Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Afonso X
O Que Foi Passar a Serra
O que foi passar a serra
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
maldito seja!
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
maldito seja!
e nom quis servir a terra,
é ora, entrant'a guerra,
que faroneja?
Pois el agora tam muit'erra,
maldito seja!
O que levou os dinheiros
e nom troux'os cavaleiros,
é por nom ir nos primeiros
que faroneja?
Pois que vem cõn'os prostumeiros,
maldito seja!
O que filhou gram soldada
e nunca fez cavalgada,
é por nom ir a Graada
que faroneja?
Se é ric'hom'ou há mesnada,
maldito seja!
O que meteu na taleiga
pouc'haver e muita meiga,
é por nom entrar na Veiga
que faroneja?
Pois chus mol é [el] que manteiga,
maldito seja!
937
Afonso X
Ua Pregunta Vos Quero Fazer
- Ũa pregunta vos quero fazer,
senhor, que mi devedes afazer:
por que viestes jantares comer,
que home nunca de vosso logar
comeu? [E] esto que pode seer,
ca vej'ende os herdeiros queixar?
- Pa[a]i Gómez, quero-vos responder,
por vos fazer a verdade saber:
houv[e] aqui reis de maior poder
[em] conquerer e em terras ganhar,
mais nom quem houvesse maior prazer
de comer, quando lhi dam bom jantar.
- Senhor, por esto nom dig'eu de nom,
de bem jantardes, ca é gram razom;
mailos herdeiros foro de Leon
querriam vosco, porque ham pavor
d'haver sobre lo seu vosc'entençom
e xe lhis parar outr'ano peior.
- Pa[a]i Gómez, assi Deus mi perdom,
mui gram temp'há que nom foi em Carriom,
nem mi derom meu jantar em Monçom;
e por esto nom sõo pecador,
de comer bem, pois mi o dam em doaçom,
ca de mui bom jantar hei gram sabor.
senhor, que mi devedes afazer:
por que viestes jantares comer,
que home nunca de vosso logar
comeu? [E] esto que pode seer,
ca vej'ende os herdeiros queixar?
- Pa[a]i Gómez, quero-vos responder,
por vos fazer a verdade saber:
houv[e] aqui reis de maior poder
[em] conquerer e em terras ganhar,
mais nom quem houvesse maior prazer
de comer, quando lhi dam bom jantar.
- Senhor, por esto nom dig'eu de nom,
de bem jantardes, ca é gram razom;
mailos herdeiros foro de Leon
querriam vosco, porque ham pavor
d'haver sobre lo seu vosc'entençom
e xe lhis parar outr'ano peior.
- Pa[a]i Gómez, assi Deus mi perdom,
mui gram temp'há que nom foi em Carriom,
nem mi derom meu jantar em Monçom;
e por esto nom sõo pecador,
de comer bem, pois mi o dam em doaçom,
ca de mui bom jantar hei gram sabor.
767
Airas Nunes
O Meu Senhor o Bispo, Na Redondela, Um Dia
O meu senhor o bispo, na Redondela, um dia,
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
de noit'e com gram medo, de desonra fogia;
eu, indo-mi aguisando por ir com el mia via,
achei ũa companha assaz brava e crua
que me decerom logo de cima da mia mua:
azêmela e cama levarom-na por sua.
E des que eu nacera nunca entrara em lide;
[e] pero que já fora cabo Valedolide
escovardoas muitas fezerom em Molide.
E ali me lançarom a mim a falcatrua;
a meus 'scudeiros [em] cage o Churruchão [assua]
e atá aos sergentes, ca som gente befua.
Ali me desbulharom do tabardo e dos panos
e nom houverom vergonha dos meus cabelos canos,
nem me derom por ende grã[a]s nem adianos:
leixarom-me qual fui nado no meio da rua;
e um rapaz tinhoso, que há de par em 'strua,
chamava-mi "minhana, velha fududancua!"
