Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Charles Bukowski
Agora, Se Você Tivesse Que Ensinar Escrita Criativa, Ele Perguntou, o Que Você Lhes Diria?
eu lhes diria para terem um caso de amor
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
fracassado, hemorróidas, dentes podres
e beber vinho barato,
para evitarem a ópera e o golfe e o xadrez,
seguirem trocando a guarda de suas
camas de parede em parede
e depois eu lhes diria para terem
outro caso de amor fracassado
e nunca usar uma fita de seda na máquina
de escrever,
evitar os piqueniques em família
ou serem fotografados em um jardim coberto de
rosas;
para lerem Hemingway apenas uma vez,
pularem Faulkner
ignorarem Gogol
olharem fixo para as fotos de Gertrude Stein
e ler Sherwood Anderson na cama
comendo biscoitos Ritz água e sal,
perceberem que as pessoas que não param
de falar sobre a liberação sexual
na verdade estão mais assustadas do que vocês.
para ouvirem E. Power Biggs debulhar o
órgão no rádio enquanto estão
fumando um Bull Durham no escuro
numa cidade estranha
restando apenas um dia pago de aluguel
após terem desistido de tudo
amigos, parentes e empregos.
jamais se considerem superiores e/
ou dentro da média
nem nunca tentem sê-lo.
tenham um outro caso de amor fracassado.
observem uma mosca sobre uma cortina de verão.
jamais tentem ter sucesso.
não joguem sinuca.
deixem que uma fúria legítima tome conta de vocês
quando seus carros estiverem com um pneu no chão.
tomem vitaminas mas não levantem pesos nem corram.
então depois disso tudo
revertam o processo.
tenham um bom caso de amor.
e a coisa
que vocês talvez aprendam
é que ninguém sabe nada –
nem o Estado, nem os ratos
nem a mangueira no jardim nem a Estrela Polar.
e se por acaso vocês me pegarem
ensinando numa classe de escrita criativa
e me lerem este poema
eu lhes darei um A com louvor
bem no olho
do cu.
848
Charles Bukowski
As Garotas do Hotel Verde
são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
1 158
Charles Bukowski
As Garotas do Hotel Verde
são mais bonitas
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
que estrelas de cinema
e elas se espreguiçam no
gramado
tomando banho de sol
e uma está sentada com um vestido
curto e saltos
altos, as pernas cruzadas
expondo coxas
miraculosas.
ela usa uma bandana
na cabeça
e fuma um
cigarro comprido.
o tráfego fica lento
quase para.
as garotas ignoram
o tráfego.
estão pachorrentas
no meio da tarde
são putas
são putas sem
alma
e são mágicas
pois mentem
a troco de nada.
entro no meu carro
espero o tráfego
liberar,
cruzo a rua
em direção ao hotel verde
à minha favorita:
ela
se bronzeia no
gramado próxima ao
meio-fio.
“olá”, eu digo.
ela me volta seus
olhos de falsos
diamantes.
seu rosto não tem
expressão.
lanço meu mais recente
livro de poemas
pela janela do
carro.
ele cai
ao lado dela.
engato a
primeira,
me afasto.
haverá algumas
risadas
esta noite.
1 158
Charles Bukowski
Certo Piquenique
que me lembra que
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
trepei com Jane por 7 anos
ela era uma bêbada
eu a amava
meus pais a odiavam
eu odiava meus pais
fazíamos um ótimo
quarteto
certo dia fomos a um piquenique
juntos
lá nas montanhas
e jogamos carta e bebemos cerveja e
comemos salada de batata
por fim eles a trataram como se ela fosse uma
pessoa de verdade
todos riam
eu não.
mais tarde na minha casa
uísque na cabeça
eu lhe disse,
não gosto deles
mas é bom que tenham tratado você
bem.
seu idiota, ela disse,
será que não percebeu?
percebi o quê?
eles não tiravam os olhos da minha barriga de cerveja,
pensaram que eu estava grávida.
oh, eu disse, então brindemos à nossa bela
criança.
à nossa bela criança,
ela disse.
viramos os copos.
