Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Morro da Babilônia
À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinqüenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).
Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinqüenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).
Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.
2 517
1
Carlos Drummond de Andrade
Morro da Babilônia
À noite, do morro
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinqüenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).
Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.
descem vozes que criam o terror
(terror urbano, cinqüenta por cento de cinema,
e o resto que veio de Luanda ou se perdeu na língua geral).
Quando houve revolução, os soldados se espalharam no morro,
o quartel pegou fogo, eles não voltaram.
Alguns, chumbados, morreram.
O morro ficou mais encantado.
Mas as vozes do morro
não são propriamente lúgubres.
Há mesmo um cavaquinho bem afinado
que domina os ruídos da pedra e da folhagem
e desce até nós, modesto e recreativo,
como uma gentileza do morro.
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1
Carlos Drummond de Andrade
Áporo
Um inseto cava
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha.
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
cava sem alarme
perfurando a terra
sem achar escape.
Que fazer, exausto,
em país bloqueado,
enlace de noite
raiz e minério?
Eis que o labirinto
(oh razão, mistério)
presto se desata:
em verde, sozinha.
antieuclidiana,
uma orquídea forma-se.
1 825
1
Carlos Drummond de Andrade
Explicação
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
1 845
1
Carlos Drummond de Andrade
Explicação
Meu verso é minha consolação.
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
Meu verso é minha cachaça. Todo o mundo tem sua cachaça.
Para beber, copo de cristal, canequinha de fôlha-de-flandres,
folha de taioba, pouco importa: tudo serve.
Para louvar a Deus como para aliviar o peito,
queixar o desprezo da morena, cantar minha vida e trabalhos
é que faço meu verso. E meu verso me agrada.
Meu verso me agrada sempre. . .
Êle às vezes tem o ar sem-vergonha de quem vai dar uma cambalhota,
mas não é para o público, é para mim mesmo essa cambalhota.
Eu bem me entendo.
Não sou alegre. Sou até muito triste.
A culpa é da sombra das bananeiras de meu país, esta sombra mole, preguiçosa.
Há dias em que ando na rua de olhos baixos
para que ninguém desconfie, ninguém perceba
que passei a noite inteira chorando.
Estou no cinema vendo fita de Hoot Gibson,
de repente ouço a voz de uma viola. . .
saio desanimado.
Ah, ser filho de fazendeiro!
À beira do São Francisco, do Paraíba ou de qualquer córrego vagabundo,
c sempre a mesma sen-si-bi-li-da-de.
E a gente viajando na pátria sente saudades da pátria.
Aquela casa de nove andares comerciais
é muito interessante.
A casa colonial da fazenda também era. . .
No elevador penso na roça,
na roça penso no elevador.
Quem me fêz assim foi minha gente e minha terra
e eu gosto bem de ter nascido com essa tara.
Para mim, de todas as burrices a maior é suspirar pela Europa.
A Europa é uma cidade muito velha onde só fazem caso de dinheiro
e tem umas atrizes de pernas adjetivas que passam a perna na gente.
O francês, o italiano, o judeu falam uma língua de farrapos.
Aqui ao menos a gente sabe que tudo é uma canalha só,
lê o seu jornal, mete a língua no governo,
queixa-se da vida (a vida está tão cara)
e no fim dá certo.
Se meu verso não deu certo, foi seu ouvido que entortou.
Eu não disse ao senhor que não sou senão poeta?
