Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Manuel de Freitas
URINOL
As melhores horas da nossa vida,
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
as mais contentes, passámo-las
num urinol qualquer, vendo correr o mijo
capaz e fluente numa certeza de louça
branca, amarela ou cinzenta.
Instantes de pouca opressão,
cumprindo embora um estúpido dever,
desses do corpo, sob o silêncio infecto de Deus
- que talvez fosse aquele puxador
de autoclismo que um dia me ficou na mão,
numa taberna discreta ao Poço dos Negros.
Guardei-o ainda alguns meses, mas de Deus
como de um autoclismo, de tudo
acabamos por nos cansar. Até de poemas.
São ruas velhas assim, onde paira
a suposição grosseira de um urinol
divino e sombrio, que nos fazem aceitar
esta voraz forma de extermínio. O nosso,
incandescente, num apogeu de melancólicas
retretes onde os insetos e bactérias do acaso
nos distraem o olhar
embaciado pelo abuso da lixívia.
Uma lucidez pegajosa, toldando a idade
das mãos invariavelmente senis.
Como se bastassem, ou fossem mesmo
excessivas, certas baixas certezas de cão,
desastres menores. Sabendo-se de fonte
segura que o mijo pode ser um poema.
Um poema cansado do que antes foi vinho,
a suicidar-se agora - contente e tão triste -
no vazio evidente de uma louça
branca, amarela, sagrada.
Pequenas alegrias e no entanto as maiores,
essas mesmas que bastarão,
que terão de bastar,
no dia
em que formos
morrer.
1 204
João Filho
Quase Gregas - Primeira
Manhãs invadem manhãs.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
Metal-flux do trânsito,
nimbos,
urubus no semáforo, arúspices,
lumes de asfalto,
dizem os cartazes.
Diriges. Na Oceânica, Cronos, chuvoso, investe.
Tudo pesa.
O medo é outro, aquele último.
Guerras anãs teu peito combate e se perde.
Diz Cronos
(que nos respira e não o contrário,
fuligem esfíngica):
“Com esses vastos vazios, que desejas?
Sei, nada afundando em nadas,
giros de séculos, mapas conduzem desgraças,
como quem oferta água, sol e pão,
mas é a face ambígua que oferecem,
a nutriz venenosa.
Colostro que dás mata o cerne;
nomeio-te inferno,
rodas no vácuo e a dúvida é o teu sustentáculo
e o não tens como norte,
tal morte é o teu níquel,
o vivo sem vida.”
Cronos se cala, entardece.
Na sístole-diástole, o trânsito espasma,
e junho – céu, Orla e mar embaralha em névoa cinzenta.
Do mar:
o salitre sonoro do vento.
669
Ademir Assunção
NOVOS GAMES NO MERCADO
A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
970
Ademir Assunção
NOVOS GAMES NO MERCADO
A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
970
Ademir Assunção
NOVOS GAMES NO MERCADO
A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
970
Ademir Assunção
CHACAIS E HIENAS
a história sempre termina assim
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso
os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos
mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância
e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade
as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores
o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada
o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade
a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso
os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos
mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância
e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade
as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores
o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada
o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade
a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
1 247
Manuel de Freitas
PRESSA DE VIVER
para o Zé, que nunca lerá este poema
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
569
Manuel de Freitas
PRESSA DE VIVER
para o Zé, que nunca lerá este poema
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
569
Manuel de Freitas
PRESSA DE VIVER
para o Zé, que nunca lerá este poema
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
Negro, trinta e dois anos,
dealer. Pensava que a guerra
no Kosovo tinha por motivo único
a resistência à conversão em euros
- e talvez nisso tivesse, afinal, uma obscura
razão. Noutra noite, vi-me obrigado
a explicar-lhe o melhor que pude
o que era o FMI - que ele decerto
interpretou como um partido de ‘tugas’
vagamente hermético. De facto, é outra
a sua economia: contos de xamon, pastilhas,
piropos de esquina, os dois ou três filhos
de que apenas bêbedo se lembra.
Mas não é bem disso que eu hoje
queria falar. Passámos a noite
lado a lado, no mesmo balcão.
