AUTO-RETRATO
talvez, uma noite
retorne
cansado das batalhas
e das festas
nada
nas mãos
muito pouco
nos bolsos
os olhos cheios
de imagens
os ouvidos loucos
de sons
shows dos stones
desenhos de escher
a pele tocada
por mulheres chocantes
vagabundo
cruzando estradas
ítacas
revisitadas
exausto das guerras
um dia, talvez
retorne
sem lenço
sem retoques
talhos
no rosto
cicatrizes
na pele da alma
a paisagem
se dissolvendo
velho, arqueado
o sapato
todo furado
e dois versos
na camiseta:
eis a vida
que não vendo
JACK KEROUAC NA PRAIA BRAVA
sonhei com jack kerouac
sentado na varanda da casa
de waldemar cordeiro. eu acabara
de acordar e dei de cara
com aquele vulto imerso
na neblina. bem acima da copa
das árvores a lua cheia ardia
entre nuvens espessas, com sua
cara de gângster. eu disse: “ei, man,
onde é que vamos parar?” jack
deu uma longa tragada
no cigarro, fumaça branca na névoa
branca, e me estendeu
o copo de uísque.
continuou encarando a lua, pálido
como um fantasma. disse
que estava a bordo de um navio
mercante da marinha americana na costa
da indonésia até a semana passada.
perguntou se ainda havia hippies
nas ruas, feministas queimando sutiãs
em praça pública e negros
enforcados nos galhos de grossos carvalhos
no novo méxico. “oh, não, jack, isso
faz tanto tempo. agora eles mandam os jovens
negros pobres para a guerra no iraque.”
descemos até a mercearia da praia brava
atrás de umas latinhas de cerveja
e de uma garrafa de conhaque. no caminho
contei-lhe que leminski e itamar assumpção
estiveram nesta mesma casa no carnaval
de 1988. “oh, yeah”, disse jack. “os grandes
poetas são como as marés: engolem os
barcos dos imprudentes e lançam os destroços
na praia”. quando voltamos da mercearia,
minha filha de 16 anos lia jorge luis borges
e meu filho de 13 lia david goodis. nina
simone cantava just call me angel of the morning.
jack abriu uma lata de cerveja, bebeu
um longo gole olhando as folhas da mata
e disse a eles: “não deixem que os idiotas
calem sua voz. aquela voz que vem lá do fundo
de vocês mesmos. contem comigo
pro que der e vier”. minha filha
sussurrou no meu ouvido: “quem é esse
cara?” “jack kerouac”, eu respondi. “uau”,
ela balbuciou. meu filho levantou os olhos
do livro e gritou: “eddie acabou de acertar um
cruzado de direita na cara do leão de chácara”.
eu olhei para jack e em silêncio
fizemos um trato: “deixe-os viver. ainda é cedo
para contar-lhes sobre as mentiras do mundo”.
jack jogou pra dentro um bom gole
de conhaque e assentiu com a cabeça. a noite
estava fria. a lua continuava socando as nuvens
com sua cara de gângster mal-humorado.
A Canção dos Peixes
submersos
nas funduras
(de onde
alma alguma
retorna)
entre algas
rochas e restos
de naufrágios
cegos
e sem memória
os peixes
cantam
seus blues
canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo
que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir
em lugar algum
CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS
O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.
Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.
Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.
Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
A Volta do Anjo Torto
no canto da sala a TV ligada
o pastor gritava
a bolsa despencava
as contas vencidas
as batatas queimadas
o dólar subia
o poeta pirava
“meu deus, como pode
tanta merda enlatada?
que gente mais troncha
que vida fodida
quer saber
dessa noite não passa
ou pulo do empire state
ou me torno um homicida”
mas eis que um anjo torto
aquele mesmo, com asas de avião
entrou pela porta
um baseado na mão
bateu as duas asas
e foi logo dizendo:
“sai dessa, poeta
para de punheta
vive a vida, desencana
come sua mina, segue seu rumo
o real é a ilusão virtual
dos que batem a cara contra o muro”
Caverna
me tranquei na caverna com platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
NOVOS GAMES NO MERCADO
A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.
Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.
“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.
Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.
O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”
Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.
Crânios esfacelados valem mais pontos
BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS
quanto abismo cabe
na palavra abismo,
quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,
quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,
quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos
para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul
chamado névoa, vulcão,
solitude?
LENDA URBANA
Sombra Vermelha perseguia lenhadores
no coração da floresta.
Mas o coração da floresta parou.
Não há mais lenhadores.
Não há mais árvores.
Sombra Vermelha teve a pele coberta
por grossas escamas de petróleo.
Lili Maconha escuta vozes na secretária eletrônica,
vindas de muito longe.
As cortinas esfarrapadas tremulam levemente
ante a paisagem de escombros.
Cavalos de névoa são vistos trotando na Praça da Sé,
depois que o sino badala
as últimas blasfêmias da noite
e o breu desaba sobre o chafariz de água suja.
As paredes dos manicômios sangram óleo de caminhão.
O GRITO
sob impacto da pintura de Edvard Munch
céu sangue, azuis de gases, instável
gravura – terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:
motivo algum – nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:
maconha demais – diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:
mal sabem (o fiorde arde
em lilás) – a bomba explode
nas entranhas:
e é isso que faz
a paisagem trêmula