Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Horácio Costa
DULCÍMERO E FORMAÇÃO BRASILEIRA
Para João Silvério Trevisan
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
pense em congregar pessoas
para estudar um tópico
que a elas interesse:
o dulcímero
e peça à universidade
e seus oficiais e às fundações
e seus oficiais e a quem
de direito:
queremos estudar o dulcímero
porque ele é fundamental
para a formação brasileira
e sem dúvida haverá compreensão
da universidade e seus oficiais
das fundações e seus oficiais
e de quem de direito
porque sem o dulcímero
não se entende a formação
do Brasil nem de sua gente
e do que seremos quando formos
então está bem estudemos o dulcímero
para evitarmos pedir verba
tutu l’argent recursos
para estudar por exemplo
a homocultura ora bem
a veadagem secular do Brasil
que resultou nesses doze milhões de veados
do Oiapoque ao Chuí
porque aí não estará bem
os oficiais torcerão o nariz
e te darão chá de cadeira e enfim
sempre poderão dizer que o prazo
já passou que o formulário
não foi bem preenchido que a
certidão está caduca e ainda
algo mais como
faltou também pedir para estudar
o dulcímero
senhor professor doutor
sem o dulcímero
não podemos apoiar a sua iniciativa
não é preconceito não
nada de homofobia
menos contra a veadagem
e o senhor:
agora só há verba para estudar
o dulcímero
597
Horácio Costa
Cuneiforme
Continuo “imerso em mim e
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
na água dos meus pensamentos”, mas me interessa
mais do que eles esta praia e mais do que ela em si
a presença das três garças pequenas, brancas
e de olhos amarelos e agourentos e talvez
jovens, que por sua vez muito mais me interessam
do que tratar de compreender alguma “jeune parque”
cujos desígnios -não há porque negá-lo e mais a esta altura-
sempre foram para mim para sempre desconhecidos
não: incognoscíveis. Fiai o que quiserdes, na suave companhia
de vossas viscosas irmãs: confesso que vivi entremeado
a tais fibras o que pensei ter querido e o que
vossa caprichosa e parcíssima escolha nelas soube
mais do que sorrateiramente, incognoscivelmente entremeter.
Ainda, e por falar nas palmípedes três,
convenhamos: atraem-me mais os olhares e a alma
que os oito nada discretos cavalheiros que observo
enquanto as observo, desnudos todos frente ao mar,
ao abrigo entre as pedras deste reino naturista,
no Abricó (diga-se o lugar, pois), Recreio dos Bandeirantes,
Rio de Janeiro, Brasil. Hoje
a praia está ampla, o mar turbulento do outono
perde agora em sua cotidiana labuta
contra a areia. Regozijemo-nos.
Os nudistas, sem dúvida, mais do que
as graças, digo, as garças, me interessam:
enquanto observo estas e penso naquelas (Maillol,
volta ao Museu, não me ocupes neste instante),
confiro se alguém há em ereção, ou se algum par
de casuais amantes neste instante se retira da areia
para esconder-se ainda mais entre as grandes pedras
por líquens cobertas e coroadas por bromélias
e por cujos dorsos escorrem suculentas como sêmen
natural, para dedicar-se, ora está óbvio,
a uma não menos natural seção de homo-sexo,
nefanda segundo o vulgo e, aqui, sur mer,
nada, nada surpreendente:
ninguém que proclividade afim não professe
a esta praia vem, e mais num dia de mar-alto
e vento não tépido, frio, e mais: constante.
Somos previsíveis como a presença das garças
que na extensa língua de areia escavam os seus pitéus.
Os meus são esses que se aninham entre as pedras
por um tempo variavelmente curto ou longo
e que menos do que as garças,
que não as graças e suas parcas primas,
me interessam. Há pouco disse o oposto
e agora percebo tal estratégia do dizer,
que como é sabido muito fingem os poetas
e, por que não, também neste inconclusivo texto
(falso: basta de mentiras).
Também nas duas extremidades visuais
há costões ao oceano expostos:
perfazem algo como um enorme anfiteatro
no qual de fato nada acontece: aqui há monólitos
quase a pique e tão gigantescos que a linha da estrada
em sua silhueta desaparece, quando vistos à distância.
Este é o Mar dos Atlantes num cenário deles digno:
aqui poderiam engalfinhar-se em sua guerra. Mas não.