1 845
1
Carlos Drummond de Andrade
Jornal de Serviço
(LEITURA EM DIAGONAL DAS “PÁGINAS AMARELAS”)
I
Máquinas de lavar
máquinas de lixar
máquinas de furar
máquinas de curvar
máquinas de dobrar
máquinas de engarrafar
máquinas de empacotar
máquinas de ensacar
máquinas de assar
máquinas de faturamento
II
champanha por atacado
artigos orientais
institutos de beleza
metais preciosos
peleterias
salões para banquetes e festas
condimentos e molhos
botões a varejo
roupas de aluguel
tântalo
III
panelas de pressão
rolos compressores
sistemas de segurança
vigilância noturna
vigilância industrial
interruptores de circuito
iscas
encanadores
alambrados
supressão de ruídos
IV
doenças da pele
doenças do sangue
doenças do sexo
doenças vasculares
doenças das senhoras
doenças tropicais
câncer
doenças da velhice
empresas funerárias
coletores de resíduos
V
papéis transparentes
vidro fosco
gelatina copiativa
cursinhos
amortecedores
resfriamento de ar
retificadores elétricos
tesouras mecânicas
ar comprimido
cupim
VI
mourões para cerca
mudança de pianos
relógios de igreja
borboletas de passagem
cata-ventos
cintas abdominais
produtos de porco
peles cruas
peixes ornamentais
decalcomania
VII
peritos em exames de documentos
peritos em imposto de renda
preparação de papéis de casamento
representantes de papel e papelão
detetives particulares
tira-manchas
limpa-fossas
fogos de artifício
sucos especiais
ioga
VIII
anéis de carvão
anéis de formatura
purpurina
cogumelos
extinção de pelos
presentes por atacado
lantejoulas
sereias
souvenirs
soda cáustica
IX
retificação de eixos
varreduras mecânicas
expurgo de ambientes
revólver para pintura
pintores a pistola
cimento armado
guinchos
intérpretes
refugos
sebo
I
Máquinas de lavar
máquinas de lixar
máquinas de furar
máquinas de curvar
máquinas de dobrar
máquinas de engarrafar
máquinas de empacotar
máquinas de ensacar
máquinas de assar
máquinas de faturamento
II
champanha por atacado
artigos orientais
institutos de beleza
metais preciosos
peleterias
salões para banquetes e festas
condimentos e molhos
botões a varejo
roupas de aluguel
tântalo
III
panelas de pressão
rolos compressores
sistemas de segurança
vigilância noturna
vigilância industrial
interruptores de circuito
iscas
encanadores
alambrados
supressão de ruídos
IV
doenças da pele
doenças do sangue
doenças do sexo
doenças vasculares
doenças das senhoras
doenças tropicais
câncer
doenças da velhice
empresas funerárias
coletores de resíduos
V
papéis transparentes
vidro fosco
gelatina copiativa
cursinhos
amortecedores
resfriamento de ar
retificadores elétricos
tesouras mecânicas
ar comprimido
cupim
VI
mourões para cerca
mudança de pianos
relógios de igreja
borboletas de passagem
cata-ventos
cintas abdominais
produtos de porco
peles cruas
peixes ornamentais
decalcomania
VII
peritos em exames de documentos
peritos em imposto de renda
preparação de papéis de casamento
representantes de papel e papelão
detetives particulares
tira-manchas
limpa-fossas
fogos de artifício
sucos especiais
ioga
VIII
anéis de carvão
anéis de formatura
purpurina
cogumelos
extinção de pelos
presentes por atacado
lantejoulas
sereias
souvenirs
soda cáustica
IX
retificação de eixos
varreduras mecânicas
expurgo de ambientes
revólver para pintura
pintores a pistola
cimento armado
guinchos
intérpretes
refugos
sebo
1 959
1
Carlos Drummond de Andrade
Três No Café
No café semideserto
a mosca tenta
pousar no torrão de açúcar sobre o mármore.
Enxoto-a. Insiste. Enxoto-a.
A luz é triste, amarela, desanimada.
Somos dois à espera
de que o garçom, mecânico, nos sirva.
Olho para o companheiro até a altura da gravata.
Não ouso subir ao rosto marcado.
Fixo-me na corrente do relógio
presa ao colete; velhos tempos.
Pouco falamos. O som das xícaras,
quase uma conversa. Tão raro
assim nos encontrarmos frente a frente
mais que por minutos.
Mais raro ainda,
na banalidade do café.
A mosca volta.
Já não a espanto. Queda entre nós,
partícipe de mútuo entendimento.
Então, é este o mesmo homem
de antes de eu nascer
e de amanhã e sempre?
Curvado.
Seu olhar é cansaço de existência,
ou sinto já (nem pensar) a sua morte?
Este estar juntos no café,
não hei de esquecê-lo nunca, de tão seco
e desolado — os três
eu, ele, a mosca —:
imagens de mera circunstância
ou do obscuro
irreparável sentido de viver.
a mosca tenta
pousar no torrão de açúcar sobre o mármore.