Demorei algum tempo a cumprimentá-lo
– “tá-se?”. Pediu logo grandes, imensas
desculpas por não me ter visto.
Que era “pressa de viver”, garantiu-me,
aquilo que nos torna tão cegos é
às evidências, ao rosto desse próximo
que só por bíblico acaso amamos
– quando o ódio, mais discreto,
dá nome e sentido às ruas.
Fingi acreditar, procurei não
desmentir o seu olhar verde
vindo de outro qualquer planeta.
Seria difícil explicar-lhe àquela hora
a compulsiva demora de morrer
que me faz sair de casa e procurar,
entre ninguém, a pior das companhias: eu.
Acabou por levar para a rua
uma imperial de plástico, lembrado
talvez dos possíveis clientes
a quem ajudará a esquecer um emprego,
o desamor, o calor sinistro deste Verão.
Na verdade, pouco mais haveria
a dizer sobre este corpo brando que
há vários anos se encosta às minhas noites.
Serve-me de escudo para os bárbaros mais novos
– e protege-se, o melhor que pode,
da rusga sem objecto a que chamamos vida
569
Ademir Assunção
CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS
O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
998
Manuel de Freitas
CANSADA DE SERVIR NINGUÉM
A primeira e talvez a única
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
condição da poesia: a falsidade.
Posso no entanto jurar que foi
hoje mesmo, pelo fim da tarde, que
ela entrou desconexa, com um anel rutilante
em cada dedo, na taberna de praça das Flores.
O velho, sentado à minha mesa, teve
de ouvir uma canção de marinheiros,
inevitavelmente triste. Só então
me apercebi, como ele, de que trazia ao colo
uma pomba. Pediu-lhe que voasse
- e ela voou, contornando as moscas
deste Verão precoce, em direcção ao jardim
(sempre tiveram jeito para voar, as pombas).
Quase não vi aquelas mãos caírem sobre
uns seios gastos, a pretexto do colar.
Benilde, sentada, apenas viu nisso tudo
uma espécie de loucura mansa,
o modo como a tarde docilmente se despede,
à sombra parada do relógio. Sessenta
anos de balcão pesavam-lhe hoje mais nas pernas,
indiferentes aos poemas que nunca lerá,
enquanto um último refrão, entre muletas
e copos vazios, nos volta a impor a única verdade.
A pomba - de um branco acastanhado -
parecia não se importar muito.
1 139
João Filho
Quase Gregas - Segunda
quele anônimo
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
(suado e sangrento,
mas não morto,
fugindo de Tebas sem Ílio que o zele),
só escapa da impiedade de Diomedes,
por ter rastejado entre cadáveres, rio e deserto,
e invisível ao aço cruel dos deuses inimigos;
não se acovarda,
procura, sim, reinos mais altos –
o fruto ofertado, apesar de severo.
Gratíssimo pelo respiro de tudo,
mais velho que o lume primeiro
e mais seguro que o lastro de Aquiles.
À sombra, já longe,
sob uma oliveira repousa,
olha a planície
– vida cristal, espantosa de tão óbvia –
e ri suas lágrimas.
A águia e a árvore,
voo e raiz,
os prodígios sem causa desse amoroso diário,
que incansável canta seu sol.
Dorme sem dores,
derrotas não há,
apesar das ruínas da cidade devastada,
do choro sem retorno de mães, filhos e sábios,
estirpe findada.
Endereça-se ao reino mais alto,
àquele,
que estampa em seu siclo confiança e perdão.
510
Manuel de Freitas
VIDALVAZ
Talvez viver seja isso,
isto precisamente.
Um ovo estrelado com pão,
uma taberna sob impiedosa trovoada
quando a cidade anoitece e se ouve
qualquer relato decerto importante
em que o herói se chama Sporting.
Estas tabernas, lugares sombrios
onde sob o pouco aprumo dos tonéis
morreu ou foi morrendo um poeta
que os abutres da nação fazem questão
de aclamar. Tinto ou branco, vai sempre
dar ao mesmo, modo apenas de vomitar
uma ausência fulgurante.
