cotidianometria
fitter, healthier and more productive
a pig in a cage on antibiotics
Radiohead (OK Computer, 1997)
suje as digitais de tinta /
não sorria na fotografia / cabelo cortado
apare quaisquer outros pelos /
dentifrício, desodorante / e necessário o asseio
remova óculos ou lentes / renove o ânimo
mantenha a cabeça a um determinado ângulo
sopre o bafômetro / prenda o fôlego
língua para fora, barriga para dentro
inspire, expire / (sexo oral à la marilyn manson)
nunca deixe para amanhã, faça hoje mesmo
submeta-se ao exame / não perca mais tempo
preencha corretamente os dados /
sempre recadastre-se no prazo
silicone nos seios / correção de septo
as quatro cópias no cartório / melhor prevenir
do que remediar / beba mais água, evite o álcool
livre-se da gordura hidrogenada
(opte pela salada crua) / não esqueça a data
se confesse com marcelo rossi
ao som do padre fábio de melo
guarde-se para o rapaz certo / sexo
só depois do casamento / não gaste água,
mas escove os dentes sempre
mocinhas vestem-se com decência
respeite a fila / pague em dia
seja condescendente diante da ignorância alheia
tome o remédio / tudo no horário
vá ao cinema (assista a um filme inédito)
em caso de vida ou morte: aperte o botão vermelho
viagem fantástica
para Julio Verne e Harry Kleiner
toda profundeza concebida pelo homem
– conquistada ou ainda inexplorada –
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro chiaroscuro – esponjosa massa
cinza sob o osso do crânio duro;
puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
Mágoa no sal
enquanto o mar reclama, no amor
em que pacificamente recolhe
sua parcela mais calma e ampla
à face de espelho tão plácido e plano,
posseidon calado trama ( da sub-
marina treva ) suas táticas de guerra,
( tem o tridente como arma secreta,
tripartida seta ) contra todos os
que habitam a superfície da Terra;
seu único estratagema é fazer
com que todos os descendentes
dos símios primeiro derramem
todo sal marinho circulando
em seus organismos vis, em seus
próprios corações e almas, toda
e qualquer lágrima revele enfim
a presença latente de sua própria
saliva grossa e espumosa, a baba
escorrendo pela barba — o gosto
do sangue também é salgado e
metálico —, como ondas de pavor
e desencanto, ameaçando pouco
a pouco o ancoradouro, outrora
tão seguro, de nosso júbilo e rego-
zijo, todo arroubo mais profundo
Viagem fantástica
Para Julio Verne e Harry Kleiner
toda profundeza imaginável pelo homem,
conquistada ou ainda inexplorada,
sombria, ameaçadora ou prodigiosa,
toda mais longínqua profundidade,
recriada imaginativamente por séculos,
jazendo a apenas alguns centímetros
da superfície da pele, sob a trama de
nervos que segue a construir os sonhos,
da medula ao cérebro humano, esse
antro de chiaroscuro, a esponjosa
massa cinza sob o osso do crânio duro;
puséssemos numa seringa hipodérmica
a miniatura de um submarino nuclear
mergulhado em solução fisiológica e
injetássemos corpo adentro a peça
a sangue frio, navegaria submerso
com energia suficientemente gerada
para zelar sempre, sem erro, sem medo,
pelo mais perfeito funcionamento?
por quanto tempo seria capaz de estudar
nossas fossas abissais, internas,
nossas zonas de guerra, onde glóbulos
atacassem micróbios entre outros
vírus e furtivos inimigos batalhando
em tantas trincheiras de carne e nervo?
no fluido da medula, no sangue
que circula, tanto nautillus
quanto proteus completariam
a inusitada frota: as vinte mil
léguas submarinas enfim vencidas
na saliva sob nossas línguas…
bem-vindo à terra firme
a carne humana, terrânea, é também marinha, e encerra,
na híbrida simetria dos membros, seu mistério anfíbio:
no corpo seco, oco e trêmulo, há água salgada por dentro;
este feto, em terra, recém-saído do útero materno,
sangra, urina e vaza, ou quando submetido a extremos
(caso o alimentem de mais ou de menos) /
imagens, palavras, ideias, nadarão no cérebro,
compartimento menos matérico; haverá
vermes e vírus hostis entre outras coisas vivas,
habitando seus muitíssimos interstícios;
oscila entre o quente/ o frio,
o rígido/ o maleável/ e líquido
(a carne se abisma nesse enigma) no que é vivo,
há algo entre se molhar e permanecer ressecado,
já quando o corpo tem início, como progredisse
— no íntimo —, um conjunto mecanismo.