1 191
Charles Bukowski
O Grego
o cara do pátio da frente não consegue
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
falar inglês, ele é grego, um
sujeito com um aspecto um tanto estúpido
e feio que é o diabo.
agora meu senhorio resolveu pintar quadros,
nada muito bom.
ele mostrou ao grego uma de suas pinturas.
o grego saiu e voltou com
papéis, pincéis, tintas.
o grego começou a pintar no seu pátio
da frente. ele deixa as pinturas do lado de fora pra
secar.
o grego nunca havia pintado antes –
agora ali estão:
um violão azul
uma rua
um cavalo.
ele é bom
para os seus mais de quarenta anos ele é
bom.
encontrou um
brinquedo.
está feliz
agora.
então eu penso, me pergunto se ele chegará a ficar
muito bom?
e me pergunto se terei que ver
o resto?
a glória e as mulheres e as mulheres e
as mulheres e as mulheres e
a decadência.
quase posso farejar os sanguessugas formando
uma fila à esquerda.
veja bem,
eu mesmo já estou ligado a ele.
695
Charles Bukowski
Orador Debaixo de Mau Tempo
por Deus, não sei o que
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
fazer.
elas são tão legais de se ter por perto.
elas têm um jeito de tocar
as bolas
e olhar para o pau muito
seriamente
virando-o
puxando-o
examinando cada parte
enquanto seus longos cabelos caem
sobre a sua barriga.
não é apenas o foder e o chupar
que alcançam o interior do homem
e o amaciam, são os extras,
está tudo nos extras.
agora é noite e está chovendo
e não há ninguém
estão todas em outros lugares
examinando coisas
em novos quartos
com novos humores
mesmo que em velhos
quartos.
seja o que for, é noite e está chovendo,
uma chuva torrencial, maldita e
pesada...
muito pouco a fazer.
já li o jornal
paguei a conta do gás
a conta de luz
a conta do telefone.
continua chovendo.
elas amaciam um homem
e então o deixam a nadar
em seu próprio suco.
preciso de uma vagabunda no velho estilo
batendo à porta esta noite
fechando seu guarda-chuva verde,
gotas de chuva enluarada sobre
sua bolsa, dizendo, “merda, cara,
não consegue achar uma música melhor do que
essa no seu rádio?
e aumente o aquecimento...”
é sempre quando um homem está tomado
de amor e tudo
mais
que continua chovendo
alagadoura
encharcante
chuva
boa para as árvores e para a
grama e para o ar...
boa para coisas que
vivem sozinhas.
eu daria qualquer coisa
pela mão de uma fêmea em mim
esta noite.
elas amaciam um homem e
depois o deixam
escutando a chuva.
1 171
Charles Bukowski
As Garotinhas
lá no norte da Califórnia
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.
ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.
ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.
“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!
ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.
“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”
mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.
duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.
não nos correspondemos desde então.
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.
ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.
ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.
“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!
ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.
“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”
mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.
duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.
não nos correspondemos desde então.
1 137
Charles Bukowski
As Garotinhas
lá no norte da Califórnia
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.
ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.
ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.
“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!
ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.
“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”
mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.
duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.
não nos correspondemos desde então.
ele estava de pé no púlpito
e estivera lendo por algum tempo
poemas sobre
a natureza e a bondade
do homem.
ele sabia que tudo estava
certo e não se podia culpá-lo:
ele era um professor e nunca
estivera na cadeia ou num bordel
nunca tivera uma lata velha que enguiçou
no meio de um engarrafamento;
jamais precisara de mais de
3 drinques durante sua noite mais
selvagem;
jamais tinha sido logrado, espancado,
assaltado,
nem fora mordido por um cachorro
ele recebia cartas bacanas de Gary
Snyder, e seu rosto era
amável, liso e
meigo.
sua esposa jamais o traíra,
nem tivera sua sorte.
ele disse, “vou ler apenas mais
3 poemas e então
desço daqui e passo a
palavra ao Bukowski”.
“oh, não, William”, disseram todas
as garotinhas em seus vestidos rosas
e azuis e brancos e laranjas e
lavandas, “oh, não, William,
leia um pouco mais, leia um pouco
mais”!
ele leu mais um poema e então disse,
“este será o último poema que
lerei”.
