Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Fernando Fitas
As vozes e os corpos
Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.
Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.
E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.
E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.
Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.
E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.
E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
740
Fernando Fitas
As vozes e os corpos
Os corpos ergem-se ao sol
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.
Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.
E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.
E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
dão início à caminhada
cada dia começado
nas vozes que se levantam.
Vêm do fundo do tempo
do mais profundo da vida
como farinha de trigo
-sempre amassada sofrida.
E dos longes donde vêm
(tamanha é a lonjura...)
que as vozes estendem-se ao longe
marulhando espaço fora.
E entre montes e cerros
tangem liras suas cordas
que "o cante" estende-se ainda
por vozes que erguem os corpos
e os corpos erguem a vida.
740
Matilde Campilho
Época da Colheita de Lã
Faz hoje um ano e meio que inundaram o canal de Danesdale para dar passagem à procissão dos castores. Ainda estou sem saber como é que se faz um poema mas pelo menos já sei dobrar a roupa. Tenho-me recusado a falar sobre aquelas coisas habituais, como o coração de Deus, a corrida dos gaiatos, a visão macroscópica que incide sobre a dobra dos calções do atleta, o cílio do peixe preto que todos os dias roça o peito do mergulhador das manhãs, o resultado da partida de baseball no Connecticut ou a forma mais correcta de escrever baseball. Acho que o esporte é uma coisa reconfortante porque se realiza sempre sobre um solo fértil e também porque o posso abandonar a qualquer instante ou voltar a ele em qualquer instante. Fred ainda está vivo, ainda limpa o balcão do bar com o pano encardido e sei que sempre que regressar à cidade posso entrar no bar, sentar-me ao balcão e perguntar-lhe sobre a performance de Hank Aaron. Fred sabe tudo sobre o voo. Descobri inúmeros elementos transformadores da vontade, mas também não vou distender-me aqui em palavrões ou frases demasiado compostas só para encontrar um sentido no decorrer da sentença. O melhor pianista do país morreu esta tarde e tinha os cabelos iluminados de fogo. Sônia diz que ele fazia lembrar erupções de querubins no asfalto, Eric não para de chorar. A amendoeira do canal foi rasgada a canivete mas o desenho gravado não é de todo a tatuagem mais feia do mundo. Etc. Etc. Etc.
1 016
Pero da Ponte
Eu Bem Me Cuidava Que Er'avoleza
Eu bem me cuidava que er'avoleza
d'o cavaleiro mancebo seer
escasso muit'e de guardar haver;
mais vej'ora que val muit'escasseza:
ca um cavaleiro sei eu vilam
e torp'e brav[o] e mal barragam,
pero tod'esto lh'encobr'escasseza.
d'o cavaleiro mancebo seer
escasso muit'e de guardar haver;
mais vej'ora que val muit'escasseza:
ca um cavaleiro sei eu vilam
e torp'e brav[o] e mal barragam,
pero tod'esto lh'encobr'escasseza.
734
Pero da Ponte
D'ua Cousa Sõo Maravilhado
D'ũa cousa sõo maravilhado:
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
598
Pero da Ponte
D'ua Cousa Sõo Maravilhado
D'ũa cousa sõo maravilhado:
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
porque se quer home desembargar
por posfaçar muit'e deostar,
e nulh'home nom seer seu pagado.
Eu, por aquesto, bem vos jurarei
que tam mal torpe no mundo nom sei
com'é o torpe mui desembargado.
E quem [nom] se tem por desvergonhado
por dizer sempr'a quantos vir pesar
e pelo mundo nom poder achar
nẽum home que seja seu pagado,
por desembargado nom lhi contarei;
mais, se o vir, vedes que lhi direi:
- Confonda Deus atal desembargado!
Ca o torpe que sempr'anda calado
non'o devem por torpe a razõar,
pois que é torp'e leixa de falar;
e d'atal torpe sõo eu pagado;
mais o mal torpe eu vo-lo mostrarei:
quem diz mal dos que som em cas d'el-rei,
por se meter por mais desembargado.
598
Pero da Ponte
Dom Bernaldo, Pois Tragedes
Dom Bernaldo, pois tragedes
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
742
Pero da Ponte
Dom Bernaldo, Pois Tragedes
Dom Bernaldo, pois tragedes
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
742
Pero da Ponte
Dom Bernaldo, Pois Tragedes
Dom Bernaldo, pois tragedes
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
convosc'ũa tal molher,
a peior que vós sabedes,
se o alguazil souber,
açoutar-vo-la querrá,
e a puta queixar-s'-á,
e vós assanhar-vos-edes.