Entretanto dizem-se aqui os “até amanhãs”,
celebra-se a calma metafísica de uma sopa
amornada e doente. São os mesmos que amanhã
cá estarão, vacilantes e anónimos, dizendo
de novo “até amanhã” para que a eternidade
se finja repetir. São os mesmos até mais ver,
a sopa, o ovo estrelado, o futebol, a
recusada tristeza de envelhecer.
E talvez viver seja isto, a cruel poesia
dos tonéis, o mármore de balcões engordurados,
este morrer
de um modo gentil, quase despercebido.
Não importa quem lembra as tabernas
que lentamente se apagam,
os versos tristes que as cantam
isto precisamente.
Um ovo estrelado com pão,
uma taberna sob impiedosa trovoada
quando a cidade anoitece e se ouve
qualquer relato decerto importante
em que o herói se chama Sporting.
Estas tabernas, lugares sombrios
onde sob o pouco aprumo dos tonéis
morreu ou foi morrendo um poeta
que os abutres da nação fazem questão
de aclamar. Tinto ou branco, vai sempre
dar ao mesmo, modo apenas de vomitar
uma ausência fulgurante.
Entretanto dizem-se aqui os “até amanhãs”,
celebra-se a calma metafísica de uma sopa
amornada e doente. São os mesmos que amanhã
cá estarão, vacilantes e anónimos, dizendo
de novo “até amanhã” para que a eternidade
se finja repetir. São os mesmos até mais ver,
a sopa, o ovo estrelado, o futebol, a
recusada tristeza de envelhecer.
E talvez viver seja isto, a cruel poesia
dos tonéis, o mármore de balcões engordurados,
este morrer
de um modo gentil, quase despercebido.
Não importa quem lembra as tabernas
que lentamente se apagam,
os versos tristes que as cantam
1 028
Ademir Assunção
LENDA URBANA
Sombra Vermelha perseguia lenhadores
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
1 193
Ademir Assunção
LENDA URBANA
Sombra Vermelha perseguia lenhadores
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
1 193
Ademir Assunção
O OLHO AZUL DO MISTÉRIO
desço dos céus para beijar
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
1 106
Manuel de Freitas
ZULMIRA, AO AMANHECER
No urinol público lia-se UTILIZAÇÃO GRATUITA.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de superbocks.
Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.
Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.
Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.
Mas “até logo, Zulmira”, bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.
Fiquei quase feliz (quantas coisas gratuitas
há neste mundozinho de horror?).
Mas o que desta manhã eu mais agradeço, Zulmira,
é a tua sopa, essa que tantas vezes
me salvou a vida, entre centenas de superbocks.
Não me inquietam os chulos, os assassinos
ou estes mendigos calados. Ilustríssima gente,
de uma má-raça inegável. Prefiro perder
com eles os meus dias, e falar da fome, dos joanetes
ou do preço do azeite. Não tenho tempo
para aprofundar desrazões, nem para conviver com puetas.
Sei apenas que as poucas pessoas que amei
estavam por detrás de um balcão
onde o álcool ardia, muito devagar.
Os meus pobres anjos.
Também por isso gostava de te obrigar a esta taberna,
exílio cantante de todas as minhas antigas manhãs.
Por esta mãe desolada, pelo rumor sombrio
do vinho que nunca azedou nos meus lábios,
por certas inábeis palavras que sobre os barris
faleceram e te pertenciam somente.
Mas “até logo, Zulmira”, bem sabes que do amor
ou do futebol nada poderei jamais dizer
ou sentir. Entre os teus braços largos deponho
em silêncio aquela negra noite do meu mal.
Por uma sopa encorpada, sobre destroços
imperecíveis, bocados de morte partidos.
964
Manuel de Freitas
5 010509 001229
É o que se chama um “higiênico”: latas,
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
comida feita e embalada, whisky,
cerveja ou vinho (quando não três).
Deve beber-lhe bem e mudar pelo menos
duas vezes por semana a areia do gato.
é tímido, inseguro e– por isso mesmo–
extremamente rápido a arrumar as compras.
Vai pagar outra vez com o cartão. Hoje
parece mais triste, talvez por no seu íntimo
saber já que vai escrever um poema
sobre mim, mera ajudante da leitura
dos códigos fatais em que cada um se expõe.
