menores,
Reconheci nos teus beiços fechados
O amor sofrido que tiveste a ti mesmo
E aos teus ímpetos de inspiração
Para amar a alguém mais.
No teu rosto a carga que há
Por não teres mostrado
Que quiseste um abraço
Da tua maior amiga,
A carga que há por te arrependeres
Do pacto irresponsável
De te casares com um homem,
Como numa folia desastrada.
No teu rosto me contaste o teu rosto,
Gaze de pele vestindo a tua caveira
E esse é hoje nosso melhor segredo,
Eu juro.
1 007
Silvaney Paes
Adão
Ah...Deus!
Retira de mim vossa vergonha,
De que me serve?
Já não podeis
Retira-me de Vós!
Provei do proibido
E já não estou perdido,
Desnudei algum segredo
E vi, ali, além...
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Mais alguém me viu sem pele.
Mais que vós vistes
E tocou-me com os olhos
De carne viva incandescente,
Que morderam e despiram,
Sem mãos, cem mãos,
Ou gengivas com dentes
Que também morderam,
Sem dor, cem gozos...
Para me travesti de Deus!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Poupa-me de vosso legado,
De vosso zelo cioso,
De cicerônicas prestanças,
Pois tudo que carrego é pressa,
De amar...Ah!... Mar...
Sem vergonhas, sem-vergonha,
Mas ponde-vos a meu lado,
Sem esquecimento ou desprezo,
Pois já não sou o vosso anjo
E trago o desiderato de ser mais...
Um ser, único, homem,
E vós me servireis...
Dagora,
Tenho que servir Eva,
Ela já me serve agora.
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Olhei além do turvo que destes,
Onde o silêncio cantava
Insólita balada,
Que não era solitária,
Orquestrada para duas almas
Dagora abraçadas, desnudadas,
Misturando carne nalma...
E me senti água desgarrada,
Que lá no alto reconhecia sua amada
E protestava em tamanha escala,
Que o céu riscava,
Esbravejava, gritava, trovejava,
E como lágrima voltava
Para o seio de sua amada,
Seu amor, Ah!...Mar...Amo!
Como é bom descobrir
Amar...!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Chamastes de serpente
Ao meu desejo...
Mas o desejo brada alto
E forja-se no silêncio
Do peito,
Por detrás dos olhos,
Para que não se veja germinar
E não se possa exterminar
Antes de se estar imperecedouro,
Sendo a insídia de todo amor
Que sempre nos possui...
Cego, esconso, intricado.
Em meio ao infinito,
Cheio de onipotência, onipresente.
O tudo, o nada, o vago, o que faltava...
Simplesmente Amor... Mar...
Provedor de nós...
Pai de minha transgressão,
De toda a rebeldia,
De estar à vossa revelia,
Fruto desse Amor... Eva...
Há...Deus,
Além de Vós...
Retira de mim vossa vergonha,
De que me serve?
Já não podeis
Retira-me de Vós!
Provei do proibido
E já não estou perdido,
Desnudei algum segredo
E vi, ali, além...
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Mais alguém me viu sem pele.
Mais que vós vistes
E tocou-me com os olhos
De carne viva incandescente,
Que morderam e despiram,
Sem mãos, cem mãos,
Ou gengivas com dentes
Que também morderam,
Sem dor, cem gozos...
Para me travesti de Deus!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Poupa-me de vosso legado,
De vosso zelo cioso,
De cicerônicas prestanças,
Pois tudo que carrego é pressa,
De amar...Ah!... Mar...
Sem vergonhas, sem-vergonha,
Mas ponde-vos a meu lado,
Sem esquecimento ou desprezo,
Pois já não sou o vosso anjo
E trago o desiderato de ser mais...
Um ser, único, homem,
E vós me servireis...
Dagora,
Tenho que servir Eva,
Ela já me serve agora.
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Olhei além do turvo que destes,
Onde o silêncio cantava
Insólita balada,
Que não era solitária,
Orquestrada para duas almas
Dagora abraçadas, desnudadas,
Misturando carne nalma...
E me senti água desgarrada,
Que lá no alto reconhecia sua amada
E protestava em tamanha escala,
Que o céu riscava,
Esbravejava, gritava, trovejava,
E como lágrima voltava
Para o seio de sua amada,
Seu amor, Ah!...Mar...Amo!
Como é bom descobrir
Amar...!
Há...Deus,
Além de Vós...
Ah...Deus!
Chamastes de serpente
Ao meu desejo...
Mas o desejo brada alto
E forja-se no silêncio
Do peito,
Por detrás dos olhos,
Para que não se veja germinar
E não se possa exterminar
Antes de se estar imperecedouro,
Sendo a insídia de todo amor
Que sempre nos possui...
Cego, esconso, intricado.
Em meio ao infinito,
Cheio de onipotência, onipresente.
O tudo, o nada, o vago, o que faltava...
Simplesmente Amor... Mar...
Provedor de nós...
Pai de minha transgressão,
De toda a rebeldia,
De estar à vossa revelia,
Fruto desse Amor... Eva...
Há...Deus,
Além de Vós...
802
Agostina Akemi Sasaoka
Gênese
O
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.
sol caiu
umbigo adentro.
Sob a teia partida,
a mosca pendente.
Do outro lado do espelho
corpos,
suor,
lágrimas...
Ante a bactéria faminta,
um trilho de sêmen seco.
Havia um sono
que boiava entre a poeira,
entre as estrelas,
entre pernas de gesso.
Na garganta da noite:
cama desfeita,
perfeita,
silêncio fetal.
891
Mariana Ianelli
Nostálgico
Tornas
às festas passadas
Com o jeito de quem velou
E pretendeu à risca uma prece difícil.
O perigo te apaixona tanto
Que num ímpeto frio por mudanças
Tu te fazes rebelde querendo outras vidas.
E para quê...
Logo voltas a tuas saudades antigas,
A teu largo acervo de ossos.
Porque és o teu regresso,
Nas tuas buscas iludidas
E no teu desamor.
às festas passadas
Com o jeito de quem velou
E pretendeu à risca uma prece difícil.
O perigo te apaixona tanto
Que num ímpeto frio por mudanças
Tu te fazes rebelde querendo outras vidas.
E para quê...
Logo voltas a tuas saudades antigas,
A teu largo acervo de ossos.
Porque és o teu regresso,
Nas tuas buscas iludidas
E no teu desamor.
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