Enxoto-a. Insiste. Enxoto-a.
A luz é triste, amarela, desanimada.
Somos dois à espera
de que o garçom, mecânico, nos sirva.
Olho para o companheiro até a altura da gravata.
Não ouso subir ao rosto marcado.
Fixo-me na corrente do relógio
presa ao colete; velhos tempos.
Pouco falamos. O som das xícaras,
quase uma conversa. Tão raro
assim nos encontrarmos frente a frente
mais que por minutos.
Mais raro ainda,
na banalidade do café.
A mosca volta.
Já não a espanto. Queda entre nós,
partícipe de mútuo entendimento.
Então, é este o mesmo homem
de antes de eu nascer
e de amanhã e sempre?
Curvado.
Seu olhar é cansaço de existência,
ou sinto já (nem pensar) a sua morte?
Este estar juntos no café,
não hei de esquecê-lo nunca, de tão seco
e desolado — os três
eu, ele, a mosca —:
imagens de mera circunstância
ou do obscuro
irreparável sentido de viver.
2 537
1
Carlos Drummond de Andrade
Serenata
Flauta e violão na trova da rua,
que é uma treva rolando da montanha,
fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
a música viola o domicílio
e põe rosas no leito da donzela.
que é uma treva rolando da montanha,
fazem das suas.
Não há garrucha que impeça:
a música viola o domicílio
e põe rosas no leito da donzela.
1 815
1
Carlos Drummond de Andrade
Telegrama de Moscou
Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
1 762
1
Carlos Drummond de Andrade
Telegrama de Moscou
Pedra por pedra reconstruiremos a cidade.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
Casa e mais casa se cobrirá o chão.
Rua e mais rua o trânsito ressurgirá.
Começaremos pela estação da estrada de ferro
e pela usina de energia elétrica.
Outros homens, em outras casas,
continuarão a mesma certeza.
Sobraram apenas algumas árvores
com cicatrizes, como soldados.
A neve baixou, cobrindo as feridas.
O vento varreu a dura lembrança.
Mas o assombro, a fábula
gravam no ar o fantasma da antiga cidade
que penetrará o corpo da nova.
Aqui se chamava
e se chamará sempre Stalingrado.
— Stalingrado: o tempo responde.
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1
Carlos Drummond de Andrade
Paredão
Uma cidade toda paredão.
Paredão em volta das casas.
Em volta, paredão, das almas.
O paredão dos precipícios.
O paredão familial.
Ruas feitas de paredão.
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão.
Paredão de umidade e sombra,
sem uma fresta para a vida.
A canivete perfurá-lo,
a unha, a dente, a bofetão?
Se do outro lado existe apenas
outro, mais outro, paredão?
Paredão em volta das casas.
Em volta, paredão, das almas.
O paredão dos precipícios.
O paredão familial.
Ruas feitas de paredão.
O paredão é a própria rua,
onde passar ou não passar
é a mesma forma de prisão.
Paredão de umidade e sombra,
sem uma fresta para a vida.
A canivete perfurá-lo,
a unha, a dente, a bofetão?
Se do outro lado existe apenas
outro, mais outro, paredão?
1 748
1
Carlos Drummond de Andrade
Programa
Que vais fazer no dia de saída?
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
1 108
1
Carlos Drummond de Andrade
Programa
Que vais fazer no dia de saída?
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
1 108
1
Carlos Drummond de Andrade
Programa
Que vais fazer no dia de saída?
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
Acaso vais reinventar a vida?
Dizendo adeus a negras matemáticas,
nunca mais voltar ao colégio férreo?
Montar em pelo o macho Trintapatas
e galopar no rumo do Insondável?
Buscar destino de cigano ou pária,
livre pra lá da Serra do Curral?
Vais procurar o que é vedado e chama:
a pedra, o som, o signo, a senha, o sumo?
— Vou visitar os tios e os padrinhos.
Vou chateá-los e chatear-me, apenas.
(Preceito Dez, das Tábuas da Família.)
