Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Carlos Drummond de Andrade
Crônica de Janeiro
Onde está o janeireiro
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
936
Carlos Drummond de Andrade
Crônica de Janeiro
Onde está o janeireiro
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
que entoava alegres janeiras
à porta de seus amigos
na primeira cor do ano?
Mal se calou a cantiga
tecida de votos suaves,
veio a chuva, veio o vento,
veio o vá! da voçoroca
e o morro virou paçoca
de carne humana desfiada
nas unhas do temporal.
Sem trinco, teto ou portal,
cada casa improvisada
sobre alicerces de samba
mais pula que dança a dança
de morte, num carnaval
de contextura cruel.
Meu Império da Tijuca,
meus pandeiristas, meu coro,
baliza minha, passistas,
meu ritmo nobre, envolvente,
por que tudo se desmanda
em sarabanda demente
e nas trevas se derrete,
de sorte que nem sabemos
se são fontes lacrimais
ou feras coreografias
de potências infernais?
Eis rola a encosta o enxurreio
e faz do rio Veneza
de um só barrento canal
onde se mira a tristeza
de gôndolas-automóveis
imóveis no lodaçal.
Já toda a gente se agita,
já corre de mãos repletas
de agasalho, de comida,
de remédio, de carinho
e de bondade infinita.
Quisera ter uma voz
mui alta, mui sonorosa
para exaltar deste povo
que tem fama de leviano
a força maravilhosa
posta em seu gesto de ajuda.
De um estranho faz seu mano,
de alheia carne sua carne,
e, na crise mais aguda,
na mais longa chuvarada,
ensina como tirar
um pouco de ordem do nada.
Assim dá tempo a doutores,
a sábios, economistas,
progressistas, reformistas,
urbanistas et reliqua,
que são grandes sabedores
dos problemas, dos sistemas
e processos salvadores,
para em simpósio ou solitos
resolver como, por quanto,
em quanto tempo se pode
limpar do Rio este câncer
que se alastra pelos morros,
aumentando a cada hora,
e todo mundo deplora,
mas empacando na escolha
entre dois modos de agir.
No imenso Maracanã
Zé Fusquinho deita e espera
que raie o sol amanhã
para regressar aonde
talvez ainda reste um caco
do que ontem foi seu barraco.
E se vier outro toró
no calor de fevereiro,
enquanto a turma discute,
vestida de guarda-pó,
se remove ou se urbaniza?
São Jorge, que é milagreiro,
deixará que a chuva chute
o que resta das favelas
sob a carícia da brisa?
Cosminho e seu irmãozinho
deixarão que o mais desabe?
Não sei, não sou adivinho,
mas, por mineira cautela,
vou rematando esta crônica
antes que o Rio se acabe.
30/01/1966
936
Carlos Drummond de Andrade
Em Cinza E Em Verde
Êta semana triste! Os cavalinhos,
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
1 010
Carlos Drummond de Andrade
Em Cinza E Em Verde
Êta semana triste! Os cavalinhos,
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
com surpresa estampada nos focinhos,
estacam de repente, por decreto.
Não era o meu esporte predileto,
mas vejo que a cidade se esvazia,
hora a hora, de mais uma alegria,
um prazer, e só resta, no trabalho,
sentir da austeridade o cheiro de alho.
O futebol, também, só aos domingos?
Dizem, não sei. E lacrimejam pingos
de tédio, mau humor. Brincam (boatos)
que será proibido usar sapatos
de mais de mil cruzeiros. Mas Bellini
é passado pra trás? Ainda retine
o coro vibrantíssimo, profundo,
ao bravo capitão… Copa do Mundo,
vais-te tornando taça de amarguras.
Sairão do fel as seleções futuras?
Pois, se tal não bastasse, eis que o cowboy
tomba sem um disparo, e quase dói
ver que com Gary Cooper morre um pouco
do mito herói-pacato em mundo louco.
Magro, desajeitado, qualquer um
de nós se via nele, alto, em High Noon.
Outros informes, turvos ou cinzentos,
há por aí, mas salve, ó quatrocentos
milhões — mais o bilhão — em cobre fino!
(Buracos a tapar, de Juscelino.)
Desses dólares não verei a cor?
Estou satisfeito, seja como for,
ao ver, toda azul-claro, Marta Rocha,
qual princesa de um conto de carocha,
azulmente sorrindo para a vida.
Tanta gente a fitá-la, comovida,
pois a beleza é — ninguém se ilude —
uma promessa de beatitude.
