Hoje faz 65 anos do nascimento de Ademir Assunção
Ademir Assunção

Ademir Assunção

n. 1961 BR BR

Ademir Assunção é um poeta, dramaturgo e editor brasileiro, conhecido por sua poesia engajada e de forte teor social. Sua obra frequentemente aborda temas como a opressão, a resistência e a condição humana em contextos de desigualdade. Com uma linguagem direta e contundente, Assunção se insere na tradição da poesia social e de protesto, utilizando a palavra como ferramenta de intervenção e reflexão sobre a realidade.

n. 1961-06-02, Araraquara

22 200 Visualizações

CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS

O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.

Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.

Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.

Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
Ler poema completo
Biografia

Identificação e contexto básico

Ademir Assunção é um poeta, dramaturgo e editor brasileiro. É conhecido por sua obra que transita entre a poesia e o teatro, frequentemente marcada por um forte engajamento social e político.

Infância e formação

Nascido em São Paulo, Ademir Assunção teve sua formação influenciada pelo ambiente urbano e pelas efervescentes discussões culturais e políticas de seu tempo. Sua educação formal se complementou com leituras e vivências que moldaram sua visão de mundo.

Percurso literário

Ademir Assunção iniciou sua trajetória literária com forte inclinação para a poesia social e o teatro. Sua obra se desenvolveu ao longo do tempo, mantendo uma linha de coerência temática e estilística, com foco na crítica social e na expressão das lutas populares. Colaborou com diversas publicações e participou ativamente da cena cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Ademir Assunção incluem coletâneas de poesia e peças teatrais que exploram a opressão, a resistência e a dignidade humana. Seus temas dominantes são a injustiça social, a luta de classes e a crítica ao sistema capitalista. Utiliza uma linguagem direta, muitas vezes com recursos da oralidade e da linguagem coloquial, mas sem perder a força poética e a densidade imagética. Seu estilo é marcado pela contundência e pelo lirismo engajado. Sua poesia dialoga com a tradição da poesia social brasileira, mas com inovações no tom e na forma, aproximando-se de movimentos de contracultura e de poesia marginal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ademir Assunção viveu e produziu em um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil, incluindo períodos de ditadura e redemocratização. Sua obra reflete essas tensões, dialogando com movimentos sociais e artísticos que buscavam questionar o status quo. Sua posição política e filosófica é claramente de esquerda, com forte crítica ao capitalismo e defesa dos direitos dos oprimidos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As experiências pessoais de Ademir Assunção, especialmente sua vivência urbana e seu contato com as realidades sociais mais duras, moldaram profundamente sua obra. Sua atuação como editor e militante cultural também é um aspecto importante de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ademir Assunção é reconhecido por sua contribuição à poesia social brasileira, sendo uma voz importante para temas de resistência e crítica. Sua obra tem um lugar consolidado na literatura engajada, com reconhecimento em círculos acadêmicos e entre leitores que se identificam com sua poética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ademir Assunção foi influenciado por poetas da tradição social e por movimentos de contracultura. Seu legado reside em sua capacidade de dar voz aos marginalizados e de manter viva a chama da poesia como forma de luta e transformação social. Influenciou gerações de poetas que buscam aliar arte e engajamento.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ademir Assunção tem sido interpretada sob a ótica da crítica social e da poesia de protesto. Seus poemas convidam à reflexão sobre as estruturas de poder e a condição humana em sociedades marcadas pela desigualdade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ademir Assunção também atuou como dramaturgo, explorando em suas peças temas semelhantes aos de sua poesia. Sua dedicação à poesia como forma de intervenção social é um aspecto central de seu perfil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ademir Assunção faleceu em 2020, deixando um importante acervo poético e teatral. Suas obras continuam a ser estudadas e lidas, mantendo viva sua memória e seu legado literário e político.

Poemas

20

CURRAL VIP NA ILHA DE FODAS

O sol sádico cai com peso de bigorna
na Ilha de Fodas.
A Noite Neblina veste espartilho de couro
e tapa-sexo metálico.

Chicotes com espinhos de chumbo sobre a carne crua,
mamilos lacerados e nádegas marcadas
com ferro em brasa – celebridades big brother
contorcem músculos siliconados,
ganem ladainhas obscenas em louvor à Senhora dos Açoites,
suplicam suplícios e torturas
para afugentar o tédio.

Olhos vendados na Alcova de Prazeres Bárbaros,
a Cantora Devassa é sodomizada por Black Ice
em sessões contínuas de fist fucking.
Microcâmeras Paparazzi flagram em detalhes
as mucosas do intestino vip.
Olor de sêmen, sangue e fezes excita narizes de platina.
Âncoras de noticiários políticos rastejam no chão
salpicado de lâminas, clamando açoites brutais.