“oh, não, William”, disseram todas as
garotinhas em seus vestidos transparentes
vermelhos e verdes, “oh, não, William”, disseram
todas as garotinhas em seus jeans colados
com pequenos corações a eles bordados,
“oh, não, William”, disseram todas as garotinhas,
“leia mais poemas, leia mais poemas!”
mas ele manteve a palavra.
terminou o poema e desceu do púlpito e
desapareceu. quando me levantei para ler
as garotinhas se agitaram em
seus assentos e algumas delas assobiaram e
algumas fizeram comentários a meu respeito
que usarei em outra ocasião.
duas ou três semanas depois
recebi uma carta de William
dizendo que tinha gostado de fato da minha leitura.
um cavalheiro de verdade.
eu estava na cama de cuecas e com uma
ressaca de 3 dias. perdi o envelope
mas peguei a carta e fiz com ela
um aviãozinho como aqueles que
aprendi a fazer na época do
colégio. ele cruzou o quarto
antes de aterrissar entre um velho programa de corrida
e um par de cuecas carimbadas.
não nos correspondemos desde então.
1 137
Charles Bukowski
Uma Abelha
suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
1 531
Charles Bukowski
Uma Abelha
suponho que como qualquer garoto
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
tive um melhor amigo na vizinhança.
o nome dele era Eugene e era muito maior
do que eu e um ano mais velho.
Eugene costumava me encher de porrada.
estávamos sempre brigando.
eu tentava vencê-lo mas sempre sem muito
sucesso.
uma vez pulamos juntos de cima do telhado da garagem
para provar que éramos valentes.
torci meu tornozelo e ele saiu ileso
como manteiga recém-tirada do papel.
acho que a única coisa boa que ele fez por mim
foi quando uma abelha me picou o pé descalço
e assim que me sentei para tirar o ferrão
ele disse,
“vou pegar a filha da puta!”
e foi o que ele fez
com uma raquete de tênis
mais um martelo de borracha.
estava tudo bem
dizem que de qualquer modo
elas morrem.
meu pé inchou e dobrou de tamanho
e eu fiquei de cama
rezando para morrer
e Eugene seguiu em frente e se tornou um
almirante ou comandante
de alguma coisa de vulto na Marinha dos Estados Unidos
e conseguiu passar por uma ou duas guerras
sem se ferir.
imagino-o envelhecido agora
numa cadeira de balanço
com seus dentes postiços
bebendo seu leitinho...
enquanto eu bêbado
masturbo esta tiete de 19 anos
que divide a cama comigo.
mas o pior é que
(assim como naquele salto do telhado da garagem)
Eugene segue vencendo
porque ele nem sequer está pensando
em mim.
1 531
Charles Bukowski
Garotas Voltando Para Casa
as garotas voltam para casa em seus carros
e eu me sento à janela e
assisto.
há uma garota num vestido vermelho
dirigindo um carro branco
há uma garota num vestido azul
dirigindo um carro azul
há uma garota num vestido rosa
dirigindo um carro vermelho.
quando a garota no vestido vermelho
desce do carro branco
eu olho para suas pernas
quando a garota no vestido azul
desce do carro azul
eu olho para suas pernas
quando a garota no vestido rosa
desce do carro vermelho
eu olho para suas pernas.
a garota no vestido vermelho
que desceu do carro branco
tinha as melhores pernas
a garota no vestido rosa
que desceu do carro vermelho
tinha pernas razoáveis
mas sigo lembrando da garota no vestido azul
que desceu do carro azul
vi suas calcinhas
você não sabe o quão excitante a vida pode ser
por volta
das 5h25 da tarde.
e eu me sento à janela e
assisto.
há uma garota num vestido vermelho
dirigindo um carro branco
há uma garota num vestido azul
dirigindo um carro azul
há uma garota num vestido rosa
dirigindo um carro vermelho.
quando a garota no vestido vermelho
desce do carro branco
eu olho para suas pernas
quando a garota no vestido azul
desce do carro azul
eu olho para suas pernas
quando a garota no vestido rosa
desce do carro vermelho
eu olho para suas pernas.
a garota no vestido vermelho
que desceu do carro branco
tinha as melhores pernas
a garota no vestido rosa
que desceu do carro vermelho
tinha pernas razoáveis
mas sigo lembrando da garota no vestido azul
que desceu do carro azul
vi suas calcinhas
você não sabe o quão excitante a vida pode ser
por volta
das 5h25 da tarde.