680
Afonso X
Rei D. Afonso, Se Deus Vos Perdom
- Rei D. Afonso, se Deus vos perdom,
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
723
Afonso X
Rei D. Afonso, Se Deus Vos Perdom
- Rei D. Afonso, se Deus vos perdom,
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
723
Afonso X
Rei D. Afonso, Se Deus Vos Perdom
- Rei D. Afonso, se Deus vos perdom,
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
desto vos venho [a vós] preguntar;
[si]quer ora punhade de mi dar
tal recado, que seja com razom:
quem dá seu manto, que lho guard'alguém,
e lho não dá tal qual o deu, por en
que manda [i] o Livro de Leon?
- Dom Vaasco, eu fui já clerizom
e Degreda soía estudar;
e nas escolas u soía entrar
dos maestres aprendi tal liçom:
que manto d'outrem nom filhe per rem;
mais se o m'eu melhoro, faço bem,
e nom sõo por aquesto ladrom.
- Rei Dom Afonso, ladrom por atal
em nulha terra nunca chamar vi,
nem vós, senhor, non'o oístes a mim,
ca, se o dissesse, diria mal;
ante [o] tenho por trajeitador
(se Deus mi valha, nunca vi melhor)
quem assi torna pena de cendal.
- Dom Vaasco, dizer-vos quer'eu al
daqueste preito, que eu aprendi:
oí dizer que trajeitou assi
já ũa vez um rei em Portugal:
houve um dia de trajeitar sabor
e por se meter por mais sabedor,
fez [alguém] cavaleiro do Hespital.
723
Airas Nunes
Porque No Mundo Mengou a Verdade
Porque no mundo mengou a verdade,
punhei um dia de a ir buscar,
e, u por ela fui [a] preguntar,
disserom todos: - Alhur la buscade,
ca de tal guisa se foi a perder
que nom podemos en novas haver,
nem já nom anda na irmaindade.
Nos moesteiros dos frades negrados
a demandei, e disserom-m'assi:
- Nom busquedes vós a verdad'aqui,
ca muitos anos havemos passados
que nom morou nosco, per bõa fé,
[nem sabemos u ela agora x'é,]
e d'al havemos maiores coidados.
E em Cistel, u verdade soía
sempre morar, disserom-me que nom
morava i havia gram sazom,
nem frade d'i já a nom conhocia,
nem o abade outrossi, no estar,
sol nom queria que foss'i pousar,
e anda já fora d[a] abadia.
Em Santiago, seend'albergado
em mia pousada, chegarom romeus.
Preguntei-os e disserom: - Par Deus,
muito levade'lo caminh'errado!
Ca, se verdade quiserdes achar,
outro caminho convém a buscar,
ca nom sabem aqui dela mandado.
punhei um dia de a ir buscar,
e, u por ela fui [a] preguntar,
disserom todos: - Alhur la buscade,
ca de tal guisa se foi a perder
que nom podemos en novas haver,
nem já nom anda na irmaindade.
Nos moesteiros dos frades negrados
a demandei, e disserom-m'assi:
- Nom busquedes vós a verdad'aqui,
ca muitos anos havemos passados
que nom morou nosco, per bõa fé,
[nem sabemos u ela agora x'é,]
e d'al havemos maiores coidados.
E em Cistel, u verdade soía
sempre morar, disserom-me que nom
morava i havia gram sazom,
nem frade d'i já a nom conhocia,
nem o abade outrossi, no estar,
sol nom queria que foss'i pousar,
e anda já fora d[a] abadia.
Em Santiago, seend'albergado
em mia pousada, chegarom romeus.
Preguntei-os e disserom: - Par Deus,
muito levade'lo caminh'errado!
Ca, se verdade quiserdes achar,
outro caminho convém a buscar,
ca nom sabem aqui dela mandado.
870
Afonso X
Domingas Eanes Houve Sa Baralha
Domingas Eanes houve sa baralha
com uum genet', e foi mal ferida;
empero foi ela i tam ardida
que houve depois a vencer, sem falha,
e, de pram, venceu bõo cavaleiro;
mais empero era-x'el tam braceiro
que houv'end'ela de ficar colpada.
O colbe [a] colheu per ũa malha
da loriga, que era desmentida;
e pesa-m'ende, porque essa ida,
de prez que houve mais, se Deus me valha,
venceu ela; mais [pel]o cavaleiro,
per sas armas e per com'er'arteiro,
já sempr'end'ela seerá sinalada.
