Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Solidão
Edna estava caminhando pela rua com sua sacola de compras quando passou pelo carro. Havia um cartaz na janela lateral:
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelão grudado na janela com alguma substância. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna não conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graúdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisão e películas cinematográficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um número de telefone. Também havia três fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sério de terno e gravata. Também parecia estúpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gás e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitária lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhões de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lá. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o número do telefone. Leu a parte datilografada novamente. “Películas cinematográficas.” Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem “filmes”. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou três xícaras de café antes de discar o número. O telefone chamou quatro vezes.
– Alô? – ele respondeu.
– Sr. Lighthill?
– Sim?
– Vi seu anúncio. Seu anúncio no carro.
– Ah, sim.
– Meu nome é Edna.
– Como vai, Edna?
– Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo está demais.
– Sim, nada fácil.
– Bem, sr. Lighthill...
– Me chame apenas de Joe.
– Bem, Joe, rá rá rá, me sinto tão boba. Sabe por que estou telefonando?
– Você viu meu aviso?
– Quero dizer, rá rá rá, o que há de errado com você? Não consegue arranjar uma mulher?
– Acho que não, Edna. Me diga, onde elas estão?
– As mulheres?
– Sim.
– Ah, por toda parte, veja bem.
– Onde? Me diga. Onde?
– Bem, na igreja, veja bem. Há mulheres na igreja.
– Não gosto de igrejas.
– Ah.
– Escute, por que você não vem para cá, Edna?
– Quer dizer para sua casa?
– Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressão.
– Está tarde.
– Não está tão tarde. Escute, você viu meu aviso. Deve estar interessada.
– Bem...
– Você está com medo, é só isso. Está apenas com medo.
– Não, não estou com medo.
– Então venha pra cá, Edna.
– Bem...
– Venha.
– Certo. Vejo você em quinze minutos.
O apartamento ficava no último andar de um condomínio moderno. Número 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lá estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saíam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
– Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrás dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandálias, e fumando um cigarro.
– Sente-se, vou pegar uma bebida para você.
Era um lugar agradável. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill – Joe – voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e então sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
– Sim – ele disse –, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
– Notei. É muito bom.
– Tome a sua bebida.
– Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradável. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparência cômica.
– É um belo vestido, Edna.
– Gosta?
– Oh, sim. Você é bem fornida. O vestido fica muito bem em você, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele não fala?, pensou Edna. É ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
– Deixe-me preparar outra bebida para você – disse Joe.
– Não, realmente está na minha hora.
– Ora, vamos lá – ele disse –, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
– Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
– Sabe – ele disse –, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e não respondeu.
– Como você se sai nesses testes? – Joe perguntou.
– Nunca fiz nenhum.
– Deveria, sabe, assim você descobre quem e o que você é.
– Acha que esses testes funcionam? Já vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas já vi – disse Edna.
– Claro que funcionam.
– Talvez eu não seja boa em sexo – disse Edna –, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
– Cada um de nós está, no final, sozinho – disse Joe.
– Como assim?
– Quero dizer, não importa quão bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
– Isso é triste – disse Edna.
– Claro que é. Então chega o dia em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é melhor.
– Você se divorciou da sua esposa, Joe?
– Não. Ela se divorciou de mim.
– O que deu errado?
– Orgias sexuais.
– Orgias sexuais?
– Veja bem, uma orgia sexual é o lugar mais solitário do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
– Tudo bem.
– Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
– Não sei muito sobre essas coisas, Joe – disse Edna.
– Acho que sem amor, sexo não é nada. As coisas só podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
– Quer dizer que as pessoas têm que gostar umas das outras?
– Ajuda.
– Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
– Orgias não os manterão juntos.
– E o que manteria?
– Bem, não sei. Talvez o suingue.
– O suingue?
– Você sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos têm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela há meses. Já a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, você sabe, o que vem depois desses movimentos. Já a vi braba, já a vi bêbada, já a vi sóbria. E então, vem o suingue. Você está no quarto com ela, finalmente você a está conhecendo. Há uma chance de algo real. É claro, Mike está com a sua esposa no outro quarto. Você pensa: “Boa sorte, Mike, e espero que você seja tão bom amante quanto eu”.
– E isso dá certo?
– Bem, não sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E então pode ter pessoas que não se conheçam bem o suficiente, não importa quanto tenham conversado.
– Você é um desses, Joe?
– Bem, esse negócio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que não daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
– Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijá-la. Seu mau hálito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
– Joe, me solta! Você está indo muito rápido, Joe! Me solte!
– Para que você veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijá-la novamente e conseguiu. Era horrível. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
– Deus, deus... por que você fez isso? Você tentou me matar...
Ele rolava no chão.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tão feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lá fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
– Ao sul de lugar nenhum
PROCURA-SE MULHER
Ela parou. Havia um grande pedaço de papelão grudado na janela com alguma substância. A maior parte estava datilografada. De onde estava na calçada, Edna não conseguia ler o aviso. Podia apenas ver as letras graúdas:
PROCURA-SE MULHER
Era um carro novo e caro. Edna deu um passo sobre a grama para ler a parte datilografada:
Homem, 49 anos. Divorciado. Procura mulher para casamento. Deve ter entre 35 e 44 anos. Gosta de televisão e películas cinematográficas. Boa comida. Sou especialista em custos de produção, com estabilidade no emprego. Dinheiro no banco. Gosto de mulheres acima do peso.
Edna tinha 37 anos e estava acima do peso. Havia um número de telefone. Também havia três fotos do cavalheiro em busca de uma mulher. Ele parecia bem sério de terno e gravata. Também parecia estúpido e um pouco cruel. E feito de madeira, pensou Edna, feito de madeira.
Edna se afastou, sorrindo um pouco. Sentia também uma espécie de repulsa. Ao chegar ao seu apartamento, ela o tinha esquecido. Apenas algumas horas depois, sentada na banheira, voltou a pensar nele e, dessa vez, pensou em como ele devia estar realmente sozinho para fazer tal coisa:
PROCURA-SE MULHER
Imaginou-o chegando em casa, encontrando as contas de gás e telefone na caixa de correio, despindo-se, tomando um banho, a televisão ligada. Então leria o jornal da tarde. Depois iria para a cozinha preparar sua refeição. De pé, de cuecas, olhando para a frigideira. Pegando sua comida e caminhando para uma mesa, comendo. Bebendo seu café. Então mais televisão. E talvez uma solitária lata de cerveja antes de se deitar. Havia milhões de homens como ele por toda a América.
Edna saiu da banheira, enrolou-se na toalha, vestiu-se e saiu do apartamento. O carro ainda estava lá. Anotou o nome do homem, Joe Lighthill, e o número do telefone. Leu a parte datilografada novamente. “Películas cinematográficas.” Que termo estranho para se usar. Agora as pessoas dizem “filmes”. PROCURA-SE MULHER. O aviso era muito ousado. Estava diante de um sujeito original.
Quando Edna chegou em casa, tomou três xícaras de café antes de discar o número. O telefone chamou quatro vezes.
– Alô? – ele respondeu.
– Sr. Lighthill?
– Sim?
– Vi seu anúncio. Seu anúncio no carro.
– Ah, sim.
– Meu nome é Edna.
– Como vai, Edna?
– Ah, vou bem. Tem feito tanto calor. Esse tempo está demais.
– Sim, nada fácil.
– Bem, sr. Lighthill...
– Me chame apenas de Joe.
– Bem, Joe, rá rá rá, me sinto tão boba. Sabe por que estou telefonando?
– Você viu meu aviso?
– Quero dizer, rá rá rá, o que há de errado com você? Não consegue arranjar uma mulher?
– Acho que não, Edna. Me diga, onde elas estão?
– As mulheres?
– Sim.
– Ah, por toda parte, veja bem.
– Onde? Me diga. Onde?
– Bem, na igreja, veja bem. Há mulheres na igreja.
– Não gosto de igrejas.
– Ah.
– Escute, por que você não vem para cá, Edna?
– Quer dizer para sua casa?
– Sim. Moro em um lugar legal. Podemos tomar um drinque, conversar. Sem pressão.
– Está tarde.
– Não está tão tarde. Escute, você viu meu aviso. Deve estar interessada.
– Bem...
– Você está com medo, é só isso. Está apenas com medo.
– Não, não estou com medo.
– Então venha pra cá, Edna.
– Bem...
– Venha.
– Certo. Vejo você em quinze minutos.
O apartamento ficava no último andar de um condomínio moderno. Número 17. A piscina abaixo refletia as luzes. Edna bateu. A porta se abriu, e lá estava o sr. Lighthill: entradas frontais, nariz aquilino com pelos que saíam pelas narinas, a camisa aberta na altura do pescoço.
– Entre, Edna...
Entrou, e a porta se fechou atrás dela. Trazia seu vestido azul de seda. Estava sem meias, de sandálias, e fumando um cigarro.
– Sente-se, vou pegar uma bebida para você.
Era um lugar agradável. Tudo nas cores azul e verde e muito limpo. Ela ouviu o sr. Lighthill cantarolar surdamente, enquanto preparava as bebidas, hmmmmmmm, hmmmmmmm, hmmmmmmm... Ele parecia tranquilo e isso a ajudou a descontrair.
O sr. Lighthill – Joe – voltou com as bebidas. Alcançou a Edna a sua e então sentou-se em uma cadeira do outro lado da sala.
– Sim – ele disse –, tem feito muito calor, um calor infernal. Mas tenho ar-condicionado.
– Notei. É muito bom.
– Tome a sua bebida.
– Ah, claro.
Edna tomou um gole. Era uma boa bebida, um pouco forte, mas com um gosto agradável. Observou Joe inclinar a cabeça enquanto bebia. Ele parecia ter rugas profundas em torno do pescoço. E suas calças estavam muito folgadas. Pareciam ser de uma numeração muito maior. Davam a suas pernas uma aparência cômica.
– É um belo vestido, Edna.
– Gosta?
– Oh, sim. Você é bem fornida. O vestido fica muito bem em você, muito bem.
Edna não disse nada. E Joe também não. Apenas permaneceram sentados, olhando um para o outro e bebericando suas bebidas.
Por que ele não fala?, pensou Edna. É ele quem tem de falar. Havia nele algo que lembrava madeira, sim. Ela terminou seu drinque.
– Deixe-me preparar outra bebida para você – disse Joe.
– Não, realmente está na minha hora.
– Ora, vamos lá – ele disse –, deixe-me preparar outra bebida. Precisamos de algo para relaxar.
– Tudo bem, mas depois vou embora.
Joe foi até a cozinha com os copos. Ele não estava mais cantarolando. Voltou, alcançou a Edna um copo e sentou-se novamente em sua cadeira do outro lado da sala, em frente à cadeira dela. A bebida estava ainda mais forte.
– Sabe – ele disse –, me dou bem nesses testes sobre sexo das revistas.
Edna tomou um gole de sua bebida e não respondeu.
– Como você se sai nesses testes? – Joe perguntou.
– Nunca fiz nenhum.
– Deveria, sabe, assim você descobre quem e o que você é.
– Acha que esses testes funcionam? Já vi nos jornais. Nunca fiz nenhum, mas já vi – disse Edna.
– Claro que funcionam.
– Talvez eu não seja boa em sexo – disse Edna –, talvez seja por isso que estou sozinha.
Ela bebeu um longo gole de seu copo.
– Cada um de nós está, no final, sozinho – disse Joe.
– Como assim?
– Quero dizer, não importa quão bem a coisa esteja indo no sexo, no amor ou em ambos, chega um dia em que tudo acaba.
– Isso é triste – disse Edna.
– Claro que é. Então chega o dia em que tudo acaba. Ou há uma separação ou a coisa toda se resolve em uma trégua: duas pessoas vivendo juntas sem sentir nada. Acho que ficar sozinho é melhor.
– Você se divorciou da sua esposa, Joe?
– Não. Ela se divorciou de mim.
– O que deu errado?
– Orgias sexuais.
– Orgias sexuais?
– Veja bem, uma orgia sexual é o lugar mais solitário do mundo. Essas orgias... fiquei com uma sensação de desespero... aqueles caralhos entrando e saindo... me desculpe...
– Tudo bem.
– Aqueles caralhos entrando e saindo, pernas enlaçadas, dedos trabalhando, bocas, todo mundo se agarrando e suando e determinado a fazer a coisa toda... de alguma forma.
– Não sei muito sobre essas coisas, Joe – disse Edna.
– Acho que sem amor, sexo não é nada. As coisas só podem representar alguma coisa quando existe algum sentimento entre os participantes.
– Quer dizer que as pessoas têm que gostar umas das outras?
– Ajuda.
– Imagine que eles se cansem uns dos outros? Imagine que tenham que continuar juntos? Por economia? Filhos? Essas coisas?
– Orgias não os manterão juntos.
– E o que manteria?
– Bem, não sei. Talvez o suingue.
– O suingue?
– Você sabe, quando dois casais se conhecem muito bem e trocam parceiros. Os sentimentos têm, pelo menos, uma chance. Por exemplo, digamos que eu sempre tenha gostado da esposa de Mike. Gosto dela há meses. Já a observei caminhar pela sala. Gosto dos movimentos dela. Os movimentos me deixaram curioso. Imagino, você sabe, o que vem depois desses movimentos. Já a vi braba, já a vi bêbada, já a vi sóbria. E então, vem o suingue. Você está no quarto com ela, finalmente você a está conhecendo. Há uma chance de algo real. É claro, Mike está com a sua esposa no outro quarto. Você pensa: “Boa sorte, Mike, e espero que você seja tão bom amante quanto eu”.
– E isso dá certo?
– Bem, não sei... Suingues podem causar dificuldades... mais tarde. Tudo tem que ser combinado... muito bem combinado, antecipadamente. E então pode ter pessoas que não se conheçam bem o suficiente, não importa quanto tenham conversado.
– Você é um desses, Joe?
– Bem, esse negócio de suingue pode ser bom para alguns... talvez seja bom para muitos. Acho que não daria certo para mim. Sou muito puritano.
Joe terminou sua bebida. Edna bebeu o restante da sua e se levantou.
– Escute, Joe, tenho que ir...
Joe caminhou através da sala na direção dela. Ele parecia um elefante naquelas calças. Ela viu suas orelhas grandes. Então ele a agarrou e começou a beijá-la. Seu mau hálito vencia todas as bebidas. Ele tinha um cheiro muito azedo. Parte de sua boca não estava fazendo contato. Era forte, mas sua força não era pura, sua força claudicava. Ela afastou seu rosto para longe e mesmo assim ele a mantinha presa.
PROCURA-SE MULHER
– Joe, me solta! Você está indo muito rápido, Joe! Me solte!
– Para que você veio aqui, sua puta?
Ele tentou beijá-la novamente e conseguiu. Era horrível. Edna ergueu o joelho. Acertou-o em cheio. Ele se dobrou e caiu no tapete.
– Deus, deus... por que você fez isso? Você tentou me matar...
Ele rolava no chão.
Seu traseiro, ela pensou, ele tinha uma bunda tão feia.
Deixou-o rolando no tapete e desceu as escadas correndo. O ar estava limpo lá fora. Ela ouviu pessoas conversando, ouviu seus aparelhos de televisão. Não era uma caminhada muito longa até seu apartamento. Sentiu necessidade de outro banho, livrou-se do seu vestido de seda azul e se lavou. Então saiu da banheira, secou-se com a toalha e ajeitou os rolos em seus cabelos. Decidiu que nunca mais o veria.
– Ao sul de lugar nenhum
2 095
Charles Bukowski
Abrace a Escuridão
o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
1 500
Charles Bukowski
Abrace a Escuridão
o verdadeiro deus é a desordem
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
o verdadeiro deus é a loucura
viver em paz permanente é
viver permanentemente morto.
a agonia pode matar
ou
a agonia pode dar sustentação à vida
mas a paz é sempre horripilante
a paz é o que há de pior
caminhadas
conversas
sorrisos,
a aparência das coisas.
não se esqueça das calçadas
das putas,
da traição,
do verme na maçã,
dos bares, das cadeias,
dos suicídios dos amantes.
aqui na América
assassinamos um presidente e seu irmão,
outro presidente desistiu do cargo.
pessoas que acreditam em política
são como pessoas que acreditam em deus:
estão chupando vento através de canudos
curvos.
não há deus
não há política
não há paz
não há amor
não há controle
não há plano
fique longe de deus
siga perturbado
deslize.
Eu me recostava no balcão do bar Musso’s. Sarah tinha ido ao toalete de senhoras. Eu gostava do bar Musso’s, do bar como bar, mas não da sala onde ficava. Era conhecido como “Sala Nova”. A “Sala Velha” ficava do outro lado, e eu preferia comer lá. Era mais escuro e tranquilo. Nos velhos tempos, eu ia à Sala Velha comer, mas raramente comia mesmo. Apenas olhava o menu e dizia ao pessoal “Ainda não”, e continuava a pedir bebidas. Algumas das damas que eu levava lá eram de má reputação, e enquanto a gente bebia, sem parar, estouravam muitas discussões aos berros, cheias de xingamentos, bebidas derramadas e pedidos de outras. Eu geralmente passava às damas o dinheiro do táxi, mandava-as dar o fora e continuava bebendo sozinho. Duvido que usassem o dinheiro do táxi em táxis. Mas uma das coisas mais legais do Musso’s era que quando eu voltava, depois da trepada, geralmente me recebiam com sorrisos calorosos. Muito estranho.
De qualquer modo, eu me recostava no balcão do bar, e a Sala Nova estava cheia, a maioria turistas, que batiam papo, torciam o pescoço e emitiam raios da morte. Pedi um novo drinque e então me bateram no ombro.
– Chinaski, como vai você?
Virei-me e olhei. Jamais reconheci alguém. Podia encontrar uma pessoa na noite passada e não lembrar dela no dia seguinte. Se arrancassem minha mãe da cova, eu não saberia quem era ela.
– Estou bem – disse. – Posso te pagar uma bebida?
– Não, obrigado. Não nos conhecemos. Eu sou Harold Pheasant.
– Oh, sim. Jon me disse que você estava pensando em...
– É, quero financiar seu argumento. Li sua obra. Você tem um maravilhoso senso de diálogo. Li sua obra: muito cinematográfica.
– Tem certeza de que não quer um drinque?
– Não, preciso voltar pra minha mesa.
– Ah, é? Que tem feito ultimamente, Pheasant?
– Acabo de produzir um filme sobre a vida de Mack Derouac.
– É? Como se chama?
– A Canção do Coração.
Tomei um gole.
– Ei, espere um minuto! Você está brincando! Não vai chamar o filme de A Canção do Coração.
– Oh, sim, é assim que vai se chamar.
Ele sorria.