1 108
1
Adão Ventura
Alfabetização
Papai
levava tempo
para redigir uma carta
Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
teve a emoção de assinar seu
nome completo
já quase aos setenta anos
levava tempo
para redigir uma carta
Já mamãe Sebastiana de José Teodoro
teve a emoção de assinar seu
nome completo
já quase aos setenta anos
985
1
Carlos Drummond de Andrade
Chegar À Janela
Há um estilo
de chegar à janela, espiar a rua.
Nenhum passante veja o instante
em que a janela se oferece
para emoldurar o morador.
De onde surgiu, de que etérea
paragem, nublado sótão,
como pousou, quedou ali,
recortado em penumbra?
Modo particularíssimo de ficar
e não ficar ao mesmo tempo
debruçado à janela
diante da segunda-feira
e das eternidades da semana.
De frente? De lado? De nenhum
ângulo? Está e não está
presente, é ilusão de pessoa,
vaso-begônia, objeto que mofou,
exposto ao ar?
A janela e o vulto imobilizado
proíbem qualquer indagação.
de chegar à janela, espiar a rua.
Nenhum passante veja o instante
em que a janela se oferece
para emoldurar o morador.
De onde surgiu, de que etérea
paragem, nublado sótão,
como pousou, quedou ali,
recortado em penumbra?
Modo particularíssimo de ficar
e não ficar ao mesmo tempo
debruçado à janela
diante da segunda-feira
e das eternidades da semana.
De frente? De lado? De nenhum
ângulo? Está e não está
presente, é ilusão de pessoa,
vaso-begônia, objeto que mofou,
exposto ao ar?
A janela e o vulto imobilizado
proíbem qualquer indagação.
2 721
1
António Ramos Rosa
Viagem Através Duma Nebulosa
a Raul de Carvalho
Noite
rã oblíqua
ó toda olhos à flor da névoa
o trilo move-se perde-se repete-se pisca como a estrelinha
o hálito da lua
orienta-me numa nebulosa
de constelações tranquilas
Que aéreo e estático silêncio
harmonia de pálpebras e pupilas
a redondez das estrelas foi feita para minhas mãos navegadoras
a poalha cintilante e fluida
dos céus
corre no meu sangue
ondas e barcas contradançam
substituem-se umas às outras
Os grandes animais silenciosos da terra
sonham com um pássaro de barro
a memória reencontra o seu palácio de homem
a torre emerge do menino
Além mais para além
que calma de navios
sobre um porto sem nome sobre um cais
qualquer
transporto por contágio o sonho da rapariga
à janela do mundo
o adolescente que fui encontra a sua noiva
que sortilégio de mãos e tranquila voz antiga
de inexplorados sonhos
que confiança interplanetária
me leva para além dos contactos visíveis
chego ao limite onde a aurora ainda dorme
Os rios torceram-me todas as hesitações
as montanhas reacenderam toda a minha coragem
sobre ventres de grávidas fêmeas silenciosas
retomei o gosto de distribuir meus sonhos
nova moeda de futuros seres
os lisos cavalos da bruma
lançam-me a rosa do seu bafo escuro
é bem o cheiro da madrugada
Sobre todos os mortos de que me nutro em segredo
desenha-se a rapariga da revolta do sol
a tradição de seus braços
é uma carícia de futuro
presente sangrando em cada poro
17 milhões de mortos comprovam a grávida linha ascensional
Todos os jovens mortos
correm no fogo cadente das tuas veias consteladas
ó eterna rapariga
o rumor que faz a amizade
através dos países submersos
o sussurro claro germinando da descoberta incessante
eis o ritmo do teu coração
Dia a dia o teu grávido ventre se estende planície
dia a dia os homens te forjam na consciência renovando-se
dormes agora
a tua cabeleira de horizontes
o fulvo ondear do teu corpo de bandeira
acena-nos um novo passo em cada espera forçada
as sombras do martírio as mil e uma moscas do carnaval pútrido
em vão tentam sugar o cadáver que resiste
o cadáver que resiste
não chegam a formar a sombra que oculte o esplendor
que ressalta em cada face humilde
O arsenal do estupro lento
as orquestras do caos
os benfeitores dos monstros
em vão tentam amortecer o dinamismo da paisagem