E aquel mouro trouxe, con'o veite,
dous companhões em toda esta guerra;
e de mais há preço que nunca erra
de dar gram colpe com seu tragazeite;
e foi-a achar come costa juso,
e deu-lhi por en tal colpe de suso
que já a chaga nunca vai cerrada.
E dizem meges que usam tal preite
que atal chaga jamais nunca cerra,
se com quanta lã há em esta terra
a escaentassem, nem cõn'o azeite;
porque a chaga nom vai contra juso,
mais vai em redor, come perafuso,
e por en muit'há que é fistolada.
com uum genet', e foi mal ferida;
empero foi ela i tam ardida
que houve depois a vencer, sem falha,
e, de pram, venceu bõo cavaleiro;
mais empero era-x'el tam braceiro
que houv'end'ela de ficar colpada.
O colbe [a] colheu per ũa malha
da loriga, que era desmentida;
e pesa-m'ende, porque essa ida,
de prez que houve mais, se Deus me valha,
venceu ela; mais [pel]o cavaleiro,
per sas armas e per com'er'arteiro,
já sempr'end'ela seerá sinalada.
E aquel mouro trouxe, con'o veite,
dous companhões em toda esta guerra;
e de mais há preço que nunca erra
de dar gram colpe com seu tragazeite;
e foi-a achar come costa juso,
e deu-lhi por en tal colpe de suso
que já a chaga nunca vai cerrada.
E dizem meges que usam tal preite
que atal chaga jamais nunca cerra,
se com quanta lã há em esta terra
a escaentassem, nem cõn'o azeite;
porque a chaga nom vai contra juso,
mais vai em redor, come perafuso,
e por en muit'há que é fistolada.
567
Afonso X
O Que da Guerra Levou Cavaleiros
O que da guerra levou cavaleiros
e a sa terra foi guardar dinheiros,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
nom vem al maio.
O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
nom vem al maio.
O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
nom vem al maio.
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
nom vem al maio.
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
nom vem al maio.
O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
nom vem al maio.
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al maio.
e a sa terra foi guardar dinheiros,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
nom vem al maio.
O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
nom vem al maio.
O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
nom vem al maio.
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
nom vem al maio.
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
nom vem al maio.
O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
nom vem al maio.
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al maio.
1 005
Afonso X
O Que da Guerra Levou Cavaleiros
O que da guerra levou cavaleiros
e a sa terra foi guardar dinheiros,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
nom vem al maio.
O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
nom vem al maio.
O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
nom vem al maio.
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
nom vem al maio.
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
nom vem al maio.
O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
nom vem al maio.
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al maio.
e a sa terra foi guardar dinheiros,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com maldade
e a sa terra foi comprar herdade,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com nemiga
pero nom veo quand'é preitesia,
nom vem al maio.
O que tragia o pano de linho
pero nom veo polo Sam Martinho,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom [sem] cinco
e [e]no dedo sem pedra o vinco,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem oito
e a sa gente nom dava pam coito,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem sete
e cinta ancha e mui gram topete,
nom vem al maio.
O que tragia o pendom sem tenda,
per quant'agora sei de sa fazenda,
nom vem al maio.
O que com medo se foi dos martinhos
e a sa terra foi bever los vinhos,
nom vem al maio.
O que com medo fugiu da fronteira,
pero tragia pendom sem caldeira,
nom vem al maio.
O que roub[ava] os mouros malditos
e a sa terra foi roubar cabritos,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com espanto
e a sa terra ar foi armar manto,
nom vem al maio.
O que da guerra se foi com gram medo
contra sa terra, espargendo vedo,
nom vem al maio.
O que tragia pendom de cadarço,
macar nom veo en[o] mês de Março,
nom vem al maio.
O que da guerra [se] foi recreúdo,
macar em Burgos fez pintar escudo,
nom vem al maio.
1 005
Afonso X
Maria Pérez Vi Muit'assanhada
[Maria Pérez vi muit'assanhada,]
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
porque lhi rogavam que perdoasse
Pero d'Ambroa, que o nom matasse,
nem fosse contra el desmesurada.