– Você não pode me enrolar, Pheasant. É mesmo um gozador! A Canção do Coração! Nossa!
– Não – ele disse. – Estou falando sério.
De repente deu as costas e foi-se embora...
Nesse momento Sarah voltava. Olhou para mim.
– De que está rindo?
– Me deixa pedir um drinque pra você que eu te conto.
Chamei o garçom e pedi um também para mim.
– Adivinha quem eu vi na Sala Velha – ela disse.
– Quem?
– Jonathan Winters.
– Ééé? Adivinha com quem conversei enquanto você estava lá.
– Uma de suas ex-putas.
– Não, não. Pior.
– Não tem nada pior que elas.
– Conversei com Harold Pheasant.
– O produtor?
– É, está ali naquela mesa do canto.
– Oh, estou vendo!
– Não, não olhe. Não acene. Beba seu drinque. Eu bebo o meu.
– Que diabos deu em você?
– Sabe, ele é o produtor que ia produzir o argumento que eu não escrevi.
– Eu sei.
– Quando você saiu ele veio conversar comigo.
– Já disse isso.
– Não aceitou nem um drinque.
– Então você fodeu tudo e não está nem bêbado.
– Espere. Ele queria falar de um filme que acaba de produzir.
– Como foi que você fodeu tudo?
– Eu não fodi nada. Ele fodeu.
– Claro. Conta pra mim.
Olhei no espelho. Gostava de mim mesmo, mas não no espelho. Não tinha aquela aparência. Acabei meu drinque.
– Acabe seu drinque – disse.
Ela acabou.
– Conta pra mim.
– É a segunda vez que você diz: “Conta pra mim”.
– Memória notável, e nem está bêbado ainda.
Fiz sinal para o garçom, tornei a pedir.
– Bem, Pheasant veio aqui e me falou do tal filme que produziu. É sobre um escritor que não sabia escrever mas ficou famoso porque parecia um peão de rodeio.
– Quem?
– Mack Derouac.
– E isso chateou você?
– Não, isso não importa. Estava ótimo, até ele me dizer o título do filme.
– Que era?
– Por favor, estou tentando varrer da minha cabeça. É absolutamente idiota.
– Diz pra mim.
– Tá legal...
O espelho ainda estava lá.
– Diz pra mim, diz pra mim, diz pra mim.
– Tudo bem: O Voo do Destroço Peludo.
– Eu gosto.
– Eu não gostei. E disse a ele. Ele se mandou. A gente perdeu o patrocinador.
– Você deve ir lá se desculpar.
– De jeito nenhum. Título horrendo.
– Você queria era que o filme fosse sobre você.
– É isso aí! Vou escrever um argumento sobre mim mesmo!
– Já tem o título?
– Já: Moscas no Destroço Peludo.
– Vamos sair daqui.
Com essa, saímos.
– Hollywood
1 500
Charles Bukowski
Lava-Rápido
saí, o camarada disse, “ei!”, caminhando na minha
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
1 084
Charles Bukowski
Lava-Rápido
saí, o camarada disse, “ei!”, caminhando na minha
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
direção, apertamos as mãos, ele me passou 2 cupons
vermelhos para lavar o carro de graça, “nos encontramos depois”,
eu lhe disse, segui em frente até área de
espera com a esposa, sentamos num banco do lado de fora.
um negro manco de uma perna apareceu, disse,
“ei, cara, como vai a parada?”
respondi, “beleza, mermão, e com tu?”
“na paz”, ele disse, então se afastou para
secar uma van.
“essas pessoas o conhecem?”, perguntou minha esposa.
“não”.
“então por que elas vêm falar com você?”
“gostam de mim, as pessoas sempre gostaram de mim,
é minha sina.”
então nosso carro ficou pronto, o camarada acenou com
a flanela pra mim, levantamos, fomos até o
carro, dei-lhe um dólar, entramos,
dei a partida, o gerente se
aproximou, um cara grande de óculos escuros, um cara enorme,
abriu um sorriso largo, “bom ver você,
cara!”
sorri de volta, “obrigado, gentileza sua,
cara!”
misturei-me ao tráfego, “eles te conhecem”,
disse minha esposa.
“claro”, eu disse, “já estive ali.”
1 084
Charles Bukowski
Dow Jones: Em Queda
como podemos resistir?
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
627
Charles Bukowski
Dow Jones: Em Queda
como podemos resistir?
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
como podemos falar de rosas
ou de Verlaine?
este é um bando faminto
que gosta de trabalhar e contar
e conhece as leis especiais,
que gosta de sentar nos parques
pensando em nada que preste.
é ali que a porca torce o rabo
sobre os montes rochosos
onde os rostos enlouquecem como violetas calcinadas pelo sol
onde falham as vassouras e as cordas e as tochas,
sombras em apuros...
onde as paredes caem em massa.
amanhã os banqueiros ditarão o tempo
de fechar os portões contra nossa inundação
e prevaricarão com as águas;
martelando, martelando o tempo,
lembre-se já
as flores estão abertas ao vento
e isso não faz nenhuma diferença afinal
exceto como um estremecimento na nuca
quando já de volta à nossa terra aberta
mortos outra vez
caminhamos entre os mortos.
627
Charles Bukowski
Ar e Luz e Tempo e Espaço
“...você sabe, já tive uma família, um emprego, mas alguma coisa
sempre se interpôs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estúdio, você precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.”
não, baby, se você vai criar
fará isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvão
ou
criará num cubículo com 3 crianças
enquanto vive
da previdência social,
criará com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criará cego
aleijado,
demente,
criará com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.
baby, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada a ver com isso
e não criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.
Nessa noite, sem Jon escutando lá embaixo, o argumento começou a andar. Eu escrevia sobre um jovem que queria escrever e beber, mas a maior parte de seu sucesso era com a garrafa. O jovem fora eu. Embora aquele não fosse um tempo infeliz, tinha sido, em grande parte, um tempo de vazio e espera. Enquanto eu batia, os personagens de um certo bar me voltavam à memória. Eu tornava a ver cada rosto, os corpos, ouvia as vozes. Ali estava um bar que tinha um certo encanto mortal. Eu me concentrei nisso, revivi as brigas de bar com o garçom. Eu não era bom de briga. Para começar, tinha as mãos pequenas demais e vivia mal alimentado, muito mal alimentado. Mas tinha uma certa garra e encaixava um soco muito bem. Meu principal problema numa briga era que não conseguia me enfurecer de verdade, mesmo quando minha vida parecia estar em jogo. Era tudo teatro comigo. Importava e não. Brigar com o garçom era algo que tinha de ser feito e agradava aos fregueses, que eram um grupinho muito unido. Eu era o de fora. Tem alguma coisa positiva na bebida – aquelas brigas todas teriam me matado se eu estivesse sóbrio, mas, bêbado, era como se o corpo virasse borracha e a cabeça cimento. Pulsos torcidos, lábios inchados e rótulas machucadas eram mais ou menos tudo que eu sofria no dia seguinte. E também galos na cabeça, das quedas. Como isso podia virar um argumento, eu não sabia. Só sabia que era a única parte da minha vida sobre a qual não escrevera muito. Acredito que era são naquela época, tão são quanto qualquer outro. E sabia que havia toda uma civilização de almas penadas que viviam entrando e saindo de bares, diariamente, noturnamente e para sempre, até a morte. Nunca lera sobre essa civilização, e por isso decidi escrever sobre ela, como a lembrava. A boa máquina velha matraqueava.
No dia seguinte, lá pelo meio-dia, o telefone tocou. Era Jon.
– Encontrei uma casa. François está comigo. É linda, tem duas cozinhas, e o aluguel é de graça, realmente de graça...
– Onde está?
– Estamos no gueto de Venice. Avenida Brooks. Só tem negros. As ruas são guerra e destruição. Lindo!
– Oh!
– Você deve vir ver a casa!
– Quando?
– Hoje!
– Eu não sei.
– Oh, você não ia querer perder isto! Tem gente morando debaixo da nossa casa. A gente ouve eles lá embaixo, falando e tocando o rádio. Tem gangues por toda parte! Alguém construiu um grande hotel aqui. Mas ninguém pagou o aluguel. Fecharam o lugar com tábuas, cortaram a eletricidade, a água, o gás. Mas as pessoas ainda moram aqui. É UMA ZONA DE GUERRA! A polícia não vem aqui, parece um estado separado, com suas próprias leis. Eu adoro! Você tem de nos visitar!
– Como chego aí?
Jon me deu as indicações e desligou.
Procurei Sarah.
– Escuta, preciso ir ver Jon e François.
– Ei, eu vou também!
– Não, não pode. Fica no gueto de Venice.
– Oh, o gueto! Eu não perderia isso por nada neste mundo!
– Escuta, me faz um favor, tá? Por favor, não venha!
– Que? Acha que eu ia deixar você ir lá embaixo sozinho?
Peguei minha lâmina, pus o dinheiro nos sapatos.
– Tá legal – disse...
Entramos dirigindo devagar no gueto de Venice. Não era verdade que só tivesse negros. Havia alguns latinos nos arredores. Notei um grupo de sete a oito mexicanos em volta, encostados num carro velho. Quase todos usavam camiseta ou estavam nus da cintura para cima. Passei dirigindo devagar, sem encarar ninguém, só absorvendo. Eles não pareciam fazer muita coisa. Só esperavam. Prontos e à espera. Na verdade, provavelmente estavam apenas entediados. Pareciam caras legais. E não pareciam lá muito preocupados.
Aí chegamos à turfa negra. De repente, ruas cheias de lixo: um pé esquerdo de sapato, uma camisa laranja, uma bolsa velha... uma romã podre... outro pé esquerdo de sapato... um blue jeans... um pneu...
Eu tinha de dirigir por entre aquelas coisas. Dois negros de uns onze anos nos fitavam de suas bicicletas. Ódio puro, perfeito. Eu sentia. Os negros pobres tinham ódio. Os brancos pobres tinham ódio. Só quando ganhavam dinheiro negros e brancos se integravam. Alguns brancos amavam os negros. Muito poucos negros amavam os brancos, se é que algum amava. Ainda estavam indo à forra. Talvez nunca fossem. Numa sociedade capitalista, os perdedores são escravizados pelos vencedores, e é preciso haver mais perdedores que vencedores. Que pensava eu? Sabia que a política jamais resolveria isso, e não sobrava muito tempo para entrar numa boa.
Dirigimos até encontrar o endereço, estacionei o carro, saí e bati na porta.
Uma portinhola abriu-se deslizando e lá estava um olho nos olhando.
– Ah, Hank e Sarah!
A porta abriu-se, fechou-se, e estávamos dentro.
Eu me aproximei da janela e dei uma olhada.
– Que está fazendo? – perguntou Jon.
– Só quero dar uma olhada no carro de vez em quando...
– Oh, sim, venha ver, vou te mostrar as duas cozinhas!
Claro que havia duas cozinhas, um fogão em cada uma, uma geladeira em cada uma, uma pia em cada uma.
– Eram duas casas antes. Foram transformadas em uma.
– Legal – disse Sarah. – Você pode cozinhar numa cozinha e François na outra...
– No momento, estamos vivendo basicamente de ovos. Temos galinhas, que põem muitos ovos...
– Nossa, Jon, tá tão ruim assim?
– Não, na verdade, não. A gente calcula que vai ficar aqui por um longo tempo. Precisamos de quase todo o nosso dinheiro pra vinho e charutos. Como vai indo o argumento?
– Tenho o prazer de comunicar que já temos umas boas páginas. Só que às vezes me atrapalho com CÂMERA, ZOOM, PANORÂMICA... essa merda toda...
– Não se preocupe, eu cuido disso.
– Onde está François? – perguntou Sarah.
– Ah, está na outra sala... venham...
Entramos e lá estava François rodando sua roletinha. Quando bebia, ficava com o nariz muito vermelho, como um bêbado de desenho animado. E também, quanto mais bebia, mais deprimido ficava. Chupava um toco de charuto molhado. Conseguiu extrair algumas tristes baforadas. Ao lado, via-se uma garrafa de vinho quase vazia.
– Merda – disse –, já estou com 60 mil dólares no buraco e bebendo esse vinho barato do Jon, que ele diz ser coisa fina mas é pura bosta. Paga um dólar e 35 centavos a garrafa. Meu estômago parece um balão cheio de xixi! Estou com 60 mil dólares no buraco e sem nenhum emprego em vista. Tenho de... me... matar...
– Vamos lá, François – disse Jon –, vamos mostrar as galinhas a nossos amigos...
– As galinhas! O-V-OS! A gente come O-V-OS o tempo todo! Só O-V-OS! Pup, pup, pup! A galinha pup O-V-OS! O dia todo, a noite toda minha função é salvar as galinhas dos negrinhos! Os negrinhos vivem saltando a cerca e correndo pro galinheiro! Eu bato neles com uma vara comprida, digo: “Seus filhos da puta, fiquem longe de minhas galinhas que pup os O-V-OS! Não consigo pensar, não consigo pensar em minha vida nem em minha morte, estou sempre correndo atrás desses negrinhos com a vara comprida! Jon, preciso de mais vinho, outro charuto!
Deu outra rodada na roleta.
Mais más notícias. O sistema estava falhando.
– Sabe, na França tem apenas um zero pra casa! Aqui na América tem um zero e um duplo zero pra casa! PEGAM OS DOIS BAGOS DA GENTE! POR QUÊ? Vamos lá, mostro a vocês as galinhas...
Saímos para o quintal, e lá estavam as galinhas e o galinheiro. O próprio François o fizera. Era bom nessas coisas. Tinha um verdadeiro talento para isso. Só que não usara tela de galinheiro, mas barras. E fechaduras em cada porta.
– Faço a chamada toda noite. “Cécile, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. “Bernadette, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. E por aí vai. Uma noite, eu chamei “Nicole?”, e ela não clucou. Você acredita? Apesar de todas as barras e fechaduras, eles pegaram Nicole! Tiraram ela daqui. Nicole se foi, se foi para sempre! Jon, Jon, eu preciso de mais vinho!
Tornamos a entrar e nos sentamos, e o novo vinho correu solto. Jon deu um novo charuto a François.
– Se eu tiver meu charuto quando preciso – disse François – posso viver.
Bebemos por algum tempo, e então Sarah perguntou:
– Escuta, Jon, seu senhorio é negro?
– Oh, sim...
– Ele não te perguntou por que alugava uma casa aqui?
– Sim...
– E que foi que você disse?
– Disse que éramos cineastas e atores da França.
– E ele?
– Ele disse: “Oh”.
– Mais alguma coisa?
– Sim, disse: “Bem, o rabo é seu!”.
Bebemos um tempo falando bobagem.
De vez em quando eu me levantava e ia à janela ver se o carro ainda estava lá.
Enquanto bebíamos, comecei a me sentir culpado pela coisa toda.
– Escuta, Jon, deixa eu te devolver o dinheiro do argumento. Eu botei você contra a parede. Isso é terrível...
– Não, eu quero que você faça esse argumento. Ele vai se tornar um filme, eu prometo...
– Tudo bem, porra...
Bebemos mais um pouco.
Então Jon disse:
– Veja...
Por um buraco na parede onde nos sentávamos via-se uma mão, uma mão negra. Contorcia-se através do reboco quebrado, os dedos fechando-se, movendo-se. Parecia um animalzinho escuro.
– DÊ O FORA! – berrou François. – DÊ O FORA, ASSASSINO DE NICOLE! VOCÊ DEIXOU UM BURACO ETERNO EM MEU CORAÇÃO! DÊ O FORA!
A mão não deu o fora.
François aproximou-se da parede e dela.
– Estou mandando dar o fora. Só quero fumar meu charuto e beber meu vinho em paz. Você perturba o visual! Não posso me sentir bem com você tateando e me olhando com seus pobres dedos negros!
A mão não deu o fora.
– TUDO BEM, ENTÃO!
A vara estava bem ali. Com um movimento demoníaco, François pegou-a e começou a açoitar a parede com ela, repetidas vezes...
– ASSASSINO DE GALINHA, VOCÊ FERIU MEU CORAÇÃO ETERNAMENTE!
O som era ensurdecedor. Então François parou.
A mão dera o fora.
François sentou-se.
– Merda, Jon, meu charuto apagou. Por que não compra charutos melhores, Jon?
– Escuta, Jon – eu disse –, a gente tem de ir...
– Ora, vamos... por favor... a noite está só começando! Você não viu nada ainda...
– A gente precisa ir... Preciso trabalhar mais no argumento...
– Oh... nesse caso...
Em casa, subi e trabalhei no argumento, mas estranhamente, ou talvez não, minha vida passada não parecia tão estranha, bárbara ou louca quanto o que ocorria agora.
– Hollywood
sempre se interpôs no
caminho
mas agora
vendi minha casa, encontrei este
lugar, um enorme estúdio, você precisa ver o espaço e
a luz.
pela primeira vez na minha vida terei um lugar e tempo para
criar.”
não, baby, se você vai criar
fará isso mesmo que trabalhe
16 horas por dia numa mina de carvão
ou
criará num cubículo com 3 crianças
enquanto vive
da previdência social,
criará com parte de sua mente e de seu
corpo
estourados,
criará cego
aleijado,
demente,
criará com um gato escalando por suas
costas enquanto
a cidade inteira treme em terremotos, bombardeios
alagamentos e fogo.
baby, ar e luz e tempo e espaço
não têm nada a ver com isso
e não criam nada
exceto talvez uma vida mais longa para encontrar
novas desculpas de que se
ocupar.
Nessa noite, sem Jon escutando lá embaixo, o argumento começou a andar. Eu escrevia sobre um jovem que queria escrever e beber, mas a maior parte de seu sucesso era com a garrafa. O jovem fora eu. Embora aquele não fosse um tempo infeliz, tinha sido, em grande parte, um tempo de vazio e espera. Enquanto eu batia, os personagens de um certo bar me voltavam à memória. Eu tornava a ver cada rosto, os corpos, ouvia as vozes. Ali estava um bar que tinha um certo encanto mortal. Eu me concentrei nisso, revivi as brigas de bar com o garçom. Eu não era bom de briga. Para começar, tinha as mãos pequenas demais e vivia mal alimentado, muito mal alimentado. Mas tinha uma certa garra e encaixava um soco muito bem. Meu principal problema numa briga era que não conseguia me enfurecer de verdade, mesmo quando minha vida parecia estar em jogo. Era tudo teatro comigo. Importava e não. Brigar com o garçom era algo que tinha de ser feito e agradava aos fregueses, que eram um grupinho muito unido. Eu era o de fora. Tem alguma coisa positiva na bebida – aquelas brigas todas teriam me matado se eu estivesse sóbrio, mas, bêbado, era como se o corpo virasse borracha e a cabeça cimento. Pulsos torcidos, lábios inchados e rótulas machucadas eram mais ou menos tudo que eu sofria no dia seguinte. E também galos na cabeça, das quedas. Como isso podia virar um argumento, eu não sabia. Só sabia que era a única parte da minha vida sobre a qual não escrevera muito. Acredito que era são naquela época, tão são quanto qualquer outro. E sabia que havia toda uma civilização de almas penadas que viviam entrando e saindo de bares, diariamente, noturnamente e para sempre, até a morte. Nunca lera sobre essa civilização, e por isso decidi escrever sobre ela, como a lembrava. A boa máquina velha matraqueava.
