Poemas neste tema
Vida e Existência
José Castello
Manoel de Barros busca o sentido da vida
Poeta diz ter solidão, mas acha que é opulência da alma e a traz, em sua obra, como amargor e sol
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
Manoel de Barros ficou perto de cinco meses com um longo questionário que lhe enviei pouco antes do carnaval deste ano. "Vou responder devagar e do meu jeito", ele me advertiu na época. Aceitei suas condições. Não imaginei, porém, que necessitasse de tanto tempo. Barros seguiu, em parte, as instruções de seus novos editores, da Record, que preferiam ver uma grande entrevista publicada no Estado apenas na época do lançamento do Livro sobre Nada. Mas não foi só essa preferência que o fez deixar o questionário de lado por um período tão longo. O poeta é um homem de hábitos lentos, que gosta de meditar muito antes de agir e não está acostumado a trair seu temperamento interiorano. Finalmente, no dia 12, ele despachou de Campo Grande, pelo correio, suas respostas a algumas perguntas que formulei. Assim começa um breve bilhete anexo: "Aí está o que pude; peço desculpas pela demora." Manoel de Barros respondeu por escrito, em organizadas folhas brancas do tipo ofício, datilografadas com esmero. Corrigiu os erros com a esferográfica, numerou metodicamente as questões e grampeou as páginas.
É um homem, sempre, cheio de cuidados. Antes de aceitar o convite da editora Record para se transferir - "proposta irrecusável por todos os motivos, até mesmo os financeiros", limita-se a dizer -, o poeta consultou José Elias Salomão, o proprietário da Civilização Brasileira. "Falei com ele e tudo bem; ficamos em paz todos", relata. A morte recente do editor Ênio Silveira, por certo, influenciou nessa decisão. Manoel de Barros se sentia tão ligado a Ênio que, enqunto ele estava vivo e mesmo com as condições precárias que a editora Civilização Brasileira atravessou na última década, não ousou mudar de casa. Os laços de amizade e a fidelidade pesaram mais que os interesses pessoais. Cada um de seus últimos livros editados por Ênio Silveira, mal ou bem (e, considerando que são livros de poemas, esses números são ótimos) vendeu, de todo modo, perto de 10 mil exemplares. "Acho que, na Record, esse número deve crescer por causa da estrutura de marketing da editora", diz. Apesar desse otimismo, Manoel de Barros continua a ser um homem basicamente melancólico e pessimista. "Acho que no futuro o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo", diz. "Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser." A seguir, as questões que ele decidiu responder.
Estado - Em que medida Mato Grosso do Sul está presente em sua poesia? Qual é sua relação com o regionalismo?
Manoel de Barros - Há sempre um lastro de ancestralidades que nos situa no espaço. Mas não importa muito onde o artista tenha nascido. O que marca um estilo literário é a maneira de mexer com as palavras. Poesia é um fenômeno de linguagem. De minha parte, confesso que fujo do regionalismo que não dê em arte, que só quer fazer registro. Não gosto de descrever lugares, bichos, coisas da natureza. Gosto de inventar. Quem descreve não é dono do assunto; quem inventa é. Não tenho compromisso com as verdades consagradas. O que desejo é me constar por meio de um trabalho estético. Se de tudo resultar um cheiro de coisa do chão, é bom. Pode até ser que seja regionalismo. Porém, há de ser mais transfigurismo pela palavra.
Estado - Você se sente isolado em Campo Grande?
Barros - Isolado não me sinto, juro. Às vezes me isolo, me tranco na minha toca para escrever, para ler, para imaginar. Parece que, no fechado, o imaginário se solta melhor. O que sinto mesmo é incompletude: essa falta de explicação para o sentido da vida. O que tenho é solidão. Mas solidão é opulência da alma. Tudo isso parece que destila amargor e sol na minha poesia.