A ele voltei já faz um tempo, e tanto como à dita
“água do meu pensamento” (já não sei o quanto
nela há de verdade ou se a emana caso exista:
água lustral ou mero torvelinho liqüefazente?
E existirá de fato? Em caso positivo,
nela prossigo imerso ou naufragante?).
Há vinte e cinco anos, em Santa Bárbara, em
outro poema, houve falésias, e um convite que jamais
faria de novo a alguém, nem às garças nem às graças,
nem a nenhum sequer amante: já mais. Je vous en jure.
Minha viagem pela matéria hoje é solitária.
Observo
novamente
as ditas garças.
Sobre a areia em trânsito para o mar
ainda me obceca a impermanente escritura cuneiforme
dos tatibitates pèzitos das gratuitas
aves.
615
Simone Brantes
Às vezes o corpo
Às vezes o corpo é batido
como roupa na máquina de lavar
você fez tantas coisas hoje em casa
que mereciam enriquecer
seu lattes
Mas essa é só a única maneira
que a alma tem às vezes
de sair lavada
como roupa na máquina de lavar
você fez tantas coisas hoje em casa
que mereciam enriquecer
seu lattes
Mas essa é só a única maneira
que a alma tem às vezes
de sair lavada
700
Cida Pedrosa
CÉU DE CONFEITEIRO
uma fatia de céu
é dada
nesta noite de maio
quinhão que cabe ao homem
que da janela espera
a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício
uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda
quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
é dada
nesta noite de maio
quinhão que cabe ao homem
que da janela espera
a urbe apita
e o calor
se faz bruma e precipício
uma fatia de céu
é dada
aos amantes da varanda
quinhão que cabe ao amor
em tempos de luas magras
663
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
925
Cida Pedrosa
fotografia de guerra
o menino de camisa vermelha e sapatinhos
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
marrons estirado na areia do mar gélido da
Turquia migrou para a palavra e se afogou
no meu poema
a menina de moletom rosa-choque
desenhado com delicadas e surradas
borboletas tapando os olhos da boneca
esfarrapada impedindo a visão do tapete de
mortos no chão da Síria impregnou de medo
a palavra e se escondeu no meu poema
as crianças sem cabelo de pupilas
esbugalhadas e nuas estendendo as mãos
sem cor para os visitantes da Somália me
deram a mais difícil aula de anatomia e
ofertaram a palavra fome para o meu poema
925
Cida Pedrosa
MORTE SOB CARBONO
a floresta (dentro
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta
nomes números nódoas
as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário
— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra
as velhas
acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
da sala)
espia o homem
que se apóia na caneta
nomes números nódoas
as velhas esperam
o ventilador gira
o café esfria o bigode do funcionário
— papel poeira pesares
— idades vãs
entre
um documento e outro
um carimbo e outro
uma certidão e outra
as velhas
acertam um grampo na alma
e pactuam um prazo com a morte
710
Cida Pedrosa
O ORIENTE DA CIDADE
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe
entre putas e pombos construí poemas
a cidade era lúcida
a radiola de fichas juntava nossas coxas
os retalhos eram enfeites de salão
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era música
cama de loucos e as mulheres livres
para o copo para o corpo para as ruas
entre pombos e putas construí poemas
a cidade era à prova de balas
a ponte era à prova de sonhos
a dor visitava o capibaribe
entre putas e pombos construí poemas
788
Alexandre Guarnieri
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
753
Alexandre Guarnieri
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
753
Alexandre Guarnieri
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
753
Cida Pedrosa
sombreiro
sombreiro braseiro sombreiro braseiro sombreiro
eiro eiro eiro eito eito eito sombreiro braseiro
sombreiro sombrabrasil sombrabobrasil
sombrabobrasilis brasilis brasilis
brasilis brasilis brasilis
sombrasilis silis
silis silis
sil sil sil
lis
lis
lis
somsemeiranembeira
eiro eiro eiro eito eito eito sombreiro braseiro
sombreiro sombrabrasil sombrabobrasil
sombrabobrasilis brasilis brasilis
brasilis brasilis brasilis
sombrasilis silis
silis silis
sil sil sil
lis
lis
lis
somsemeiranembeira
692
Simone Brantes
Os amigos
1.