No dia seguinte, lá pelo meio-dia, o telefone tocou. Era Jon.
– Encontrei uma casa. François está comigo. É linda, tem duas cozinhas, e o aluguel é de graça, realmente de graça...
– Onde está?
– Estamos no gueto de Venice. Avenida Brooks. Só tem negros. As ruas são guerra e destruição. Lindo!
– Oh!
– Você deve vir ver a casa!
– Quando?
– Hoje!
– Eu não sei.
– Oh, você não ia querer perder isto! Tem gente morando debaixo da nossa casa. A gente ouve eles lá embaixo, falando e tocando o rádio. Tem gangues por toda parte! Alguém construiu um grande hotel aqui. Mas ninguém pagou o aluguel. Fecharam o lugar com tábuas, cortaram a eletricidade, a água, o gás. Mas as pessoas ainda moram aqui. É UMA ZONA DE GUERRA! A polícia não vem aqui, parece um estado separado, com suas próprias leis. Eu adoro! Você tem de nos visitar!
– Como chego aí?
Jon me deu as indicações e desligou.
Procurei Sarah.
– Escuta, preciso ir ver Jon e François.
– Ei, eu vou também!
– Não, não pode. Fica no gueto de Venice.
– Oh, o gueto! Eu não perderia isso por nada neste mundo!
– Escuta, me faz um favor, tá? Por favor, não venha!
– Que? Acha que eu ia deixar você ir lá embaixo sozinho?
Peguei minha lâmina, pus o dinheiro nos sapatos.
– Tá legal – disse...
Entramos dirigindo devagar no gueto de Venice. Não era verdade que só tivesse negros. Havia alguns latinos nos arredores. Notei um grupo de sete a oito mexicanos em volta, encostados num carro velho. Quase todos usavam camiseta ou estavam nus da cintura para cima. Passei dirigindo devagar, sem encarar ninguém, só absorvendo. Eles não pareciam fazer muita coisa. Só esperavam. Prontos e à espera. Na verdade, provavelmente estavam apenas entediados. Pareciam caras legais. E não pareciam lá muito preocupados.
Aí chegamos à turfa negra. De repente, ruas cheias de lixo: um pé esquerdo de sapato, uma camisa laranja, uma bolsa velha... uma romã podre... outro pé esquerdo de sapato... um blue jeans... um pneu...
Eu tinha de dirigir por entre aquelas coisas. Dois negros de uns onze anos nos fitavam de suas bicicletas. Ódio puro, perfeito. Eu sentia. Os negros pobres tinham ódio. Os brancos pobres tinham ódio. Só quando ganhavam dinheiro negros e brancos se integravam. Alguns brancos amavam os negros. Muito poucos negros amavam os brancos, se é que algum amava. Ainda estavam indo à forra. Talvez nunca fossem. Numa sociedade capitalista, os perdedores são escravizados pelos vencedores, e é preciso haver mais perdedores que vencedores. Que pensava eu? Sabia que a política jamais resolveria isso, e não sobrava muito tempo para entrar numa boa.
Dirigimos até encontrar o endereço, estacionei o carro, saí e bati na porta.
Uma portinhola abriu-se deslizando e lá estava um olho nos olhando.
– Ah, Hank e Sarah!
A porta abriu-se, fechou-se, e estávamos dentro.
Eu me aproximei da janela e dei uma olhada.
– Que está fazendo? – perguntou Jon.
– Só quero dar uma olhada no carro de vez em quando...
– Oh, sim, venha ver, vou te mostrar as duas cozinhas!
Claro que havia duas cozinhas, um fogão em cada uma, uma geladeira em cada uma, uma pia em cada uma.
– Eram duas casas antes. Foram transformadas em uma.
– Legal – disse Sarah. – Você pode cozinhar numa cozinha e François na outra...
– No momento, estamos vivendo basicamente de ovos. Temos galinhas, que põem muitos ovos...
– Nossa, Jon, tá tão ruim assim?
– Não, na verdade, não. A gente calcula que vai ficar aqui por um longo tempo. Precisamos de quase todo o nosso dinheiro pra vinho e charutos. Como vai indo o argumento?
– Tenho o prazer de comunicar que já temos umas boas páginas. Só que às vezes me atrapalho com CÂMERA, ZOOM, PANORÂMICA... essa merda toda...
– Não se preocupe, eu cuido disso.
– Onde está François? – perguntou Sarah.
– Ah, está na outra sala... venham...
Entramos e lá estava François rodando sua roletinha. Quando bebia, ficava com o nariz muito vermelho, como um bêbado de desenho animado. E também, quanto mais bebia, mais deprimido ficava. Chupava um toco de charuto molhado. Conseguiu extrair algumas tristes baforadas. Ao lado, via-se uma garrafa de vinho quase vazia.
– Merda – disse –, já estou com 60 mil dólares no buraco e bebendo esse vinho barato do Jon, que ele diz ser coisa fina mas é pura bosta. Paga um dólar e 35 centavos a garrafa. Meu estômago parece um balão cheio de xixi! Estou com 60 mil dólares no buraco e sem nenhum emprego em vista. Tenho de... me... matar...
– Vamos lá, François – disse Jon –, vamos mostrar as galinhas a nossos amigos...
– As galinhas! O-V-OS! A gente come O-V-OS o tempo todo! Só O-V-OS! Pup, pup, pup! A galinha pup O-V-OS! O dia todo, a noite toda minha função é salvar as galinhas dos negrinhos! Os negrinhos vivem saltando a cerca e correndo pro galinheiro! Eu bato neles com uma vara comprida, digo: “Seus filhos da puta, fiquem longe de minhas galinhas que pup os O-V-OS! Não consigo pensar, não consigo pensar em minha vida nem em minha morte, estou sempre correndo atrás desses negrinhos com a vara comprida! Jon, preciso de mais vinho, outro charuto!
Deu outra rodada na roleta.
Mais más notícias. O sistema estava falhando.
– Sabe, na França tem apenas um zero pra casa! Aqui na América tem um zero e um duplo zero pra casa! PEGAM OS DOIS BAGOS DA GENTE! POR QUÊ? Vamos lá, mostro a vocês as galinhas...
Saímos para o quintal, e lá estavam as galinhas e o galinheiro. O próprio François o fizera. Era bom nessas coisas. Tinha um verdadeiro talento para isso. Só que não usara tela de galinheiro, mas barras. E fechaduras em cada porta.
– Faço a chamada toda noite. “Cécile, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. “Bernadette, está aí?” “Cluc, cluc”, ela responde. E por aí vai. Uma noite, eu chamei “Nicole?”, e ela não clucou. Você acredita? Apesar de todas as barras e fechaduras, eles pegaram Nicole! Tiraram ela daqui. Nicole se foi, se foi para sempre! Jon, Jon, eu preciso de mais vinho!
Tornamos a entrar e nos sentamos, e o novo vinho correu solto. Jon deu um novo charuto a François.
– Se eu tiver meu charuto quando preciso – disse François – posso viver.
Bebemos por algum tempo, e então Sarah perguntou:
– Escuta, Jon, seu senhorio é negro?
– Oh, sim...
– Ele não te perguntou por que alugava uma casa aqui?
– Sim...
– E que foi que você disse?
– Disse que éramos cineastas e atores da França.
– E ele?
– Ele disse: “Oh”.
– Mais alguma coisa?
– Sim, disse: “Bem, o rabo é seu!”.
Bebemos um tempo falando bobagem.
De vez em quando eu me levantava e ia à janela ver se o carro ainda estava lá.
Enquanto bebíamos, comecei a me sentir culpado pela coisa toda.
– Escuta, Jon, deixa eu te devolver o dinheiro do argumento. Eu botei você contra a parede. Isso é terrível...
– Não, eu quero que você faça esse argumento. Ele vai se tornar um filme, eu prometo...
– Tudo bem, porra...
Bebemos mais um pouco.
Então Jon disse:
– Veja...
Por um buraco na parede onde nos sentávamos via-se uma mão, uma mão negra. Contorcia-se através do reboco quebrado, os dedos fechando-se, movendo-se. Parecia um animalzinho escuro.
– DÊ O FORA! – berrou François. – DÊ O FORA, ASSASSINO DE NICOLE! VOCÊ DEIXOU UM BURACO ETERNO EM MEU CORAÇÃO! DÊ O FORA!
A mão não deu o fora.
François aproximou-se da parede e dela.
– Estou mandando dar o fora. Só quero fumar meu charuto e beber meu vinho em paz. Você perturba o visual! Não posso me sentir bem com você tateando e me olhando com seus pobres dedos negros!
A mão não deu o fora.
– TUDO BEM, ENTÃO!
A vara estava bem ali. Com um movimento demoníaco, François pegou-a e começou a açoitar a parede com ela, repetidas vezes...
– ASSASSINO DE GALINHA, VOCÊ FERIU MEU CORAÇÃO ETERNAMENTE!
O som era ensurdecedor. Então François parou.
A mão dera o fora.
François sentou-se.
– Merda, Jon, meu charuto apagou. Por que não compra charutos melhores, Jon?
– Escuta, Jon – eu disse –, a gente tem de ir...
– Ora, vamos... por favor... a noite está só começando! Você não viu nada ainda...
– A gente precisa ir... Preciso trabalhar mais no argumento...
– Oh... nesse caso...
Em casa, subi e trabalhei no argumento, mas estranhamente, ou talvez não, minha vida passada não parecia tão estranha, bárbara ou louca quanto o que ocorria agora.
– Hollywood
1 372
Charles Bukowski
A Vida Feliz Dos Cansados
nitidamente em sintonia com
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
já dei uma cagada e
li as páginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço púrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
está na margem
que golpeando o céu
é como um encanamento
vibrando.
coisas terríveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerígenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e há apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verão.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy não trouxe a
puta,
mas há um cartão postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de férias no Havaí,
e tudo o que eu preciso fazer é
preencher o formulário.
mas eu não quero ir pro
Havaí.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latão
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
púrpura
larguei-o na
frigideira.
então o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
então me levantei e
liguei o
rádio.
não por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
não poderia mesmo
suportá-la.
é puro
mormaço.
a canção de um prisioneiro
fico de pé na cozinha
a meio caminho da loucura
sonhando com a Espanha de
Hemingway.
é um mormaço, como dizem,
mal consigo respirar,
já dei uma cagada e
li as páginas de esporte,
abri a geladeira
olhei para um pedaço púrpuro de
carne,
deixei-o por
ali.
o lugar para se achar o centro
está na margem
que golpeando o céu
é como um encanamento
vibrando.
coisas terríveis se arrastam
pelas paredes; flores cancerígenas crescem
na varanda; meu gato branco teve
um olho arrancado
e há apenas 7 dias
de corrida para o fim da
temporada de verão.
a dançarina nunca chegou do
Club Normandy
e Jimmy não trouxe a
puta,
mas há um cartão postal do
Arkansas
e um folheto do Food King:
10 pacotes de férias no Havaí,
e tudo o que eu preciso fazer é
preencher o formulário.
mas eu não quero ir pro
Havaí.
quero a puta com olhos de pelicano
umbigo de latão
e
coração de marfim.
tirei da geladeira o pedaço de carne
púrpura
larguei-o na
frigideira.
então o telefone tocou.
dobrei-me sobre um dos joelhos e rolei para debaixo
da mesa. fiquei ali até que
o telefone parasse de
tocar.
então me levantei e
liguei o
rádio.
não por acaso Hemingway enchia
a cara, a Espanha que se foda,
não poderia mesmo
suportá-la.
é puro
mormaço.
1 099
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma buceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 084
Charles Bukowski
Um Dia de Trabalho
Joe Mayer era escritor freelance. Estava de ressaca e o telefone acordou-o às nove horas da manhã. Ele levantou-se e atendeu.
– Alô?
– Oi, Joe. Como vai indo?
– Oh, lindo.
– Lindo, é?
– É.
– Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda não temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta à mão?
– Só um minuto.
Joe tomou o endereço.
– Não gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
– Tudo bem – disse Joe.
– Não quero dizer que não gostei, quero dizer que não gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propósito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava Histórias Quentes, está procurando ele. Achei que talvez você soubesse.
– Não sei onde ele está.
– Acho que talvez esteja no México.
– Pode ser.
– Bem, escuta, passo aí pra ver você em breve.
– Claro.
Joe desligou. Pôs dois ovos numa panela d’água, pôs a água do café para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
– Joe?
– Sim?
– Aqui é Eddie Greer.
– Ah, sim.
– Queremos que você faça um recital beneficente...
– Que é?
– Pro I.R.A.
– Escuta, Eddie, eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá no que for. Realmente não sei o que está acontecendo por lá. Não tenho TV, não leio jornais... nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.
– A Inglaterra está errada, cara.
– Não posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
– Tudo bem então...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pôs pão na torradeira e diluiu o Sanka com água quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
Já ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
– Sr. Mayer?
– Sim?
– Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. Nós publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
– Sim?
– Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com você.
– Hoje é um mau dia, Mike.
– Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
– É, por que não liga depois?
– Sabe, Joe, eu escrevo como você, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra você. Você vai ficar surpreso. Meu material é realmente forte.
– Ah, é?
– Você vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, há muitos anos. Sylvia ainda está viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupão e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi até lá, olhou-o e não atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rádio e sintonizou uma música sinfônica. Não estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pátios da ferrovia, olhando os vagões marrons lá embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipódromo. Comprou um sanduíche de carne em conserva e um café, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dólares, Wife’s Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diária por 48,40. Teve um ganho de 25 dólares em Rosalina e de cinco em Wife’s Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dólares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
Não estava ruim no hipódromo. Só encontrou três conhecidos. Operários de fábrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe não considerou os outros na corrida. Não conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dólares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrás do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrás e a corrida acabou.
Ele pôs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fácil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
– Bem, Mayer, que é que há?
– Que quer dizer?
– Quero dizer: está sobrevivendo com sua literatura?
– No momento.
– Tem alguma novidade?
– Não desde que você esteve aqui na semana passada.
– Como foi seu recital de poesia?
– Foi tudo bem.
– A turma que vai a recital de poesia é bem falsa.
– A maioria das turmas é.
– Tem algum doce? – perguntou Max.
– Doce?
– É, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
– Não tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
– Nossa, você não tem nada pra comer por aqui.
– Vou ter de ir ao supermercado.
– Sabe – disse Max –, se eu tivesse de ler diante de uma multidão, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
– Podia.
– Mas eu não sei escrever. Acho que vou andar por aí com um gravador. Às vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, só falava. Após uma hora e meia, levantou-se.
– Bem, tenho de ir andando.
– Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num ônibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitário. Não precisava das pessoas.
Joe foi à cozinha, pegou uma lata de atum e fez três sanduíches. Pegou a garrafa de uísque que vinha poupando e serviu uma boa dose com água. Ligou o rádio na estação de clássicos. “Danúbio Azul”. Desligou-o. Acabaram os sanduíches. A campainha tocou. Joe foi até a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
– Escuta – ele disse –, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
– Tudo bem.
Hymie sentou-se.
– Precisamos de um novo título. Acho que eu tenho. Perdão aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
– Acho que gosto – disse Joe.
– E podemos dizer: “Este livro é para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitler”. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
– Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo típico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. Após uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trágico, tão trágico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uísque com água e foi para a máquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exército. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser médico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dólares para uma máquina de raios x.
– Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com você? – perguntou Dunning.
– Escuta, podemos adiar isso? – perguntou Joe.
– Que é que há? Está escrevendo?
– Mal comecei.
– Tudo bem, eu espero.
– Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se à máquina de escrever. Não estava mal. Chegou ao meio da página, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
– Vi você em seu último recital.
– Entre – disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
– Vou pegar um abridor – disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
– Foi um bom recital – disse o rapaz de barba.
– Quem foi sua maior influência? – perguntou o sem barba.
– Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. Garanhão Ruão. Por aí.
– Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
– Não.
– Dizem que você está saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
– Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saíam:
– A gente volta.
Joe tornou a sentar-se à máquina de escrever com uma nova bebida. Não conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
– Escuta – disse Joe –, me deixa sair daqui. Me deixa ir aí dar uma foda.
– Quer dizer que pretende passar a noite?
– É.
– De novo?
– É, de novo.
– Tudo bem.
Joe foi até o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava três ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava só de calcinha e levou-o para a cama.
– Deus – ele gemeu.
– Que foi?
– Bem, é tudo inexplicável de certa forma, ou quase inexplicável.
– E só tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princípio não sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lábios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lá embaixo e meter a língua na xoxota. Depois, quando montou, após quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
– Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... – Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bêbado.
– Bem, se ele não está nesse apartamento de frente, verifique aquele de trás. Ele está num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
– Sim?
– Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
– Nada.
– Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
– Não – disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
– Quem era? – ela perguntou.
– Não sei. Não reconheci o rosto.
– Me beija, Joe. Não fique aí deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da Califórnia atravessava as cortinas do sul da Califórnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
– Numa fria
– Alô?
– Oi, Joe. Como vai indo?
– Oh, lindo.
– Lindo, é?
– É.
– Vicki e eu acabamos de nos mudar pra nossa nova casa. Ainda não temos telefone. Mas posso lhe dar o endereço. Tem uma caneta à mão?
– Só um minuto.
Joe tomou o endereço.
– Não gostei daquele conto seu em Anjo Quente.
– Tudo bem – disse Joe.
– Não quero dizer que não gostei, quero dizer que não gostei em comparação com a maioria das outras coisas suas. A propósito, sabe onde anda Buddy Edwards? Griff Martin, que editava Histórias Quentes, está procurando ele. Achei que talvez você soubesse.
– Não sei onde ele está.
– Acho que talvez esteja no México.
– Pode ser.
– Bem, escuta, passo aí pra ver você em breve.
– Claro.
Joe desligou. Pôs dois ovos numa panela d’água, pôs a água do café para ferver e tomou um alka-seltzer. E voltou para a cama.
O telefone tornou a tocar. Ele se levantou e atendeu.
– Joe?
– Sim?
– Aqui é Eddie Greer.
– Ah, sim.
– Queremos que você faça um recital beneficente...
– Que é?
– Pro I.R.A.