Policiais com uniforme de oficiais nazistas,
coturnos prateados & máscaras de bode,
achacam escravas brancas
na Galeria do Amor.
993

TURBULÊNCIA DE NERVOS

(sétimo monólogo interior de Lili Maconha)

 

Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.

                                                                                             Ela virá esta noite.

Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.

                           Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.

Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.

                                                                 Ela virá e eu a estarei esperando.

Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.

                                                                                 0 38 está engatilhado.

Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
1 106

NOVOS GAMES NO MERCADO

A cidade suspira holocaustos na hora do rush.
Há fogueiras por toda parte, carcaças de caminhões,
memórias infectadas por vírus transnacionais.

Torcidas rivais se digladiam nos estádios,
com transmissão ao vivo pelas emissoras de TV a cabo
– sob patrocínio da Tyrell Corporation.

“Um espetáculo e tanto. Diversão para toda a família
em noites infames” – murmura
o Presidente de Comunicação Corporativa,
entre planilhas de audiência e pastilhas de heroína.

Formigas carnívoras devoram Poodles da Paz.
Maritacas radiativas anunciam a chegada do verão.
Florações de ipês são projetadas nas fachadas dos edifícios.

O Nigromante digita no teclado do laptop:
*”I saw the best minds of my generation destroyed by madness.”

Câmeras multidirecionais flagram headhunters
burlando as regras do jogo
e promovendo carnificina também nas arquibancadas.

Crânios esfacelados valem mais pontos
966

MONTANHAS SÃO FRIAS QUANTO A NOITE CAI

numa noite sem nome
a severa senhora de olhos escuros
toca-nos a face
com seus dedos de pelica
e vai arrancando, uma a uma,
todas as máscaras
que vestimos

e nessa hora sem hora
até o mais valente dos valentes
sente um tremor,
ainda que leve,
na mão que empunha o revólver
1 273

BILLIE HOLIDAY NA PORTA DOS FUNDOS

quanto abismo cabe
na palavra abismo,

quantos passos até a borda
da estrela-pantera-negra,

quantas brumas brancas,
quantos acordes de blues,

quantas noites sem sono
quantos abalos sísmicos

para sossegar o dragão
que cospe esse fogo azul

chamado névoa, vulcão,
solitude?
1 120

CHACAIS E HIENAS

a história sempre termina assim
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido

os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso

os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos

mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância

e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade

as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores

o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada

o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade

a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
1 238

MICOSE NA PELE DO TEMPO

(segundo monólogo interior de Lili Maconha)

 

Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.

Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.

Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.

Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.

E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo

e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.

Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro

e não o abre nunca mais.
1 199

A Volta do Anjo Torto

no canto da sala a TV ligada
                o pastor gritava
a bolsa despencava
                as contas vencidas
as batatas queimadas
                o dólar subia
o poeta pirava
                “meu deus, como pode
tanta merda enlatada?
                 que gente mais troncha
que vida fodida
                 quer saber
dessa noite não passa
                 ou pulo do empire state
ou me torno um homicida”
                 mas eis que um anjo torto
aquele mesmo, com asas de avião
                  entrou pela porta
um baseado na mão
                 bateu as duas asas
e foi logo dizendo:
                “sai dessa, poeta
para de punheta
                 vive a vida, desencana
come sua mina, segue seu rumo
                  o real é a ilusão virtual
dos que batem a cara contra o muro”
911

O RUGIDO ESQUIZO DOS MOTORES

O Mendigo Kamaiurá atravessa lentamente a rua
embaixo do Minhocão.
O sinal está fechado para ele.
Buzinas esgoelam, motores rosnam,
vendedores de planos de saúde suam e bufam.
A garganta congestionada
do shopping Paradise
cospe pastilhas de urina
na cara de dois mil clones de Pedro Bial.
Um ônibus atropela uma barata.

Demiurgo bêbado, doente, esfarrapado
e fedendo a merda,
o Mendigo Kamaiurá desenha gestos insanos no ar,
indiferente ao rugido dos automóveis.

Lili Maconha observa a cena pela janela
do Trem Fantasma.
Tatua mais uma cicatriz no antebraço.
Com a gilete afiada do desespero.
1 116

O Anjo do Ácido Elétrico

o anjo sujo, esfarrapado
              remela nos olhos
cabeça feita
             bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
             (comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
             música que não cessa
minha mão dentro da sua
             veias são nervuras
golfinho saltando
              na pele das costas
vênus vestindo
             um manto de água
a ninfa chapada
             de olhos elétricos
cores girando
             no abismo sem fundo
dança de estrelas
             no teto da sala
dois sóis em cada ontem
             três vozes
na voz de quem cala
774

Obras

3

Videos

50

Comentários (0)

Partilhar
Iniciar sessão para publicar um comentário.

Ainda não há comentários. Sê o primeiro a comentar.