Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marina Colasanti
Sera d'estate a Roma
Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 313
Marina Colasanti
Sera d'estate a Roma
Accanto a Palazzo Altemps
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
in trattoria
il vecchio cameriere spina il pesce
con la stessa protesa devozione
con cui San Girolamo curava
i suoi scritti,
e con gli stessi occhiali tondi
che appaiono in tanti quadri.
La luna
il montone
e il leone
antichi come le lische del pesce
osservano sopra al frontone.
1 313
Marina Colasanti
Nenhum como aqueles
Ao largo
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
cravados sobre o mar do horizonte
como torres de uma fortaleza
navios cargueiros esperam
fundeados.
Não entraram no porto.
O porto à noite
é reino de piratas.
Na minha infância os piratas
tinham cor
"Negro", "Vermelho"
e barbas
de preferência ruivas
e papagaios
e ganchos em lugar das mãos.
Na minha infância os piratas
eram amigos do rei
e se anunciavam com a bandeira negra
e o brasão da caveira rindo ao vento.
Os piratas da ilha de Mompracém
jovens Tigres de Sandokan
abordavam minha infância
no silêncio de seus prahus.
Hoje os piratas se escondem
atrás da noite
sem barba e sem rosto
escuros como os ratos do porão.
Nenhum navio fantasma
nenhuma caravela singra no porto
as águas poluídas.
Os predadores chegam em silêncio
rêmoras encostadas rente ao casco
desbotados piratas de blue jeans.
E os carros que passam distantes
no alto da ponte
anônimas luzes que correm
não colhem o canto cortante
das metralhadoras
1 279
Marina Colasanti
Chamava-se Gina
Minha babá foi encontrada
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
em meio a um campo
e estava semimorta.
Mais que babá
governanta
com seu francês aspirado
de toscana boca.
Minha babá foi encontrada
semimorta
e nunca mais viveu completamente
não como antes
nas cidades grandes
cuidando de crianças.
Ofereceram carona
e eram três
e era tempo de guerra
três alemães num jipe
em plena estrada
e um oferecimento
que era ordem.
Tinham nádegas brancas
ela disse mais tarde
à minha mãe
eu escutando escondida
atrás da porta.
Tinham nádegas brancas
e eram três
e a deixaram no campo
para a morte.
Quando subo as escadas
ela disse
as escadas de casa
vejo de novo os três
no patamar
sentados sobre um banco
na penumbra
e toda vez me chamam
oferecendo a carona
que me leva
e me deixa
do outro lado
da vida.
1 219
Marina Colasanti
Verde deserto
Na praia de Essauíra
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.
Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
os cameleiros
tocam as suas montadas
mar adentro.
Verdes dunas que as patas estilhaçam
espumas
e o ondear
em volutas
dos pescoços.
Atrás das trincheiras das lentes
olhares turistas
sequestram camelos pisando nas conchas.
No fundo de areia
passadas esmagam estrelas.
Inverte-se em águas
o céu beduino.
984
Marina Colasanti
Na esquina do mundo
Se Marco Polo descesse
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
993
Marina Colasanti
Na esquina do mundo
Se Marco Polo descesse
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
993
Marina Colasanti
Na esquina do mundo
Se Marco Polo descesse
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
993
Marina Colasanti
Na esquina do mundo
Se Marco Polo descesse
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
a Quinta Avenida
pensaria ter voltado
a Cambaluc
cidade das doze portas
onde mercantes viajantes transeuntes
misturavam-se aos homens de negócios
vindo buscar fortuna
na terra do Grande Khan.
Estreitos olhos orientais
cruzariam com os seus
por toda parte
pousariam como os seus
nas maravilhas
sedas pérolas esmeraldas que
como na terra do Khan
chegam diariamente em quantidade
para serem trocadas por papel.
E nas longas filas de carros
veria caravanas de animais
couraçados e bufantes
não mais estranhos que aqueles
por ele vistos
no longínquo reino do Oriente.
993
Marina Colasanti
De Guido Reni
Com a mesma elegância
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
com que retém a saia arrepanhada
num mudo farfalhar de tafetá
a Salomé
de Reni
empunha a cabeleira de Batista.