– Escuta, Eddie, eu não me ligo em política nem religião, nem seja lá no que for. Realmente não sei o que está acontecendo por lá. Não tenho TV, não leio jornais... nada disso. Não sei quem está certo ou errado, se é que isso existe.
– A Inglaterra está errada, cara.
– Não posso fazer recital pro I.R.A., Eddie.
– Tudo bem então...
Os ovos estavam prontos. Ele se sentou, descascou-os, pôs pão na torradeira e diluiu o Sanka com água quente. Comeu os ovos e a torrada e tomou dois cafés. Depois voltou para a cama.
Já ia dormir quando o telefone tornou a tocar. Levantou-se e atendeu.
– Sr. Mayer?
– Sim?
– Eu me chamo Mike Haven, sou amigo de Stuart Irving. Nós publicamos juntos em Mula de Pedra, quando Mula de Pedra era editada em Salt Lake City.
– Sim?
– Eu cheguei de Montana e fico aqui uma semana. Estou no Hotel Sheraton na cidade. Gostaria de fazer uma visita e conversar com você.
– Hoje é um mau dia, Mike.
– Bem, talvez eu possa passar depois, esta semana.
– É, por que não liga depois?
– Sabe, Joe, eu escrevo como você, poesia e prosa. Quero levar alguns trabalhos meus e ler pra você. Você vai ficar surpreso. Meu material é realmente forte.
– Ah, é?
– Você vai ver.
Depois foi o carteiro. Uma carta. Joe leu-a:
Caro sr. Mayer:
Peguei seu endereço com Sylvia, a quem o senhor escrevia, para Paris, há muitos anos. Sylvia ainda está viva em San Francisco e ainda escreve seus poemas doidos, proféticos e angelicais. Estou morando em Los Angeles agora e adoraria ir visitar o senhor! Por favor, diga-me quando estaria bem para o senhor.
amor, Diana.
Ele despiu o roupão e vestiu-se. O telefone tornou a tocar. Ele foi até lá, olhou-o e não atendeu. Saiu, entrou no carro e dirigiu-se a Santa Anita. Dirigia devagar. Ligou o rádio e sintonizou uma música sinfônica. Não estava muito nublado. Desceu o Sunset, pegou o atalho favorito, subiu o morro em direção a Chinatown, passando pelo Anexo, pelo Little Joe, Chinatown, e pegou o trecho tranquilo ao lado dos pátios da ferrovia, olhando os vagões marrons lá embaixo. Se soubesse pintar, gostaria de pegar aquilo. Talvez os pintasse mesmo assim. Subiu a Broadway e pegou Huntington Drive para ir ao hipódromo. Comprou um sanduíche de carne em conserva e um café, abriu o programa das corridas e sentou-se. Parecia uma boa cartada.
Pegou Rosalina no primeiro a 10,80 dólares, Wife’s Objection no segundo a 9,20 e cravou-os na dupla diária por 48,40. Teve um ganho de 25 dólares em Rosalina e de cinco em Wife’s Objection, e assim faturou 73,20. Perdeu em Sweetott, ficou em segundo com Harbor Point, segundo com Pitch Out, segundo com Brannan, todas apostas na cabeça, e estava com um lucro de 48,20 quando teve um ganho de 20 dólares em Southern Cream, que o levou de volta a 73,20.
Não estava ruim no hipódromo. Só encontrou três conhecidos. Operários de fábrica. Negros. Dos velhos tempos.
A oitava corrida foi o problema. Cougar, que estava pagando 128, corria contra Unconscious, pagando 123. Joe não considerou os outros na corrida. Não conseguia decidir-se. Cougar estava 3 a 5, e Unconscious, 7 a 2. Estando com um ganho de 73,20, ele achou que podia se dar ao luxo de apostar no 3 a 5. Apostou 30 dólares. Cougar partiu mole, como se corresse numa vala. Quando chegou na metade da primeira volta, estava dezessete corpos atrás do cavalo da frente. Joe sabia que pegara um perdedor. No fim, seu 3 a 5 ficou cinco corpos atrás e a corrida acabou.
Ele pôs 10 e 10 em Barbizon Jr. e Lost at Sea no nono, perdeu e saiu com 23,20. Era mais fácil colher tomates. Entrou em seu velho carro e voltou devagar...
Quando entrava na banheira, a campainha da porta tocou. Ele se enxugou e enfiou a camisa e as calças. Era Max Billinghouse. Max tinha vinte e poucos anos, não tinha dentes, era ruivo. Trabalhava como faxineiro e sempre usava blue jeans e uma camiseta branca suja. Sentou-se numa cadeira e cruzou as pernas.
– Bem, Mayer, que é que há?
– Que quer dizer?
– Quero dizer: está sobrevivendo com sua literatura?
– No momento.
– Tem alguma novidade?
– Não desde que você esteve aqui na semana passada.
– Como foi seu recital de poesia?
– Foi tudo bem.
– A turma que vai a recital de poesia é bem falsa.
– A maioria das turmas é.
– Tem algum doce? – perguntou Max.
– Doce?
– É, eu tenho mania de doces. Tenho mania de doces.
– Não tenho nenhum doce.
Max levantou-se e foi até a cozinha. Voltou com um tomate e duas fatias de pão. Sentou-se.
– Nossa, você não tem nada pra comer por aqui.
– Vou ter de ir ao supermercado.
– Sabe – disse Max –, se eu tivesse de ler diante de uma multidão, na verdade insultava eles, ia ferir os sentimentos deles.
– Podia.
– Mas eu não sei escrever. Acho que vou andar por aí com um gravador. Às vezes converso comigo mesmo quando estou trabalhando. Depois posso escrever o que digo e fazer um conto.
Max era homem de hora e meia. Servia para uma hora e meia. Jamais ouvia, só falava. Após uma hora e meia, levantou-se.
– Bem, tenho de ir andando.
– Tudo bem, Max.
Max saiu. Sempre falava das mesmas coisas. Que insultara pessoas num ônibus. Que uma vez se encontrara com Charles Manson. Que um homem estava mais bem servido com uma prostituta que com uma mulher honesta. Tinha sexo na cabeça. Não precisava de roupas novas, de carro novo. Era um solitário. Não precisava das pessoas.
Joe foi à cozinha, pegou uma lata de atum e fez três sanduíches. Pegou a garrafa de uísque que vinha poupando e serviu uma boa dose com água. Ligou o rádio na estação de clássicos. “Danúbio Azul”. Desligou-o. Acabaram os sanduíches. A campainha tocou. Joe foi até a porta e abriu-a. Era Hymie. Hymie tinha um emprego mole em algum lugar de algum governo municipal perto de Los Angeles. Era poeta.
– Escuta – ele disse –, aquele livro que estava pensando, Antologia de poetas de Los Angeles, vamos esquecer.
– Tudo bem.
Hymie sentou-se.
– Precisamos de um novo título. Acho que eu tenho. Perdão aos fomentadores da guerra. Pense nisso.
– Acho que gosto – disse Joe.
– E podemos dizer: “Este livro é para Franco, Lee Harvey Oswald e Adolf Hitler”. Ora, eu sou judeu, logo isso exige alguma coragem. Que acha?
– Parece bom.
Hymie levantou-se e fez sua imitação de um judeu gordo típico dos velhos tempos, um judeu muito gordo. Deu uma cuspida e sentou-se. Era muito engraçado. Era o homem mais engraçado que Hymie conhecia. Servia por uma hora. Após uma hora, levantou-se e foi embora. Sempre falava das mesmas coisas. Que a maioria dos poetas era ruim. Que era trágico, tão trágico que tinha graça. Que se ia fazer?
Joe tomou outro bom uísque com água e foi para a máquina de escrever. Bateu duas linhas, e o telefone tocou. Era Dunning no hospital. Dunning bebia muita cerveja. Cumprira seus vinte anos no exército. O pai de Dunning tinha sido editor de uma revistinha famosa. Morrera em junho. A esposa de Dunning era ambiciosa. Pressionara-o para ser médico, muito. Ele conseguira ser quiropaxista. E trabalhava como enfermeiro tentando economizar oito ou dez mil dólares para uma máquina de raios x.
– Que tal eu aparecer pra tomar umas cervejas com você? – perguntou Dunning.
– Escuta, podemos adiar isso? – perguntou Joe.
– Que é que há? Está escrevendo?
– Mal comecei.
– Tudo bem, eu espero.
– Obrigado, Dunning.
Joe sentou-se à máquina de escrever. Não estava mal. Chegou ao meio da página, quando ouviu passos. Depois uma batida. Abriu a porta.
Eram dois rapazinhos. Um de barba negra, o outro barbeado.
O rapaz de barba disse:
– Vi você em seu último recital.
– Entre – disse Joe.
Entraram. Tinham seis garrafas de cerveja importada, casco verde.
– Vou pegar um abridor – disse Joe.
Ficaram ali sentados mamando a cerveja.
– Foi um bom recital – disse o rapaz de barba.
– Quem foi sua maior influência? – perguntou o sem barba.
– Jeffers. Poemas mais longos. Tamar. Garanhão Ruão. Por aí.
– Alguma coisa nova em literatura que lhe interesse?
– Não.
– Dizem que você está saindo da marginalidade, que faz parte do establishment . Que acha disso?
– Nada.
Houve outras perguntas do mesmo tipo. Os rapazes não aguentavam mais do que uma cerveja por cabeça. Joe cuidou das outras quatro. Eles partiram em 45 minutos.
Mas o sem barba disse, quando saíam:
– A gente volta.
Joe tornou a sentar-se à máquina de escrever com uma nova bebida. Não conseguia bater. Levantou-se e foi ao telefone.
Discou. E esperou. Ela estava em casa. Respondeu.
– Escuta – disse Joe –, me deixa sair daqui. Me deixa ir aí dar uma foda.
– Quer dizer que pretende passar a noite?
– É.
– De novo?
– É, de novo.
– Tudo bem.
Joe foi até o canto da varanda e desceu a rampa da garagem. Ela morava três ou quatro casas abaixo. Ele bateu. Lu deixou-o entrar.
Luzes apagadas. Ela estava só de calcinha e levou-o para a cama.
– Deus – ele gemeu.
– Que foi?
– Bem, é tudo inexplicável de certa forma, ou quase inexplicável.
– E só tirar a roupa e vir pra cama.
Joe fez isso. Deitou-se. A princípio não sabia se ia funcionar de novo. Tantas noites seguidas. Mas o corpo dela estava ali e era jovem. E os lábios abertos e concretos. Joe flutuava. Era bom estar no escuro. Ele malhou-a bem. Chegou a baixar lá embaixo e meter a língua na xoxota. Depois, quando montou, após quatro ou cinco estocadas, ouviu uma voz...
– Mayer... estou procurando um certo Joe Mayer... – Ouviu a voz do senhorio. O senhorio estava bêbado.
– Bem, se ele não está nesse apartamento de frente, verifique aquele de trás. Ele está num ou noutro.
Joe deu quatro ou cinco estocadas até começarem as batidas na porta. Ele escorregou para fora e, nu, foi à porta. Abriu uma janela lateral.
– Sim?
– Ei, Joe! Oi, que anda fazendo, Joe?
– Nada.
– Bem, que tal uma cervejinha, Joe?
– Não – disse Joe.
Bateu a janela lateral e voltou para a cama.
– Quem era? – ela perguntou.
– Não sei. Não reconheci o rosto.
– Me beija, Joe. Não fique aí deitado.
Ele beijou-a, enquanto a lua do sul da Califórnia atravessava as cortinas do sul da Califórnia. Era Joe Mayer. Escritor freelance.
Conseguiu.
– Numa fria
1 185
Charles Bukowski
Concurso de Poesia
mande quantos poemas você quiser, mantenha
apenas cada um deles a dez linhas no máximo.
nenhum limite quanto ao estilo ou conteúdo
embora prefiramos poemas de
afirmação.
espaço duplo
com seu nome e endereço na
parte superior do cabeçalho
esquerdo.
os editores não se responsabilizam pelos
manuscritos
sem envelope de retorno
todos os esforços
serão feitos para
julgar os trabalhos num prazo de 90
dias.
após uma cuidadosa seleção
a escolha final será feita por
Elly May Moody,
editora-geral responsável.
por favor envie dez dólares
para cada poema
apresentado.
um prêmio final de
75 dólares será
entregue ao vencedor
do
Prêmio de ouro Elly May Moody de
poesia,
junto com um certificado
assinado por
Elly May Moody.
também serão premiados com certificados os 2º, 3º e
4º lugares
todos com a assinatura de
Elly May Moody.
as decisões são
irrevogáveis.
os vencedores do prêmio serão
publicados no número de primavera de
O coração do paraíso.
os vencedores do prêmio também receberão
uma cópia da revista
junto com
a última coletânea de
poesia de
Elly May Moody,
O lugar onde morreu
o inverno.
A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de várias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diálogos de pessoas brigando do outro lado das paredes, e eu lhe dera várias páginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensões e apartamentos baratos, não se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido à última garrafa. Não se tinha nada a fazer senão escutar aquelas discussões cabeludas. Elas faziam a gente compreender que não era o único desiludido do mundo, não era o único à beira da loucura.
Não podíamos ver a cena da banheira, porque não havia espaço suficiente lá dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrás eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prédio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. “Tudo que passa, volta.” De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. Só que as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera três décadas atrás, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prédio cheio de câmeras e som e técnicos. Bem, eu ia morrer também, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursões por lá. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, pássaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autógrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu não os considerava os melhores. (Meu melhor livro é sempre o último que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histórias pornográficas, Batendo punheta no demônio. Alguns livros de poemas, Mozart na figueira e Você deixaria esse homem tomar conta de sua filhinha de auatro anos? Também A latrina do bar é minha capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. Até o zíper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
– Meu Deus! – disse. – Aqui está você!
– Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
– É terrível, é de enlouquecer! Francine está preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima d’água! Fica perguntando: “Meus peitos estão aparecendo?”
– Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
– Ela não é mais tão jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... Não suporta a iluminação e está bebendo cada vez mais...
Hyans era o câmera. Ganhara quase todos os prêmios do ramo, um dos melhores câmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
– E Jack não diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
– Qual é a fala?
– É: “Ele tem de masturbar o agente da condicional quando o cara aparece”.
– Tudo bem, experimente: “Ele tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara aparece”.
– Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A décima nona TOMADA!
– Meu Deus – eu disse.
– Me deseje sorte...
– Sorte...
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
– Que é que há?
– A décima nona tomada. Francine está com medo de mostrar os peitos, Jack não consegue dizer sua fala, e Hyans não gosta da iluminação.
– Francine precisa de um trago – ela disse. – Vai fazer ela se soltar.
– Hyans não precisa de um trago.
– Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
– Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
– Vou dizer a ela – disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta à esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xícara de café. Bem, tinha scotch, vodca, uísque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xícara de café desapareceu.
Sarah aproximou-se.
– Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou três minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a câmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
– Obrigada!
Bem, não havia nada a fazer senão ficar sentado e bater mais papo.
Eu não podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prédio do qual eu fora despejado por levar três mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo não tinha essa de Direitos do Inquilino.
– Sr. Chinaski – dissera a senhoria –, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube também que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrões e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem à noite!
– Tudo bem, eu saio...
– Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu único desejo era ter mais de uma garrafa na cômoda. Não era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas só eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: “Foda-se! Sirva mais um pouco de álcool!” Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rápido no quarto:
– Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhã recomeçamos tudo!
– Agradeça a Sarah! – eu disse. – Ela sabe preparar uma bebida mágica.
– Quê?
– Ela soltou Francine com uma coisa numa xícara de café.
Jon voltou-se para Sarah.
– Muito obrigado...
– Disponha – respondeu Sarah.
– Nossa – disse Jon –, estou neste ramo há muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
– Eu soube – eu disse – que Chaplin às vezes fazia cem tomadas até conseguir o que queria.
– Isso era Chaplin – disse Jon. – Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aí por esse dia. A não ser por Sarah, que disse:
– Diabos, vamos ao Musso’s.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhávamos o menu.
– Lembram? – perguntei. – Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornô, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: “Veja só eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus últimos filmes”. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
– A gente achava eles uns merdas – disse Sarah – e agora nós é que somos.
– Tudo que passa, volta...
– Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.
– Hollywood
apenas cada um deles a dez linhas no máximo.
nenhum limite quanto ao estilo ou conteúdo
embora prefiramos poemas de
afirmação.
espaço duplo
com seu nome e endereço na
parte superior do cabeçalho
esquerdo.
os editores não se responsabilizam pelos
manuscritos
sem envelope de retorno
todos os esforços
serão feitos para
julgar os trabalhos num prazo de 90
dias.
após uma cuidadosa seleção
a escolha final será feita por
Elly May Moody,
editora-geral responsável.
por favor envie dez dólares
para cada poema
apresentado.
um prêmio final de
75 dólares será
entregue ao vencedor
do
Prêmio de ouro Elly May Moody de
poesia,
junto com um certificado
assinado por
Elly May Moody.
também serão premiados com certificados os 2º, 3º e
4º lugares
todos com a assinatura de
Elly May Moody.
as decisões são
irrevogáveis.
os vencedores do prêmio serão
publicados no número de primavera de
O coração do paraíso.
os vencedores do prêmio também receberão
uma cópia da revista
junto com
a última coletânea de
poesia de
Elly May Moody,
O lugar onde morreu
o inverno.
A cena da banheira era simples. Francine sentava-se dentro e Jack Bledsoe no chão, do lado de fora, recostado na banheira, enquanto Francine falava de várias coisas, principalmente sobre um assassino que vivia no prédio e se achava em liberdade condicional. O homem, que morava com uma velha, espancava-a continuamente. Ouviam-se o assassino e sua dona discutindo e se xingando através das paredes.
Pinchot me pedira para escrever diálogos de pessoas brigando do outro lado das paredes, e eu lhe dera várias páginas. Basicamente, essa fora a parte mais gostosa da criação do argumento.
Muitas vezes, nessas pensões e apartamentos baratos, não se tinha nada a fazer quando se estava duro, morrendo de fome e reduzido à última garrafa. Não se tinha nada a fazer senão escutar aquelas discussões cabeludas. Elas faziam a gente compreender que não era o único desiludido do mundo, não era o único à beira da loucura.
Não podíamos ver a cena da banheira, porque não havia espaço suficiente lá dentro, por isso Sarah e eu ficamos esperando na porta da frente do apartamento, com a cozinha para um lado. Na verdade, trinta anos atrás eu tinha morado por pouco tempo naquele mesmo prédio da Rua Alvarado, com a dona sobre a qual escrevera o argumento. Era de fato estranho e arrepiante. “Tudo que passa, volta.” De uma maneira ou de outra. E trinta anos depois, o lugar parecia mais ou menos o mesmo. Só que as pessoas que eu conhecera tinham todas morrido. A dona morrera três décadas atrás, e ali estava eu sentado, tomando uma bebida naquele mesmo prédio cheio de câmeras e som e técnicos. Bem, eu ia morrer também, muito breve. Sirva um por mim.
