Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marina Colasanti
Todo dia, à caça
Na savana da tv
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
a fêmea de leopardo vai à caça.
Aumento o som
para alcançar o vento granulado
que bate o mato ralo.
Há uma impala que pasta
com sua cria
um cheiro que não sinto e que lhe chega
afiando as orelhas.
A impala é uma cabeça atenta
em contraluz.
E na luz
areia sobre areia
avança rastejando o dorso maculado.
Zoom para a impala em fuga
rasgados verdes
guinchos
e o torvelinho em bote sobre a carne.
Um corte poupa o sangue
areia e silêncio amortalham a imagem
dois olhos de sol coado brilham vitoriosos.
A tela devolve o filhote de impala
morto
na boca da leoparda.
Pendente
vai o pequeno impala entre dentes
filho que era
agora repasto
levado para outros filhos que esperam.
Uma manada de elefantes
atravessa o caminho com barridos e abanadas orelhas.
Altiva
a caçadora segue caminho.
Que se respeite a fêmea que leva comida para casa.
Por trás dos créditos que sobem enquanto ela se afasta
eu me vejo
caçadora urbana
como ela em busca de comida para os meus
quando pela calçada da volta
com a presa nos sacos do supermercado
passo pelos traficantes da favela ao lado
e sigo
sem alterar o rumo
ou desviar o olhar.
1 088
Marina Colasanti
CIRCO DE SOL
Chovia em Viena
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
quando te vi ao lado do Opera
e fomos juntas ao
Circo do Sol.
Fazia frio
era noite
mas debaixo da lona
o sol
andou de bicicleta
sobre um fio e despencou
na ponta de um elástico.
Em Viena
quando saímos
debaixo das pequenas lonas
dos guarda-chuvas abertos
trazíamos todos
no peito
um coração saltimbanco.
Viena 1995
1 231
Marina Colasanti
SALOMÉ DO EDIFÍCIO PÚBLICO
A saia comprida até o meio da perna
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.
1 074
Marina Colasanti
SALOMÉ DO EDIFÍCIO PÚBLICO
A saia comprida até o meio da perna
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.
os altos saltos das sandálias pretas
o bater sobre o mármore que brilha.
No hall vazio - só eco e tetos baixos -
avança a funcionária de longos cabelos
e bandeja na mão.
Nem prata
nem Batista.
Um copo d'água
a xícara
a mancha de café.
Rumo à sala do chefe
abre-se ao passo a longa fenda
da saia
e a panturrilha escapa
musculosa.
Rija carne de atleta
trai a Salomé do edificio público
e devolve ao relógio de ponto
os seus pálidos seios.
1 074
Marina Colasanti
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
728
Marina Colasanti
NAS ASAS DA PANAIR
Minha mãe fez tailleur
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
pelerine
e um discreto chapéu
para viajar de avião.
O meu pai do outro lado
fez promessa.
Deixamos Roma no inverno
era verão no Rio quando chegamos.
E tudo era improvável
no caminho.
Em Ciampino tabiques
lâmpadas penduradas pelo fio
e pista militar
café coado em Recife
num barracão de zinco
areia sob os pés no Galeão
e os pilares sem ponte
dentro d'água.
Viajavam como nós
os aeroportos
rumo ao futuro
naquele tempo de inseguras hélices.
Saia-se de uma guerra
adiante haveria jatos
e nós no meio
sacudindo as penas
tentávamos
no tempo
um novo vôo.
728
Marina Colasanti
FICOU-ME O DESEJO
As mulheres etiopes
usam sobre a cabeça um pano branco
que envolve os ombros
e desce pelo corpo.
Assim as encontrei em Israel
chegadas de tão longe com seus filhos
reunidas numa escola
e o pano branco era tudo o que tinham
defesa casulo
e a maneira de serem o que eram
em uma terra estranha.
Quis chegar-me e dizer
também sou etiope
embora de cabeça descoberta
também sou mulher e tenho filhos.
Mas faltou-me coragem
para enfrentar o estranhamento.
Hoje, se as encontrasse
não poderia dizer sou uma de vocês
nem se estivesse envolta em pano branco.