1 196
Charles Bukowski
Hawley Está Saindo da Cidade
este cara
tem um olhar louco
e é bronzeado
um bronzeado escuro de sol
o sol de Hollywood e do oeste
o sol do hipódromo
ele me vê e diz,
“ei, Hawley está saindo da cidade
por uma semana. ele detona
as minhas vantagens. agora
tenho uma chance.”
ele está sorrindo, fala sério:
com Hawley fora da cidade
ele se mudará para
aquele castelo em Hollywood Hills;
dançarinas
seis pastores alemães
uma ponte levadiça,
vinhos de dez
anos.
Sam, o Putanheiro,
se aproxima e eu lhe digo que
estou faturando US$ 150 por dia
nas corridas.
“vou direto nas
totalizações”, eu lhe digo.
“preciso de uma garota”, ele me diz,
“que possa prender um cara
sem vir com toda essa bobajada sobre
moral cristã
no final.
“Hawley está saindo da cidade”,
eu digo a Sam.
“onde está o Sapato?”
ele pergunta.
“lá pro leste”, diz um velho
que está ali parado.
ele tem um pequeno protetor de plástico branco
sobre o olho esquerdo
cravejado de
pequenos furos.
“isso deixa tudo nas mãos do Pinky”,
diz o bronzeado.
ficamos todos ali de pé olhando uns para os
outros.
então
após um sinal silencioso
nos afastamos
e seguimos,
cada qual
em uma direção diferente:
norte sul leste oeste.
nós sabemos de algo.
tem um olhar louco
e é bronzeado
um bronzeado escuro de sol
o sol de Hollywood e do oeste
o sol do hipódromo
ele me vê e diz,
“ei, Hawley está saindo da cidade
por uma semana. ele detona
as minhas vantagens. agora
tenho uma chance.”
ele está sorrindo, fala sério:
com Hawley fora da cidade
ele se mudará para
aquele castelo em Hollywood Hills;
dançarinas
seis pastores alemães
uma ponte levadiça,
vinhos de dez
anos.
Sam, o Putanheiro,
se aproxima e eu lhe digo que
estou faturando US$ 150 por dia
nas corridas.
“vou direto nas
totalizações”, eu lhe digo.
“preciso de uma garota”, ele me diz,
“que possa prender um cara
sem vir com toda essa bobajada sobre
moral cristã
no final.
“Hawley está saindo da cidade”,
eu digo a Sam.
“onde está o Sapato?”
ele pergunta.
“lá pro leste”, diz um velho
que está ali parado.
ele tem um pequeno protetor de plástico branco
sobre o olho esquerdo
cravejado de
pequenos furos.
“isso deixa tudo nas mãos do Pinky”,
diz o bronzeado.
ficamos todos ali de pé olhando uns para os
outros.
então
após um sinal silencioso
nos afastamos
e seguimos,
cada qual
em uma direção diferente:
norte sul leste oeste.
nós sabemos de algo.
1 094
Charles Bukowski
Hawley Está Saindo da Cidade
este cara
tem um olhar louco
e é bronzeado
um bronzeado escuro de sol
o sol de Hollywood e do oeste
o sol do hipódromo
ele me vê e diz,
“ei, Hawley está saindo da cidade
por uma semana. ele detona
as minhas vantagens. agora
tenho uma chance.”
ele está sorrindo, fala sério:
com Hawley fora da cidade
ele se mudará para
aquele castelo em Hollywood Hills;
dançarinas
seis pastores alemães
uma ponte levadiça,
vinhos de dez
anos.
Sam, o Putanheiro,
se aproxima e eu lhe digo que
estou faturando US$ 150 por dia
nas corridas.
“vou direto nas
totalizações”, eu lhe digo.
“preciso de uma garota”, ele me diz,
“que possa prender um cara
sem vir com toda essa bobajada sobre
moral cristã
no final.