Preparavam comida na pequena cozinha, e a geladeira regurgitava de cervejas. Fiz algumas incursões por lá. Sarah encontrou pessoas com quem conversar. Tinha sorte. Toda vez que alguém falava comigo, eu sentia vontade de saltar pela janela ou descer no elevador. As pessoas simplesmente não tinham interesse algum. Talvez não devessem ter. Mas os animais, pássaros, até mesmo os insetos tinham. Eu não entendia.
Jon Pinchot continuava adiantado um dia em relação ao cronograma de filmagens, e eu estava satisfeito pra burro com isso. Tirava a Firepower do nosso pé. Os grandolas não apareciam. Tinham seus espias, é claro. Eu os via.
Alguns membros da equipe tinham livros meus. Pediam autógrafos. Os livros que traziam eram curiosos. Quer dizer, eu não os considerava os melhores. (Meu melhor livro é sempre o último que escrevi.) Alguns deles tinham um livro de minhas primeiras histórias pornográficas, Batendo punheta no demônio. Alguns livros de poemas, Mozart na figueira e Você deixaria esse homem tomar conta de sua filhinha de auatro anos? Também A latrina do bar é minha capela.
O dia passava, em paz mas sem alegria.
Bela cena de banheira, eu pensava. Francine deve estar bem lavada a essa altura.
Jon Pinchot entrou correndo no quarto. Parecia descomposto. Até o zíper estava meio aberto. Despenteado. Os olhos pareciam ao mesmo tempo ensandecidos e vazios.
– Meu Deus! – disse. – Aqui está você!
– Como vai indo?
Ele se curvou sobre mim e me sussurrou no ouvido:
– É terrível, é de enlouquecer! Francine está preocupada com a possibilidade do bico do peito dela aparecer acima d’água! Fica perguntando: “Meus peitos estão aparecendo?”
– Que mal faz um peitinho?
Jon se curvou mais ainda.
– Ela não é mais tão jovem quanto gostaria... E Hyans odeia aquela iluminação... Não suporta a iluminação e está bebendo cada vez mais...
Hyans era o câmera. Ganhara quase todos os prêmios do ramo, um dos melhores câmeras vivos, mas, como a maioria das almas grandes, gostava de seu traguinho de vez em quando.
Jon prosseguiu, sussurrando freneticamente:
– E Jack não diz uma fala certa. Temos de cortar o tempo todo. Tem alguma coisa nas falas que incomoda ele, e ele fica com aquele sorriso idiota no rosto quando as diz.
– Qual é a fala?
– É: “Ele tem de masturbar o agente da condicional quando o cara aparece”.
– Tudo bem, experimente: “Ele tem de tocar punheta no agente da condicional quando o cara aparece”.
– Nossa, obrigado! ESTA VAI SER A décima nona TOMADA!
– Meu Deus – eu disse.
– Me deseje sorte...
– Sorte...
Jon deixou o quarto. Sarah se aproximou.
– Que é que há?
– A décima nona tomada. Francine está com medo de mostrar os peitos, Jack não consegue dizer sua fala, e Hyans não gosta da iluminação.
– Francine precisa de um trago – ela disse. – Vai fazer ela se soltar.
– Hyans não precisa de um trago.
– Eu sei. E Jack vai conseguir dizer a fala quando Francine se soltar.
– Talvez.
Nesse momento Francine entrou no quarto. Parecia inteiramente perdida, completamente por fora. Usava um roupão, uma toalha amarrada na cabeça.
– Vou dizer a ela – disse Sarah.
Aproximou-se de Francine e falou-lhe baixinho. A outra escutou. Assentiu levemente com a cabeça, saiu do quarto por uma porta à esquerda. Num instante, Sarah emergiu da cozinha com uma xícara de café. Bem, tinha scotch, vodca, uísque e gim naquela cozinha. Sarah preparara alguma coisa. A porta abriu-se, fechou-se e a xícara de café desapareceu.
Sarah aproximou-se.
– Ela vai ficar bem agora...
Passaram-se dois ou três minutos, e a porta do quarto abriu-se de repente. Francine saiu e dirigiu-se para o banheiro e a câmera. Quando passava, seus olhos encontraram os de Sarah:
– Obrigada!
Bem, não havia nada a fazer senão ficar sentado e bater mais papo.
Eu não podia deixar de lançar uma olhada ao passado. Aquele era o mesmo prédio do qual eu fora despejado por levar três mulheres para meu quarto certa noite. Naquele tempo não tinha essa de Direitos do Inquilino.
– Sr. Chinaski – dissera a senhoria –, aqui moram pessoas religiosas, pessoas trabalhadoras, pessoas com filhos. Eu nunca recebi uma queixa dessas sobre outros inquilinos. E soube também que o senhor... aquelas cantorias, aqueles xingamentos... quebra-quebra... palavrões e risadas... Em toda a minha vida, eu jamais soube de nada parecido com o que aconteceu em seu quarto ontem à noite!
– Tudo bem, eu saio...
– Obrigada.
Eu devia estar louco. Sem me barbear. A camiseta cheia de buracos de cigarro. Meu único desejo era ter mais de uma garrafa na cômoda. Não era feito para o mundo nem o mundo pra mim, e encontrara outros como eu, e em sua maioria esses outros eram mulheres, mulheres com as quais a maioria dos homens jamais iria querer ficar num mesmo quarto, mas que eu adorava, elas me inspiravam, eu fazia teatro, xingava, saltava pelo quarto de cueca dizendo-lhes que era grande, mas só eu acreditava nisso. Elas apenas berravam: “Foda-se! Sirva mais um pouco de álcool!” Aquelas donas do inferno, aquelas donas no inferno comigo.
Jon Pinchot entrou rápido no quarto:
– Deu tudo certo! Que dia! Agora, amanhã recomeçamos tudo!
– Agradeça a Sarah! – eu disse. – Ela sabe preparar uma bebida mágica.
– Quê?
– Ela soltou Francine com uma coisa numa xícara de café.
Jon voltou-se para Sarah.
– Muito obrigado...
– Disponha – respondeu Sarah.
– Nossa – disse Jon –, estou neste ramo há muito tempo e nunca fiz dezenove tomadas!
– Eu soube – eu disse – que Chaplin às vezes fazia cem tomadas até conseguir o que queria.
– Isso era Chaplin – disse Jon. – Cem tomadas, e nosso orçamento vai embora.
E foi isso aí por esse dia. A não ser por Sarah, que disse:
– Diabos, vamos ao Musso’s.
O que fizemos. E conseguimos uma mesa na Sala Velha e pedimos umas bebidas enquanto olhávamos o menu.
– Lembram? – perguntei. – Lembram dos velhos tempos quando a gente vinha aqui ver as pessoas nas mesas e tentar localizar os tipos, os atores, os diretores ou produtores, os tipos do pornô, os agentes, os aspirantes? E a gente pensava: “Veja só eles, discutindo suas negociatas de filmes, ou os contratos sobre seus últimos filmes”. Que toupeiras, que desajustados. Melhor desviar o olhar quando chegarem o peixe-espada e o linguado.
– A gente achava eles uns merdas – disse Sarah – e agora nós é que somos.
– Tudo que passa, volta...
– Certo! Acho que vou querer o linguado...
O garçom pairava acima de nós, arrastando os pés, franzindo o cenho, os pelos das sobrancelhas caindo sobre os olhos. Musso estava ali desde 1919, e tudo era um pé no saco para ele: nós, e todos os demais na casa. Eu concordava. Decidi pelo peixe-espada. Com batatas fritas.
– Hollywood
1 155
Charles Bukowski
Junk
sentado num quarto escuro com 3 junkies,
mulheres.
sacos de papel cheios de lixo estão por toda
parte.
é uma e meia da tarde.
elas falam de manicômios,
hospitais.
esperam por uma dose.
nenhuma delas trabalha.
é a assistência e os vale-refeições e
plano de saúde.
os homens se tornam objetos
à espera de uma dose.
é uma e meia da tarde
e do lado de fora crescem pequenas plantas.
os filhos delas ainda estão na escola.
as mulheres fumam cigarros
e tragam indiferentes suas cervejas e
tequilas
pagas por mim.
me sento com elas.
espero pela minha dose:
sou uma poesia junkie.
eles empurraram Ezra pelas ruas
numa gaiola de madeira.
Blake estava certo da existência de Deus.
Villon era um embusteiro.
Lorca chupava paus.
T.S. Eliot estava preso a um caixa de banco.
grande parte dos poetas são cisnes,
garças-reais.
eu me sento com 3 junkies
à uma e meia da tarde.
a fumaça mija para cima.
eu espero.
a morte não é nada descomunal.
uma das mulheres diz que curte
minha camisa amarela.
acredito numa violência simples.
isto é
uma parte dela.
mulheres.
sacos de papel cheios de lixo estão por toda
parte.
é uma e meia da tarde.
elas falam de manicômios,
hospitais.
esperam por uma dose.
nenhuma delas trabalha.
é a assistência e os vale-refeições e
plano de saúde.
os homens se tornam objetos
à espera de uma dose.
é uma e meia da tarde
e do lado de fora crescem pequenas plantas.
os filhos delas ainda estão na escola.
as mulheres fumam cigarros
e tragam indiferentes suas cervejas e
tequilas
pagas por mim.
me sento com elas.
espero pela minha dose:
sou uma poesia junkie.
eles empurraram Ezra pelas ruas
numa gaiola de madeira.
Blake estava certo da existência de Deus.
Villon era um embusteiro.
Lorca chupava paus.
T.S. Eliot estava preso a um caixa de banco.
grande parte dos poetas são cisnes,
garças-reais.
eu me sento com 3 junkies
à uma e meia da tarde.
a fumaça mija para cima.
eu espero.
a morte não é nada descomunal.
uma das mulheres diz que curte
minha camisa amarela.
acredito numa violência simples.
isto é
uma parte dela.
1 032
Charles Bukowski
Arte
assim que o
espírito
míngua
a
forma
aparece.
E então, de repente, os 32 dias de filmagem terminaram e chegou a hora da festa de encerramento.
No primeiro andar havia um longo balcão de bar, algumas mesas e uma grande pista de dança. Uma escada levava a um andar superior. Essencialmente, lá estavam a equipe e o elenco do filme, embora nem todos estivessem e houvesse outras pessoas que eu não reconhecia. Não tinha orquestra ao vivo e grande parte da música que saía dos alto-falantes era discoteca, mas as bebidas no bar eram reais. Sarah e eu entramos. Havia duas garçonetes. Eu pedi uma vodca e ela vinho tinto.
Uma das garçonetes me reconheceu e trouxe um dos meus livros. Dei o autógrafo.
Estava lotado e quente ali dentro, uma noite de verão, sem ar-condicionado.
– Vamos pegar outra bebida e subir lá pra cima – sugeri a Sarah. – Está quente demais aqui embaixo.
– Tudo bem – ela disse.
Abrimos caminho até a escada. Estava mais frio lá em cima e não havia tanta gente. Algumas pessoas dançavam. Como festa, aquela parecia não ter um núcleo, mas a maioria das festas era assim mesmo. Comecei a ficar deprimido. Acabei minha bebida...
– Vou pedir outro drinque – disse a Sarah. – Quer um?
– Não, vá em frente...
Desci a escada, mas antes de conseguir chegar ao bar um cara gordo e redondo, muito cabeludo, óculos escuros, agarrou minha mão e começou a sacudi-la.
– Chinaski, eu li tudo que você já escreveu, tudo!
– É mesmo?
Ele continuava me sacudindo a mão.
– Tomei um porre com você uma noite no Barney’s Beanery! Lembra de mim?
– Não.
– Está dizendo que não se lembra de que tomou um porre comigo no Barney’s Beanery?
– É.
Ele ergueu os óculos e prendeu-os no alto da cabeça.
– Agora se lembra?
– Não – eu disse, puxei a mão e fui para o bar.
– Vodca dupla – disse à garçonete.
Ela trouxe.
– Eu tenho uma amiga chamada Lola – disse. – Conhece?
– Não.
– Ela diz que foi casada com você dois anos.
– Não é verdade – eu disse.
Deixei o bar, me dirigi à escada. Lá estava outro cara gordão, sem cabelos mas com uma grande barba.
– Chinaski – ele disse.
– Sim.
– André Wells... Eu fiz uma ponta no filme... Também sou escritor... Tenho um romance pronto pra publicar. Gostaria que você lesse. Posso te enviar uma cópia?
– Tudo bem... – Dei-lhe o número de minha caixa postal.
– Mas não tem endereço próprio?
– Claro, mas correspondência é com a caixa postal.
Encaminhei-me para a escada. Bebi metade de meu drinque subindo os degraus. Sarah conversava com uma extra. Aí vi Jon Pinchot. Estava parado sozinho com seu copo. Fui até ele.
– Hank – ele disse –, estou surpreso de ver você aqui...
– E eu estou surpreso de a Firepower ter bancado a festa.
– Estão cobrando...
– Oh... Bem, e agora?
– Estamos na sala de montagem, trabalhando na coisa... Depois disso, mixamos a música... Por que não vem ver como se faz?
– Quando?
– Qualquer hora. Estamos trabalhando de 12 a 14 horas por dia.
– Tudo bem... Escuta, que aconteceu com Poppy?
– Quem?
– Aquela que entrou com os dez mil paus quando você morava lá embaixo, na praia.
– Oh, está no Brasil agora. A gente cuida dela.
Acabei meu drinque.
– Não vai descer e dançar? – perguntou Jon.
– Oh, não, isso é bobagem...
Alguém o chamou.
– Desculpe – ele disse –, e não esqueça de aparecer na sala de montagem.
– Claro.
Jon afastou-se para o outro lado do salão.
Dirigi-me à balaustrada e olhei o bar lá embaixo. Enquanto conversava com Jon, Jack Bledsoe e seus companheiros motoqueiros haviam chegado. Os companheiros recostavam-se no balcão do bar, de frente para a multidão. Todos seguravam uma garrafa de cerveja, com exceção de Jack, que tinha uma garrafa de 7-Up. Usavam blusões de couro, echarpes, calças de couro, botas.
Aproximei-me de Sarah.
– Vou descer e falar com Jack Bledsoe e sua gangue... Você vem?
– Claro...
Descemos e Jack nos apresentou os companheiros.
– Este é o Harry Cassetete...
– Oi, cara...
– Este é o Flagelo.
– Oi...
– Este é o Verme da Noite...
– Ei, ei!
– Este é o Mata-cachorro...
– É demais!
– Este é Eddie 3-Bagos...
– Porra...
– Este é Peido-Rápido...
– Prazer em conhecê-lo...
– E o Terror das Xoxotas...
– Ééé...
E foi isso aí. Todos pareciam ótimos praças, mas um pouco teatrais, recostados no balcão, segurando as garrafas de cerveja.
– Jack – eu disse –, você fez um grande trabalho de ator.
– E como! – disse Sarah.
– Obrigado... – ele lampejou seu belo sorriso.
– Bem – eu disse –, vamos voltar lá pra cima, está quente pra caralho aqui embaixo... Por que não dá uma subida?
Fiz sinal à garçonete para tornar a encher nossos copos.
– Vai escrever outro argumento? – perguntou Jack.
– Acho que não... É muita perda de intimidade... Eu gosto de ficar sentado olhando as paredes...
– Se escrever um, me mostra.
– Claro. Escute, por que seus rapazes estão de costas pro bar desse jeito? Estão na paquera?
– Nãão, já estão fartos de garotas. Só estão relaxando...
– Tudo bem, tchau, Jack...
– Continue fazendo seu bom trabalho – disse Sarah.
Voltamos lá pra cima. Em pouco tempo, Jack e sua gangue desapareceram.
Não foi lá uma grande noite. Eu subia e descia a escada, para pegar drinques. Após três horas, quase todo mundo tinha ido embora. Sarah e eu nos apoiávamos no balaústre. Aí eu vi Jon. Tinha-o visto dançando antes. Chamei-o com um aceno.
– Ei, que houve com Francine? Ela não veio à festa de encerramento?
– Não, não tem imprensa aqui esta noite...
– Entendo...
– Preciso ir agora – disse Jon. – Tenho de levantar cedo e ir pra sala de montagem.
– Tudo bem.
Jon se foi.
Estava vazio lá embaixo, e mais fresco, e assim descemos para o bar. Sarah e eu éramos os últimos ali. Agora só havia uma garçonete.
– Vamos tomar uma saideira – eu disse a ela.
– Agora eu tenho de cobrar as bebidas – ela disse.
– Por quê?
– A Firepower só alugou a casa até a meia-noite... Já são meia-noite e dez... Mas vou te passar uns drinques mesmo assim, porque gosto muito do que você escreve, mas por favor não diga a ninguém que fiz isso.
– Minha querida, ninguém jamais vai saber.
Ela serviu os drinques. A turma da discoteca da madrugada começava a chegar. Era hora de ir embora. Era, sim. Nossos cinco gatos nos esperavam. De alguma forma, eu me sentia triste pelo fim das filmagens. Havia algo de explorativo naquilo tudo. Houvera um certo jogo. Acabamos nossos drinques e saímos para a rua. O carro ainda estava lá. Ajudei Sarah a entrar e entrei pelo outro lado. Pusemos os cintos. Liguei o carro, e logo estávamos na autoestrada do Porto, seguindo para o sul. Voltávamos para a normalidade, e de certa forma eu gostava disso, e por outro lado não gostava.
Sarah acendeu um cigarro.
– A gente dá comida aos gatos e vai dormir.
– E talvez um drinque? – sugeri.
– Tudo bem – disse Sarah.
Ela e eu nos dávamos bem, às vezes.
–Hollywood
espírito
míngua
a
forma
aparece.
E então, de repente, os 32 dias de filmagem terminaram e chegou a hora da festa de encerramento.
No primeiro andar havia um longo balcão de bar, algumas mesas e uma grande pista de dança. Uma escada levava a um andar superior. Essencialmente, lá estavam a equipe e o elenco do filme, embora nem todos estivessem e houvesse outras pessoas que eu não reconhecia. Não tinha orquestra ao vivo e grande parte da música que saía dos alto-falantes era discoteca, mas as bebidas no bar eram reais. Sarah e eu entramos. Havia duas garçonetes. Eu pedi uma vodca e ela vinho tinto.
Uma das garçonetes me reconheceu e trouxe um dos meus livros. Dei o autógrafo.
Estava lotado e quente ali dentro, uma noite de verão, sem ar-condicionado.
