Ademir Assunção

Ademir Assunção

n. 1961 BR BR

Ademir Assunção é um poeta, dramaturgo e editor brasileiro, conhecido por sua poesia engajada e de forte teor social. Sua obra frequentemente aborda temas como a opressão, a resistência e a condição humana em contextos de desigualdade. Com uma linguagem direta e contundente, Assunção se insere na tradição da poesia social e de protesto, utilizando a palavra como ferramenta de intervenção e reflexão sobre a realidade.

n. 1961-06-02, Araraquara

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CHACAIS E HIENAS

a história sempre termina assim
os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido

os chacais – e também as hienas
saltam sobre o leão ferido
para devorar sua carne – até o osso

os chacais – e também as hienas
saciam a fome atávica de séculos
e mostram os dentes pontiagudos

mostram os dentes pontiagudos
fiapos de carne entre os caninos
e riem seu riso de escárnios e ganância

e o riso de escárnio e ganância
é ouvido em toda a pradaria
toda a savana toda a cidade

as ovelhas balem nos currais os lobos
uivam nos cerrados as águias
apuram a visão no alto das árvores

o cheiro de carniça persiste por dias
vermes fermentam os restos de carne
e o couro do leão ferido se degrada

o vento crepita nos galhos secos
um silêncio – que não é paz nem trégua
se espalha pela pradaria savana cidade

a chuva não vem o sol é inclemente
a fome o escárnio a ganância persistem
e a história recomeça de novo e de novo
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Biografia

Identificação e contexto básico

Ademir Assunção é um poeta, dramaturgo e editor brasileiro. É conhecido por sua obra que transita entre a poesia e o teatro, frequentemente marcada por um forte engajamento social e político.

Infância e formação

Nascido em São Paulo, Ademir Assunção teve sua formação influenciada pelo ambiente urbano e pelas efervescentes discussões culturais e políticas de seu tempo. Sua educação formal se complementou com leituras e vivências que moldaram sua visão de mundo.

Percurso literário

Ademir Assunção iniciou sua trajetória literária com forte inclinação para a poesia social e o teatro. Sua obra se desenvolveu ao longo do tempo, mantendo uma linha de coerência temática e estilística, com foco na crítica social e na expressão das lutas populares. Colaborou com diversas publicações e participou ativamente da cena cultural.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias As obras principais de Ademir Assunção incluem coletâneas de poesia e peças teatrais que exploram a opressão, a resistência e a dignidade humana. Seus temas dominantes são a injustiça social, a luta de classes e a crítica ao sistema capitalista. Utiliza uma linguagem direta, muitas vezes com recursos da oralidade e da linguagem coloquial, mas sem perder a força poética e a densidade imagética. Seu estilo é marcado pela contundência e pelo lirismo engajado. Sua poesia dialoga com a tradição da poesia social brasileira, mas com inovações no tom e na forma, aproximando-se de movimentos de contracultura e de poesia marginal.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Ademir Assunção viveu e produziu em um período de intensas transformações sociais e políticas no Brasil, incluindo períodos de ditadura e redemocratização. Sua obra reflete essas tensões, dialogando com movimentos sociais e artísticos que buscavam questionar o status quo. Sua posição política e filosófica é claramente de esquerda, com forte crítica ao capitalismo e defesa dos direitos dos oprimidos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal As experiências pessoais de Ademir Assunção, especialmente sua vivência urbana e seu contato com as realidades sociais mais duras, moldaram profundamente sua obra. Sua atuação como editor e militante cultural também é um aspecto importante de sua vida.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção Ademir Assunção é reconhecido por sua contribuição à poesia social brasileira, sendo uma voz importante para temas de resistência e crítica. Sua obra tem um lugar consolidado na literatura engajada, com reconhecimento em círculos acadêmicos e entre leitores que se identificam com sua poética.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Ademir Assunção foi influenciado por poetas da tradição social e por movimentos de contracultura. Seu legado reside em sua capacidade de dar voz aos marginalizados e de manter viva a chama da poesia como forma de luta e transformação social. Influenciou gerações de poetas que buscam aliar arte e engajamento.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Ademir Assunção tem sido interpretada sob a ótica da crítica social e da poesia de protesto. Seus poemas convidam à reflexão sobre as estruturas de poder e a condição humana em sociedades marcadas pela desigualdade.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Ademir Assunção também atuou como dramaturgo, explorando em suas peças temas semelhantes aos de sua poesia. Sua dedicação à poesia como forma de intervenção social é um aspecto central de seu perfil.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória Ademir Assunção faleceu em 2020, deixando um importante acervo poético e teatral. Suas obras continuam a ser estudadas e lidas, mantendo viva sua memória e seu legado literário e político.