Uma guerra acabou
e a terra em que nasci
já não se chama Etiópia,
usam sobre a cabeça um pano branco
que envolve os ombros
e desce pelo corpo.
Assim as encontrei em Israel
chegadas de tão longe com seus filhos
reunidas numa escola
e o pano branco era tudo o que tinham
defesa casulo
e a maneira de serem o que eram
em uma terra estranha.
Quis chegar-me e dizer
também sou etiope
embora de cabeça descoberta
também sou mulher e tenho filhos.
Mas faltou-me coragem
para enfrentar o estranhamento.
Hoje, se as encontrasse
não poderia dizer sou uma de vocês
nem se estivesse envolta em pano branco.
Uma guerra acabou
e a terra em que nasci
já não se chama Etiópia,
1 073
Marina Colasanti
FICOU-ME O DESEJO
As mulheres etiopes
usam sobre a cabeça um pano branco
que envolve os ombros
e desce pelo corpo.
Assim as encontrei em Israel
chegadas de tão longe com seus filhos
reunidas numa escola
e o pano branco era tudo o que tinham
defesa casulo
e a maneira de serem o que eram
em uma terra estranha.
Quis chegar-me e dizer
também sou etiope
embora de cabeça descoberta
também sou mulher e tenho filhos.
Mas faltou-me coragem
para enfrentar o estranhamento.
Hoje, se as encontrasse
não poderia dizer sou uma de vocês
nem se estivesse envolta em pano branco.
Uma guerra acabou
e a terra em que nasci
já não se chama Etiópia,
usam sobre a cabeça um pano branco
que envolve os ombros
e desce pelo corpo.
Assim as encontrei em Israel
chegadas de tão longe com seus filhos
reunidas numa escola
e o pano branco era tudo o que tinham
defesa casulo
e a maneira de serem o que eram
em uma terra estranha.
Quis chegar-me e dizer
também sou etiope
embora de cabeça descoberta
também sou mulher e tenho filhos.
Mas faltou-me coragem
para enfrentar o estranhamento.
Hoje, se as encontrasse
não poderia dizer sou uma de vocês
nem se estivesse envolta em pano branco.
Uma guerra acabou
e a terra em que nasci
já não se chama Etiópia,
1 073
Marina Colasanti
CARNAVAL EM FRIBURGO
Dirigiam trator à tarde
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
à noite iam dançar
no baile do Euterpe.
Tinham calos nas mãos
palmas molhadas
e aquele cheiro jovem de
banho e brilhantina.
Dançavam com respeito
- não fosse a ereção
denunciar-se nas calças -
e puxavam conversa.
Mas nós, moças que tinham
passado rimel nos cílios,
só pensávamos que havia outro baile depois
no Clube Xadrez.
E que nós íamos.
Nós iamos.
985
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
945
Marina Colasanti
COM A DESTREZA DE QUEM
Quando Artemisia degolou
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
Holofernes
com que prazer o fez.
Não dorme
o general
está desperto e luta
contra a aia que o crava
sobre a cama
contra as mãos de Judite que
enojada
livres os braços das pesadas mangas
fortes os pulsos
com a destreza de quem mata
um frango
empurra-lhe a cabeça para um lado
e para o outro corta-lhe
o pescoço.
Gentileschi
era o nome de Artemisia
estuprada no estúdio
de seu pai
e frente a seus juízes
torturada.
Doce deve ter sido
para ela
vingar-se em Holofernes
sobre a tela.
945
Marina Colasanti
SOBRE FUNDO AZUL
O homem-asa brinca no sudoeste.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
Incrédulo. Umm helicóptero
lhe inveja a cor e o silêncio.
1 100
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 209
Marina Colasanti
AMISH COUNTRY
Neste país em que as roupas
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
se lavam
nas máquinas
se secam
nas máquinas
em que sujeira e manchas
não se sujeitam com os nós
dos dedos mas
se escondem
se esquecem
se negam
nas máquinas
afaga o coração
- senão as mãos -
ver lençóis
camisas
brancos panos
estalando no vento dos varais
o cotidiano.