“Hawley está saindo da cidade”,
eu digo a Sam.
“onde está o Sapato?”
ele pergunta.
“lá pro leste”, diz um velho
que está ali parado.
ele tem um pequeno protetor de plástico branco
sobre o olho esquerdo
cravejado de
pequenos furos.
“isso deixa tudo nas mãos do Pinky”,
diz o bronzeado.
ficamos todos ali de pé olhando uns para os
outros.
então
após um sinal silencioso
nos afastamos
e seguimos,
cada qual
em uma direção diferente:
norte sul leste oeste.
nós sabemos de algo.
tem um olhar louco
e é bronzeado
um bronzeado escuro de sol
o sol de Hollywood e do oeste
o sol do hipódromo
ele me vê e diz,
“ei, Hawley está saindo da cidade
por uma semana. ele detona
as minhas vantagens. agora
tenho uma chance.”
ele está sorrindo, fala sério:
com Hawley fora da cidade
ele se mudará para
aquele castelo em Hollywood Hills;
dançarinas
seis pastores alemães
uma ponte levadiça,
vinhos de dez
anos.
Sam, o Putanheiro,
se aproxima e eu lhe digo que
estou faturando US$ 150 por dia
nas corridas.
“vou direto nas
totalizações”, eu lhe digo.
“preciso de uma garota”, ele me diz,
“que possa prender um cara
sem vir com toda essa bobajada sobre
moral cristã
no final.
“Hawley está saindo da cidade”,
eu digo a Sam.
“onde está o Sapato?”
ele pergunta.
“lá pro leste”, diz um velho
que está ali parado.
ele tem um pequeno protetor de plástico branco
sobre o olho esquerdo
cravejado de
pequenos furos.
“isso deixa tudo nas mãos do Pinky”,
diz o bronzeado.
ficamos todos ali de pé olhando uns para os
outros.
então
após um sinal silencioso
nos afastamos
e seguimos,
cada qual
em uma direção diferente:
norte sul leste oeste.
nós sabemos de algo.
1 094
Charles Bukowski
Uma Arte
todo o percurso desde o México
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
1 108
Charles Bukowski
Uma Arte
todo o percurso desde o México
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
diretamente do campo
para 14 vitórias
13 por nocaute.
ele estava em 3º no ranking
e numa luta preliminar
foi nocauteado por um lutador negro
que nem estava ranqueado e que não lutava
há 2 anos.
todo o percurso desde o México
diretamente do campo.
a bebida e as mulheres acabaram
com ele.
na revanche ele foi mais uma vez nocauteado
e suspenso por 6 meses.
todo esse percurso
pelo trago e 2 casos de
doença venérea.
retornou um ano depois
jurando que estava limpo, que tinha
aprendido a lição.
e conseguiu arrancar um empate com o
9º do ranking de sua divisão.
retornou para a revanche
e a luta foi interrompida
no 3º assalto porque ele
não conseguia mais
se proteger.
e ele refez todo o percurso de volta
até o México
diretamente para o campo.
é preciso um poeta fodão
como eu
para conseguir lidar com as bebidas e as mulheres
escapar das doenças venéreas
escrever sobre fracassos
como o dele
e manter minha posição entre os
10 primeiros do ranking:
todo o percurso desde a Alemanha
diretamente das fábricas
entre garrafas de cerveja
e a campainha do
telefone.
1 108
Charles Bukowski
Alma
oh, como eles se preocupam com minha
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
alma!
recebo cartas
o telefone toca…
“você vai ficar bem?”
perguntam.
“ficarei bem”, eu lhes digo.
“já vi tantos se afundarem na sarjeta”,
eles me dizem.