Poemas

20

O GRITO

sob impacto da pintura de Edvard Munch
 

céu sangue, azuis de gases, instável
gravura – terror
que se grafa na íris: uma alma
em pânico:

motivo algum – nenhum desastre
asteroide em rota
de colisão, explosão de bombas,
escombro, crime ou espasmo:

maconha demais – diriam
os bolhas, nódoas
de noia, bolores de centeio:

mal sabem (o fiorde arde
em lilás) – a bomba explode
nas entranhas:

e é isso que faz
a paisagem trêmula
1 036

TURBULÊNCIA DE NERVOS

(sétimo monólogo interior de Lili Maconha)

 

Arrancaram a alma das palavras.
Esfolaram a epiderme, trituraram a carne e moeram os ossos,
até esvaziarem cada camada de sentido.

                                                                                             Ela virá esta noite.

Carcaças corroídas pelo ácido monetário,
sílabas e fonemas são apenas fantasmas,
sem significado algum.

                           Ela virá. A cadela de casaco felpudo, escuro e grosso.

Há letreiros luminosos nas fachadas dos edifícios,
mas eles não dizem nada.
Tudo está a venda. Tudo é ruína. Tudo é naufrágio
e turbulência de nervos.

                                                                 Ela virá e eu a estarei esperando.

Peixes agonizam entre os entulhos.
Torneiras despejam água fétida sobre pilhas de pratos.
Os corredores das universidades estão cheios de zumbis.

                                                                                 0 38 está engatilhado.

Os últimos poetas se enforcaram em galhos de bétulas de ferro.
1 106

O OLHO AZUL DO MISTÉRIO

desço dos céus para beijar
os lábios quentes da fera — desço,
vejo dragões pastando na grama
azul, incêndio nas cortinas
dos apartamentos — desço,
escuto um coro de crianças
bêbadas, vozes batendo no casco
do navio fantasma ancorado
no Cais da Última Utopia — vejo,
sinto na pele os dedos de uma androide
aflita, quase em pânico, mãos
de neblina, pálpebras que se fecham
toda vez que toco o bico dos seios — escuto,
encaro olho no olho o olho
do Grande Gavião Terena, leopardos
lambem o leite da Via Láctea, saltam
com garras envenenadas sobre
as penugens de Vênus, penetram
o cu da lua, pregas se rompem,
espelhos se estilhaçam e rasgam a carne
dos banqueiros que sugam o vinho
da vida com canudinhos cedidos
pelo senhor McDonald — sinto,
e por isso escrevo, e por isso deixo aqui
palavras escritas na água, na carne
dos que sofrem, escrevo com sangue, escrevo
com porra nas paredes das salas
iluminadas com a luz monótona dos aparelhos
de televisão, escrevo com mijo nos muros
das cidades do Ocidente, convoco hidras,
provoco tumulto, estrelas sentam-se no sofá
e tomam café marroquino, os sentidos
mixam o onde e o quando na câmara
oca de ecos, a pele se arrepia, relógios
praticam saltos ornamentais em piscinas
vazias, neve ao redor dos cabelos, chove
na terra inteira, dedos de açúcar tocam
a escama dos peixes, o corpo todo pressente
a presença de um deus, e você finalmente encara
o úmido olho azul do mistério
1 104

MICOSE NA PELE DO TEMPO

(segundo monólogo interior de Lili Maconha)

 

Há tempos o faquir polia as pontas dos pregos
com areia do Mojave.

