Alexandre Guarnieri

Alexandre Guarnieri

n. 1974 BR BR

Alexandre Guarnieri é um poeta e tradutor brasileiro contemporâneo, cuja obra se destaca pela habilidade em articular o coloquial com o lírico, explorando temas como a cidade, o cotidiano, as relações humanas e as complexidades da existência. Sua poesia, muitas vezes marcada por uma ironia sutil e uma profunda observação social, dialoga com a tradição literária ao mesmo tempo em que se insere firmemente no contexto da literatura brasileira atual.

n. 1974-05-10, Rio de Janeiro

11 680 Visualizações

cotidianometria

fitter, healthier and more productive
               a pig in a cage on antibiotics
                      Radiohead (OK Computer, 1997)


suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
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Biografia

Identificação e contexto básico

Alexandre Guarnieri é um poeta e tradutor brasileiro. Nasceu no Rio de Janeiro. É conhecido pela sua obra poética e pela sua atividade como tradutor. Escreve em língua portuguesa.

Infância e formação

Informações detalhadas sobre a infância e formação de Alexandre Guarnieri não são amplamente divulgadas. No entanto, a sua atuação como tradutor sugere uma sólida formação intelectual e um profundo conhecimento literário e linguístico.

Percurso literário

O percurso literário de Alexandre Guarnieri é marcado pela sua produção poética, com poemas publicados em diversas plataformas e antologias. Além de poeta, sua atuação como tradutor de autores de língua inglesa para o português é um aspeto relevante do seu percurso, evidenciando uma profunda ligação com a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias A obra poética de Alexandre Guarnieri caracteriza-se por uma linguagem que mescla o coloquial com o lírico, explorando temas do cotidiano, da vida urbana, das relações humanas e das reflexões existenciais. Sua poesia frequentemente apresenta um tom irónico e uma acentuada capacidade de observação social. Utiliza recursos que aproximam o leitor da experiência imediata, sem perder a profundidade. O verso livre é comum, permitindo uma maior flexibilidade na expressão. A voz poética é, muitas vezes, a de um observador atento da realidade, capaz de capturar as nuances e contradições do mundo contemporâneo. A sua escrita dialoga tanto com a tradição literária quanto com as experimentações da poesia moderna e contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Como autor contemporâneo, Alexandre Guarnieri está inserido no cenário cultural e literário do Brasil atual. Sua obra reflete as dinâmicas da sociedade brasileira, os costumes e as inquietações da sua geração, dialogando com outros artistas e intelectuais.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Detalhes específicos sobre a vida pessoal de Alexandre Guarnieri, como relações afetivas ou familiares marcantes, não são amplamente divulgados em fontes públicas, o que dificulta a correlação direta entre a sua vivência e a sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Alexandre Guarnieri tem recebido reconhecimento no meio literário brasileiro, tanto pela sua poesia quanto pela qualidade das suas traduções. Sua obra é apreciada por críticos e leitores que valorizam a sua voz poética singular e a sua capacidade de abordar temas relevantes com originalidade.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado As influências de Alexandre Guarnieri podem abranger desde a poesia clássica até autores contemporâneos, tanto brasileiros quanto estrangeiros. O seu legado reside na contribuição para a renovação da poesia brasileira, com uma abordagem que une sensibilidade lírica e uma aguda perceção da realidade contemporânea.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A poesia de Alexandre Guarnieri permite diversas leituras, focadas na sua representação da vida urbana, nas suas reflexões sobre a condição humana na contemporaneidade e na sua habilidade em capturar a complexidade das relações interpessoais. A ironia e a observação social são elementos chave para a análise crítica da sua obra.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Aspectos menos conhecidos da obra ou da personalidade de Alexandre Guarnieri podem estar relacionados a detalhes de sua rotina de escrita, a episódios específicos que inspiraram seus poemas, ou a facetas de sua atuação como tradutor que revelam mais sobre seu processo criativo e sua relação com a literatura.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Alexandre Guarnieri é um autor contemporâneo, portanto, não há informações sobre sua morte. Sua memória é construída e perpetuada através da sua obra literária e das traduções que realiza, contribuindo para o patrimônio cultural brasileiro.

Poemas

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cotidianometria

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                      Radiohead (OK Computer, 1997)


suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
625

viagem fantástica

para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
606

Mágoa no sal

enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;

seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
642

Viagem fantástica

Para Julio Verne e Harry Kleiner

toda profundeza imaginável pelo homem,
conquistada ou ainda inexplorada,
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro de chiaroscuro, a esponjosa
massa cinza sob o osso do crânio duro;

puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?

por quanto tempo seria capaz de estudar
nossas fossas abissais, internas,
nossas zonas de guerra, onde glóbulos
atacassem micróbios entre outros
vírus e furtivos inimigos batalhando
em tantas trincheiras de carne e nervo?

no fluido da medula, no sangue
que circula, tanto nautillus
quanto proteus completariam
a inusitada frota: as vinte mil
léguas submarinas enfim vencidas
na saliva sob nossas línguas…
614

bem-vindo à terra firme

a carne humana, terrânea, é também marinha, e encerra,
na híbrida simetria dos membros, seu mistério anfíbio:
no corpo seco, oco e trêmulo, há água salgada por dentro;
este feto, em terra, recém-saído do útero materno,
sangra, urina e vaza, ou quando submetido a extremos
(caso o alimentem de mais ou de menos) /
imagens, palavras, ideias, nadarão no cérebro,
compartimento menos matérico; haverá
vermes e vírus hostis entre outras coisas vivas,
habitando seus muitíssimos interstícios;
oscila entre o quente/ o frio,
o rígido/ o maleável/ e líquido
(a carne se abisma nesse enigma) no que é vivo,
há algo entre se molhar e permanecer ressecado,
já quando o corpo tem início, como progredisse
— no íntimo —, um conjunto mecanismo.
714

Penhasco

assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
617

A pele

homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
529

rotinas (repartição)

os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
748

Terrorismo doméstico

toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)

– quem está comigo ? –

se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível

– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
655

Tirem leite de pedra

Tirem leite de pedra,
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste
703

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