Os amigos se encontram tantos anos depois,
os amigos começam a acreditar que os anos
não passaram de certa forma não passaram
ou que o passado está ali tão fácil entrar no
seu círculo encantado os amigos estão maravilhados
com isso e querem marcar outro encontro
os amigos voltam para casa pensando nisso
2.
Um dos amigos tem três lojas de móveis
um dos amigos tem uma loja de roupas
um dos amigos tem dois filhos
um dos amigos também tem dois filhos
os filhos de um dos amigos ainda estão
meio perdidos com suas escolhas profissionais
os filhos de um dos amigos já estão se formando
em medicina no final deste ano
o amigo quer fechar as três lojas de móveis
quando os filhos se formarem
o amigo quer abrir uma loja de
relógios relógios são mercadorias
mais fáceis do que armários modulados
e têm também mais valor agregado
o amigo pai dos filhos que ainda não se
formaram acha que tem ainda muito que trabalhar
os amigos só compram carros com airbags
os amigos moram em casas muito confortáveis
têm muitas histórias do comércio para contar
3.
A amiga é professora de português para
sobreviver
a amiga tem sobrevivido
o que falta aos amigos
não falta à amiga
a amiga tem tempo de sobra
embora seu tempo não sobre nunca
a amiga sempre precisa de
mais tempo
a amiga falou vagamente
nisso
O melhor da noite
foi que ela adorou
as histórias
do comércio
4.
Os amigos prometeram que não demorariam
trinta anos para se encontrar ademais os amigos
sabem que não terão todo esse tempo
os amigos já começam a fazer os cálculos do tempo
razoável que lhes resta e talvez pensem vagamente
que esse desejo de rever esses amigos faça parte
de um desejo de dar passos atrás de arrastar
o tempo para trás ou é possível que pensem
sem muita clareza que há ilhas poças largos
um pequeno enclave ou algo como dobras do tempo
aonde a morte parece não chegar os amigos quando
se encontram de certo modo visitam algo que parece
viver sem a sua presença que parece não depender
mais deles como os filhos que não param de crescer
Os amigos se encontram tantos anos depois,
os amigos começam a acreditar que os anos
não passaram de certa forma não passaram
ou que o passado está ali tão fácil entrar no
seu círculo encantado os amigos estão maravilhados
com isso e querem marcar outro encontro
os amigos voltam para casa pensando nisso
2.
Um dos amigos tem três lojas de móveis
um dos amigos tem uma loja de roupas
um dos amigos tem dois filhos
um dos amigos também tem dois filhos
os filhos de um dos amigos ainda estão
meio perdidos com suas escolhas profissionais
os filhos de um dos amigos já estão se formando
em medicina no final deste ano
o amigo quer fechar as três lojas de móveis
quando os filhos se formarem
o amigo quer abrir uma loja de
relógios relógios são mercadorias
mais fáceis do que armários modulados
e têm também mais valor agregado
o amigo pai dos filhos que ainda não se
formaram acha que tem ainda muito que trabalhar
os amigos só compram carros com airbags
os amigos moram em casas muito confortáveis
têm muitas histórias do comércio para contar
3.
A amiga é professora de português para
sobreviver
a amiga tem sobrevivido
o que falta aos amigos
não falta à amiga
a amiga tem tempo de sobra
embora seu tempo não sobre nunca
a amiga sempre precisa de
mais tempo
a amiga falou vagamente
nisso
O melhor da noite
foi que ela adorou
as histórias
do comércio
4.