Penhasco
assoalho visitado às bordas do fiorde
suas escarpas de basalto | o espaço
entre o ar e o mar embaixo que quase
julgaríamos raso | hirtas suas afiadas
bordas | símiles às de uma faca
árabe ( arqueada ( cimitarra
| o que as navalhas da erosão
erigem é este grupo de rochedos
pouco a pouco sendo degolado
assim o penhasco largo | vasto:
ponto turístico para narcisos
e suicidas | amplo plenário de
pedra d’onde se observa o sol
nascer | ou se pôr | platô sólido
observatório possível | existe
essa muralha terrena | pesaroso
mármore erguido| lugar de uma
solidão extrema | avizinhando o
mar triste a esse chão de limites
A pele
homem-bomba vestindo roupa de escafandrista, seu
neoprene pressurizado capta estímulos, e por entre
pelos mínimos, válvulas regulatórias fazem-na suar
ou ressecar, contra as condições do habitat (algo
se interpõe aos poros, ou impermeabiliza as fibras);
seus sensores de calor, vigiados de uma sala
de controle, enquanto é mantida viva, (hidratado
adequadamente cada intrincado recanto) como
a máxima peça, de uma alfaiataria das mais complexas:
seria tão errado reduzi-la ao tato, costurando
ao tecido apenas um dos cinco sentidos?
rotinas (repartição)
os rituais estoicos do escritório, entre móveis
sólidos, ásperos e numerosos módulos, e os
funcionários, do rh ou contas a pagar, "boa
tarde", "volte sempre", as tantas cobranças que
o chefe reclama, avulsas, ouvindo a secretária
soluçar, aplicada às duplicatas, enquanto
convulsionam os números (necessário é discá-los
todos), o monstro é um patrão eletrônico, ao
invés de mãos, há troncos telefônicos; inaptos,
se matando aos poucos estes homens que
trabalham: um por um, inúteis, caminham na calma
ao recinto sanitário, tomam pílulas diante dos
próprios rostos, projetados nos mictórios, findam
em suicídios tão limpos quanto burocráticos; as
máquinas permanecem a sós, sem ócio nem laços,
sem tempo, apenas relógios, sem sonho ou
delírio, apenas atrapalham, repetindo os mesmos
sinos; apenas trabalham, trabalham: com ódio.
Terrorismo doméstico
toda ira sanguínea direcionada
ao centro político
de um país em ruínas
– quem está comigo ? –
todo menosprezo e escárnio
lançados ao povo ( sufocado
por desgosto e impostos )
enquanto os ricos óbvios
reciclam a pobreza anônima
em periferias que agonizam
por negligência e frieza
– quem está comigo ? –
a massa ignara, manobrada,
alimentando o monstro nacional
cujo apetite desconhece
qualquer limite: estúpida república
de furto e conluio inconclusivo,
os fulcros do lucro auscultam
( incubus/ sucubus/ exus pedem justiça )
evangélicos esconjuram o assunto
jejuando nus a um jesus em decúbito)
– quem está comigo ? –
se somos ilhas, se somos bichos,
se somos lixo, se somos nada
além da soma do que é desprezível
– quem está comigo
para explodir Brasília ? –
Tirem leite de pedra
Tirem leite de pedra,
extraiam ouro da merda,
nenhuma esquerda ecoa
nada providencia a sombra boa
neste calor da porra, do primeiro
pau-brasil não sobrou sequer o talo
o cepo seco, nenhuma urina insípida
ativa a latrina neste país de pus
e súlfur, aqui é o cu do judas
é onde o vento faz a curva
onde não há cura pro mal, só
carnaval, há curra pra cultura
o show da vida, a mídia burra
a língua culta contra a fala chula
é pau na bunda da turba, é pica
sifilítica pro boquete dos
banguelas “the horror – a merda
– the horror – a merda”
domingos no parque com pique-
niques de alpiste – “é triste” –
farinha e água e mais nada
aqui é o parque da gentalha
ávida por favores e dádivas
terra brasilis sob o piche
nem ave-maria ou reza pra virgem
salvam este projeto inexequível
democracia de cu é rola, no
planalto a apoteose da sandice
onde tudo que existe é alpiste
farinha e água e mais nada
alguma boa intenção resiste?
é, amigos, é triste