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Poemas neste tema

Vida e Existência

Noel Nascimento

Noel Nascimento

Astrovate

Fazedor de artes,
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.

Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.

Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.

Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.

Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.

Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.

Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.

Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.

Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.

No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.

Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.

Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.

Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.

Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.

Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.

Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.

887
Oldegar Vieira

Oldegar Vieira

Gravuras no Vento

Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.

Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.

Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.

Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.

Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.

Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.

Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.

À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.

Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.

Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.

Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.

Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.

Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.

Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.

Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.

Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.

Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.

Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.

Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...

Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.

Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...

Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?

Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.

Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.

Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.

Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...

Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!

Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.

Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.

Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?

Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.

Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.

Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?

Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.

Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.

Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.

Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...

Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.

Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.

Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?

Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.

Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?

Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.

Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.

Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.

Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?

Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.

Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.

Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.

É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?

Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.

Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.

Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...

Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.

Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.

Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.

Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.

Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.

Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.

E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.

Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.

Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.

Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.

Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?

Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.

Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.

Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.

Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.

Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.

Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.

Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.

O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.

Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.

Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.

Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.

Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.

Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.

Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.

Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.

Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.

Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.

Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.

Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.

Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.

Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.

Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.

Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?

Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.

Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?

Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 232
Oldegar Vieira

Oldegar Vieira

Gravuras no Vento

Gravura no vento.
Pois é desacontecido
o acontecimento.

Em êxtase, vê-las...
Uma a uma, todo o céu
porejando estrelas.

Pendentes de um fio,
gotas de chuva — ou de sol —
sob o sol do estio.

Dentro do aranhol,
de repente, frente a frente,
uma aranha e o sol.

Animal nasceu.
Desanimalmente, agora,
vive... num museu.

Tarde longa e quente.
Tange longe uma araponga
seu grito fremente.

Compensar sua ausência
— evidente, este evidência! —
só sua alegria.

À pista vermelha
de uma flor, vem uma rima
e aflorissa: abelha.

Incrível talento,
o desse escultor das nuvens
— genial! —, o vento.

Ploc! Uma rã pula
no silêncio da lagoa,
e o silêncio ondula.

Não metal de sinos.
Vil-metal agora é a rima
que canta o Natal.

Nos cinzeiros jazem
— antecipantes — as cinzas
mortais dos fumantes.

Seu corpo enriquece
a terra. E a saudade
é a flor que floresce.

Ela — uma andorinha —
vendo as outras que não estavam
— nem uma — sozinha.

Claro desafio:
sete cores luminosas
ante um céu sombrio.

Fantasmagoria:
uma borboleta preta
em noite vazia.

Interrogativo
à beira de um charco, um velho
coqueiro — pendido.

Lenta, lentamente,
um caleidoscópio gira.
Gira-sol poente.

Oca, ressequida,
na carcassa da cigarra,
em silêncio, a vida...

Cabelos ao vento,
soltos, como vão revoltos
— ah — seus pensamentos.

Doze, compassadas,
tangendo o silêncio e o tempo,
doze badaladas...

Fina e clara, a chuva,
qual a janela que tem
mais bela cortina?

Nuvens e mais nuvens
a passar, bem que me deite.
Foi-se o ... meu luar.

Uma flor no mato
solitária, rubra, sangue
no verde compacto.

Não tem sul nem norte,
nem oeste ou leste — é céu.
Céu somente azul.

Voltevolteiando
no cristal do tanque, as carpas
silenciosonhando...

Sol da madrugada.
Vai surgindo: dentro de uma
teia iluminada!

Uma borboleta.
Nada mais, nem leve aragem.
E a rosa é desfeita.

Flor em que não vai
a libélula pousar.
Na espuma do mar.

Por acaso a sua
caminhada é a mesma, ou ela
o acompanha, a lua?

Ramagens crestadas
reflorindo: borboletas
nas cinzas, pousadas.

Voz da cachoeira,
ao viço da mata vai
líquida poeira.

Reflita: no espelho,
aquele que o imita,
quem será? Você?

Lembradas jamais,
as flores do morto vão
mortas, muito mais.

Tem cativo, o canto,
mas o muda borboleta
é livre, no entanto.

Noite a dentro, um cão
late, insone, a quem nem late,
seu insone irmão.

Ah, esse berreiro
das cigarras no austero
parque do mosteiro...

Num céu claro e puro,
um corvo paira sereno
— feio, torvo, escuro.

Cai a neve, e penso
no quanto se deve ser
puro como a neve.

Que fazer com as mãos,
não mais — não — senão guardar
seu fugaz perfume?

Ouracorrentado.
Entre seios femininos,
recrucificado.

Espana a poeira
de luz das estrelas, ou
— no vento — é palmeira?