Estado - As viagens marcaram sua poesia? Penso em um poeta como Vinícius de Moraes que, em cada cidade que viveu, parece ter sido um homem diferente.
Barros - Alguns anos da minha vida ambulei por lugares decadentes. Havia um certo fascínio em mim por cidades mortas, casas abandonadas, vestígios de civilizações. Um fascínio por ruínas habitadas por sapos e borboletas. Eu gostava de ver alguma germinação da inércia sobre ervinhas doentes, paredes leprentas, coissa desprezadas. As fontes de minha poesia, estou certo, vêm de errâncias desurbanas. Agora, o caso do Vinícius é outro. Ele é um poeta inumerável. Ele vem das grandes paixões, das grandes complexidades, das perplexidades humanas. Ele era 300, ele era 350, como diria o nosso Mário de Andrade. Manoel de Barros só é um bugre perturbado.
Estado - Existe essa entidade chamada poesia brasileira ou existem apenas poetas nascidos no Brasil?
Barros - Penso que existe sim uma poesia brasileira. Uma poesia que expresa a nossa alma e o nosso quintal. Porém, a linguagem, o tratamento que o poeta imprima à sua matéria pode fazer dele um poeta universal. Assim, as nossas particularidades podem ser universais por meio das palavras. Temos poetas do mundo nascidos no Brasil.
Estado - Como foi sua relação com o editor Ênio Silveira, recém- falecido?
Barros - Do Ênio fui amigo e companheiro desde o primeiro dia que conversamos. Uma das criaturas mais puras, mais honestas, mais idealistas que conheci. Um ser de escol - como se diz. Trocamos cartas por muitos anos. Trocamos amizades. Mandava a ele os meus originais e ficava quieto, esperando. De repente, me mandava as provas. Fazia questão de escrever as orelhas. Tenho cinco livros lançados por ele.
Estado - Como é hoje sua rotina de poeta?
Barros - Exploro os mistérios irracionais dentro de uma toca que chamo "lugar de ser inútil". Exploro há 60 anos esses mistéros. Descubro memórias fósseis. Osso de urubu, etc. Faço escavações. Entro às 7 horas, saio ao meio-dia. Anoto coisas em pequenos cadernos de rascunho. Arrumo versos, frases, desenho bonecos. Leio a Bíblia, dicionários, às vezes percorro século para descobrir o primeiro esgar de uma palavra. E gosto de ouvir e ler Vozes da Origem. Gosto de coissa que começam assim: "Antigamente, o tatu era gente e namorou a mulher de outro homem." Está no livro Vozes da Origem, da antropóloga Betty Mindlin. Essas leituras me ajudam a explorar os mistérios irracionais. Não uso computador para escrever. Sou metido. Sempre acho que na ponta de meu lápis tem um nascimento.
Estado - Seu último livro publicado se chama O livro das Ignorãças (Civilização Brasileira, 1983). A citação de abertura é eloqüente: "As coisas que não existem são mais bonitas." Qual é o papel da ignorância na atividade poética?
Barros - Gosto de ver o que não aparece. Um que não era o adivinha de Tebas, o Tirésias, um que era apenas o Pote-Cru, andejo de beira de rios, criado em grotas de preá, me disse um dia: "Eu tenho vaticínios de lugares." Pote-Cru, ele tinha percepções sensoriais largas, como os adivinhos, os videntes, os bruxos, os urgos, os demiurgos, os curandeiros, os magos. Essa gente toda usa muito a ignorância para nos conhecer. Como é que eles podem dizer: "Vi a tarde se encolher no olho de um pássaro?" Entretanto, se encolhe! Como é que eles podem dizer: "Os carrapichos não pregam no vento." E, entretanto, não pregam. Essas descobertas vêm da ignorância.
Estado - Você vive em uma região brasileira em que a natureza, mal ou bem, ainda resiste. Há futuro para a natureza?