– Vamos pegar outra bebida e subir lá pra cima – sugeri a Sarah. – Está quente demais aqui embaixo.
– Tudo bem – ela disse.
Abrimos caminho até a escada. Estava mais frio lá em cima e não havia tanta gente. Algumas pessoas dançavam. Como festa, aquela parecia não ter um núcleo, mas a maioria das festas era assim mesmo. Comecei a ficar deprimido. Acabei minha bebida...
– Vou pedir outro drinque – disse a Sarah. – Quer um?
– Não, vá em frente...
Desci a escada, mas antes de conseguir chegar ao bar um cara gordo e redondo, muito cabeludo, óculos escuros, agarrou minha mão e começou a sacudi-la.
– Chinaski, eu li tudo que você já escreveu, tudo!
– É mesmo?
Ele continuava me sacudindo a mão.
– Tomei um porre com você uma noite no Barney’s Beanery! Lembra de mim?
– Não.
– Está dizendo que não se lembra de que tomou um porre comigo no Barney’s Beanery?
– É.
Ele ergueu os óculos e prendeu-os no alto da cabeça.
– Agora se lembra?
– Não – eu disse, puxei a mão e fui para o bar.
– Vodca dupla – disse à garçonete.
Ela trouxe.
– Eu tenho uma amiga chamada Lola – disse. – Conhece?
– Não.
– Ela diz que foi casada com você dois anos.
– Não é verdade – eu disse.
Deixei o bar, me dirigi à escada. Lá estava outro cara gordão, sem cabelos mas com uma grande barba.
– Chinaski – ele disse.
– Sim.
– André Wells... Eu fiz uma ponta no filme... Também sou escritor... Tenho um romance pronto pra publicar. Gostaria que você lesse. Posso te enviar uma cópia?
– Tudo bem... – Dei-lhe o número de minha caixa postal.
– Mas não tem endereço próprio?
– Claro, mas correspondência é com a caixa postal.
Encaminhei-me para a escada. Bebi metade de meu drinque subindo os degraus. Sarah conversava com uma extra. Aí vi Jon Pinchot. Estava parado sozinho com seu copo. Fui até ele.
– Hank – ele disse –, estou surpreso de ver você aqui...
– E eu estou surpreso de a Firepower ter bancado a festa.
– Estão cobrando...
– Oh... Bem, e agora?
– Estamos na sala de montagem, trabalhando na coisa... Depois disso, mixamos a música... Por que não vem ver como se faz?
– Quando?
– Qualquer hora. Estamos trabalhando de 12 a 14 horas por dia.
– Tudo bem... Escuta, que aconteceu com Poppy?
– Quem?
– Aquela que entrou com os dez mil paus quando você morava lá embaixo, na praia.
– Oh, está no Brasil agora. A gente cuida dela.
Acabei meu drinque.
– Não vai descer e dançar? – perguntou Jon.
– Oh, não, isso é bobagem...
Alguém o chamou.
– Desculpe – ele disse –, e não esqueça de aparecer na sala de montagem.
– Claro.
Jon afastou-se para o outro lado do salão.
Dirigi-me à balaustrada e olhei o bar lá embaixo. Enquanto conversava com Jon, Jack Bledsoe e seus companheiros motoqueiros haviam chegado. Os companheiros recostavam-se no balcão do bar, de frente para a multidão. Todos seguravam uma garrafa de cerveja, com exceção de Jack, que tinha uma garrafa de 7-Up. Usavam blusões de couro, echarpes, calças de couro, botas.
Aproximei-me de Sarah.
– Vou descer e falar com Jack Bledsoe e sua gangue... Você vem?
– Claro...
Descemos e Jack nos apresentou os companheiros.
– Este é o Harry Cassetete...
– Oi, cara...
– Este é o Flagelo.
– Oi...
– Este é o Verme da Noite...
– Ei, ei!
– Este é o Mata-cachorro...
– É demais!
– Este é Eddie 3-Bagos...
– Porra...
– Este é Peido-Rápido...
– Prazer em conhecê-lo...
– E o Terror das Xoxotas...
– Ééé...
E foi isso aí. Todos pareciam ótimos praças, mas um pouco teatrais, recostados no balcão, segurando as garrafas de cerveja.
– Jack – eu disse –, você fez um grande trabalho de ator.
– E como! – disse Sarah.
– Obrigado... – ele lampejou seu belo sorriso.
– Bem – eu disse –, vamos voltar lá pra cima, está quente pra caralho aqui embaixo... Por que não dá uma subida?
Fiz sinal à garçonete para tornar a encher nossos copos.
– Vai escrever outro argumento? – perguntou Jack.
– Acho que não... É muita perda de intimidade... Eu gosto de ficar sentado olhando as paredes...
– Se escrever um, me mostra.
– Claro. Escute, por que seus rapazes estão de costas pro bar desse jeito? Estão na paquera?
– Nãão, já estão fartos de garotas. Só estão relaxando...
– Tudo bem, tchau, Jack...
– Continue fazendo seu bom trabalho – disse Sarah.
Voltamos lá pra cima. Em pouco tempo, Jack e sua gangue desapareceram.
Não foi lá uma grande noite. Eu subia e descia a escada, para pegar drinques. Após três horas, quase todo mundo tinha ido embora. Sarah e eu nos apoiávamos no balaústre. Aí eu vi Jon. Tinha-o visto dançando antes. Chamei-o com um aceno.
– Ei, que houve com Francine? Ela não veio à festa de encerramento?
– Não, não tem imprensa aqui esta noite...
– Entendo...
– Preciso ir agora – disse Jon. – Tenho de levantar cedo e ir pra sala de montagem.
– Tudo bem.
Jon se foi.
Estava vazio lá embaixo, e mais fresco, e assim descemos para o bar. Sarah e eu éramos os últimos ali. Agora só havia uma garçonete.
– Vamos tomar uma saideira – eu disse a ela.
– Agora eu tenho de cobrar as bebidas – ela disse.
– Por quê?
– A Firepower só alugou a casa até a meia-noite... Já são meia-noite e dez... Mas vou te passar uns drinques mesmo assim, porque gosto muito do que você escreve, mas por favor não diga a ninguém que fiz isso.
– Minha querida, ninguém jamais vai saber.
Ela serviu os drinques. A turma da discoteca da madrugada começava a chegar. Era hora de ir embora. Era, sim. Nossos cinco gatos nos esperavam. De alguma forma, eu me sentia triste pelo fim das filmagens. Havia algo de explorativo naquilo tudo. Houvera um certo jogo. Acabamos nossos drinques e saímos para a rua. O carro ainda estava lá. Ajudei Sarah a entrar e entrei pelo outro lado. Pusemos os cintos. Liguei o carro, e logo estávamos na autoestrada do Porto, seguindo para o sul. Voltávamos para a normalidade, e de certa forma eu gostava disso, e por outro lado não gostava.
Sarah acendeu um cigarro.
– A gente dá comida aos gatos e vai dormir.
– E talvez um drinque? – sugeri.
– Tudo bem – disse Sarah.
Ela e eu nos dávamos bem, às vezes.
–Hollywood
1 187
Charles Bukowski
Quem, Diabos, É Tom Jones?
por duas semanas
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
estive dormindo com uma
garota de 24 anos de
Nova York – na época
em que ocorria a greve dos
lixeiros, e certa noite
minha antiga mulher de 34 anos
chegou e disse, “quero ver
minha rival”. foi o que ela fez
e então disse, “ó, você
é a coisinha mais querida!”
depois disso reparei que houve uma
gritaria de gatas selvagens –
urros e unhadas,
lamentos de animal ferido,
sangue e mijo...
eu estava bêbado e só de
calção. tentei
separar as duas e caí,
torcendo o joelho. então
atravessaram a porta e
avançaram rua
afora.
chegaram viaturas cheias
de policiais. um helicóptero da
polícia sobrevoou o local.
fiquei no banheiro
e sorri para o espelho.
não é comum que coisas
tão esplêndidas assim
aconteçam aos 55 anos.
muito melhor do que os distúrbios em
Watts[15].
a de 34 retornou
para dentro. estava toda
mijada e sua roupa
transformada em farrapos e era
seguida por dois policiais que
queriam saber a razão daquilo tudo.
erguendo meus calções
eu tentava explicar.
1 091
Charles Bukowski
Nenhum Caminho Para o Paraíso
Eu estava sentado em um bar na avenida Western. Era perto da meia-noite e estava metido em uma das minhas habituais confusões. Quero dizer, você sabe, nada dá certo: as mulheres, os trabalhos, a falta de trabalhos, o tempo, os cães. Por fim, você simplesmente senta em uma espécie de estado de transe e espera como se estivesse no banco da parada de ônibus aguardando a morte.
Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dúzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
– Scotch com água.
– Dê-lhe um scotch com água – ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centímetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
– Fazem desses agora – ela disse. – São muito caros. Custaram quase dois mil dólares cada um quando comprei. Agora já estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
– Sua vagabunda – ele disse –, já chega!
– Não, George, você não pode – ela gritou –, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!
– Não me importo! – disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. – Tenho o direito de viver.
– Se você não a quer – disse o outro sujeitinho –, fico com ela, eu a amo.
– Mas não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.
– Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!
– Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.
– Estou com um triângulo amoroso em andamento – disse a mulher que havia me pagado uma bebida. – Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.
– Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
– Dawn.[13] É um nome terrível. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.
– O meu é Hank. Mas não é triste...
– Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás...
– Passa o mesmo com todos nós.
– Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica difícil.
– São excitantes?
– Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
– Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
– Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.
– Com que frequência acontece?
– Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcão.
– Escute – disse Marty –, me dê uma chance. Apenas uma chance, Anna.
– Não – disse Anna. – Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
– Ruthie está ficando excitada – eu disse a Dawn.
– Está, está mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
– Escute – ela disse. – Não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.
– Mas aí não poderei olhar.
– Bem, terá que vir comigo.
– Tudo bem – respondi. – Vamos lá.
Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradável. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
– Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. – Ele não é ótimo? – perguntou.
– Sim, é ótimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
– Perdão – ela disse. – Mas você parece um pouco louco. O que você faz?
– Sou escritor.
– E irá escrever sobre isso?
– Ninguém jamais acreditará, mas vou.
– Olha – disse Dawn. – George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?
– Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo.
– Não sei o que acontece – disse Dawn –, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.
– Entendo o que quer dizer.
– Olhe, o George está chupando ela.
– É mesmo.
– Olhe pra eles!
– Deus do céu!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
– Olhe – disse Marty –, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!
– Você ouviu isso? – perguntei a Dawn. – Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?
– Espero que sim – disse Dawn.
Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
– Eu te amo – eu disse.
– Mesmo? Ama?
– Sim, de alguma forma, sim...
– Tudo bem – disse a pequena Anna ao pequeno Marty. – Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.
– Foi tão bom – ela disse.
– O prazer foi meu – respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
– Acha que daremos certo juntos? – perguntou.
– O que quer dizer?
– Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
– Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.
Então ouvimos um grito vindo da sala.
– Ai, ai – ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.
– Oh, meu Deus!
– O que aconteceu?
– Foi a Anna!
– O que tem a Anna?
– Cortou fora as bolas dele! George é um eunuco!
– Uau!
– Pegue papel higiênico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!
– Esse filho da puta – disse Anna da mesinha –, se não posso ter o George, ninguém mais terá.
– Agora vocês duas são minhas! – disse Marty.
– Não, agora você tem que escolher uma de nós – disse Anna.
– Então, com qual vai ficar? – perguntou Ruthie.
– Amo as duas – disse Marty.
– Parou de sangrar – disse Dawn. – Ele está frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
– Quero dizer – seguiu Dawn – que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.
– Acho que amo você, Dawn.
– Olhe – ela disse. – Marty está abraçando Ruthie!
– Vão trepar?
– Não sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
– Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty já tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.
– Vou matar todo mundo! – gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.
– Ao sul de lugar nenhum
Bem, estava sentado lá e então chega essa mulher com cabelo preto e longo, bom corpo, olhos castanhos e tristes. Não me virei para olhá-la. Ignorei-a, mesmo ela tendo sentado no banco ao lado do meu, quando havia uma dúzia de outros lugares vagos. Na verdade, éramos os únicos no bar, exceto pelo balconista. Ela pediu um vinho seco. Depois me perguntou o que eu estava bebendo.
– Scotch com água.
– Dê-lhe um scotch com água – ela disse ao balconista.
Bem, isso era incomum.
Abriu a bolsa, removeu uma pequena gaiola de arame e tirou algumas pessoas pequenas e as colocou no balcão. Tinham todos aproximadamente dez centímetros de altura e estavam vivos e bem vestidos. Havia quatro deles, dois homens e duas mulheres.
– Fazem desses agora – ela disse. – São muito caros. Custaram quase dois mil dólares cada um quando comprei. Agora já estão chegando aos 2.400 dólares. Não sei como são feitos, mas provavelmente é coisa fora da lei.
As pessoas em miniatura estavam caminhando por cima do balcão. Repentinamente um dos pequenos homens deu um tapa na cara de uma das pequenas mulheres.
– Sua vagabunda – ele disse –, já chega!
– Não, George, você não pode – ela gritou –, eu te amo! Vou me matar! Tenho que ter você!
– Não me importo! – disse o pequeno sujeito e puxou um cigarrinho e o acendeu. – Tenho o direito de viver.
– Se você não a quer – disse o outro sujeitinho –, fico com ela, eu a amo.
– Mas não quero você, Marty. Estou apaixonada pelo George.
– Mas ele é um idiota, Anna, um idiota completo!
– Eu sei, mas o amo de qualquer forma.
O idiotinha caminhou pelo balcão e beijou a outra mulherzinha.
– Estou com um triângulo amoroso em andamento – disse a mulher que havia me pagado uma bebida. – Esses são Marty e George e Anna e Ruthie. George vai se dar mal, muito mal. Marty é meio quadrado.
– Não é triste ver tudo isso? Errr, qual o seu nome?
– Dawn.[13] É um nome terrível. Mas é o que as mães fazem com suas crianças às vezes.
– O meu é Hank. Mas não é triste...
– Não, não é triste observar isso tudo. Não tive muita sorte com os meus próprios amores, péssima sorte, aliás...
– Passa o mesmo com todos nós.
– Parece que sim. De qualquer forma, comprei essas pessoinhas e agora fico olhando pra elas. E é como ter e não ter esses problemas. Mas fico muito excitada quando começam a fazer amor. É aí que fica difícil.
– São excitantes?
– Muito, muito excitantes. Meu Deus, me deixam louca!
– Por que você não os obriga a fazer sexo? Quero dizer agora. Ficaremos olhando juntos.
– Não se pode forçá-los. Têm de fazer por conta própria.
– Com que frequência acontece?
– Oh, eles são bem bons. Quatro ou cinco vezes por semana.
Estavam caminhando pelo balcão.
– Escute – disse Marty –, me dê uma chance. Apenas uma chance, Anna.
– Não – disse Anna. – Meu coração pertence ao George. Não pode ser de nenhuma outra maneira.
George estava beijando Ruthie, apalpando seus peitos. Ruthie estava ficando excitada.
– Ruthie está ficando excitada – eu disse a Dawn.
– Está, está mesmo.
Eu também estava ficando. Agarrei Dawn e a beijei.
– Escute – ela disse. – Não gosto que eles façam sexo em público. Vou levá-los para casa e colocá-los para transar.
– Mas aí não poderei olhar.
– Bem, terá que vir comigo.
– Tudo bem – respondi. – Vamos lá.
Acabei minha bebida e saímos juntos. Ela carregava as criaturas em uma pequena gaiola de arame. Entramos no carro dela e colocamos o pessoal entre nós, no banco da frente. Olhei para Dawn. Era realmente jovem e bonita. Parecia ser boa também por dentro. Como podia ter fracassado com os homens? Há tantas maneiras de as coisas saírem erradas. Os quatro pequenos custaram-na oito mil. Tudo isso para se afastar de relacionamentos e na verdade não se afastar de relacionamentos.
A casa era perto dos morros, um lugar com uma aparência agradável. Descemos do carro e caminhamos até a porta. Segurei a gaiola com os pequenos enquanto ela abria a porta.
– Ouvi Randy Newman semana passada no The Troubador. – Ele não é ótimo? – perguntou.
– Sim, é ótimo.
Entramos na sala, e Dawn tirou os pequenos da gaiola e os colocou em uma mesinha. Então caminhou até a cozinha, abriu o refrigerador e pegou uma garrafa de vinho. Trouxe dois copos.
– Perdão – ela disse. – Mas você parece um pouco louco. O que você faz?
– Sou escritor.
– E irá escrever sobre isso?
– Ninguém jamais acreditará, mas vou.
– Olha – disse Dawn. – George tirou as calcinhas de Ruthie. Ele está enfiando os dedos nela. Gelo?
– Sim, está fazendo isso. Não, sem gelo. Puro está ótimo.
– Não sei o que acontece – disse Dawn –, mas fico realmente excitada quando os observo. Talvez seja porque são tão pequenos. Realmente me excita.
– Entendo o que quer dizer.
– Olhe, o George está chupando ela.
– É mesmo.
– Olhe pra eles!
– Deus do céu!
Agarrei Dawn. Ficamos ali em pé nos beijando. Enquanto isso, seus olhos iam dos meus para eles e novamente para os meus.
O pequeno Marty e a pequena Anna também estavam olhando.
– Olhe – disse Marty –, eles vão trepar. Nós bem que podíamos trepar também. Até os grandes vão transar. Olhe pra eles!
– Você ouviu isso? – perguntei a Dawn. – Eles disseram que nós vamos trepar. É verdade?
– Espero que sim – disse Dawn.
Levei-a para o sofá e levantei o vestido acima da cintura. Beijei seu pescoço.
– Eu te amo – eu disse.
– Mesmo? Ama?
– Sim, de alguma forma, sim...
– Tudo bem – disse a pequena Anna ao pequeno Marty. – Também podemos trepar, mesmo que eu não ame você.
Eles se abraçaram no meio da mesinha. Eu já tinha tirado as calcinhas de Dawn. Ela gemia. Ruthie gemia. Marty se aproximava de Anna. Estava acontecendo por toda parte. Tive a ideia de que todas as pessoas no mundo estavam trepando. Então esqueci do resto do mundo. De alguma forma fomos para o quarto. Então penetrei Dawn para a longa e lenta cavalgada.
Quando ela saiu do banheiro, eu estava lendo uma história muito idiota na Playboy.
– Foi tão bom – ela disse.
– O prazer foi meu – respondi.
Ela voltou para a cama. Pus a revista de lado.
– Acha que daremos certo juntos? – perguntou.
– O que quer dizer?
– Acha que vamos conseguir ficar juntos por algum tempo?
– Não sei. Coisas acontecem. O começo é sempre mais fácil.