Não levanta a cabeça da travessa que
o pajem lhe oferece ajoelhado.
Olha quase sorrindo
o rosto exangue
a boca negra inutilmente aberta
os olhos que não olham para ela.
Rodeada de aias,
bem mais do que uma amante rejeitada
que se compraz no sangue da vingança,
essa dama roliça me parece
uma dona de casa diligente
que avalia a qualidade
da pitança.
655
Marina Colasanti
Longa viagem em 1943
Nosso carro a gasogênio
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
1 192
Marina Colasanti
Longa viagem em 1943
Nosso carro a gasogênio
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
tinha especial talento
para enguiçar nas pontes.
Bombardeiros por cima
nós deitados no mato
e o negro delator
visível
evidente
quase obsceno
parado sobre o rio
gritando para o céu
aqui
aqui há quem se pode matar.
Viagem longa aquela
com meu pai ao volante
a minha mãe atrás
com seu brilhante costurado
na saia
e o meu irmão
atirando com a mão feita pistola
pam! pam!
a cada pássaro ou gente
que apontasse nos campos.
Longa viagem aquela
de metade da guerra
para a outra metade
no tempo tão pequeno
que era o meu
em que
da paz
nem me lembrava a cara.
1 192
Marina Colasanti
Por preço de
Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
569
Marina Colasanti
Por preço de
Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
569
Marina Colasanti
Por preço de
Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
569
Marina Colasanti
Por preço de
Estão sorteando frangos
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
na Parada Modelo
- modelo de quê,
me pergunto -
dezenas de milhares
de frangos
diz o alto-falante do Trio Elétrico
parado ali
em terra e lama
entre a estrada e a quitanda
entre a estrada e o boteco
entre a estrada e a farmácia.
Mas não há dezenas de milhares
de bocas à espera
nem dezenas de milhares de mãos,
só alguns populares pardos
bermudas e sandálias de dedo
parcos cidadãos
no aguardo do frango possível
porque hoje é domingo
Dia das Mães
e o deputado local pretende
faturar votos futuros
ao conveniente preço
de peito
coxa
e sobrecoxa.
569
Marina Colasanti
Quando fomos a Delfos
Eu estava encharcada de cortisona
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
quando fomos a Delfos
e o Dr. Zorus tinha dito
que não comesse carne.
Mas não vinha dos deuses
o interdito
e chegando no alto
entre ruínas afundei os dentes de minh'alma
em carne de carneiro
aquela doce carne que balia
encosta abaixo
fendendo os montes
e entregando-me
ao longe
um mar exato e insondável
como as palavras do oráculo.
1 223
Marina Colasanti
AINDA ASSIM
Cada vez que você
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
vai ao Centro
compra uma lanterna
pilhas
e um canivete
para mim.
Os canivetes perco
nos bolsos
nas bolsas
ou vendo esquecidos com o carro.
As lanternas
quando preciso delas
estão mortas
gotejando azinhavre
nas gavetas.
Assim mesmo me alegro
toda vez que você
pega o chapéu e orgulhoso
anuncia
que vai ao Centro.
974
Marina Colasanti
A todos igualmente
Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 143
Marina Colasanti
A todos igualmente
Aquele homem tinha um zoológico
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
no armário.
Um dia
no almoço
trouxe elefantes no peito
até a cintura,
no outro
girafas rodeavam-lhe o pescoço.
Houve joaninhas
gatos e macacos.
A todos ignorava
embora os escolhesse
com cuidado.
E sem olhar-lhes pelo
ou pena
sem deter-se em seus nomes
a todos igualmente chamava
gravatas.
1 143
Marina Colasanti
Todo dia, à caça
Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
1 079
Marina Colasanti
Todo dia, à caça
Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
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Marina Colasanti
Lua de mel em Veneza
Na mesa à minha esquerda
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
as duas americanas
remexem nos pratos
com medo da comida
medo do garçom que canta
medo do vinho
do sol
da falta de ketchup.
À direita
na mesa
as alianças do casal brasileiro
brilham novas
a gomalina no cabelo dele brilha
antiga
os olhos não se buscam
embora as mãos se toquem
por cima da toalha
e em pleno meio-dia
a lua não é de mel.
Começa em quarto minguante
um longo silêncio conjugal.
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