E diss'ela:- Por Deus, nom me roguedes,
ca direi-vos de mim o que i entendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
Ca [me] rogades cousa desguisada
e nom sei eu quem vo-lo outorgasse:
de perdoar quen'o mal deostasse
com'el fez a mim, estando em sa pousada.
E pois vejo que me nom conhocedes,
de mi atanto vos irei dizendo:
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E se m'eu quisesse seer viltada
bem acharia quem xe me viltasse;
mais, se m'eu taes nom escarmentasse,
cedo meu preito nom seeria nada;
e em sa prol nunca me vós faledes
ca, se eu soubesse, morrer'ardendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
E por esto é grande a mia nomeada,
ca nom foi tal que, se migo falhasse,
que en[d'] eu mui bem [o] nom castigasse,
ca sempre fui temuda e dultada;
e rogo-vos que me nom afiquedes
daquesto, mais ide-m'assi sofrendo;
se ũa vez assanhar me fazedes,
saberedes quaes pêras eu vendo.
657
Afonso X
O Genete
O genete
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
pois remete
seu alfaraz corredor
estremece
e esmorece
o coteife com pavor.
Vi coteifes orpelados
estar mui mal espantados
e genetes trosquiados
corriam-nos arredor;
tinham-nos mal aficados
[ca] perdian'a color.
Vi coteifes de gram brio
eno meio do estio
estar tremendo sem frio
ant'os mouros d'Azamor;
e ia-se deles rio
que Auguadalquivir maior.
Vi eu de coteifes azes,
com infanções iguazes,
mui peores ca rapazes;
e houveram tal pavor,
que os seus panos d'arrazes
tornarom doutra color.
Vi coteifes com arminhos,
conhecedores de vinhos,
e rapazes dos martinhos
que nom tragiam senhor
sairom aos mesquinhos,
e fezerom o peor.
Vi coteifes e cochões
com mui [mais] longos granhões
que as barvas dos cabrões:
[e] ao som do atambor
os deitavam dos arções
ant'os pees de seu senhor.
677
Afonso X
Cirola Vi [Eu] Andar-Se Queixando
Cirola vi [eu] andar-se queixando
de que lhi nom da[va]m sas quitações;
mais, des que [eu] oí bem sas razões
[e] ena conta foi mentes parando,
log'atentei que nom dissera rem
[c]a era já quite de todo bem:
por en faz mal d'andar-s'assi queixando.
E queixa-se-m'el muitas de vegadas
dos escrivães e dos despenseiros
[.....................................];
mais, pois vêem a[s] contas aficadas,
logo lhi mostram bem do que quit'é;
e pero digo-lh'eu que [o] mal é
de quen'o quitou muitas de vegadas.
E por levá'la quitaçom dobrada
se [me] queixou; e catei u jazia
eno padrom, e achei que havia
de todo bem sa quitaçom levada;
por en faz mal, que nom pode peor;
mais tant'há el de quitaçom sabor,
que a nega, pero x'a leva dobrada.
de que lhi nom da[va]m sas quitações;
mais, des que [eu] oí bem sas razões
[e] ena conta foi mentes parando,
log'atentei que nom dissera rem
[c]a era já quite de todo bem:
por en faz mal d'andar-s'assi queixando.
E queixa-se-m'el muitas de vegadas
dos escrivães e dos despenseiros
[.....................................];
mais, pois vêem a[s] contas aficadas,
logo lhi mostram bem do que quit'é;
e pero digo-lh'eu que [o] mal é
de quen'o quitou muitas de vegadas.
E por levá'la quitaçom dobrada
se [me] queixou; e catei u jazia
eno padrom, e achei que havia
de todo bem sa quitaçom levada;
por en faz mal, que nom pode peor;
mais tant'há el de quitaçom sabor,
que a nega, pero x'a leva dobrada.