Mas para que tantas palavras? Bastava-lhe
ter dito que me chamo Isilda
e que a vida que tenho não presta. A dele,
suponho, não será muito mais feliz.
escusava era de maçar a gente
com o que sofre ou deixa de sofrer.
A minha sabedoria é muda, desumana:
um dia enlouqueço ou fico para sempre presa
a um pesadelo sentado, com barras transparentes.
1 046
Manuel de Freitas
CENTRO COMERCIAL I I
Uma hipótese de morte com fato de treino
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
em fim-de-semana cheio de graça. Perdido e
contente como os filhos hão-de ser,
pura imagem de horror
a demorar-se num século vazio.
A autoridade do dinheiro quase nada
esconde já a pobreza vegetal, a
essência decompondo-se. Ele não sabe. Sei eu
por si este pânico, a desmesura triste
de o olhar enjoado, enquanto o silêncio sangra
e quase fede – menos contudo do que as tripas
inúteis deste domingo absurdamente igual
a todos os outros que nos falta viver,
arrastar com fúnebres cuidados
para num arremesso de baba feliz
ganhar o futuro, a morte precisa
que nessa palavra dizemos.
991
Manuel de Freitas
Ode à noite (inteira)
Gosto do momento, exacto ou nem por isso,
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
– ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
– como eu – insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita – o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
– ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.
em que se torna possível colar cartazes
nas paredes ao lado dos meus ombros (espero
o autocarro, vejo devagar, sorrio). Mas
gosto, sobretudo, dos cães quase sem dono
que roçam as esquinas, pisando restos de garrafas
– ou das pessoas que desconheço
e das bebidas todas que ignoro
(porque me matam menos e se chamam
– como eu – insónia, pesadelo, golpe baixo).
Existem, claro, raparigas louras um tanto
heterodoxas que não te apetece beijar
(a forca do bâton, perfeita – o cigarro aceso
pedindo outro lume). Essas mesmas que hão-de
um dia procriar com zelo, evitando rugas,
tumores e o mundo como representação misógina.
Mais lírica, sem dúvida, é a lavagem das ruas,
com a cerveja a premiar a farda
demasiado verde e os bigodes de serviço.
Outros, alguns, tornam concreto o torpor
de um charro e pedem-te em crioulo básico
um cigarro português que tu vais dar,
sem esforço nem palavras. Entre shots, piercings,
t-shirts de Guevara e gel, podes não acreditar
por algumas horas no axioma frágil do teu corpo.
Esfumas-te, como eles, no espelho de um bar
qualquer, país de enganos e baratas. E
quase gostas disso, quase: a música de punhais,
servil, um certo e procurado desencontro.
Um táxi te ensinará depois o caminho de casa
– ou o seu contrário, pois só ali (anónimo
e desfocado) eras finalmente tu, ou podias ser.
O resto, a vida, fica para outra vez.
1 321
Manuel de Freitas
BENILDE AO BALCÃO I
Valerá a pena uma voz vária?
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.
Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?
Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».
Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.
Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.
Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».
Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.
Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.
Benilde está ao balcão, repara nas moscas
pulando ao acaso num canto desvanecido,
e os homens - mudos e sonolentos -
dão à taberna um sepulcral prestígio
que em certos dias me apraz.
Envelhecemos todos, com vocação
ou sem ela. Não sei se as moscas também,
indiferentes a uma pergunta errada.
Mas eis que alguém canta um fado,
estando Benilde ao Balcão.
Talvez só então me aperceba de
que a tristeza é um luxo, impossível
um poema nos tempos que correm
ou param. Benilde ao balcão saberá?
Vou omitir por piedade a inércia
gutural do que ouvi, pronto motivo
para que outros se levantassem também
- subitamente fadistas por obrigação
ou desforra. Sai-lhes da reforma pequena
uma voz destruída pelo álcool, inter-
mitente, capaz ainda assim de vislumbres
de sabedoria: «a vida é uma estória
e a estória é mentira».
Benilde, ao balcão, não se pronuncia.
Nasceu mulher, e ainda por cima existe
(não veio da peça de teatro que tornou
literário o seu nome). Aqui quem actua
são eles, frutos disformes de uma «alma
nacional» que subscrevemos sem pensar muito.