Mais vós, que tod'entendedes
quant'entende bom segrel,
pera que demo queredes
puta que nom há mester?
Ca vedes que vos fará:
em logar vos meterá
u vergonha prenderedes.
Mais que conselho faredes,
se alguém a 'l-rei disser
ca molher vosco teedes
e a justiçar quiser?
Senom Deus nom lhi valrá;
e vós, a quem pesará,
valer nom lhi poderedes.
E vós mentes nom metedes,
se ela filho fezer,
andando, como veedes,
com algum peom qualquer,
aqual temp'havemos já?
Alguém vos sospeitará
que no filho part'havedes!
742
Pero da Ponte
O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira
O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
558
Pero da Ponte
O Mui Bom Rei Que Conquis a Fronteira
O mui bom rei que conquis a fronteira
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
e acabou quanto quis acabar
e que se fez, com razom verdadeira,
[em] tod'o mundo temer e amar,
este bom rei de prez, valent'e fiz,
rei dom Fernando, bom rei que conquis
terra de mouros, bem de mar a mar.
A quem Deus mostrou tam gram maravilha
que já no mundo sempr'ham que dizer
de quam bem soube conquerer Sevilha
per prez [e] per esforç'e per valer.
E da conquista mais vos contarei:
nom foi no mund'emperador nem rei
que tal conquista podesse fazer.
Nom sei hoj'home tam bem razõado
que podesse contar todo o bem
de Sevilha - e por end', a Deus grado,
já o bom rei em seu podê'la tem!
E mais vos dig': em todas três las Leis,
quantas conquistas foram doutros rei[s],
após Sevilha todo nom foi rem!
Mailo bom rei, que Deus mantém e guia,
e quer que sempre faça o melhor,
este conquis bem a Andaluzia
e nom catou i custa nem pavor.
E direi-vos u a per conquereu:
u Sevilha a Mofamede tolheu
e herdou i Deus e Santa Maria!
E des aquel dia que Deus naceu,
nunca tam bel presente recebeu
como del recebeu aquel[e] dia
de Sam Clement', em que se conquereu,
e em outro tal dia se perdeu,
quatrocentos e nove anos havia.
558
Pero da Ponte
Eu, Em Toledo, Sempr'ouço Dizer
Eu, em Toledo, sempr'ouço dizer
que mui maa [vila] de pescad'é;
mais non'o creo, per bõa fé,
ca mi fui eu a verdad'en saber:
ca, noutro dia, quand'eu entrei i,
bem vos juro que de mia vista vi
a Peixota su u[m] leito jazer.
Endõado bem podera haver
Peixota quen'a quisesse filhar,
ca non'a vi a nulh'home aparar;
e ũa cousa vos quero dizer
(tenh'eu por mui bõa vileza assaz):
ũa Peixota su o leito jaz
e sol nulh'home non'a quer prender.
E se de mim quiserdes aprender
qual part'há de cima em esta sazom,
non'[a] há i, sol lhis vem i salmom;
mais pescad'outro, pera despender,
mui rafec'é, por vos eu nom mentir:
ca vi eu a Peixota remanir
i sô um leit', assi Deus mi perdom.
que mui maa [vila] de pescad'é;
mais non'o creo, per bõa fé,
ca mi fui eu a verdad'en saber:
ca, noutro dia, quand'eu entrei i,
bem vos juro que de mia vista vi
a Peixota su u[m] leito jazer.
Endõado bem podera haver
Peixota quen'a quisesse filhar,
ca non'a vi a nulh'home aparar;
e ũa cousa vos quero dizer
(tenh'eu por mui bõa vileza assaz):
ũa Peixota su o leito jaz
e sol nulh'home non'a quer prender.
E se de mim quiserdes aprender
qual part'há de cima em esta sazom,
non'[a] há i, sol lhis vem i salmom;
mais pescad'outro, pera despender,
mui rafec'é, por vos eu nom mentir:
ca vi eu a Peixota remanir
i sô um leit', assi Deus mi perdom.
467
Pero da Ponte
Quem Seu Parente Vendia
Quem seu parente vendia,
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
tenho que x'o venderia
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
todo por fazer tesouro,
se xe foss'em corredura
e podesse prender mouro,
tenho que x'o venderia
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
bem fidalg'e seu sobrinho,
se tevess'em Santiago
bõa adega de vinho,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
polo poerem no pao,
se pam sobrepost'houvesse,
e lhi chegass'ano mao,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
Quem seu parente vendia,
mui fidalg'e mui loução,
se cavalo sop'houvesse
e lho comprassem por são,
tenho que x'o venderia,
quem seu parente vendia.