521
Afonso X
Ua Pregunta Quer'a 'L-Rei Fazer
- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
611
Afonso X
Ua Pregunta Quer'a 'L-Rei Fazer
- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
611
Afonso X
Ua Pregunta Quer'a 'L-Rei Fazer
- Ũa pregunta quer'a 'l-rei fazer,
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
que se sol bem e aposto vistir:
porque foi el pena veira trager
velha 'm bom pan'? E queremos riir
eu e Gonçalo Martins, que é
home muit'aposto, per bõa fé,
e ar querê-lo-emos en cousir.
- Garcia Pérez, vós bem cousecer
podedes: nunca, de pram, foi falir
em querer eu pena veira trager
velha em corte, nen'a sol cobrir;
pero, de tanto, bem a salvarei:
nunca me dela em corte paguei,
mais estas guerras nos fazem bulir.
- Senhor, mui bem me vos fostes salvar
de pena veira que trager vos vi;
e pois de vós a queredes deitar,
se me creverdes, faredes assi:
mandade log'est'e nom haja i al:
deita[de-a] log'em um muradal,
ca peior pena nunca desta vi.
- Garcia Pérez, nom sabedes dar
bom conselho, per quanto vos oí,
pois que me vós conselhades deitar
em tal logar esta pena; ca 'ssi,
[se] o fezesse, faria mui mal;
e muito tenh'ora que mui mais val
em dá-la eu a um coteif'aqui.
611
Afonso X
Direi-Vos Eu D'um Ric'home
Direi-vos eu d'um ric'home
de com'aprendi que come:
mandou cozer o vil home
meio rabo de carneiro
- assi com'o cavaleiro.
E outro meio filhou,
e peiteá-lo mandou,
[e] ao colo o atou,
tal que o nom aolhasse
quen'o visse e o catasse.
E pois ali o liou,
estendeu-se e bucijou;
por ũa velha enviou,
que o veesse escantar
d'olho mao de manejar.
A velha e[n] diss'atal:
- Daquesto foi, que nom d'al:
de que comestes mui mal.
E começou de riir
muito del [e] escarnir.
Nun'Eanes diss'assi:
- Fiinda mester há i.
Dom Afonso diss'atal:
- Faça-xo quem faz o al.
de com'aprendi que come:
mandou cozer o vil home
meio rabo de carneiro
- assi com'o cavaleiro.
E outro meio filhou,
e peiteá-lo mandou,
[e] ao colo o atou,
tal que o nom aolhasse
quen'o visse e o catasse.
E pois ali o liou,
estendeu-se e bucijou;
por ũa velha enviou,
que o veesse escantar
d'olho mao de manejar.
A velha e[n] diss'atal:
- Daquesto foi, que nom d'al:
de que comestes mui mal.
E começou de riir
muito del [e] escarnir.
Nun'Eanes diss'assi:
- Fiinda mester há i.
Dom Afonso diss'atal:
- Faça-xo quem faz o al.
631
Afonso X
Joam Rodriguiz, Vejo-Vos Queixar
Joam Rodriguiz, vejo-vos queixar
[...]
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!
[...]
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!
542
Afonso X
Joam Rodriguiz, Vejo-Vos Queixar
Joam Rodriguiz, vejo-vos queixar
[...]
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!
[...]
E com'homem que quer mal doitear
seus naturaes, sol non'o provedes:
ca nom som mais de dous, e haveredes-
-los a perder polos muito afrontar;
e sobr'esto vos dig'eu ora al:
daquestes dous, o que en meos val
vos fará gram mêngua, se o perdedes.
E se queredes conselho filhar,
creede-m'or', e bem vos acharedes:
nunca muito de vó-l'os alonguedes,
ca nom podedes outros taes achar
que vos nom conhoscam quem sodes nem qual;
e se vos destes dous end'ũum fal,
que por minguado que vos en terredes!
542
Afonso X
Vi Um Coteife de Mui Gram Granhom
Vi um coteife de mui gram granhom
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
com seu porponto, mais nom d'algodom,
e com sas calças velhas de branqueta.
E dix'eu logo: - Poilas guerras som,
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mao, val[a]di,
com seu perponto - nunca peior vi,
ca nom quer Deus que s'el em outro meta.
E dix'eu: - Pois las guerras [já som i]
ai que coteife pera a carreta!
Vi um coteife mal guisad'e vil,
com seu perponto todo de pavil
e o cordom d'ouropal por joeta.