“não se preocupem comigo”, digo.
ainda assim me deixam nervoso.
entro e tomo uma chuveirada
saio e espremo uma espinha do
nariz.
então vou até a cozinha e preparo
um sanduíche de salame e presunto.
eu costumava viver de doces baratos.
agora tenho mostarda alemã importada
para passar no sanduíche. devo estar em perigo
por causa disso.
o telefone segue tocando e as cartas seguem
chegando.
se você vive dentro de um armário na companhia de ratos
e come pão velho
eles gostam de você.
você passa a ser um
gênio.
ou se está num manicômio ou
detido numa delegacia
eles o chamam de gênio.
ou se você está bêbado e não para de gritar
obscenidades
vomitando as tripas no
chão
você é um gênio.
mas experimente pagar o aluguel um mês
adiantado
vestir um novo par de meias
ir ao dentista
fazer amor com uma garota limpa e saudável
em vez de pegar uma puta
e você vendeu sua
alma.
não estou minimamente interessado em perguntar como
vão suas almas.
suponho que era o que eu deveria
fazer.
1 308
Charles Bukowski
Gêmeos
ei, disse o meu amigo, quero que você conheça
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
1 223
Charles Bukowski
Gêmeos
ei, disse o meu amigo, quero que você conheça
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
Hangdog Harry, ele me lembra você,
e eu disse, tudo bem, e fomos até
esse hotel ordinário.
velhos assistiam sentados
um programa de tevê no saguão
enquanto subíamos a escada
até o 209 e lá estava Hangdog
sentado numa cadeira de palha
uma garrafa de vinho aos seus pés
o calendário do ano passado na parede,
“sentem-se, rapazes”, ele disse,
“este é o problema:
a desumanidade do homem com o próprio homem”.
ficamos vendo ele enrolar um
cigarro Bull Durham.
“tenho um pescoço de 40 cm e matarei
todos que quiserem foder comigo.”
deu uma lambida no cigarro
e depois cuspiu no tapete.
“sintam-se em casa. fiquem à vontade.”
“como está se sentindo, Hangdog?” perguntou
meu amigo.
“terrível. estou apaixonado por uma prostituta,
não a vejo há 3 ou 4 semanas.”
“o que você acha que ela está fazendo, Hang?”
“bem, neste exato momento eu diria
que ela está chupando algum caralho.”
ele apanhou a garrafa de vinho
e deu uma tremenda enxugada.
“veja”, disse meu amigo a Hangdog,
“temos que ir”.
“certo, o tempo e a maré, ambos não
esperam...”
ele me olhou:
“como disse que era seu nome mesmo?”
“Salomski.”
“prazer em conhecer você, rapaz.”
“o prazer foi meu.”
descemos a escada
eles continuavam no saguão
assistindo tevê.
“o que você achou dele?”
perguntou meu amigo.
“porra”, eu disse, “ele era realmente
um cara legal. com certeza.”
1 223
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 134
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
1 134
Charles Bukowski
O Principal
aí vem a cabeça de peixe cantante
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
aí vem a batata assada em sua roupa bizarra
aí vem nada para fazer o dia todo
aí vem outra noite sem conciliar o sono
aí vem o telefone e sua campainha errada
aí vem um cupim com um banjo
aí vem um mastro com olhos vazios
aí vem um gato e um cachorro usando meias de náilon
aí vem uma metralhadora em cantoria
aí vem o bacon numa frigideira
aí vem uma voz dizendo qualquer coisa tola
aí vem um jornal recheado com pequenos pássaros
[vermelhos
com bicos marrons e retos
aí vem uma boceta carregando uma tocha
uma granada
um amor fatal
aí vem a vitória carregando
um balde de sangue
e tropeçando num arbusto
e os lençóis pendurados nas janelas
e os bombardeiros em direção a leste oeste norte sul
se perdem
se reviram como salada
enquanto todos os peixes no mar se alinham em fila
única
uma longa fila
muito longa e fina
a linha mais longa que você puder imaginar
e nós nos perdemos
cruzando montanhas púrpuras
caminhamos a esmo
por fim nus como a faca
tendo desistido
tendo posto tudo pra fora como uma inesperada semente de
azeitona
enquanto a garota da central telefônica
grita ao telefone:
“não retorne a ligação! você parece um cretino!”