526
Pero da Ponte
Quand'eu D'olide Saí
Quand'eu d'Olide saí,
preguntei por Aivar;
e disse-mi log'assi
aquel que foi preguntar:
- Senhor, vós creed'a mi,
que o sei mui bem contar:
Eu vos contarei quant'há daqui a cas Dom Xemeno:
um dia mui grand'há i, e um jantar mui pequeno.
Disse-mi, u me del parti:
- Quero-vos bem conselhar:
a jornada que daqui
vós oi queredes filhar
será grande, pois des i
crás nom é rem o jantar.
Por en vos conto quant'há daqui a cas Dom Xemeno:
um dia mui grand'há i, e um jantar mui pequeno.
preguntei por Aivar;
e disse-mi log'assi
aquel que foi preguntar:
- Senhor, vós creed'a mi,
que o sei mui bem contar:
Eu vos contarei quant'há daqui a cas Dom Xemeno:
um dia mui grand'há i, e um jantar mui pequeno.
Disse-mi, u me del parti:
- Quero-vos bem conselhar:
a jornada que daqui
vós oi queredes filhar
será grande, pois des i
crás nom é rem o jantar.
Por en vos conto quant'há daqui a cas Dom Xemeno:
um dia mui grand'há i, e um jantar mui pequeno.
602
Pero da Ponte
Martim de Cornes Vi Queixar
Martim de Cornes vi queixar
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
de sa molher, a gram poder,
que lhi faz i, a seu cuidar,
torto; mais eu foi-lhi dizer:
- Falar quer'eu i, se vos praz:
Demo lev'o torto que faz
a gram puta desse foder.
[...]
Mais, se vós sodes i de mal sem,
de que lh'apoedes mal prez?
Ca salvar-se pod'ela bem
que nẽum torto nom vos fez;
nem torto nom faz o taful,
quando os dados acha algur,
de os jogar [i] ũa vez.
534
Pero da Ponte
Os de Burgos Som Coitados
Os de Burgos som coitados
- que perderom Pedr'Agudo -
de quem porrám por cornudo;
e disserom os jurados:
- Seja-o Pedro Bodinho,
que est'é nosso vezinho
tam bem come Pedr'Agudo.
E pois que [é d']o concelho
dos cornos apoderado,
quem lhe sair de mandado
fará-lh'el mao trebelho;
ca el, mentr'i for cornudo,
querrá i seer temudo
e da vil'apoderado.
E vedes em que gram brio
el - qui-lo Deus! - há chegado:
por seer cornud'alçado
em tamanho poderio,
home de seu padre filho;
por tanto me maravilho
d'a esto seer chegado.
E creede que em justiça
pod'i mais andá'la terra,
ca se nom fará i guerra
nem mui maa cobiiça;
ca el rogo nunca prende
de cornudos, mais entende
mui bem os foros da terra.
- que perderom Pedr'Agudo -
de quem porrám por cornudo;
e disserom os jurados:
- Seja-o Pedro Bodinho,
que est'é nosso vezinho
tam bem come Pedr'Agudo.
E pois que [é d']o concelho
dos cornos apoderado,
quem lhe sair de mandado
fará-lh'el mao trebelho;
ca el, mentr'i for cornudo,
querrá i seer temudo
e da vil'apoderado.
E vedes em que gram brio
el - qui-lo Deus! - há chegado:
por seer cornud'alçado
em tamanho poderio,
home de seu padre filho;
por tanto me maravilho
d'a esto seer chegado.
E creede que em justiça
pod'i mais andá'la terra,
ca se nom fará i guerra
nem mui maa cobiiça;
ca el rogo nunca prende
de cornudos, mais entende
mui bem os foros da terra.
488
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
309
Pero da Ponte
Mentre M'agora D'al Nom Digo [Nada]
Mentre m'agora d'al nom digo [nada]
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
d'um meu amigo vos quero dizer:
amor sem prol é palavra doada;
de tal amor nom hei eu que fazer,
nem outrossi hei eu por que temer
o desamor, que nom mi há nuzir nada.
Nom me tem'eu já de grand'espadada
que del prenda, nos dias que viver,
nem s'ar tem'el de nulha rem doada
que eu del lev', a todo seu poder;
nem m'ar tem'eu de nunca del prender
jamais bom dom nem bõa espadada.
E quem viu terra tam mal empregada,
nen'a cuida nunca mais a veer?
Que nom merece carta de soldada,
e dá-lh'o Demo terra e poder;
e muitas terras pod'home saber,
mais nunca terra tam mal empregada.
E o que nom val, e podia valer,
este merece sô terra jazer,
mais nom [sô] terra [d]'ũa polegada.