Os amigos prometeram que não demorariam
trinta anos para se encontrar ademais os amigos
sabem que não terão todo esse tempo
os amigos já começam a fazer os cálculos do tempo
razoável que lhes resta e talvez pensem vagamente
que esse desejo de rever esses amigos faça parte
de um desejo de dar passos atrás de arrastar
o tempo para trás ou é possível que pensem
sem muita clareza que há ilhas poças largos
um pequeno enclave ou algo como dobras do tempo
aonde a morte parece não chegar os amigos quando
se encontram de certo modo visitam algo que parece
viver sem a sua presença que parece não depender
mais deles como os filhos que não param de crescer
621
Simone Brantes
order in chaos
Meu relógio tem ponteiros soltos
os compromissos caem
e ficam no chão
De tempos em tempos
olho para eles
e lhes dou esperança
no meu relógio meu dia
é metade noite
minha noite
metade dia
os compromissos caem
e ficam no chão
De tempos em tempos
olho para eles
e lhes dou esperança
no meu relógio meu dia
é metade noite
minha noite
metade dia
679
Horácio Costa
A rã
Sim, naquele volet gauche
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
Da visão terrível do El Bosco
Lá nas Janelas Verdes,
Bem sobre o Mar da Palha
Sim, em Lisboa,
Ulissipona, Lixbona,
Lá vive extirpada do Paraíso
(No volet droit)
E num delírio de deslugar
Sem topografia nem imaginário
Mas com epistemé epistemé,
Lá, enfim, vestida de batráquio,
De meio ostra também
Ou pró-dinossáuria
Só que com as asas arrancadas
E inda por cima com pelezinha
Cor-de-rosa e clorofila,
As penas rasuradas
Por um profissional da imagem,
Com a boca que vc conhece,
Baconiana sim,
Bem baconiana,
Sem cérebro,
Estricnina,
A-que-volta-sempre,
A-mais-presente-que-aspirina,
A-pós-impoluta,
A-da-abadia,
A-do-puteiro,
A-que-diz-que-disse,
A linguaruda,
Densa de glossolalia,
Deusa da glossolalia,
A Rão.
Também vive na equação comum,
Fractal.
Às vezes me visita.
De tamancos. Sempre de tamancos.
Depois de comer muito alho,
Muito alho sempre.
E bafeja:
Às vezes retenho caligrama,
Se não os esqueço
Ou sublimo.
A Rã não me quer
E nem a ti
Nem a si
Nem ninguém.
Quando visita
Esqueço o linóleo abacate,
Os pés da menininha,
O formulário.
E desisto
Da água.
Creio que
Isto lhe faz gosto:
Mantém-me com a boca seca
E sem beber
E quando lhe lambo
Os flancos orvalhados
A Rão retorce-se de gozo.
800
Horácio Costa
Caixa de água azul
Entre a ramagem da árvore desconhecida,
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
Caducifólia, nem de Jessé ou genealógica,
Um volume azul sobre uma laje, caixa de água
De polietileno ou poliuretano.
Notação distante na paisagem urbana,
Obsedante recordação no agora-agora,
Calle Río Poo 108, Colonia Cuauhtémoc,
Suites Parioli, México, Capital.
O mar, não. O mar, não. O mar, não. O mar, não.
Um exagero de zéfiros, então: o expresso
Descia a serra em Simcas-Chambord tangerina,
Rumo à baía divisada entre montanhas:
Ao longe, o porto e as torres, guindastes e praias;
Ao pé a pantanosa terra, como espaguete, úmida.
O talento da oitava real quereríamos,
O seu sempre imarcescível horizonte.
Nele seguia a senhora duas vezes por ano,
Qual a ordem das vogais, dos ritos identitários,
às vilegiaturas; se lhe encolhera
o mundo à mínima possível transumância.
Para lá da paisagem, a sós uiva o engenho,
Aquilo que em linguagem transforma a língua.
A árvore que se agita em eterno lenho
Enraíza no presente o espectro que míngua.
Ia a senhora, olhos de pomba, um único anel
De coral; cruzou-se a morte entre ela e o poema.
O mar, não. Caixa de água azul entre prédios alheios.
Este o horizonte, marchetado em fragmentos,
Reduzido a um puzzle no qual o montador
A si se vê como uma das peças faltantes.
O agora não sabe o que diz: memoria vincitrix.
Desce uma vez mais o expresso a estrada de Santos.
710
Alexandre Guarnieri
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
656
Alexandre Guarnieri
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
656
Alexandre Guarnieri
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
656
Alexandre Guarnieri
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
656
Alexandre Guarnieri
música de trabalho
enquanto dura a jornada diurna, um barulhário,
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
581
Alexandre Guarnieri
música de trabalho
enquanto dura a jornada diurna, um barulhário,
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
mas fora das fábricas, talvez o sono do operário
solitário o reconstrua quase à integralidade,
invadindo os tímpanos, sincopando, o ritornello
reclamado ad aeternum, um dentre tantos outros
pesadelos: o augúrio do contrato de trabalho.
nem sempre é gratuitamente lúgubre, ou longa,
a música regulatória da vida útil (nula, reclusa)
dos metalúrgicos na indústria, símiles a refis
vazios, ou quaisquer outros receptáculos defla-
grados, quando entregam dedo à fresa, vi-
nagre o sangue acre, tétano ou qualquer febre,
fusíveis sem brio ou viço, descartados, pinos
que por dispensáveis: necessário substituí-los.