Há tempos e dimensões perdidas
apenas esperando o momento certo da conexão.

Há o tempo lá fora, chuva de granizo,
fagulhas de fogos de artifício
e brumas que se movem.

Há o tempo dos estalidos distantes das estrelas.

E há o tempo do Aqui, esse templo da linguagem
que se enrola em frases-serpentes
enquanto escrevo

e que talvez continue traçando sinuosidades
muito tempo depois.

Mas de tempos em tempos
alguém estoura os miolos, alguém explode uma aeronave
alguém fecha o livro

e não o abre nunca mais.
1 199

A Volta do Anjo Torto

no canto da sala a TV ligada
                o pastor gritava
a bolsa despencava
                as contas vencidas
as batatas queimadas
                o dólar subia
o poeta pirava
                “meu deus, como pode
tanta merda enlatada?
                 que gente mais troncha
que vida fodida
                 quer saber
dessa noite não passa
                 ou pulo do empire state
ou me torno um homicida”
                 mas eis que um anjo torto
aquele mesmo, com asas de avião
                  entrou pela porta
um baseado na mão
                 bateu as duas asas
e foi logo dizendo:
                “sai dessa, poeta
para de punheta
                 vive a vida, desencana
come sua mina, segue seu rumo
                  o real é a ilusão virtual
dos que batem a cara contra o muro”
911

A Canção dos Peixes

submersos
nas funduras

(de onde
alma alguma
retorna)

entre algas
rochas e restos
de naufrágios

cegos
e sem memória

os peixes
cantam
seus blues

canções inaudíveis
de um tempo
sem tempo

que ninguém
(nem coltrane
nem hermeto)
pode ouvir

em lugar algum
643

Caverna

me tranquei na caverna com platão
pra enfrentar meus próprios males
não vi primata nem zapata nem dragão
ouvi o canto das sereias pelos bares
chamei pra briga o capeta de facão
senti o aço perfurando a carne mole
gritei bem alto um tremendo palavrão
chamei são jorge pra ajudar o filho pobre
daqui ninguém sai vivo nem com reza ou um milhão
um dia até o tolo acaba que descobre
perdi o medo de espelho e solidão
só levo a vida com a pele que me cobre
1 210

Sol Negro

tenho gritado raios elétricos, chuvas
que não passam, maremotos, tremores e ruínas

grito: e meu grito ilumina
toda a cidade de campinas

grito: e meu grito desespera
todos os torcedores da ponte preta

grito: e o sol rola em slow motion
como uma cabeça tarahumara, em direção ao gol,

deixando um rastro de incêndio no gramado
774

O Anjo do Ácido Elétrico

o anjo sujo, esfarrapado
              remela nos olhos
cabeça feita
             bate as asas sob o céu lilás
:
luas se dissolvem
             (comprimidos de sonrisal
na fornalha da noite)
             música que não cessa
minha mão dentro da sua
             veias são nervuras
golfinho saltando
              na pele das costas
vênus vestindo
             um manto de água
a ninfa chapada
             de olhos elétricos
cores girando
             no abismo sem fundo
dança de estrelas
             no teto da sala
dois sóis em cada ontem
             três vozes
na voz de quem cala
774

A Vertigem do Caos

um estranho entre estranhos, nômade
entre escombros, procuro sem
procurar, um não-lugar, o ventre
de látex de uma replicante quase
humana, as ruínas enfim apaziguadas
da bombonera, as águas que refluem
pra dentro da baía de todos
os infernos, ali, onde a eternidade
são os dentes de estanho do último sol
mastigando oceanos como fatias
de pizza, lançadas ao ocaso
do fundo de um naufrágio, ante
a dança misteriosa de um feiticeiro cherokee
667

Obras

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