Barros - No grande futuro, não sei o que seja, acho que o homem vai pedir pelo amor de Deus para conhecer uma árvore, um passarinho, um cavalo. Tenho medo que a ciência acabe com os cavalos, com a luz natural, com as fontes do ser. Aquela liberdade que o homem tem de se sentir livre para o silêncio das árvores não vai ter mais. O idioma não vai servir mais para celebrar. O ser não vai mais comungar com as coisas. A imaginação não vai mais desabrochar, porque os nossos desejos e fantasias serão realizados. O mundo vai ter outro cheiro. Salvo não seja.
1 964
Carla Bianca
Alheio
Sofro,
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.
por não ter
o que é teu.
O corpo,
boca,
pernas,
e dorso.
Contemplo o alheio,
sou do outro
e assim
faço-me companhia.
958
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
843
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
843
Carlos Nóbrega
O Vento
Já tão velhinho
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
o velhinho
que não envelhece
mais -
Se dissipa
em cabelos e olhares
Vai no vento
como os jornais
843
Geraldo Carneiro
neoplatônica
a boca é o lugar onde se engendra
o silêncio e se proferem sentenças
de morte e colhem blasfêmias
e serpenteiam sortilégios
e se enfunam as flores da fala
até forjar a ficção de outra boca
de onde se extrai a idéia do beijo
o silêncio e se proferem sentenças
de morte e colhem blasfêmias
e serpenteiam sortilégios
e se enfunam as flores da fala
até forjar a ficção de outra boca
de onde se extrai a idéia do beijo
1 062
Olympia Mahu
Mamãe
Viver é uma luta constatnte
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
Um desafio, a cada instante
Desafios de vida e de sobrvivência
Em embates de angústias, de felicidades...
E tu, mamãe
Oitenta anos de lutas
De bravas lutas...
Tua vida foi sempre uma constante batalha
Um exemplo gratificante de tenacidade,
De aplicação, determinação e paciência,
Muita paciência...
Lembro-me muito bem de tuas lutas
Como mãe, trabalhadora, cidadã.
Deixando em cada uma delas a tua marca,
De garra e resignação.
Como fiel da balança
Trazias sempre o equilíbrio
Com o teu sábio silêncio...
Cada dia mais eu te admiro
Ao te lembrar em exemplos singelos
Tão ricos de sabedoria.
Sei que muitas vezes erraste,
Assim, aprimoravas a vida...
Mas, tenho cereteza,
Erraste pouco
Para os muitos desafios que enfrentaste...
Olimpya Mahu, 10/09/94
889
Caio Valério Catulo
O Marruêro
............................
O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...
Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!
O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...
Lá, no fundo duma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.
Uma araponga, atrepada
num braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dó!!
E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!
Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!
Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
num véio tronco de ipê.
Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!
Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...
Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.
Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!
O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!
Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!
Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio duma muié...
O canto alegre dos galo
no sertão amiudava!...
Nos taquará das lagoa
as saracura cantava!...
Cantando passava um bando
das verde maracanã!
Fermosa, cumo a cabôca,
Vinha rompendo a minhã!
O vento manso da serra,
vinha acordando os caminho!
Vinha das mata chêrosa
um chêro de passarinho!...
Lá, no fundo duma gróta,
adonde um córgo gimia,
gragaiava as siriêma
cum o fresco nacê do dia.
Uma araponga, atrepada
num braço de mato, im frô,
gritava, como se fosse
os grito da minha dó!!
E a sabiá, lá nos gaio
da larangêra, serena,
cantava, cumo si fosse
uma viola de pena!
Um passarinho inxirido,
mardosamente iscundido
nas fôia de um tamburí,
satisfeito, mangofando,
de mim se ria, gritando
lá de longe: "bem te vi"!
Chegando na incruziada,
despois do dia rompê,
sipurtei o meu segredo
num véio tronco de ipê.
Dênde essa hora, inté hoje,
eu conto as hora, a pená!...