as máquinas delicadas dos turistas
acenam bom senso
em vão
A redondez das estrelas
é um apelo às minhas mãos
as minhas mãos navegadoras correm em arrepios teu corpo em formação
Deito-me no horizonte
tudo se faz mais claro
Noite
rã oblíqua
ó toda olhos à flor da névoa
o trilo move-se perde-se repete-se pisca como a estrelinha
o hálito da lua
orienta-me numa nebulosa
de constelações tranquilas
Que aéreo e estático silêncio
harmonia de pálpebras e pupilas
a redondez das estrelas foi feita para minhas mãos navegadoras
a poalha cintilante e fluida
dos céus
corre no meu sangue
ondas e barcas contradançam
substituem-se umas às outras
Os grandes animais silenciosos da terra
sonham com um pássaro de barro
a memória reencontra o seu palácio de homem
a torre emerge do menino
Além mais para além
que calma de navios
sobre um porto sem nome sobre um cais
qualquer
transporto por contágio o sonho da rapariga
à janela do mundo
o adolescente que fui encontra a sua noiva
que sortilégio de mãos e tranquila voz antiga
de inexplorados sonhos
que confiança interplanetária
me leva para além dos contactos visíveis
chego ao limite onde a aurora ainda dorme
Os rios torceram-me todas as hesitações
as montanhas reacenderam toda a minha coragem
sobre ventres de grávidas fêmeas silenciosas
retomei o gosto de distribuir meus sonhos
nova moeda de futuros seres
os lisos cavalos da bruma
lançam-me a rosa do seu bafo escuro
é bem o cheiro da madrugada
Sobre todos os mortos de que me nutro em segredo
desenha-se a rapariga da revolta do sol
a tradição de seus braços
é uma carícia de futuro
presente sangrando em cada poro
17 milhões de mortos comprovam a grávida linha ascensional
Todos os jovens mortos
correm no fogo cadente das tuas veias consteladas
ó eterna rapariga
o rumor que faz a amizade
através dos países submersos
o sussurro claro germinando da descoberta incessante
eis o ritmo do teu coração
Dia a dia o teu grávido ventre se estende planície
dia a dia os homens te forjam na consciência renovando-se
dormes agora
a tua cabeleira de horizontes
o fulvo ondear do teu corpo de bandeira
acena-nos um novo passo em cada espera forçada
as sombras do martírio as mil e uma moscas do carnaval pútrido
em vão tentam sugar o cadáver que resiste
o cadáver que resiste
não chegam a formar a sombra que oculte o esplendor
que ressalta em cada face humilde
O arsenal do estupro lento
as orquestras do caos
os benfeitores dos monstros
em vão tentam amortecer o dinamismo da paisagem
as máquinas delicadas dos turistas
acenam bom senso
em vão
A redondez das estrelas
é um apelo às minhas mãos
as minhas mãos navegadoras correm em arrepios teu corpo em formação
Deito-me no horizonte
tudo se faz mais claro
2 061
1
Carlos Drummond de Andrade
Os Velhos
Todos nasceram velhos — desconfio.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
Em casas mais velhas que a velhice,
em ruas que existiram sempre — sempre! —
assim como estão hoje
e não deixarão nunca de estar:
soturnas e paradas e indeléveis
mesmo no desmoronar do Juízo Final.
Os mais velhos têm 100, 200 anos
e lá se perde a conta.
Os mais novos dos novos,
não menos de 50 — enorm’idade.
Nenhum olha para mim.
A velhice o proíbe. Quem autorizou
existirem meninos neste largo municipal?
Quem infringiu a lei da eternidade
que não permite recomeçar a vida?
Ignoram-me. Não sou. Tenho vontade
de ser também um velho desde sempre.
Assim conversarão
comigo sobre coisas
seladas em cofre de subentendidos
a conversa infindável
de monossílabos, resmungos,
tosse conclusiva.
Nem me veem passar. Não me dão confiança.
Confiança! Confiança!
Dádiva impensável
nos semblantes fechados,
nas felpudas redingotes,
nos chapéus autoritários,
nas barbas de milênios.
Sigo, seco e só, atravessando
a floresta de velhos.
1 819
1
Carlos Drummond de Andrade
O Inglês da Mina
O inglês da mina é bom freguês.
