Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marina Colasanti
Sem vermelho, porém
Um jovem de Botticelli
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
toma café
no libre service das Galeries Lafayette.
É aquele de barrete vermelho
com quem já estive em Washington,
mas sem barrete vermelho.
Com a mesma elegante precisão
a mão
fraciona nas falanges luz e sombra
- embora aqui se lhe acrescente
o branco estridor da xícara -
e a cabeça se inclina para o lado
o quanto basta para enviesar o olhar
e deixá-lo descer condescendente
sobre os outros
o nada
sobre o tênue vapor que evola do café.
O jovem de Botticelli pousa a xícara
veste o blusão de couro
os cachos brilham debaixo das lâmpadas.
Falta faz porém o barrete vermelho
o vermelho sangue gerânio laca do barrete
do barrete que em pura cor coroa o jovem
de Washington.
E mais pobre sem ele
o meu quadro incompleto
já se vai.
935
Marina Colasanti
Naquela praça
Era um banheiro o que eu queria
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
naquela praça aplastrada de sol
não uma andorinha morta.
Tirar a poeira das sandálias
molhar a testa e os pulsos
qualquer torneira serviria.
Mas sentei à sombra da árvore
e da sombra colhi o fruto cego
fervente de formigas.
Uma andorinha morta
não está entre aquelas que
na infância
fingíamos buscar na estação
em princípios de maio
para dizer "a primavera chegou",
migrantes vindas da África
- como eu
portadoras de cheiro de deserto
e invisível areia nas asas.
Uma andorinha morta
não volta com o sol
ao próprio ninho
como as que vi no Estoril
barreando casa
entre telha e calha
a mesma casa e telha
a mesma calha
antes entregue ao outono.
Talvez seja daquelas que
em céus romanos
já não traçam o ideograma
de suas asas
porque no campo
todos os insetos tombaram
a poder de agrotóxico
e elas não têm mais
o que comer.
Uma andorinha morta é irmã
e a mesma
que pousou junto à estátua do Príncipe Feliz
mensageira traída pelo afeto
e pelo frio
despojo a ser descartado num dia
e incorporado
no outro
ao imperecível coração de chumbo.
Era água o que eu queria
mas entre goles de sol
uma andorinha
fez seu ninho em mim.
1 108
Marina Colasanti
Seu José
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
982
Marina Colasanti
Seu José
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
982
Marina Colasanti
Seu José
Seu José
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
porteiro do meu prédio
homem bom e lento
de pequenos olhos
e miúdos passos
parecia-me sempre navegar
à procura de terra.
Varria a calçada em frente
à portaria
e juntava dinheiro
a mão fechada
no cabo da vassoura
e nas crescentes posses.
Aposentou-se quando de devido
nem um dia antes
tinha casa terreno apartamento
e a esclerose instalada.
Passa agora seus dias
varrendo a grama
no sítio de subúrbio
e ao fim da tarde pergunta
se já voltaram do monte
as ovelhas da infância.
982
Marina Colasanti
Tinnitus auricularis
Há muito
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
não me habita o silêncio.
Sou constante verão
cantar de grilos
que em meio ao meu pensar
fizeram ninho.
Tudo é noite de estio
sendo tormento
tudo é estridor.
Quisera estar sozinha
e não consigo
com este vozerio que
me acompanha,
e ainda assim, sempre só
estou comigo
pois ouço sons que ninguém mais escuta
como se ouvir cantar fosse
castigo.
Ponho brincos de ouro
nas orelhas
mas na oculta raiz
dos meus cabelos
o farfalhar se expande
das espigas.
E eu,
tão urbana, vou
por entre carros
com meu secreto campo
atrás do rosto
contracanto de insetos
como escudo
que interponho ao alarido da cidade.
1 143
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 011
Marina Colasanti
Livres à noite
Tirar o sutiã à noite
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
quando o dia se acaba
e com ele o dever de rijos seios.
Tirar o sutiã à noite
despir a couraça
a constrictor
a alheia pele.
Livrar-se de arames
elásticos presilhas
cortar com tesoura o wonderbra.
Toda noite a mulher regressa
da cruzada
e liberta sua santa carne.
Descem as alças pelos ombros
as mãos se encontram nas costas
soltando amarras
e na quietude do quarto
os peitos
como navios
fazem-se ao largo.
1 011
Marina Colasanti
Pontos de vista
Quando Nero queria ver
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.
Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
o mundo melhor
olhava-o através de
uma esmeralda.
Quando quero ver melhor
o mundo
eu o olho através
das palavras.
1 240
Marina Colasanti
Para poder
Assim como os cães sacodem do pelo
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
1 197
Marina Colasanti
Para poder
Assim como os cães sacodem do pelo
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
água e pulgas
assim também certas mulheres
sacodem da pele
palavras de homem
para poderem pisar com passos
limpos.
1 197
Marina Colasanti
De volta
As sete da manhã
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
1 118
Marina Colasanti
De volta
As sete da manhã
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
o trânsito não para
engarrafado,
não se a manhã é sábado
e a via expressa.
Quero um táxi amarelo
eu havia dito saindo do aeroporto
quero um táxi chinês
havia brincado
porque vinha de longe
e a brincadeira
servia-me de arremate da viagem.
Agora no viaduto,
favela dos dois lados
campos de futebol sem bola ou gente
dois cavalos pastando,
o trânsito não anda.
Adiante piscam luzes elevadas. Um desastre
talvez.