Eu vórto a sê marruêro!
Vou vivê com os marruá!
Eu tinha o corpo fechado
prá tudo o que é marvadez!
Só de surucucutinga
eu fui mordido três vez!...
Dos marruá mais bravio,
que nos grotão derribei,
munta pontada, sá dona,
munta chifrada eu levei.
Prá riba de mim, Deus pode
mandá o que ele quizé!
O mundo é grande, sá dona!...
Grande é o amô!... Grande é a fé!
Grande é o pudê de Maria,
isposa de São josé!...
O Diabo, também, sá dona,
foi grande!... Cumo inda é!!!
Mas porém, nada é mais grande,
mais grande que Deus inté,
que uma cornada dos chifre
dos óio duma muié...
1 580
Olympia Mahu
Voar, voar
Não entendo como te admiras
Quando quero sair para voar sozinha.
Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..
Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.
Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...
Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...
Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.
Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...
Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.
Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.
Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...
Olimpya Mahu, 26/7/94
Quando quero sair para voar sozinha.
Quero sair, voar
Voar bem alto...
Quem sabe, até, um vôo errante,
Estabanado, atropelado
Quem sabe, até, em queda livre..
Já vivi bastante sob tuas asas
Não tenho queixas, apenas alguns medos.
Quero soltar-me
Mostrar quem sou, o que aprendi
Que sei, não esqueço, Muito foi contigo...
Desprender-me de ti, é como soltar as amarras
Cortar o cordão que muito me protegeu
Mas, que hoje me aprisiona...
Gratidão te tenho demais
Mas, a inquietude é ainda maior.
Preciso sair por aí
Descobrir-me
Saber quem sou, o que faço,
Por onde caminhar...
Não te assuste!
Que bom que ainda tenho muitas dúvidas dentro de mim
E força suficiente para descobri-las
Quem sabe, solucioná-las.
Quero de ti a amizade, o apoio e o carinho
Coisas tão grande em ti
Que divides tão bem com todos.
Quero poder crescer
Para estar sempre por perto
Merecendo o teu respeito...
Olimpya Mahu, 26/7/94
1 078
Carlos Nóbrega
Matéria de Consumo
Quando a primeira luz
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma
851
Carlos Nóbrega
Matéria de Consumo
Quando a primeira luz
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma
caiu no primeiro olhar
nunca mais a paisagem foi a mesma
851
Carlos Nóbrega
Da Estação Nordeste
A paisagem era uma lixa.
Mas uma chuva cheia de listras
foi cobrindo de veludo
as ossadas as pedras tudo
Mas uma chuva cheia de listras
foi cobrindo de veludo
as ossadas as pedras tudo
846
Carla Bianca
Lembrança
Guardo a saudade no fundo da goela. Lá coloco sentimentos como se fossem drágeas a serem engolidas. Procuro um copo d’água para desentalar a saudade.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
Molhada a goela, sinto a saudade transformar-se em lembrança. O peito descansa de esperar por alguém que não tem paradeiro.
As lembranças são preciosidades que não fazem sofrer. Lindas molduras, de momentos vividos.
Agora viajo no tempo repassando as venturas que tive com o amor. Os rostos parecem sorrir, transcendendo as dúvidas que antes marcavam suas testas e expressões. Eles são lembranças, deixaram de ser saudades.
Observo mais atentamente e avisto o teu rosto na galeria das emoções. Ele tem agora um sorriso plácido, tranqüilo, de pessoa em paz, com a vida, este pedaço de energia que não possui tempo certo e viaja na memória dos contemporâneos de sua passagem.
Tua lembrança pertence à nobre seção do afeto e apraz contemplar figura que tanto ensinou e agora diz que devo procurar outro mestre.
959
Dílson Catarino
Poemas Menores
Meus óculos quebrados
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
955
Dílson Catarino
Poemas Menores
Meus óculos quebrados
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
Me olham com saudades
Do passado que também se quebrou
-o-
Sujo é o beco de sua boca
quando fala.