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Charles Bukowski
Garotas de Meia-Calça
estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
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Charles Bukowski
Garotas de Meia-Calça
estudantes de meia-calça
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
sentadas nas paradas de ônibus
parecendo cansadas aos 13
com seus batons de framboesa.
está quente sob o sol
e o dia na escola foi
maçante, e ir pra casa é
maçante, e eu
dirijo meu carro
e dou uma espiada naquelas pernas quentes.
seus olhos não estão focados
em nada –
elas foram avisadas sobre
os veteranos tarados e
cruéis; eles não desistirão
assim tão fácil.
e ainda assim é maçante
passar aqueles minutos no
banco e os anos em
casa, e os livros que elas
carregam são maçantes e aquilo de que se
alimentam é maçante, e até mesmo os
veteranos tarados e cruéis são
maçantes.
as garotas de meia-calça esperam,
esperam pelo momento e hora
exatos para só então se mover
e certamente conquistar.
circulo com o meu carro
espiando suas pernas
satisfeito por saber que jamais farei
parte nem de seus paraísos nem de
seus infernos. mas os batons
escarlates naquelas tristes bocas
que esperam! seria delicioso
beijar cada uma delas, uma vez que fosse, por completo,
e então devolvê-las.
mas o ônibus as
pegará primeiro.
1 157
Charles Bukowski
$$$$$$
sempre tive problemas com
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
dinheiro.
num dos lugares em que trabalhei
todos comiam cachorro-quente
e batatas fritas
na cantina da empresa
3 dias antes de cada
pagamento.
eu queria uns bifes,
cheguei inclusive a procurar o gerente
da cantina e
exigir que ele servisse
uns bifes. ele se recusou.
Eu esqueci do dia do pagamento.
eu tinha um alto grau de indiferença e
o dia do pagamento chegava e todos
não falavam em outra
coisa.
“pagamento?” eu dizia, “diabo, hoje é dia de
receber? me esqueci de pegar meu
último cheque...”
“pare de falar merda, cara...”
“não, não, é sério...”
eu me erguia e ia até o caixa
e claro que o cheque estava lá
e na volta eu o mostrava
a todos eles. “Jesus Cristo, esqueci completamente
do negócio...”
por alguma razão isso os deixava
furiosos. então o funcionário do caixa
aparecia. eu tinha dois
cheques. “Jesus”, eu dizia, “dois cheques”.
e eles ficavam
furiosos.
alguns deles mantinham
dois empregos.
No pior dos dias
chovia pesadamente
eu não tinha uma capa de chuva então
vesti um velho casaco que eu não usava havia
meses e
cheguei um pouco atrasado
quando eles já estavam no batente.
procurei por cigarros nos bolsos
e num deles encontrei uma nota de
cinco dólares:
“ei, vejam”, eu disse, “acabo de encontrar cinco pratas
que eu não sabia que tinha, que
beleza”.
“ei, cara, não venha com essa
merda!”
“não, não, estou falando sério, de verdade, lembro
de ter vestido este casaco quando
estava bêbado e vagando de bar
em bar. já me tomaram dinheiro muitas vezes,
fiquei desconfiado... tiro o dinheiro da
minha carteira e o escondo em
outras partes.”
“sente de uma vez e comece a
trabalhar.”
meti a mão num bolso interno:
“ei, vejam, tem um VINTÃO aqui! Deus, não sabia
que tinha este VINTÃO!
estou
RICO!”
“ninguém está achando graça, seu
filho da puta...”
“ei, meu Deus, aqui tem mais OUTRA
de vinte! é muita, muita muita
grana... eu sabia que não tinha gasto todo o
dinheiro naquela noite. pensei que tinham me
levado os cobres outra vez...”
continuei vasculhando o
casaco. “ei, aqui tem uma de dez e
aqui mais um cinquinho! meu Deus...”
“escute, já disse pra você sentar
e calar a boca...”
“meu Deus, estou RICO... não preciso nem mais
deste emprego...”
“cara, senta aí...”
achei mais outra de dez depois que me sentei
mas não disse
nada.
podia sentir as ondas de ódio e
estava confuso,
eles achavam que eu tinha
armado toda aquela história
apenas para fazê-los se
sentirem mal. não era o que eu
queria. pessoas que tem que passar a cachorros-quentes e
batatas fritas por
3 dias antes de sair o pagamento
já se sentem mal o
suficiente.
sentei-me
inclinei-me para a frente e
comecei a
trabalhar.
do lado de fora
continuava
chovendo.
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