Então ouvimos um grito vindo da sala.
– Ai, ai – ela disse.
Saltou da cama e correu para a sala. Segui logo atrás. Quando cheguei lá, ela estava segurando George nas mãos.
– Oh, meu Deus!
– O que aconteceu?
– Foi a Anna!
– O que tem a Anna?
– Cortou fora as bolas dele! George é um eunuco!
– Uau!
– Pegue papel higiênico, rápido! Ele pode sangrar até morrer!
– Esse filho da puta – disse Anna da mesinha –, se não posso ter o George, ninguém mais terá.
– Agora vocês duas são minhas! – disse Marty.
– Não, agora você tem que escolher uma de nós – disse Anna.
– Então, com qual vai ficar? – perguntou Ruthie.
– Amo as duas – disse Marty.
– Parou de sangrar – disse Dawn. – Ele está frio.
Ela embrulhou George em um lenço e o colocou sobre a borda da lareira.
– Quero dizer – seguiu Dawn – que se você acha que não daremos certo, não vou insistir.
– Acho que amo você, Dawn.
– Olhe – ela disse. – Marty está abraçando Ruthie!
– Vão trepar?
– Não sei. Parecem excitados.
Dawn pegou Anna e a colocou na gaiola de arame.
– Deixe-me sair daqui! Vou matar os dois! Deixe-me sair daqui!
George gemeu de dentro do lenço sobre a borda. Marty já tirara as calcinhas de Ruthie. Puxei Dawn para perto de mim. Era bonita e jovem e boa por dentro. Eu podia estar apaixonado novamente. Era possível, nos beijamos. Mergulhei fundo em seus olhos. Então emergi e comecei a correr. Eu sabia onde estava. Uma barata e uma águia faziam amor. O tempo era um idiota com um banjo na mão. Continuei correndo. Seu cabelo longo caía sobre meu rosto.
– Vou matar todo mundo! – gritava a pequena Anna. Agitava-se na gaiola de arame às três horas da manhã.
– Ao sul de lugar nenhum
1 237
Charles Bukowski
Metamorfose
uma namorada chegou
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pó
limpou a patente
a banheira
esfregou o chão do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.
então
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a patente
e o homem do gás consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo está tranquilo.
rompi com as minhas 3 namoradas.
me sinto melhor quando tudo está
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
não consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhão.
perdi meu ritmo.
não consigo dormir.
não consigo comer.
roubaram-me
minha sujeira.
me construiu uma cama
esfregou e encerou o chão da cozinha
esfregou as paredes
aspirou o pó
limpou a patente
a banheira
esfregou o chão do banheiro
e cortou minhas unhas e
meus cabelos.
então
naquele mesmo dia
o encanador veio e consertou a torneira da cozinha
e a patente
e o homem do gás consertou o aquecedor
e o homem do telefone, o telefone.
agora me sento aqui em meio a tanta perfeição.
tudo está tranquilo.
rompi com as minhas 3 namoradas.
me sinto melhor quando tudo está
bagunçado.
vai levar alguns meses até que as coisas voltem ao
normal:
não consigo encontrar sequer uma barata para viver em comunhão.
perdi meu ritmo.
não consigo dormir.
não consigo comer.
roubaram-me
minha sujeira.
1 140
Charles Bukowski
Liberdade
ela estava sentada na janela
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
do quarto 1010 no Chelsea
em Nova York,
o antigo quarto de Janis Joplin.
fazia 40 graus
e ela estava alterada
e tinha uma perna para fora
do peitoril,
e se inclinava para fora e dizia,
“Deus isso é ótimo!”
e então ela escorregou
e quase caiu lá embaixo,
agarrando-se no momento final.
foi por pouco.
voltou para dentro e se esticou
na cama.
já perdi um bocado de mulheres
de um bocado de modos diferentes
mas teria sido
a primeira vez
desse modo.
então ela rolou da cama
caindo de costas
e quando me aproximei
ela estava dormindo.
ela passara o dia todo querendo
ver a Estátua da Liberdade.
agora por um tempo ela não me incomodaria
com isso.
1 202
Charles Bukowski
Isto
nonsense autocongratulatório enquanto os
famosos se reúnem para aplaudir sua aparente
grandeza
você
se pergunta onde estão
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
você
se pergunta onde
estão os verdadeiramente grandes
se é que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatório
tem durado
décadas
e
com raras exceções
séculos.
isto
é tão medonho
é tão absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difícil
quase
abominável
enquanto
os famosos se reúnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.
E aí, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notícias, esta veio pelo telefone, via Jon.
– É – ele me disse –, recomeçamos a produção amanhã.
– Eu não entendo. Achava que o filme estava morto.
– A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotéis que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande empréstimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano é meio sujo, mas... é dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que você e Sarah viessem pra filmagem amanhã.
– Não sei...
– É amanhã à noite...
– Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentávamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Estávamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliações interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. Também parecia mais retraído, quase tímido.
– Vemos você sempre – disse Sarah.
– Obrigado...
– Escuta – perguntei –, que é que te aborrece mais em Kirby Hudson?
– O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotações.
– Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Índia, certo?
– Meio índia, meio irlandesa.
– Por que bebia?
– Era um lugar onde se esconder, e também uma forma de suicídio.
– Você algum dia levou ela a algum lugar, além de um bar?
– Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do Pacífico.
– Que aconteceu?
– Nós dois ficamos muito bêbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
– Como é que ela falava? Aos berros?
– Ficava calada durante horas. Então, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princípio eu não reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. Vivíamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que não consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lá estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pálida, gritou e bateu a porta...
– Jane morreu? – perguntou Rick Talbot.
– Há muito tempo. Estão todos mortos. Todos com quem eu bebia.
– Que é que mantém você de pé?
– Gosto de bater à máquina. Me emociona.
– E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha – disse-lhe Sarah.
– Ainda bebe? – perguntou Rick.
– Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. Não me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
– Me fale mais sobre Jane – pediu Francine.
– Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
– Ia à igreja?
– Em horas estranhas ia ao que chamava de “missa alka-seltzer”. Acho que começava às oito e meia da manhã e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
– Ela ia à confissão?
– Nunca perguntei...
– Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu caráter?
– Só que, apesar de todas as coisas aparentemente terríveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor à garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
– Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
– Esteja à vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
– Acho que nunca me diverti tanto num set – disse Rick Talbot.
– Que quer dizer, Rick? – perguntou Sarah.
– É uma sensação no ar. Às vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
– Pra mim, só café – ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
– Vejam! Lá está Sesteenov!
– Quem? – eu perguntei.
– O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitérios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
– Por favor, sente-se – pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
– Quer beber alguma coisa? – perguntei.
– Oh, não...
– Vejam – disse Rick Talbot –, lá está Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violência da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridão.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
Nós nos afastamos para deixá-lo entrar. O reservado estava cheio.
– Gostaria de um drinque? – perguntei.
– Uma vodca dupla – ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
– Vodca dupla – ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
– É uma noite sensacional – disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
Aí entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
– Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
– Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
– É um bom diretor – disse Rick Talbot –, mas eu gostaria de saber por que você escolheu ele.
– Foi ele que me escolheu...
– É mesmo?
– É... e eu posso te contar uma história que explicará por que é um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nós...
– Manda – disse Rick.
– Aqui entre nós?
– É claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a história de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Rick.
– Aconteceu. Aqui entre nós.
– Claro...
(Eu sabia: nada é aqui entre nós, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartão de apresentação e me entregou. O cartão tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartão de apresentação. Illiantovitch parecia um gênio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensão. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
– Você é o melhor – eu disse. – Depois de você, não tem mais nada.
– Não, não é assim – ele disse. – VOCÊ é o melhor! Eu te dou meu cartão! No cartão está a hora da PROJEÇÃO DE MEU NOVO FILME! VOCÊ DEVE IR VER!
– Claro, baby – eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartão.
– Está uma noite daquelas – disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
– Estamos quase prontos pra rodar. Vocês podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocês?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
– Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! Vão vocês!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas páginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os lábios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
– Hollywood
famosos se reúnem para aplaudir sua aparente
grandeza
você
se pergunta onde estão
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
você
se pergunta onde
estão os verdadeiramente grandes
se é que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatório
tem durado
décadas
e
com raras exceções
séculos.
isto
é tão medonho
é tão absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difícil
quase
abominável
enquanto
os famosos se reúnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.
E aí, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notícias, esta veio pelo telefone, via Jon.
– É – ele me disse –, recomeçamos a produção amanhã.
– Eu não entendo. Achava que o filme estava morto.
– A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotéis que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande empréstimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano é meio sujo, mas... é dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que você e Sarah viessem pra filmagem amanhã.
– Não sei...
– É amanhã à noite...
– Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentávamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Estávamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliações interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. Também parecia mais retraído, quase tímido.
– Vemos você sempre – disse Sarah.
– Obrigado...
– Escuta – perguntei –, que é que te aborrece mais em Kirby Hudson?
– O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotações.
– Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Índia, certo?
– Meio índia, meio irlandesa.
– Por que bebia?
– Era um lugar onde se esconder, e também uma forma de suicídio.
– Você algum dia levou ela a algum lugar, além de um bar?
– Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do Pacífico.
– Que aconteceu?
– Nós dois ficamos muito bêbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
– Como é que ela falava? Aos berros?
– Ficava calada durante horas. Então, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princípio eu não reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. Vivíamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que não consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lá estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pálida, gritou e bateu a porta...
– Jane morreu? – perguntou Rick Talbot.
– Há muito tempo. Estão todos mortos. Todos com quem eu bebia.
– Que é que mantém você de pé?
– Gosto de bater à máquina. Me emociona.
– E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha – disse-lhe Sarah.
– Ainda bebe? – perguntou Rick.
– Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. Não me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
– Me fale mais sobre Jane – pediu Francine.
– Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
– Ia à igreja?
– Em horas estranhas ia ao que chamava de “missa alka-seltzer”. Acho que começava às oito e meia da manhã e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
– Ela ia à confissão?
– Nunca perguntei...
– Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu caráter?
– Só que, apesar de todas as coisas aparentemente terríveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor à garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
– Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
– Esteja à vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
– Acho que nunca me diverti tanto num set – disse Rick Talbot.
– Que quer dizer, Rick? – perguntou Sarah.
– É uma sensação no ar. Às vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
– Pra mim, só café – ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
– Vejam! Lá está Sesteenov!
– Quem? – eu perguntei.
– O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitérios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
– Por favor, sente-se – pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
– Quer beber alguma coisa? – perguntei.
– Oh, não...
– Vejam – disse Rick Talbot –, lá está Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violência da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridão.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
Nós nos afastamos para deixá-lo entrar. O reservado estava cheio.
– Gostaria de um drinque? – perguntei.
– Uma vodca dupla – ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
– Vodca dupla – ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
– É uma noite sensacional – disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
Aí entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
– Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
– Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
– É um bom diretor – disse Rick Talbot –, mas eu gostaria de saber por que você escolheu ele.
– Foi ele que me escolheu...
– É mesmo?
– É... e eu posso te contar uma história que explicará por que é um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nós...
– Manda – disse Rick.
– Aqui entre nós?
– É claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a história de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Rick.
– Aconteceu. Aqui entre nós.
– Claro...
(Eu sabia: nada é aqui entre nós, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartão de apresentação e me entregou. O cartão tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartão de apresentação. Illiantovitch parecia um gênio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensão. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
– Você é o melhor – eu disse. – Depois de você, não tem mais nada.
– Não, não é assim – ele disse. – VOCÊ é o melhor! Eu te dou meu cartão! No cartão está a hora da PROJEÇÃO DE MEU NOVO FILME! VOCÊ DEVE IR VER!
– Claro, baby – eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartão.
– Está uma noite daquelas – disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
– Estamos quase prontos pra rodar. Vocês podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocês?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
– Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! Vão vocês!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas páginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os lábios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
– Hollywood
1 314
Charles Bukowski
Isto
nonsense autocongratulatório enquanto os
famosos se reúnem para aplaudir sua aparente
grandeza
você
se pergunta onde estão
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
você
se pergunta onde
estão os verdadeiramente grandes
se é que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatório
tem durado
décadas
e
com raras exceções
séculos.
isto
é tão medonho
é tão absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difícil
quase
abominável
enquanto
os famosos se reúnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.
E aí, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notícias, esta veio pelo telefone, via Jon.
– É – ele me disse –, recomeçamos a produção amanhã.
– Eu não entendo. Achava que o filme estava morto.
– A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotéis que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande empréstimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano é meio sujo, mas... é dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que você e Sarah viessem pra filmagem amanhã.
– Não sei...
– É amanhã à noite...
– Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentávamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Estávamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliações interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. Também parecia mais retraído, quase tímido.
– Vemos você sempre – disse Sarah.
– Obrigado...
– Escuta – perguntei –, que é que te aborrece mais em Kirby Hudson?
– O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotações.
– Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Índia, certo?
– Meio índia, meio irlandesa.
– Por que bebia?
– Era um lugar onde se esconder, e também uma forma de suicídio.
– Você algum dia levou ela a algum lugar, além de um bar?
– Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do Pacífico.
– Que aconteceu?
– Nós dois ficamos muito bêbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
– Como é que ela falava? Aos berros?
– Ficava calada durante horas. Então, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princípio eu não reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. Vivíamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que não consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lá estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pálida, gritou e bateu a porta...
– Jane morreu? – perguntou Rick Talbot.
– Há muito tempo. Estão todos mortos. Todos com quem eu bebia.
– Que é que mantém você de pé?
– Gosto de bater à máquina. Me emociona.
– E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha – disse-lhe Sarah.
– Ainda bebe? – perguntou Rick.
– Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. Não me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
– Me fale mais sobre Jane – pediu Francine.
– Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
– Ia à igreja?
– Em horas estranhas ia ao que chamava de “missa alka-seltzer”. Acho que começava às oito e meia da manhã e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
– Ela ia à confissão?
– Nunca perguntei...
– Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu caráter?
– Só que, apesar de todas as coisas aparentemente terríveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor à garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
– Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
– Esteja à vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
– Acho que nunca me diverti tanto num set – disse Rick Talbot.
– Que quer dizer, Rick? – perguntou Sarah.
– É uma sensação no ar. Às vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
– Pra mim, só café – ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
– Vejam! Lá está Sesteenov!
– Quem? – eu perguntei.
– O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitérios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
– Por favor, sente-se – pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
– Quer beber alguma coisa? – perguntei.
– Oh, não...
– Vejam – disse Rick Talbot –, lá está Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violência da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridão.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
Nós nos afastamos para deixá-lo entrar. O reservado estava cheio.
– Gostaria de um drinque? – perguntei.
– Uma vodca dupla – ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
– Vodca dupla – ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
– É uma noite sensacional – disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
Aí entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
– Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
– Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
– É um bom diretor – disse Rick Talbot –, mas eu gostaria de saber por que você escolheu ele.
– Foi ele que me escolheu...
– É mesmo?
– É... e eu posso te contar uma história que explicará por que é um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nós...
– Manda – disse Rick.
– Aqui entre nós?
– É claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a história de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Rick.
– Aconteceu. Aqui entre nós.
– Claro...
(Eu sabia: nada é aqui entre nós, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartão de apresentação e me entregou. O cartão tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartão de apresentação. Illiantovitch parecia um gênio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensão. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
– Você é o melhor – eu disse. – Depois de você, não tem mais nada.
– Não, não é assim – ele disse. – VOCÊ é o melhor! Eu te dou meu cartão! No cartão está a hora da PROJEÇÃO DE MEU NOVO FILME! VOCÊ DEVE IR VER!
– Claro, baby – eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartão.
– Está uma noite daquelas – disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
– Estamos quase prontos pra rodar. Vocês podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocês?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
– Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! Vão vocês!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas páginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os lábios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
– Hollywood
famosos se reúnem para aplaudir sua aparente
grandeza
você
se pergunta onde estão
os verdadeiramente grandes
que
caverna descomunal
os esconde
enquanto
aqueles mortalmente desprovidos
de talento
se curvam para a
ovação
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
você
se pergunta onde
estão os verdadeiramente grandes
se é que eles
existem.
este
nonsense autocongratulatório
tem durado
décadas
e
com raras exceções
séculos.
isto
é tão medonho
é tão absolutamente desprovido de piedade
isto
transforma a coragem em
esperança
poeirenta e algemada
isto
faz as pequenas coisas
como
abrir uma cortina
ou
calçar os sapatos
ou
caminhar pela rua
mais difícil
quase
abominável
enquanto
os famosos se reúnem para
aplaudir sua aparente
grandeza
enquanto
os otários são
tapeados
outra vez
humanidade
sua filha da puta
louca.
E aí, de repente, o filme rolava de novo. Como a maioria das notícias, esta veio pelo telefone, via Jon.
– É – ele me disse –, recomeçamos a produção amanhã.
– Eu não entendo. Achava que o filme estava morto.
– A Firepower vendeu alguns bens. Uma filmoteca e alguns hotéis que eles tinham na Europa. Em cima disso ainda conseguiram arrancar um grande empréstimo de um grupo italiano. Dizem que o dinheiro desse grupo italiano é meio sujo, mas... é dinheiro. De qualquer modo, eu gostaria que você e Sarah viessem pra filmagem amanhã.
– Não sei...
– É amanhã à noite...
– Tudo bem, legal... Quando e onde?
Sarah e eu nos sentávamos num reservado. Era sexta à noite e havia no ar uma boa sensação. Estávamos ali sentados quando Rick Talbot entrou e sentou-se conosco. Ali estava ele em nossa barraca. Queria apenas um café. Eu o vira muitas vezes na TV, criticando filmes com seu opositor, Kirby Hudson. Eram muito bons no que faziam, e muitas vezes se emocionavam com a coisa. Faziam avaliações interessantes, e embora outros houvessem tentado copiar o formato, eles eram muito superiores aos concorrentes.
Rick Talbot parecia muito mais jovem do que na TV. Também parecia mais retraído, quase tímido.
– Vemos você sempre – disse Sarah.
– Obrigado...
– Escuta – perguntei –, que é que te aborrece mais em Kirby Hudson?
– O dedo dele... Quando ele aponta aquele dedo.
Entrou Francine Bowers. Resvalou para dentro do reservado. Nós a cumprimentamos. Ela conhecia Rick Talbot. Trazia uma pequena prancheta de anotações.
– Escuta, Hank, quero saber mais um pouco sobre Jane. Índia, certo?
– Meio índia, meio irlandesa.
– Por que bebia?
– Era um lugar onde se esconder, e também uma forma de suicídio.
– Você algum dia levou ela a algum lugar, além de um bar?
– Levei ela a um jogo de beisebol, uma vez. Ao Wrigley Field, no tempo em que os Angels de L.A. jogavam na Liga da Costa do Pacífico.