Sujo é o beco - boca é suja
Pois as árvores poda
Até que a morte vem
Aos pássaros também
-o-
Sempre é o nunca
à podridão dos homens
que matam de penúria
ou de violência
que ferem a alma
de um povo já enfermo
E querem carnaval.
-o-
Cultivar plantas em xaxim
é como cultivar a paz
Os homens cultivam o fim
-o-
O verde desta planta
no meio de minha sala
O cinza desta fumaça
em todo meu caminho
-o-
Vivaldi vagueia
vadiamente
em meus ouvidos
-o-
Se não fosse a chuva
batendo em minha janela
Pensaria serem lágrimas felizes
de minha boca em seu corpo.
-o-
O meu copo de aço
escorregou-me da mão
Os estilhaços de vidro
cortaram-me o pé
Escorreu uma gota de sangue
manchando o tapete.
-o-
Saia do escuro e acenda uma vela
Fique na sua
tomando chuva na calçada
beijando a boca da namorada
sentindo a nuca se arrepiar.
-o-
Há olhos lindos e tentadores
meigos, tímidos, de muitas cores
sensuais, chocantes, libidinosos
lagos serenos, maravilhosos
cristais brilhantes, cheios de fé
mas nada como os olhos de Teté.
-o-
E lá estão os elefantes,
ciscando em volta do lago,
enquanto as pedras rolam
misturando-se com as cuspidas do tuberculoso.
Cânticos frêmitos entoados por pianos destruídos
entusiasmam os leprosos para uma valsa.
Vamos beber uma cerveja?
Então, bebamos oito.
-o-
955
Dílson Catarino
Ester
Gosto de sentir sua pele
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.
Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer
Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render
Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.
em minha pele sua boca
em minha boca seus cabelos
em meu rosto seu corpo
em meu corpo sua mente
em meu mundo seu mundo
em minha mente seu passado
em meu futuro seu futuro
em meu presente.
Gosto de ser seu presente
você é meu destino desatino
me deixa menino pequenino
quando cafuné me faz
quando suas unhas riscam
minhas costas como resposta
arrepio-me por puro prazer
Quero fazer seu prazer
quero suas pernas lamber
quero em você me perder
em você me prender
e me render
Não adianta
de sua vida não saio
dentro de você desmaio
sou um raio
tênue aconchegante
sou a lua radiante
em seu céu sem fim
eu sou o fim.
1 216
Dílson Catarino
Sombra Calada
Por que ser eu, se posso ser o silêncio
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
da nuvem que não chora?
Meu rosto levita indiferente
pelos séculos de pedra.
Procuro a praia de areias brancas
e encontro a inconsistência do lodaçal
Ah! A adolescência inexata já morreu
deixando os lábios secos
os companheiros sem rumo
o mundo sem amar.
Meus olhos miram a vaguidade, lentamente,
tristes e sós,
mas nada vêem além da janela
enquanto as borboletas amarelas
tingem o anil do infinito.
Não sou o sonho sustentado
nem o riso invisível.
Sou s sombra calada
o silêncio aceso
debruçado no deserto de cimento.
805
Castro Alves
Um Raio de Luar
ALTA NOITE ele ergueu-se. Hirto, solene.
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
Ia no céu!
Pegou na mão da moça. Olhou-a fito...
Que fundo olhar!
Ela estava gelada, como a garça
Que a tormenta ensopou longe do ninho,
No largo mar.
Tomou-a no regaço... assim no manto
Apanha a mãe a criancinha loura,
Tenra a dormir.
Apartou-lhe os cabelos sobre a testa...
Pálida e fria... Era talvez a morte...
Mas a sorrir.
Pendeu-lhe sobre os lábios. Como treme
No sono asa de pombo, assim tremia-lhe
O ressonar.