Não é desastre
é um corpo estendido no asfalto
rosto em sangue
braços abandonados
e ao lado
já esperando
aquela maca plástica
espécie de bacia
contêiner dos sem vida.
"Bandido não perdoa"
diz o chofer sem virar a cabeça.
Só então percebo
que não foi atropelado
aquele homem
mas atirado ali
como cão morto.
E eu tranco os dentes
e digo sem dizer:
Cheguei em casa!
1 118
Marina Colasanti
Quando a fome
Como lobo esfaimado
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
662
Marina Colasanti
Quando a fome
Como lobo esfaimado
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
arrodeando aldeia
o turista se achega ao restaurante.
Hirto o invisível pelo
afiadas orelhas ao inexistente aviso
fareja com os olhos o menu posto à porta
Tudo cheira a armadilha
em terra alheia, outra língua nos pratos
outros custos
um perfil diferente nas moedas.
Mas a fome é primeira
e última a hora.
O lobo ergue a cabeça
faz-se cordeiro
e entra.
662
Marina Colasanti
Tempos de medo
Durante a guerra
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
no hotel em que morei
ouvíamos rádio
na sala de venezianas fechadas e
longo pano verde sobre a mesa.
Mas era Rádio Londres
e havia sempre perigo de polícia.
Do lado de fora
gente juntava diante da janela
para ouvir a voz vinda do inimigo.
Do lado de dentro
eu me escondia debaixo da mesa
criança a salvo
no útero de pano verde.
1 185
Marina Colasanti
Paisagem entre vidro e espelho
Aqui sentada
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
enquanto tomo vinho
vejo pela janela
a antiga arcada e
pelo espelho ao lado
um pedaço de escada
um espaldar
e minha própria imagem
refletida.
Vai meu rosto viajante
sobre vidros
pousar-se delicado em outro olhar
miragem
que ao virar da cabeça
desvanece
fragmento
na paisagem
deste bar.
1 072
Marina Colasanti
Dois talhos de luz
Na taça de vidro
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
sobre o pano verde
dois cravos
dois talos cravados na água
dois talhos de luz na penumbra.
Saídos de um quadro flamengo
dois cravos pousaram aqui
nesta sala
no ano pra lá de dois mil
em que discutimos cultura.
Os cravos escutam atentos
a água evapora deixando sua marca no vidro
Os nossos falares se evolam
sem marca qualquer
que se veja.
1 131
Marina Colasanti
EXPENSE ACCOUNT
Comendo spaghetti e frango
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
1 051
Marina Colasanti
EXPENSE ACCOUNT
Comendo spaghetti e frango
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
naquela trattoria
ele falou incessante.
A cada garfada
uma glória acadêmica
uma bolsa
uma honraria.
A ela não sobrou o espaço
de uma frase.
Ele tentava seduzir mas
o nariz dela seguia
duro e afilado
embora o olhar atento.
Quando a conta chegou
pires metálico e papel timbrado
ele a estudou longamente
em seu primeiro silêncio
ela fingiu interesse pelo teto.
E tendo pago o preço da noite
o homem saiu sem esperar ou
puxar cadeira
a mulher vestiu a capa
sobre os seios fartos
olhou em volta
depois num gesto seco
certeiro bater de asa
desceu a mão sobre a conta esquecida
e enterrou a presa
no bolso amarelo.
Roma 1996
1 051
Marina Colasanti
Por instantes
Aquela fruteira
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
na outra mesa
aquela fruteira de nada
louça branca e um pé
aquela fruteira que acolhe
duas laranjas
e a pera
aquela fruteira que ali está apenas
para oferecer frutas
aquela fruteira
canta
aos meus olhos.
Pode ser o sol
que pousou-se ali como uma fruta a mais
Pode ser o leite da louça suspenso
sobre a branca toalha.
Pode ser seu silêncio de objeto
entre ruídos.
Contido em meu olhar
o tempo da fruteira se detém.
E já mão alheia se estende
e colhe o sol.
Villa Serbelloni, Bellagio, 1999
1 279
Marina Colasanti
E estremecem na aragem
Agora, nos subúrbios,
mais pra lá dos subúrbios,
na terra de ninguém que liga
um nome de cidade a outro
nome de cidade,
as pequenas casas de laje
- nem bem casas mas que
casas são e
são chamadas
porque únicas casas possíveis
para os que nelas moram -
exibem estranha coroa de
antenas coloridas.
São vergalhões que afloram
no cimento para que um dia
talvez
se venda a laje
ou se levante outro andar
quase luxo
para filhos e netos.
Em algum lugar
um animal pasta atado a uma corda
o calor se arrasta entre lama e mato.
Ao alto, garrafas pet invertidas
protegem os sonhos.
mais pra lá dos subúrbios,
na terra de ninguém que liga
um nome de cidade a outro
nome de cidade,
as pequenas casas de laje
- nem bem casas mas que
casas são e
são chamadas
porque únicas casas possíveis
para os que nelas moram -
exibem estranha coroa de
antenas coloridas.
São vergalhões que afloram
no cimento para que um dia
talvez
se venda a laje
ou se levante outro andar
quase luxo
para filhos e netos.
Em algum lugar
um animal pasta atado a uma corda
o calor se arrasta entre lama e mato.
Ao alto, garrafas pet invertidas
protegem os sonhos.
1 047
Marina Colasanti
Sera d'estate a Roma
Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 313