Depois dá nisto: brando desespero
com quase vergonha de o ser.
Acendem-se na tarde as perdidas coisas,
imunes ao fado e às moscas
e a tudo. Quem pudesse remediar o defeito
grave deste existir lodoso, sem comunhão
à vista. Enobrecê-lo, pelo menos.
Mas não, apesar de tudo. Benilde
é a imagem estóica - embora desconheça
o termo - de um reino que não pôde ser,
por excesso de dor ou por nada.
Não é por conveniência retórica
que o confundo com uma taberna
onde as paredes, o urinol exíguo,
a demitida luz, me lembram de ti
ou da morte. Estamos todos aqui, acontece.
Até que me interrompam, do lado
de fora do poema, para me dizerem
com o rosto chagado e incerto
que «não vale a pena pensar nessas coisas».
Poder-se-ia suprimir o complemento directo,
se não fosse deselegante sujar
de gramática o que é lição pura de desespero.
Dou-lhe um cigarro, mais não posso dar
- e não é culpa minha a consternação
quando uma mulher, destroçada embora,
entra num reduto de decadência viril.
Se perdoam Benilde é porque está ao balcão.
Por quanto tempo não sei. Lá fora
o trânsito e os rostos
tingem-se de irrealidade, vistos deste reino
que não chegou a sê-lo. O relógio
há tantos poemas parado não sustém o tempo
homicida, e um dia a praça das Flores
será um ameno lugar de chacina
privado de bêbados como eu.
1 132
Ademir Assunção
O RUGIDO ESQUIZO DOS MOTORES
O Mendigo Kamaiurá atravessa lentamente a rua
embaixo do Minhocão.
O sinal está fechado para ele.
Buzinas esgoelam, motores rosnam,
vendedores de planos de saúde suam e bufam.
A garganta congestionada
do shopping Paradise
cospe pastilhas de urina
na cara de dois mil clones de Pedro Bial.
Um ônibus atropela uma barata.
Demiurgo bêbado, doente, esfarrapado
e fedendo a merda,
o Mendigo Kamaiurá desenha gestos insanos no ar,
indiferente ao rugido dos automóveis.
Lili Maconha observa a cena pela janela
do Trem Fantasma.
Tatua mais uma cicatriz no antebraço.
Com a gilete afiada do desespero.
embaixo do Minhocão.
O sinal está fechado para ele.
Buzinas esgoelam, motores rosnam,
vendedores de planos de saúde suam e bufam.
A garganta congestionada
do shopping Paradise
cospe pastilhas de urina
na cara de dois mil clones de Pedro Bial.
Um ônibus atropela uma barata.
Demiurgo bêbado, doente, esfarrapado
e fedendo a merda,
o Mendigo Kamaiurá desenha gestos insanos no ar,
indiferente ao rugido dos automóveis.
Lili Maconha observa a cena pela janela
do Trem Fantasma.
Tatua mais uma cicatriz no antebraço.
Com a gilete afiada do desespero.
1 122
João Filho
Quase Gregas - Sexta
Altos extremos convivem nesta hora sem trégua:
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
675
João Filho
Quase Gregas - Sexta
Altos extremos convivem nesta hora sem trégua:
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
este chamemos Sol-Fúria.
Seu antípoda é chamado de Ave-Doçura.
Vão juntos, cindidos.
Aquele – carnífice,
nos campos empilha inimigos,
caminhos sanguíneos deixando,
desossa o que não for seu brasão,
e mantém o lastro do irmão.
Com alma e arnês,
braço e couraça a serviço d’El-rey,
do Altíssimo Outro, sem-par.
Mas tratemos agora da Ave-Doçura:
suporta os aríetes do mundo
e não apenas a face contrária oferece.
Seu marco:
Amor.
Seu coração – seu combate.
Esses dois margeiam – centímetro –
dor, bílis e morte. Amam assim,
juntos, cindidos.
Os séculos baldam em destroçá-los,
e já tentaram de tudo.
Atravessam cambaios, porém de pé,
precipícios, planícies,
a própria medula.
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