Mágoa no sal
enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
Viagem fantástica
Para Julio Verne e Harry Kleiner
toda profundeza imaginável pelo homem,
conquistada ou ainda inexplorada,
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro de chiaroscuro, a esponjosa
massa cinza sob o osso do crânio duro;
puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
por quanto tempo seria capaz de estudar
nossas fossas abissais, internas,
nossas zonas de guerra, onde glóbulos
atacassem micróbios entre outros
vírus e furtivos inimigos batalhando
em tantas trincheiras de carne e nervo?
no fluido da medula, no sangue
que circula, tanto nautillus
quanto proteus completariam
a inusitada frota: as vinte mil
léguas submarinas enfim vencidas
na saliva sob nossas línguas…
cotidianometria
fitter, healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics
Radiohead (OK Computer, 1997)
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
A lágrima
a glândula a carrega cega
(como na ostra a pérola)
(como no arco a seta)
o sal na medida certa
(no escuro algo coagula)
pedra
até que a concha da pálpebra
abra
é quando a gota vem à tona)
(fria e quente
(simultaneamente
bem-vindo à terra firme
a carne humana, terrânea, é também marinha, e encerra,
na híbrida simetria dos membros, seu mistério anfíbio:
no corpo seco, oco e trêmulo, há água salgada por dentro;
este feto, em terra, recém-saído do útero materno,
sangra, urina e vaza, ou quando submetido a extremos
(caso o alimentem de mais ou de menos) /
imagens, palavras, ideias, nadarão no cérebro,
compartimento menos matérico; haverá
vermes e vírus hostis entre outras coisas vivas,
habitando seus muitíssimos interstícios;
oscila entre o quente/ o frio,
o rígido/ o maleável/ e líquido
(a carne se abisma nesse enigma) no que é vivo,
há algo entre se molhar e permanecer ressecado,
já quando o corpo tem início, como progredisse
— no íntimo —, um conjunto mecanismo.
calypso
ígneas enguias bicéfalas
se entreolham, tresloucadas
com guinchos finíssimos, unís
sonas, ensaiam o silvo coletivo
e quase enguiçam no líquido re
buliço, agarradas em algazarra
parecem aparvalhadas na água
como certas larvas aneladas
recém-saídas dos ovos;
ascendem olhos de fósforo,
ardendo aos milhares, em pares
contra o breu inóspito
faróis cujas luzes
lançam fachos quase sólidos
para o horizonte subaquático;
orquídeas submergidas
eletrificam a língua sibilina
das enguias que se esquivam
das lanternas ou dos esguichos
de alguns exímios escafandristas
e fogem
…………..para o raio que as partam
nota:
mas pouquíssimo antes disso
tiveram suas almas
registradas em vídeo,
para Cousteau, por seu
melhor cinegrafista
em seu milésimo mergulho
de scuba ( o Aqualung ),
sob uma falésia da Catalunha
Motim 2.0
“às ordens, hei-me!”, “às ordens, hei-me!”,
ó rei errado! que cansei de estar calado
aos despautérios do patrão!
contra as egrégoras brutais
deste transporte lento, gangrênico:
ergo-me! contra as regras cegas
desse presente de grego, ergo-me!
contra o determinado tédio inédito,
sem término, sem trégua, numa guerra
contra o dono dessa redoma total
cujo domínio sombrio mina em mim
o dom de homem, ergo-me! entretanto
um nome sempre me reencontra: o meu,
tornado mero número no ministério,
na carteira de trabalho, na zona eleitoral,
a mera estatística nas fileiras da mídia,
um álibi, “eis-me!”, um pobre anônimo,
rasgado e desgraçado, mas apto ao bom combate,
grato pela chance de gritar nas ruas
contra o desrespeito do governo,
nesta câmara de gás lacrimogêneo,
lacrada, a que chamamos, hoje,
Brasil ou
Rio de Janeiro
Penhasco
assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
ilha na névoa
cercada pela tempestade que ameaça
sua secreta falésia de pétalas
toda e qualquer ilha, o mesmo símbolo
em todo ímpeto que habita, o mesmo nível
em todo mar que ataca a pedra:
a mesma meta
correnteza eterna
se há algo que a ilha renega e é eterno
é esta névoa
que atraiçoa seu único insulano,
um passo em falso:
entregue à queda