Secos e molhados finíssimos
seguem uma vez por mês
rumo da serra onde ele mora.
Inglês invisível, talvez
mais inventado que real,
mas come bem, bebendo bem,
paga melhor. O inglês existe
além do bacon, do pâté,
do White Horse, que o projetam
no nevoento alto da serra
que um caixeirinho imaginoso
vai compondo, enquanto separa
cada botelha, cada lata
para o grande consumidor?
Que desejo de ver de perto
o inglês bebendo, o inglês comendo
tamanho lote de comibebes.
Ele sozinho? Muitos ingleses
surgem de pronto na mesa longa
posta na serra. Comem calados.
Calados bebem, num só inglês.
Talvez um dia? Talvez. Na vez.
Secos e molhados finíssimos
seguem uma vez por mês
rumo da serra onde ele mora.
Inglês invisível, talvez
mais inventado que real,
mas come bem, bebendo bem,
paga melhor. O inglês existe
além do bacon, do pâté,
do White Horse, que o projetam
no nevoento alto da serra
que um caixeirinho imaginoso
vai compondo, enquanto separa
cada botelha, cada lata
para o grande consumidor?
Que desejo de ver de perto
o inglês bebendo, o inglês comendo
tamanho lote de comibebes.
Ele sozinho? Muitos ingleses
surgem de pronto na mesa longa
posta na serra. Comem calados.
Calados bebem, num só inglês.
Talvez um dia? Talvez. Na vez.
1 717
1
Carlos Drummond de Andrade
Uma Hora E Mais Outra
Há uma hora triste
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
que tu não conheces.
Não é a da tarde
quando se diria
baixar meio grama
na dura balança;
não é a da noite
em que já sem luz
a cabeça cobres
com frio lençol
antecipando outro
mais gelado pano;
e também não é a
do nascer do sol
enquanto enfastiado
assistes ao dia
perseverar no câncer,
no pó, no costume,
no mal dividido
trabalho de muitos;
não a da comida
hora mais grotesca
em que dente de ouro
mastiga pedaços
de besta caçada;
nem a da conversa
com indiferentes
ou com burros de óculos,
gelatina humana,
vontades corruptas,
palavras sem fogo,
lixo tão burguês,
lesmas de blackout
fugindo à verdade
como de um incêndio;
não a do cinema
hora vagabunda
onde se compensa,
rosa em tecnicolor,
a falta de amor,
a falta de amor,
a falta de amor;
nem essa hora flácida
após o desgaste
do corpo entrançado
em outro, tristeza
de ser exaurido
e peito deserto,
nem a pobre hora
da evacuação:
um pouco de ti
desce pelos canos,
oh! adulterado,
assim decomposto,
tanto te repugna,
recusas olhá-lo:
é o pior de ti?
Torna-se a matéria
nobre ou vil conforme
se retém ou passa?
Pois hora mais triste
ainda se afigura;
ei-la, a hora pequena
que desprevenido
te colhe e sozinho
na rua ou no catre
em qualquer república;
já não te revoltas
e nem te lamentas,
tampouco procuras
solução benigna
de cristo ou arsênico,
sem nenhum apoio
no chão ou no espaço,
roídos os livros,
cortadas as pontes,
furados os olhos,
a língua enrolada,
os dedos sem tato,
a mente sem ordem,
sem qualquer motivo
de qualquer ação,
tu vives: apenas,
sem saber por quê,
como, para quê,
tu vives: cadáver,
malogro, tu vives,
rotina, tu vives,
tu vives, mas triste
duma tal tristeza
tão sem água ou carme,
tão ausente, vago,
que pegar quisera
na mão e dizer-te:
Amigo, não sabes
que existe amanhã?
Então um sorriso
nascera no fundo
de tua miséria
e te destinara
a melhor sentido.
Exato, amanhã
será outro dia.
Para ele viajas.
Vamos para ele.
Venceste o desgosto,
calcaste o indivíduo,
já teu passo avança
em terra diversa.
Teu passo: outros passos
ao lado do teu.
O pisar de botas,
outros nem calçados,
mas todos pisando,
pés no barro, pés
n’água, na folhagem,
pés que marcham muitos,
alguns se desviam
mas tudo é caminho.