E dix'eu: - Pois se vai o aguazil,
ai que coteife pera a carreta!
644
Afonso X
Dom Foão, Quand'ogan'aqui Chegou
Dom Foão, quand'ogan'aqui chegou
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
primeirament'e viu volta e guerra,
tam gram sabor houve d'ir a sa terra
que log'entom por adail filhou
seu coraçom; e el fez-lh'i leixar,
polo mais toste da guerr'alongar,
prez e esforço - e passou a serra.
Em esto fez come de bõo sem:
em filhar adail que conhocia,
que estes passos maos bem sabia,
e el guardou-o log'entom mui bem
deles e fez-l[h]'i de destro leixar
lealdad'e de seestro lidar
[...........................ia].
O adail e[ra] mui sabedor,
que o guiou per aquela carreira:
porque [o] fez desguiar da fronteira
e em tal guerra leixar seu senhor;
e direi-vos al que lh'i fez leixar:
bem que pudera fazer por ficar,
feze-o poer além Talaveira.
Muito foi ledo, se Deus me perdom,
quando se viu daqueles passos fora
que vos já dix', e diss'em essa hora:
- Par Deus, adail, muit'hei gram razom
de sempr'em vós mia fazenda leixar,
ca nom me mova d[aqu]este logar
se jamais nunca cuidei passar Lora!
E ao Demo vou acomendar
prez deste mundo, e armas, e lidar,
ca nom é jog'o de que homem chora.
354
Afonso X
Nom Me Posso Pagar Tanto
Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
392
Afonso X
Nom Me Posso Pagar Tanto
Nom me posso pagar tanto
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
do canto
das aves nem de seu som
nem d'amor nem de missom
nem d'armas - ca hei espanto
por quanto
mui perigo[o]sas som
- come d'um bom galeom
que mi alongue muit'aginha
deste demo da campinha,
u os alacrães som;
ca dentro, no coraçom,
senti deles a espinha.
E juro par Deus lo santo
que manto
nom tragerei, nem granhom,
nem terrei d'amor razom,
nem d'armas, porque quebranto
e chanto
vem delas tod'a sazom;
mais tragerei um dormom,
e irei pela marinha
vendend'azeite e farinha,
e fugirei do poçom
do alacrã, ca eu nom
lhi sei outra meezinha.
Nem de lançar a tavolado
pagado
nom sõo, se Deus m'ampar,
adés, nem de bafordar;
e andar de noute armado,
sem grado
o faço, e a roldar;
ca mais me pago do mar
que de seer cavaleiro;
ca eu foi já marinheiro
e quero-m'oimais guardar
do alacrã, e tornar
ao que me foi primeiro.
E direi-vos um recado:
pecado
já me nom pod'enganar
que me faça já falar
em armas, ca nom m'é dado
- doado
m'é de as eu razõar,
poilas nom hei a provar;
ante quer'andar sinlheiro
e ir come mercadeiro
algũa terra buscar
u me nom possam culpar
alacrã negro nem veiro.
392
Afonso X
De Grado Querria Ora Saber
De grado querria ora saber
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
[E] outrossi lhis ar vejo trager
as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.
destes que tragem saias encordadas,
em que s'apertam mui poucas vegadas,
se o fazem polos ventres mostrar,
porque se devam deles a pagar
sas senhores, que nom têm pagadas.
Ai Deus! Se me quisess'alguém dizer
por que tragem estas cintas sirgadas
muit'anchas, come molheres prenhadas:
se cuidam eles per i gaanhar
bem das com que nunca sabem falar,
ergo nas terras se som bem lavradas.
Encobrir nom vo-lhos vejo fazer,
cõn'as pontas dos mantos trastornadas,
em que semelham os bois das ferradas
quando as moscas los vêem coitar;
Deus!, se as cuidam per i d'enganar,
que sejam deles por en namoradas.
[E] outrossi lhis ar vejo trager
as mangas mui curtas e esfra[lda]das,
bem come se adubassem queijadas
ou se quisessem tortas amassar;
ou quiçá o fazem por delivrar
sas bestas, se fossem acevadadas.
662