581
Cida Pedrosa
diáspora
abro os olhos
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
e a quarta-feira é cinza
as taras da noite me perseguem
neste quarto de hotel
é bom acordar sem deus
descer a rua
e ver o mesmo flanelinha no ofício
diáspora
palavra que me segue
sem pedir perdão
sou retalho carne dilacerada
fragmento escuridão
abro as pernas no sinal
os carros passam
e o vento leva pó para o meu rosto
a noite chega
a quarta-feira é cinza
e faz tanto tempo que me perdi de mim
845
Horácio Costa
Paisagem II
Sentado nesta bergère de courvin
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
sinto o poema chegar com ainda
menos urgência do que parece
condensarem-se as nuvens sobre a paisagem
que se descortina deste hospital
debruçado sobre a mais insípida
autopista ou avenida de fundo de vale
- que cada cidade tenha as suas
características é mais do que natural
e Dubai e Oslo só se encontram
por terem topônimos bissílabos-
e tais artérias são o próprio desta
na qual por bem nasci e na qual
se me for dado imprimir sobre
o meu devir bizarro a vontade
minha, hei de morrer e talvez
em algum espaço medical como este
e sempre na observação de plúmbeas
vastas nuvens, que obrigam recordar
a proximidade da serra e sua
exsudação e abaixo o sujo mar
per elas responsável, pai
esquecidiço e insolidário quem
nos filia a cada estação e quem
nos manda carícias sob forma de
sazonais monções.
Mudo
de posição como em Apipucos
Freyre o faria em outra bergère
mas não diviso sequer mentalmente
nenhum engenho de nome Noruega
na noite que se acende e sim
apenas o estertor de uma cidade
nem libertina nem libertária
nem escarrapachada em indolentes redes
mas que no supino anonimato garante
o quociente de cada habitante seu
à liberdade de escolha, dentro
dos limites xadrezes entre prédios
e vales e parcos parques e não mais.
Que
não se confunda tal simples solaz
ao exercício contumaz da fantasia:
aqui não cortam os ares de Batman
a capa nem Quasímodo horrendo
se esconde em nossa Sé e nem Rachel
Watson ou Esmeralda belas apeiam-se
dos incessantes vagões na Liberdade.
Há dias sinto emergir este poema
e serão tais nuvens baixas quem
o traz e de onde aportará que não
da sensação experimentada dia a dia
do perviver este espaço dia com dia
no fluxo de um rio ao inverso?
A hibridez do texto corresponde-lhe
e a mim, e ao desejo de plasmar-me
nele e nela e repetir e repetir
que a cidade que tudo isto origina
será o meu espelho colinado
e meus nervos e meu sangue
estas luzes que diviso mental e real-
mente, agora que a sobrevôo não
em rés búdico, que bem o quisera,
mas para começar a terminar
este registro que inda tarda.
As raízes do fícus, gigantescas,
entre as pistas da auto-bahn
esperam quem nelas se aninhe
e ao pé da copa frondosíssima,
como Buda, se ilumine; as encostas
lá embaixo, sulcadas entre bairros
de espigões, talvez possam sugerir
semi-aconcáguas aos do montanhismo
entusiastas, que por aqui transitem
e aos médicos, o vislumbre da
distante cúpula da Catedral, cujos
bronzes estão cobertos por cinábrio,
o bimbalar mouco de sinos em toque
fúnebre, que lhes imprima o significado
da vida de cada um de seus pacientes:
velhos imigrantes portugueses, mães
nordestinas deixadas por seus machos,
nisseis que se expressam por sorrisos
e o significado da minha vida em
particular, quase um gondoleiro âgé
neste Rialto em pane, vestido
com esta improvável camiseta
listrada de azul e branco e por hora
sentado a escrever este poema
nesta bergère de courvin
impessoalíssima e com os seus olhos
rasos d’água, como deve ser, enquanto
reflito sobre São Paulo e sua gente
neste pavilhão de funcionalidade
hospitalar, edificado num barranco
íngreme não: cânion sobre uma artéria
aberta no fundo de um vale coberto
por nuvens nuvens nuvens.
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