E como o beija-flor dentro do ovo,
Ia-lhe o coração no níveo seio
A titilar.
Morta não era! Enquanto um rir convulso
Contraíra as feições do homem silente
— Riso fatal.
Dir-se-ia que antes a quisera rija,
Inteiriçada pela mão da noite
Hirta, glacial!
Um momento de bruços sobre o abismo,
Ele, embalando-a, sobre o rio negro
Mais sinclinou...
Nesse instante o luar bateu-lhe em cheio,
E um riso à flor dos lábios da criança
À flux boiou!
Qual o murzelo do penhasco à borda
Empina-se e cravando as ferraduras
Morde o escarcéu;
Um calafrio percorreu-lhe os músculos...
O vulto recuou!... A noite em meio
Ia no céu!
2 074
Castro Alves
Horas de Saudade
TUDO VEM me lembrar que tu fugiste,
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
Tudo que me rodeia de ti fala.
Inda a almofada, em que pousaste a fronte
O teu perfume predileto exala
No piano saudoso, à tua espera,
Dormem sono de morte as harmonias.
E a valsa entreaberta mostra a frase
A doce frase quinda há pouco lias.
As horas passam longas, sonolentas...
Desce a tarde no carro vaporoso...
DAvc-Maria o sino, que soluça,
É por ti que soluça mais queixoso.
E não Vens te sentar perto, bem perto
Nem derramas ao vento da tardinha,
A caçoula de notas rutilantes
Que tua alma entornava sobre a minha.
E, quando uma tristeza irresistível
Mais fundo cava-me um abismo nalma,
Como a harpa de Davi teu riso santo
Meu acerbo sofrer já não acalma.
É que tudo me lembra que fugiste.
Tudo que me rodeia de ti fala...
Como o cristal da essência do oriente
Mesmo vazio a sândalo trescala.
No ramo curvo o ninho abandonado
Relembra o pipilar do passarinho.
Foi-se a festa de amores e de afagos...
Eras — ave do céu... minhalma — o ninho!
Por onde trilhas — um perfume expande-se.
Há ritmo e cadência no teu passo!
És como a estrela, que transpondo as sombras,
Deixa um rastro de luz no azul do espaço ...
E teu rastro de amor guarda minhalma,
Estrela que fugiste aos meus anelos!
Que levaste-me a vida entrelaçada
Na sombra sideral de teus cabelos! ...
2 626
Angela Carneiro
Armário
Arrumar o armário
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
1 808
Angela Carneiro
Armário
Arrumar o armário
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
1 808
Angela Carneiro
Armário
Arrumar o armário
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
passei um bom tempo da vida pensando em arrumar o armário
passei um tempo menor da vida realmente arrumando o armário
E nesse arrumar de armário
há um desarrumar de emoções
coisas desaparecidas
aparecem no armário, na mente, no coração
Pouca coisa énecessária par se arrumar o armário
umpequeno banco,
uma grande cesta de lixo
alguma criatividade
muita boa-vontade
e tempo
o tempo passa ao se arrumar o armário
passa-se o tempo
ao contrário do sentido do relógio
pensa-se o tempo
Caixas e gavetas
coisas acumuladas
pastas, recortes, papéis, apostilhas, assuntos
ao arrumar a coleção empilhada
a ampulheta da mente revira
Por que guardei isso no armário e não na memória?
Por que errei esta questão na prova de história?
Lixo!
A bola de ping-pong o gordo atirou na prova de geometria com a área
do círculo ao redor
Lixo!
Um papel dobrado como gaivota
apenas a palavra azul desenhada a pena
(ai, esse tempo que não volta e dá voltas!)
E um pouco do passado é rasgado ejogado na cesta de lixo
Tudo é novamente selecionado
e novamente guardado
no armário e na mente
armariamente
mente novamente armada
armário novamente limpo
tentativa de organizar a memória e o quarto
por pouco tempo
pois mais um quarto da vida será passado
pensando-se em arrumar o armário.