Tantos: grossos, brancos,
negros, rubros pés,
tortos ou lanhados,
fracos, retumbantes,
gravam no chão mole
marcas para sempre:
pois a hora mais bela
surge da mais triste.
841
1
Carlos Drummond de Andrade
Lição de Poupança
Todo aluno tem direito
ao dinheiro do “bolsinho”
para comprar gulodices
e outros gastos fantasistas.
Mas o bolso do uniforme
jamais viu esse dinheiro
fornecido pelos pais.
Fica na tesouraria.
Sexta-feira a gente faz
o pedido por escrito:
“Quero quatro bons-bocados
e um pote de brilhantina”.
Domingo no pátio a hora
de entrega das encomendas:
“Não se encontrou bom-bocado,
aqui estão quatro mães-bentas.
Quanto à brilhantina, excede
o limite do bolsinho
e as dimensões da vaidade.
Poupe mais o seu dinheiro”.
ao dinheiro do “bolsinho”
para comprar gulodices
e outros gastos fantasistas.
Mas o bolso do uniforme
jamais viu esse dinheiro
fornecido pelos pais.
Fica na tesouraria.
Sexta-feira a gente faz
o pedido por escrito:
“Quero quatro bons-bocados
e um pote de brilhantina”.
Domingo no pátio a hora
de entrega das encomendas:
“Não se encontrou bom-bocado,
aqui estão quatro mães-bentas.
Quanto à brilhantina, excede
o limite do bolsinho
e as dimensões da vaidade.
Poupe mais o seu dinheiro”.
1 415
1
Carlos Drummond de Andrade
Lição de Poupança
Todo aluno tem direito
ao dinheiro do “bolsinho”
para comprar gulodices
e outros gastos fantasistas.
Mas o bolso do uniforme
jamais viu esse dinheiro
fornecido pelos pais.
Fica na tesouraria.
Sexta-feira a gente faz
o pedido por escrito:
“Quero quatro bons-bocados
e um pote de brilhantina”.
Domingo no pátio a hora
de entrega das encomendas:
“Não se encontrou bom-bocado,
aqui estão quatro mães-bentas.
Quanto à brilhantina, excede
o limite do bolsinho
e as dimensões da vaidade.
Poupe mais o seu dinheiro”.
ao dinheiro do “bolsinho”
para comprar gulodices
e outros gastos fantasistas.
Mas o bolso do uniforme
jamais viu esse dinheiro
fornecido pelos pais.
Fica na tesouraria.
Sexta-feira a gente faz
o pedido por escrito:
“Quero quatro bons-bocados
e um pote de brilhantina”.
Domingo no pátio a hora
de entrega das encomendas:
“Não se encontrou bom-bocado,
aqui estão quatro mães-bentas.
Quanto à brilhantina, excede
o limite do bolsinho
e as dimensões da vaidade.
Poupe mais o seu dinheiro”.
1 415
1
Adão Ventura
Para um negro
para um negro
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
a cor da pele
é uma sombra
muitas vezes mais forte
que um soco.
para um negro
a cor da pele
é uma faca
que atinge
muito mais em cheio
o coração.
1 371
1
Carlos Drummond de Andrade
Opaco
Noite. Certo
muitos são os astros.
Mas o edifício
barra-me a vista.
Quis interpretá-lo.
Valeu? Hoje
barra-me (há luar) a vista.
Nada escrito no céu,
sei.
Mas queria vê-lo.
O edifício barra-me
a vista.
Zumbido
de besouro. Motor
arfando. O edifício barra-me
a vista.
Assim ao luar é mais humilde.
Por ele é que sei do luar.
Não, não me barra
a vista. A vista se barra
a si mesma.
muitos são os astros.
Mas o edifício
barra-me a vista.
Quis interpretá-lo.
Valeu? Hoje
barra-me (há luar) a vista.
Nada escrito no céu,
sei.
Mas queria vê-lo.
O edifício barra-me
a vista.
Zumbido
de besouro. Motor
arfando. O edifício barra-me
a vista.
Assim ao luar é mais humilde.
Por ele é que sei do luar.
Não, não me barra
a vista. A vista se barra
a si mesma.
1 609
1