309
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 029
Matilde Campilho
Rio de Janeiro — Lisboa
um dia você
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
adora meus óculos
adoro os teus óculos
no dia seguinte
não quero que venhas na fazenda
três dias antes
você ia adorar este lugar
você quer vir até à fazenda?
um dia eu rasgo
o tecido celular do rosto
realizo um sorriso constante
que atravessa o morro
o ponto mágico do morro
rasgão alegre que fulmina
o veio mínimo da folha
de amendoeira
e pelo feixe de luz tropiquente
vai parar na cara de João
vendedor de suco no leblon
em ricochete João grita açaí!
qualquer dia eu vou e chego
no outro dia
a cidade se aborrece
desdignificada pela
gigante roleta
que se chama medo
o urubu fica empoleirado
na trave enferrujada
daquilo que já foi suporte
ao cartaz que anunciava
o novo mundo das piscinas
fosforescentes
o pássaro suspenso
olhando a via rápida
e catando caca
debaixo da unha
temendo o gira girar
da pequena roda
que circula sorte e azar
um dia você
escreve para seus pais
falando sobre o amor
quarenta dias depois
teus pais te escrevem
falando sobre redes de pesca
e o perigo das redes de pesca
um dia você me envia uma carta
depois a outra
o rasgão explode
recordando ainda outra carta
de alguns meses antes
o postal eterno que dizia
still crazy (after all
these years)
faço voto de silêncio
mas na sacralização
horária das avenidas
eu penso que você
sua mãe e seu pai
conversam muito
sobre peixes
e que isso mantém quieta
a roleta negra
e que isso mantém aparada
a unha do urubu
e que isso faz homenagem
a João e à fruta espessa
que brilha vermelha
em cada copo de minha cidade
um dia você diz que me a****
eu a****-te
no dia seguinte
a amendoeira se expande
e floresce cinco folhas mais
nesse dia reparo
que estamos contribuindo
você e eu
para o florestamento da cidade
de duas cidades
faço voto de silêncio
mas na sacralização horária
da respiração eu penso
que apesar da sala de casino
abrigo da gigante roleta do medo
apesar dos golpes de gmt -3
apesar da fita de seda que fica
ondulando sua medida de 7 800 km
estamos dando utilidade ao amor
alargando os braços das amendoeiras
alargando os braços dos jacarandás
partindo as inúteis linhas de fronteira
e fazendo do mundo
a gigante floresta
1 029
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
355
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
355
Pero da Ponte
Em Almoeda Vi Estar
Em almoeda vi estar
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
hoj'um ric'hom'e diss'assi:
- Quem quer um ric'home comprar?
E nunca i comprador vi
que o quisesse nem em dom,
ca diziam todos que nom
daria[m] um soldo por si.
E deste ric'home quem quer
vos pod'a verdade dizer:
pois nom há prês nẽum mester,
quem querrá i o seu perder?
Ca el nom faz nẽum lavor
de que nulh'hom'haja sabor,
nem sab'adubar de comer.
E u forom polo vender,
preguntarom-no em gram sem:
- Ric'hom', que sabedes fazer?
E o ric'home disse: - Rem;
nom amo custa nem missom,
mais compro mui de coraçom
herdade, se mi a vend'alguém.
E pois el diss'esta razom,
nom houv'i molher nem barom
que por el dar quisesse rem.
355
Pero da Ponte
Que Bem Se Soub'acompanhar
Que bem se soub'acompanhar
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
Nostro Senhor esta sazom!
Que filhou tam bom companhom,
de qual vos eu quero contar:
rei dom Fernando, tam de prez,
que tanto bem no mundo fez
e que conquis de mar a mar!
Tal companhom foi Deus filhar
no bom rei, a que Deus perdom,
que jamais nom disse de nom
a nulh'hom[e] por lh'algo dar,
e que sempre fez o melhor;
por en x'o quis Nostro Senhor
põer consigo par a par!
E quant'home em ele mais falar,
tant'achará melhor razom:
ca, dos reis que forom nem som
no mundo por bom prez ganhar,
este rei foi o melhor rei,
que soub'eixalçar nossa Lei
e a dos mouros abaixar!
Mais u Deus pera si levar
quis o bom rei, i log'entom
se nembrou de nós, poilo bom
rei dom Afonso nos foi dar
por senhor. E bem nos cobrou:
ca, se nos bom senhor levou,
mui bom senhor nos foi leixar!
E Deus bom senhor nos levou!
Mais, pois nos tam bom rei leixou,
nom nos devemos a queixar.
Mais façamos tal oraçom:
que Deus, que prês mort'e paixom,
o mande muito bem reinar.
Amen! Aleluia!
343