Mudos edifícios
permutando, permutando
surdos malefícios.

Fuçando em monturos,
anjos andrajosos de
presépios escuros.

Chuva de verão,
chuva de flores na chuva.
Reflorindo, o chão.

Os bois, pacientes.
Mas as rodas, por que vão
gemendo, gementes?

Brancos, a igreja
e o casario entre verdes,
escorrendo ao rio.

Na rua quieta,
a flauta de um vagabundo
— músicopoeta.

Nas mãos de uma negra
— noite-escrava —, uma urupemba
peneirando estrelas.

É flor esquecida,
esta que resta no mármore,
lembrando outra vida?

Um fruto maduro,
pendente, precisamente
na linha do muro.

Trapos do abandono
— do espantalho — vai levando
o vento do outono.

Sob o anil do céu
e ao sol — branco — um enxoval
num varal, ao vento...

Tê-las nas mãos quis,
pois jamais alguém falara
ao cego, de estrelas.

Junquilhos envergam.
Flores de neve pousando
nas hastes, de leve.

Na rua deserta
— desperdício — eis que ela passa
numa hora incerta.

Flor de velho amor,
expressiva? Só se for
— morta — a sempre-viva.

Serão. Ninguém fala.
Somente os trilos dos grilos
nos desvãos da sala.

Grávida ela passa,
e como vai cheia, cheia
de Vida e de Graça.

E o menino via:
afinal, esse "natal"...
não o merecia.

Não mais florescentes,
no lixo largadas, são
flores — defloradas.

Tatuagem móvel
no pavimento: a ramagem
ao luar e ao vento.

Que Deus o proteja
não pede. O que pede é pão
na porta da igreja.

Andorinhas: fusas
na pauta dos fios, ou...
ou semi-confusas?

Pétalas levava
— eram rosas — nas suas,
outras mãos, nervosas.

Sim, cantar mas sem
— como a cigarra — pensar
que a morte lhe vem.

Musicalizado
na folhagem, vai o vento,
músico em viagem.

Mudos nas estantes,
são pacíficos soldados?
Mudos mas prestantes.

Quase um rei deposto.
Não mais arde o sol da tarde.
No espelho, o seu rosto.

Auroralmagia!
O canto claro dos galos
clareando o dia.

Lâmina de luz
— a lagoa — estilhaçada
sob a chuvarada.

O mal da intriga
sofre o mundo mas, ao monge,
o silêncio abriga.

Somente a ilumina
— à imponente nave em sombras —
uma lamparina.

Brutos lenhadores
mas bastante foi que vissem
um ninho entre flores.

Túmida e sangrenta,
da escura folhagem surge
lenta, lenta, a lua.

Lavando e cantando,
o riacho e as lavadeiras,
cantando e lavando.

Quebrado o relógio,
fez-se eternidade o tempo
desmecanizado.

Por entre os telhados,
mamoeiras, bananeiras
— bem domesticados.

Numa folha escrevo
todo um poema: seu nome.
Na folha de um trevo.

Na concha rosada
de uma pétala, uma pérola
de orvalho, engastada.

Bagunça, arruaça,
nenhuma... a não ser dos pombos,
os donos da praça.

Sombra do seu corpo
diz que sou, mas foge e faz
sombra em minha vida.

Seixo — ao léu rolado,
rolarrolando... exilado
peso-de-papel.

Causa de desgosto,
a mensagem vai no rosto
como tatuagem.

Na ramada nua
pousado, um corvo, calado,
vê nascendo a lua.

Na clara do céu
flutua — lua de fogo —
a gema do sol.

Acaso... um acaso?
Ou proposital derrame
de tintas no ocaso?

Difuso e em surdina,
o rumor de uma cascata
dentro de uma neblina.

Pétalas caídas
ou borboletas dormidas
que o vento desperta?

Não lhe serve a prosa.
Só em linguagem poética
diga o nome "rosa".
1 232
Nilton Santos Filho

Nilton Santos Filho

Poeta Baiano Contemporâneo

I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...

Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.

II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...

Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.

III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.

Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.

Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.

IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.

Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.

Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.

V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.

Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.

VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.

Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.

Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.

Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...

583
Nilton Santos Filho

Nilton Santos Filho

Poeta Baiano Contemporâneo

I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...

Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.

II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...

Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.

III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.

Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.

Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.

IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.

Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.

Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.

V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.

Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.

VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.

Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.

Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.

Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...

583
Nilton Santos Filho

Nilton Santos Filho

Poeta Baiano Contemporâneo

I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...

Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.

II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...

Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.

III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.

Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.

Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.

IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.

Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.

Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.

V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.

Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.

VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.

Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.

Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.

Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...

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Nilton Santos Filho

Nilton Santos Filho

Poeta Baiano Contemporâneo

I
Enlouquecendo, observo o tempo passar
Num sucessivo desenho sem bússola a marcar...
Logo que percebo esta cadência de heróico astral,
Ocorre-me à idéia da captura do segundo capital
Um ímpeto gigante traduzido em furor
Que, embora intocável, mostra-me pavor. É o
Ultimato que recebo e percebo.
É a certeza de que o escore fossilizado é
Concentrado no seu próprio contexto impregnado
Entardece a minha consciência...
Navega a minha paciência...
Dissipam-se os meus conflitos...
Ofuscam-se os meus delitos...

Estou certo de que o instante
Se cornporta sendo gestação de juventude,
Tomado pela captura de um certo flagrante
Ou pela busca de máxima magnitude
Ultrapasso e solto meu laço.

II
Caminhado incansavelmente na direção,
Aposto na corrida pelo desempate...
Marco o labirinto, mas a minha afobação,
Idealizada numa fuga em arremate,
Não me proporciona histeria, somente alegria.
Hei de ser um fugitivo da instabilidade,
Apesar de ser socorrido pela fragilidade
Na hora em que me encontro distante
Do grito, do rito, da cura incessante!
Oro, às vezes choro, mas nunca demoro...

Vou exibindo uma forma com estrutura
Onde cada flanco se encaixa na conjuntura:
Uma honra, minha sombra, jamais cãibra.

III
Seguindo adiante,
Encontro, triste, a censura:
Gentileza ou sutileza do destino que me força à clausura,
Uma fadiga que tenta impedir-me avante.
Inconformado, porém não impune,
Necessito da denúncia que ora se reúne,
Ditando seu próprio neologismo,
Ofertando-me todo empenho do seu fisiologismo.

Esta castração é para mim mesmo apática...
Sequer necessita de dose homeopática. Ela é
Totalmente desvirtuada de propósito,
Apesar do seu domínio em mim não ter depósito.

Trilha de carência em decadência.
Rumo de vida, de opção assumida.
Inferno de pó, para quem está só.
Luta ferina de própria doutrina.
Hipérbole neurótica da lógica ou ótica.
Abismo sem luta para quem reluta.

IV
Jamais pensei que a força do improviso
Abandonasse a minha fome.
Mesmo que uma sede me venha como aviso,
Atravessarei, desatinadamente, um oceano
Inundado pelo nome, agitado pelo plano.
Serei seguido somente, sem ser suprimido.

Serei acerto e não fútil.
Experimentarei a ilusão útil.
Retratarei a razão por mim caricaturada
E, encontrarei a defensiva suturada,
Invertida, comprometida, machucada.

Ilha incendiando, impera-me a criatividade inesgotável
Limites são o meu calvário.
Habitualmente, são pontos de controle insuportável
Atirando-me de encontro ao meu desejo visionário.

V
Estarei assim, fazendo figa cirandar,
Sendo cópia de um choro,
Tomado por causa falada em coro:
Acrobacia de um filósofo do sonhar.
Repetirei a tentativa trêmula
E, agitarei esta pequena flâmula,
Inventando uma linguagem de tatuagem.

Espalhando a poesia como fermento,
Sentirei que o fenômeno é movimento
Paulatino que se exibe estratégico,
Afora seu comportamento léxico.
Lançarei ao vento a eutanásia evaporada,
Hipnotizada pela crença sem freio,
Aonde a inabilidade da escrita for encontrada
Num instante em que o devaneio
De um poeta seja a porta indiscreta,
Ou um arrobo gêmeo do seu próprio roubo.

VI
Meu caminho se lançará sem temer o adultério
Em ondas de acúmulo sem aborto:
Um bálsamo de etéreo acordo.

Canto, encanto, desato e afronto,
Assim conseguirei sobreviver
Num espaço onde a consciência
Toma conta da paciência,
Ordenando-lhe sua incansável fonte de saber.

Meu instante que sempre se renova
Está prestes a se tornar múltiplo :
Unitários mesmo só a vontade nova e o gesto último.

Mando celebrar a minha reza,
Acabando com a minha passividade
Num altar perfumado pela luz vermelha
Distorcida na verdade que se reveza,
Ocultando a imagem iniciando a minha nova viagem...

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