– Que aconteceu?
– Nós dois ficamos muito bêbados. Ela ficou fula comigo e saiu correndo do parque. Eu dirigi horas procurando por ela. Quando voltei ao quarto, ela estava desmaiada na cama.
– Como é que ela falava? Aos berros?
– Ficava calada durante horas. Então, de repente, enlouquecia e se punha a gritar, xingar e atirar coisas. A princípio eu não reagia. Depois ela me dava nos nervos. Eu andava de um lado para outro, de um lado para outro, berrando e devolvendo os xingamentos. Isso continuava por talvez uns vinte minutos, depois a gente se aquietava, bebia mais um pouco e recomeçava. Vivíamos sendo despejados. Fomos expulsos de tantos lugares que não consigo me lembrar de todos. Uma vez, procurando uma nova casa, batemos numa porta. A porta se abriu, e lá estava a senhoria que acabara de expulsar a gente. Ela nos viu, ficou pálida, gritou e bateu a porta...
– Jane morreu? – perguntou Rick Talbot.
– Há muito tempo. Estão todos mortos. Todos com quem eu bebia.
– Que é que mantém você de pé?
– Gosto de bater à máquina. Me emociona.
– E eu mantenho ele numa dieta de vitaminas e baixa caloria, sem carne vermelha – disse-lhe Sarah.
– Ainda bebe? – perguntou Rick.
– Sobretudo quando escrevo, ou quando aparecem visitas. Não me sinto bem com as pessoas, e depois de beber bastante elas parecem desaparecer.
– Me fale mais sobre Jane – pediu Francine.
– Bem, ela dormia com um terço debaixo do travesseiro...
– Ia à igreja?
– Em horas estranhas ia ao que chamava de “missa alka-seltzer”. Acho que começava às oito e meia da manhã e durava cerca de uma hora. Ela detestava a missa das dez horas, que muitas vezes durava duas horas.
– Ela ia à confissão?
– Nunca perguntei...
– Pode me dizer alguma coisa sobre ela que explique o seu caráter?
– Só que, apesar de todas as coisas aparentemente terríveis que fazia, os xingamentos, a loucura, o amor à garrafa, sempre fazia tudo com uma certa classe. Me agradaria pensar que aprendi algumas coisinhas sobre classe com ela...
– Quero te agradecer por essas coisas, acho que podem ajudar.
– Esteja à vontade.
Francine e sua prancheta se foram.
– Acho que nunca me diverti tanto num set – disse Rick Talbot.
– Que quer dizer, Rick? – perguntou Sarah.
– É uma sensação no ar. Às vezes, em filmes de baixo orçamento, a gente sente essa sensação, essa sensação de carnaval. Mas sinto mais aqui do que nunca...
Falava sério. Os olhos brilhavam, ele sorria com verdadeira alegria.
Pedi outra rodada de bebidas.
– Pra mim, só café – ele disse.
Chegou a nova rodada e Rick disse:
– Vejam! Lá está Sesteenov!
– Quem? – eu perguntei.
– O cara que fez aquele filme maravilhoso sobre cemitérios de bichinhos de estimação. Ei, Sesteenov!
Sesteenov aproximou-se.
– Por favor, sente-se – pedi.
Ele escorregou para dentro do reservado.
– Quer beber alguma coisa? – perguntei.
– Oh, não...
– Vejam – disse Rick Talbot –, lá está Illiantovitch!
Eu conhecia Illiantovitch. Ele fizera uns filmes darks malucos, tendo como tema principal a violência da vida vencida pela coragem das pessoas. Mas fazia isso bem, rugindo de dentro da escuridão.
Era um homem muito alto, de pescoço torto e olhos alucinados. Os olhos alucinados não se desgrudavam da gente, olhando a gente. Era meio embaraçoso.
Nós nos afastamos para deixá-lo entrar. O reservado estava cheio.
– Gostaria de um drinque? – perguntei.
– Uma vodca dupla – ele disse.
Gostei disso, acenei para o garçom.
– Vodca dupla – ele disse ao garçom, fixando-o com seus olhos alucinados. O garçom correu a cumprir seu dever.
– É uma noite sensacional – disse Rick.
Eu adorava a falta de sofisticação dele. Era preciso coragem, quando se estava por cima, para dizer que gostava do que fazia, que se divertia com o que fazia.
Illiantovitch recebeu sua vodca dupla, emborcou-a de vez.
Rick Talbot fazia perguntas a todo mundo, incluindo Sarah. Não havia nenhuma sensação de competição ou inveja no reservado. A sensação era de total bem-estar.
Aí entrou Jon Pinchot. Aproximou-se do reservado, fez uma ligeira curvatura, sorrindo:
– Vamos rodar daqui a pouco, espero. Venho chamar todos...
– Obrigado, Jon...
Ele se afastou.
– É um bom diretor – disse Rick Talbot –, mas eu gostaria de saber por que você escolheu ele.
– Foi ele que me escolheu...
– É mesmo?
– É... e eu posso te contar uma história que explicará por que é um bom diretor, e por que eu gosto dele. Mas fica aqui entre nós...
– Manda – disse Rick.
– Aqui entre nós?
– É claro...
Curvei-me para a frente no reservado e contei a história de Jon com a motosserra e o dedo mindinho.
– Isso aconteceu mesmo? – perguntou Rick.
– Aconteceu. Aqui entre nós.
– Claro...
(Eu sabia: nada é aqui entre nós, uma vez que a gente conta.)
Enquanto isso, Illiantovitch matara duas vodcas duplas e sentava-se contemplando uma terceira. Continuava me fitando. Depois puxou a carteira, retirou um sebento cartão de apresentação e me entregou. O cartão tinha os quatro cantos gastos e estava mole e preto de sujeira. Desistira de ser um cartão de apresentação. Illiantovitch parecia um gênio emporcalhado. Eu o admirei por isso. Era um sujeito sem pretensão. Ele agarrou a vodca dupla e virou-a garganta abaixo.
Depois me olhou, densamente. Mas os olhos negros me eram demais. Tive de desviar os meus. Chamei o garçom para reabastecer. Depois tornei a olhar para Illiantovitch.
– Você é o melhor – eu disse. – Depois de você, não tem mais nada.
– Não, não é assim – ele disse. – VOCÊ é o melhor! Eu te dou meu cartão! No cartão está a hora da PROJEÇÃO DE MEU NOVO FILME! VOCÊ DEVE IR VER!
– Claro, baby – eu disse, e tirei minha carteira e guardei cuidadosamente o cartão.
– Está uma noite daquelas – disse Rick Talbot.
Falaram-se mais algumas bobagens, e apareceu Jon Pinchot.
– Estamos quase prontos pra rodar. Vocês podem vir agora, pra eu arranjar lugares pra vocês?
Todos nos levantamos para segui-lo, exceto Illiantovitch. Ele afundou no reservado.
– Foda-se! Vou tomar mais vodcas duplas! Vão vocês!
Aquele bastardo roubara-me uma ou duas páginas. Acenou para o garçom, puxou um cigarro, meteu-o entre os lábios, acendeu o isqueiro e queimou um pedaço do nariz.
Bastardo.
Nós avançamos noite adentro.
– Hollywood
1 314
Charles Bukowski
Carta de Uma Fã
venho lendo o senhor há um longo tempo,
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nós amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny é o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrível.
tempos atrás foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nós simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salão de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lá pra fazer as
unhas?
o senhor não é veado, não é, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros são lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor é um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada já deve estar gelada o suficiente
para comer.
então adeus.
Dora
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nós amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny é o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrível.
tempos atrás foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nós simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salão de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lá pra fazer as
unhas?
o senhor não é veado, não é, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros são lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor é um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada já deve estar gelada o suficiente
para comer.
então adeus.
Dora
653
Charles Bukowski
Carta de Uma Fã
venho lendo o senhor há um longo tempo,
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nós amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny é o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrível.
tempos atrás foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nós simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salão de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lá pra fazer as
unhas?
o senhor não é veado, não é, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros são lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor é um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada já deve estar gelada o suficiente
para comer.
então adeus.
Dora
recém coloquei o Billy para dormir,
ele apanhou 7 carrapatos cruéis em algum lugar,
eu tenho 2
meu marido, Benny, ele tem 3.
alguns de nós amam insetos, outros os
odeiam.
Benny escreve poemas.
saiu certa vez na mesma revista que
o senhor.
Benny é o maior escritor do mundo
mas tem um temperamento horrível.
tempos atrás foi fazer uma leitura e alguém
riu de um de seus poemas sérios
e Benny tirou o pau pra fora
ali mesmo
e mijou no palco.
ele diz que o senhor escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
seja como for, fiz um GRANDE POTE DE MARMELADA
esta noite,
nós simplesmente AMAMOS marmelada por aqui.
Benny foi demitido ontem, ele disse ao
chefe para enfiar o emprego no rabo
mas eu continuo trabalhando no
salão de beleza.
o senhor sabe que os veados aparecem por lá pra fazer as
unhas?
o senhor não é veado, não é, sr.
Chinaski?
seja como for, gosto de escrever pro senhor.
seus livros são lidos e relidos por
aqui.
Benny diz que o senhor é um velho chato, que o senhor
escreve bem mas que
não se deixaria dominar pelo
senhor.
o senhor gosta de insetos, sr. Chinaski?
acho que a marmelada já deve estar gelada o suficiente
para comer.
então adeus.
Dora
653
Charles Bukowski
Minha Tiete
fiz uma leitura no último sábado no
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
bosque para além de Santa Cruz
e estava a 3/4 do final
quando escutei um grito longo e desesperado
e uma jovem bastante
atraente veio correndo em minha direção
vestido longo & fogo divino nos olhos
e invadiu o palco
e gritou: “EU QUERO VOCÊ!
EU QUERO VOCÊ! ME LEVE! ME
LEVE!”
eu disse a ela: “olhe, fique longe
de mim”.
mas ela continuava agarrada às minhas
roupas e se esfregando em
mim.
“onde você estava”, eu lhe perguntei, “quando eu
vivia com apenas uma barra de doce por dia e
mandava meus contos para a
Atlantic Monthly?”
ela agarrou minhas bolas e quase
as arrancou. seus beijos
tinham gosto de sopa de merda.
2 mulheres subiram no palco
e
a carregaram para dentro do
bosque.
eu ainda podia ouvir seus gritos
quando comecei o poema seguinte.
talvez, pensei, eu devesse
tê-la possuído naquele palco na frente
de todos aqueles olhos.
mas alguém nunca pode ter certeza
se isso é boa poesia ou
ácido de má qualidade.
Fiquei dois dias sem ver Lydia, embora tenha dado um jeito de telefonar para ela umas sete ou oito vezes nesse período. Então o fim de semana chegou. Seu ex-marido, Gerald, costumava ficar com as crianças nos fins de semana.
Peguei o carro e fui até onde ela morava naquele sábado, às onze da manhã, e bati na porta. Ela estava com um jeans apertado, botas, blusa laranja. Seus olhos castanhos pareciam mais escuros do que nunca e, à luz do sol, ela abriu a porta, fazendo com que eu notasse um tom natural em seus cabelos escuros. Aquilo foi surpreendente. Me deixou beijá-la; então fechou a porta atrás de nós e fomos até o meu carro. A gente tinha decidido ir à praia – não para tomar banho –, pois era pleno inverno, mas só para fazer alguma coisa.
Seguimos. Era bom ter Lydia no carro comigo.
– Que festa aquela – ela disse. – Você chama aquilo de festa de colação? Aquilo era uma festa da copulação, isso sim. Uma festa da copulação!
Eu dirigia com uma das mãos, enquanto a outra descansava na parte interna da coxa de Lydia. Não conseguia evitar. Ela não parecia se importar. Eu ia dirigindo, e a mão escorregou por entre suas pernas. Ela continuou a conversar. De repente, ela disse:
– Tire a mão. Aí é a minha buceta!
– Desculpe – eu disse.
Nenhum de nós disse nada até chegarmos ao estacionamento em Venice Beach.
– Você quer um sanduíche e uma coca, algo assim? – perguntei.
– Beleza – ela disse.
Entramos num mercadinho judeu pra comprar as coisas e as levamos para um montinho gramado que dava para o mar. Tínhamos sanduíches, picles, batatas fritas e refrigerantes. A praia estava quase deserta e a comida estava com um gosto bom. Lydia não dizia nada. Fiquei espantado com a rapidez com que ela comia. Estraçalhava o sanduíche com selvageria, tomava grandes goles de coca, comia metade de um picles com uma só mordida e pegava enormes punhados de batata frita. Eu, ao contrário, como muito devagar.
Paixão, pensei, ela exalava paixão.
– Que tal esse sanduíche? – perguntei.
– Uma beleza. Eu estava com fome.
– Eles fazem sanduíches legais. Quer mais alguma coisa?
– Sim, queria um doce.
– De que tipo?
– Ah, qualquer um. Um que fosse gostoso.
Dei uma mordida no meu sanduíche, tomei um gole de Coca, larguei tudo e fui até o mercadinho. Comprei dois doces, assim ela poderia escolher. Na volta, vi que um negro alto se dirigia ate o montinho. Era um dia frio, mas o cara estava sem camisa e tinha um corpo bem musculoso. Parecia ter vinte e poucos anos. Andava devagar e ereto. Tinha um pescoço longo, magro, e um brinco de ouro pendurado na orelha esquerda. Passou na frente de Lydia, pela areia, entre ela e o mar. Subi no montinho e sentei ao lado de Lydia.
– Você viu aquele cara? – ela perguntou.
– Sim.
– Jesus, e eu estou com você, vinte anos mais velho do que eu. Podia pegar alguém como ele... O que há de errado comigo, afinal?
– Olhe. Trouxe dois doces. Pegue um.
Pegou um, rasgou o invólucro, deu uma mordida e ficou olhando o rapaz negro que se afastava ao longo da praia.
– Cansei da praia – ela disse –, vamos voltar para minha casa.
Ficamos uma semana sem nos ver. Então, certa tarde, lá estava eu na casa de Lydia, os dois na cama, nos beijando. Lydia se afastou.
– Você não entende nada de mulher, não é mesmo?
– Do que você está falando?
– Quero dizer, ao ler seus poemas e seus contos dá pra ver que você não entende nada de mulher.
– Me fale mais.
– Bem, é que para eu me interessar por um homem ele tem que chupar minha buceta. Você já chupou uma buceta?
– Não.
– Você tem mais de cinquenta anos e nunca chupou uma buceta?
– Não.
– Tarde demais.
– Por quê?
– Não dá pra ensinar truque novo pra cachorro velho.
– Claro que dá.
– Não, é tarde demais pra você.
– Sempre demorei pra arrancar na largada.
Lydia se levantou e foi até a sala. Voltou com um lápis e um pedaço de papel.
– Agora, veja bem, vou mostrar uma coisa pra você. – Começou a desenhar no papel. – Bem, isso é uma buceta, e aqui fica um negócio de que você provavelmente nunca ouviu falar: o clitóris. Aqui é o lugar onde estão as sensações. O clitóris se esconde, consegue ver, ele sai pra fora de vez em quando, é cor-de-rosa e muito sensível. Às vezes ele se esconde de você e é preciso achá-lo. Basta tocar nele com a ponta da língua...
– Ok – eu disse –, entendi tudo.
– Acho que você não vai conseguir. Já disse, não dá pra ensinar truque novo pra um cachorro velho.
– Vamos tirar a roupa e nos deitar.
A gente se despiu e se esticou na cama. Comecei a beijar Lydia. Desci dos lábios para o pescoço, e daí para os peitos. Depois, deslizei até o umbigo. Desci mais.
– Você não conseguirá – ela disse. – Sai sangue e urina daí; pense nisso, sangue e urina...
Fui lá embaixo e comecei a lamber. Ela fizera um desenho acurado para mim. Tudo estava onde devia estar. Ouvi sua respiração ficar pesada; depois gemidos. Aquilo me excitou. Fiquei de pau duro. O clitóris se revelou, mas não era exatamente rosado, era de um rosa-púrpura. Aticei o clitóris. Brotaram uns sucos que se misturaram com os pentelhos. Lydia gemia sem parar. Então escutei a porta da frente abrir e fechar. Ouvi passos. Ergui os olhos. Um negrinho de uns cinco anos estava ali parado, ao lado da cama.
– Mas que diabos você quer aqui? – perguntei.
– Tem alguma garrafa vazia? – perguntou.
– Não, não tenho nenhuma garrafa vazia – respondi.
Ele saiu do quarto para a sala, saiu pela porta da frente e se foi.
– Deus – disse Lydia –, achei que a porta da frente estava trancada. Era o garotinho da Bonnie.
Lydia se levantou e trancou a porta da frente. Voltou e se estendeu na cama. Eram umas quatro horas da tarde de sábado.
Voltei a mergulhar ali.
– Mulheres
1 336
Charles Bukowski
O Mais Forte dos Estranhos
você não os verá seguidamente
pois onde quer que esteja a multidão
eles não
estarão lá.
esses tipos bizarros, não
muitos
mas deles
vêm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles são
suas próprias
pinturas
seus próprios
livros
suas próprias
músicas
suas próprias
obras.
às vezes eu penso
eu os
vejo – digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
há um certo movimento
das mãos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
às vezes chega
a ser alguém com quem
você esteve morando
por algum
tempo –
você perceberá
um
rápido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
você só notará
suas
existências
subitamente
em
vívidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles –
tinha cerca de
20 anos
bêbado às
10 da manhã
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
pois onde quer que esteja a multidão
eles não
estarão lá.
esses tipos bizarros, não
muitos
mas deles
vêm
os poucos
pintores decentes
as poucas
sinfonias decentes
os poucos
livros decentes
e outras
obras.
e dos
melhores entre
esses estranhos
talvez
nada.
eles são
suas próprias
pinturas
seus próprios
livros
suas próprias
músicas
suas próprias
obras.
às vezes eu penso
eu os
vejo – digamos
um certo
velho
sentado num
certo banco
de uma certa
maneira
ou
há um certo movimento
das mãos
de um empacotador ou
empacotadora
quando guardam
as compras do
supermercado.
às vezes chega
a ser alguém com quem
você esteve morando
por algum
tempo –
você perceberá
um
rápido e fugaz
lampejo
nunca antes
percebido
neles.
algumas vezes
você só notará
suas
existências
subitamente
em
vívidas
lembranças
alguns meses
alguns anos
depois que eles tiverem
partido.
me lembro
de um
deles –
tinha cerca de
20 anos
bêbado às
10 da manhã
mirando fixo
um espelho
rachado em
Nova Orleans
o rosto sonhador
contra as
paredes do
mundo
onde
eu fui
parar?
1 103