Illinois 96
1 209
Marina Colasanti
DIA NÃO PASSA SEM
Há trinta anos decido
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
o que vai ser o jantar
e dia não passa sem
que eu apalpe frutas
suspenda guelras
ou arranque folhas podres das verduras.
Ponho frango na mesa
e porco e vaca
arrumados com graça nas travessas
mas na cozinha testo
o fio da faca
e afundo a ponta
procurando juntas.
Tenho sangue nas mãos
e sumo e leite.
Trago as unhas vedadas com farinha.
E nas palmas abertas
como pratos
vêm as bocas vorazes da família
sempre buscar comida
e mais comida
sempre matar sua fome
inesgotável.
1 102
Marina Colasanti
ATRÁS DO TRONCO
Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
1 159
Marina Colasanti
ATRÁS DO TRONCO
Toda vez que o nome do meu pai
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
ou essa expressão "meu pai"
vem combinada com a palavra "guerra"
uma alta palmeira cresce em mim
e atrás do tronco há um homem escondido.
Um homem escondido que pode ser um morto
ou pode ser assassino
um homem tão oculto quanto oculto
é o seu destino.
É o inimigo
ali posto pela voz do meu pai
quando lhe perguntei
se havia matado muitos nas tantas guerras
de que se orgulhava.
Na guerra
disse ele
é impossivel saber
se o inimigo escondido atrás de um tronco
aquele em que atiramos em defesa
e que não mais se vê
está vivo
está morto
está ferido
ou se sequer estava
atrás do tronco.
1 159
Marina Colasanti
SIM, PODE-SE
Podem-se abrir as pernas
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
com a mesma firmeza
de uma quilha que avança.
Abrir-se à alheia entrada
e ser aquele que aproa.
Pode-se porto ser
e navegante.
1 056
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 144
Marina Colasanti
NA CORTE DE HAAKON
Para bem degolar
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
um viking
agarra-se por trás
o cabelo comprido
e puxa-se com força.
Só então
na curva da garganta
afia-se o fio
da espada.
Na corte de Haakon
da Noruega
oito cabeças sobre o chão de pedra
olham a festa
com seus olhos mortos.
Chegada é a vez de
Sved
-e Sved não tem sequer
dezoito anos -
longos cabelos
para curta vida
longos cabelos
como rédea ou laço
enrolados nos punhos
do inimigo.
A garganta de Sved se tende
em arco
a espada canta
atenta ao seu chamado.
Mas num arranco
Sved
ergue a cabeça
e a lâmina decepa
aqueles punhos
que a seda envolve
como dois casulos.
Na corte de Haakon
da Noruega
pergunta a voz de Sved
aço cortante:
- Que arrogante esqueceu
suas mãos
nos meus cabelos?
1 144
Marina Colasanti
SOBRE A ESTRADA
Pasta de pomba
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
esmagada no asfalto
penas prensadas em sangue.
Uma única asa
ainda aberta
ergue-se ao vento dos carros
último
desassombrado voo.
1 164
Marina Colasanti
NO PARQUE DA FERTILIDADE
As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
620
Marina Colasanti
NO PARQUE DA FERTILIDADE
As macieiras estão carregadas
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
no parque Tiantan
os caquis pesam verdes
como pedras
os chorões se debruçam
nos caminhos.
Só os pessegueiros
nunca abriram flores.
Estéreis
negam frutos ao zumbido das abelhas
e se rebelam
à tirania reprodutora
dos deuses.
Beijing 1992
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Marina Colasanti
DOMENICA A CERTALDO
Domenica a Certaldo
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
Boccaccio dorme sotto al vetro
delle teche. E noi seduti nella casa
del vicario godiamo la valle
iscritta negli archi di pietra.
C'e un uomo che va
con un cane.
Tu guardi e mi dici, che bello
andare pei campi.
Sicuro non vedi il fucile
che ha un guizzo di sole.
Poi dopo udremo lo sparo
vedremo correre il cane
e tu penserai, senza dirlo.
che ancora in Toscana
'e viva la peste.
Certaldo 1996
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