1 808
Castro Alves
Originais
Destruição de Jerusalém
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
I
"TREME, treme, dissoluta,
Ímpia filha de Sião!
Que a tua devassidão
Provoca a ira de Deus;
Povo e rei, todos profanam
Do Senhor os vasos santos,
A Baal se entoam cantos!
O! como se ultraja os céus?!...
"Ó rei poluto se entrega
Ao prazer das saturnais;
Nas orgias infernais
Dorme o seu povo também.
Escarneceste o profeta?
Desprezaste a Jeremias?
Pois sim!... por bem curtos dias
Tu serás Jerusalém.
"Teus palácios majestosos,
Teus senhores dissolutos,
Pelo vício já corruptos,
Hão de cair Culminados
Tuas donzelas mimosas,
E teus filhos, sem auxílio
Da escravidão, no exílio
Morrerão aferrolhados.
"Treme! treme! dissoluta,
Filha ingrata de Sião!
Que a tua condenação,
Já lavrou-a o Senhor Deus... "
Assim falava inspirado
O profeta ao rei, ao povo,
Que o escarneciam de novo,
Ouvindo os decretos seus.
II
Lá nas orlas do horizonte
Sutil fumo se condensa;
Cresce, e em nuvem negra, imensa,
Sobe aos céus em caracol.
A terra atroam medonhos
Confusos tropéis ruidosos..
Os corcéis rincham fogosos;
Brilha o ferro à luz do sol.
Alarma! alarma! tremendo,
Os vigias de Sião
Gritam; reina a confusão,
Corre o povo alvorotado;
Alarma! surge o inimigo,
Ameaçando as muralhas
Pelo furor das batalhas
Trazendo o crânio queimado.
À frente ousado e terrível
Vem Nabucodonosor;
Nos seus olhos o furor
Fuzila; brandindo a lança,
Ergue o férreo braço irado,
De sangue e morte sedento;
E mais veloz do que o vento,
Galopa a bradar — vingança!
Trava-se a luta medonha.
Do inimigo o duro ferro,
Como a cascata do Serro,
Tudo aniquila veloz;
Emaranham-se os guerreiros,
Geme o sabre na couraça,
É tudo luto e fumaça,
Troveja do horror a voz.
Sobem aos céus os clamores
Das mulheres e crianças,
Que, sob o império das lanças,
Lastimam-se a triste sorte;
Jorra o sangue pelas praças,
De mortos juncam-se as ruas,
Em corpos e espáduas nuas
Tropeça o que escapa à morte.
Mas, não basta o extermínio
À vingança do Senhor;
Do cativeiro na dor
Não basta gemer Sião;
Infernal chama se ateia,
Devasta os tetos pomposos,
E os castelos majestosos
E o templo de Salomão.
III
E a nivelar-se ao pó foi a princesa,
A formosa cidade de Sião;
Como tomba do monte o altivo cedro
Ao desabrido sopro do tufão.
Silêncio sepulcral, estende as asas
Sobre a vasta ruína, fumegante,
Quebrado apenas pelo grito agudo
Da andorinha, sem ninho, vaga, errante.
Negro véu, como crepe de finado
Caiu pesado, como noite escura,
Sobre o solo, que há pouco adormecia
Na soberba, opulência e formosura.
Do viajante os olhos não encontram
Senão negros vestígios de cidade;
Foi Sião, que findou-se, como um ninho
Arrancado ao tufão da tempestade.
Jerusalém na febre dos prazeres
A voz não quis ouvir de Jeremias;
Pois sim!... mas viu bem cedo realizadas
Do profeta sombrio as profecias.
E em vez do canto ardente das orgias,
Só se ouviam as aves de rapina;
Os povos converteram-se em argila;
Sião? — ei-la — confusa e vasta ruína!!!
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