Faltam-me espaço e tempo (meus algozes),
mas vou daqui saudar o Herbert Moses,
que, ao longo de trint’anos de ABI,
soube tornar o que era abacaxi
numa cesta de flores e de abraços,
unindo os desunidos, em seus laços.
Oh velhinho eletrônico, de intensa
palpitação sempre em favor da imprensa!
(Nem acabei a crônica, e, no vento,
vem sua carta de agradecimento.)
21/05/1961
1 010
Carlos Drummond de Andrade
Lira de Jornal
E lá se foi Nehru — a cinza leve
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
de uma rosa vermelha presa à neve
da jaqueta. Corpo, jasmins ardendo,
e o pequeno Sanjoy, calado, vendo
a figura do avô que já se esfuma.
Eis que da grande vida resta a suma
incombustível, livre de aparência,
ideia pervagante, pura essência,
como a essência final da mesma rosa,
refolhada magia silenciosa.
Já os mortos de Lima, pobrezinhos,
quedarão esquecidos, e os caminhos
que eles pisaram, vaga sombra em muro,
não lhes repetirão o nome obscuro.
O futebol, essa alegria solta,
cede lugar à morte desenvolta,
a morte num estádio, no terror,
a morte sem qualquer gesto de amor.
Ah, corpos alinhados à revista
da tevê e do médico legista!
Mas viremos a página. É verdade
que está faltando açúcar à cidade?
Não creio, pois em cada apartamento
de açúcar há de sacos mais de um cento.
(A gente se defende, é claro.) Mas doçura
mais que todas surpreendo na criatura,
dona linda de casa?, em fila indiana,
rumo da mercearia, esta semana.
O seu olhar adoça qualquer travo,
melhor que a rapadura e que o mascavo.
Dá-me vontade de gritar assim:
— Derramai este açúcar sobre mim!
Mas qual o quê: a dama, olhos tranquilos,
quer é comprar mais oito ou nove quilos.
Volta a dançar, na tela, o Picolino.
— Conhece Fred Astaire? — Era menino
quando ele apareceu… Cine-saudade,
e não, como se quer, cine-verdade.
Seria ideal uma retrospectiva
de filmes e também da vida viva,
matinal, garimpando no cinema
e no mundo o segredo de um teorema!
Aquele fã que amava Greta Garbo
voltando ao velho amor e ao velho garbo…
Mas há outros prazeres no presente.
Este eu prolongo: ler gostosamente
o Brejo alegre que França de Lima
(Geraldo) imaginou em prosa fina.
Muitas vidas miúdas se entretecem,
de um alto amor as chamas resplandecem,
Rosa Maria beija-se em Joal
e acaba-se esta crônica, afinal.
31/05/1964
1 030
Carlos Drummond de Andrade
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
755
Carlos Drummond de Andrade
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
755
Carlos Drummond de Andrade
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
755
Carlos Drummond de Andrade
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
755
Carlos Drummond de Andrade
Comendo Chapéu
James Mitchell, ministro do Trabalho
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
em Washington, D. C., e homem sério,
notou o contrassenso:
para o trabalho havia um Ministério
com toda a cibernética montagem;
para trabalhadores, não havia
trabalho.
Ora, Mitchell sentiu-se no dever
de dar emprego a quem não tinha mas queria
trabalho.
E garantiu que, vindo outubro, com ele vinha
trabalho tanto e em tal variedade
que seria trabalhoso e mesmo vão
evitar
trabalho.
E tão seguro estava do milagre
que prometeu de pedra e cal
comer de aba e copa o seu chapéu
(dele Mitchell, ministro do Trabalho)
se algum trabalhador ficasse ao léu.
Eis que outubro apontou, e bem contadas
as filas de chômeurs, verificou-se
que 3 200 000 pessoas
estavam sem trabalho
(40 000 a mais do que em setembro).
Mitchell não teve dúvida em cumprir
o seu enchapelado compromisso,
mas como tudo é chapéu, e o caso omisso,
mandou fazer
um de chocolate e nozes, e comeu-o
no hall do Ministério do Trabalho,
com o que, aliás, teve bastante
trabalho
mastigatório.
No Brasil, se os governantes resolvessem
comer chapéu ao falhar uma promessa
— de carne, de feijão, de água à beça
e outras metas maiores e menores —
todos os brasileiros passariam
a ter trabalho, e muito,
no ramo confeiteiro,
mas não havia chocolate que chegasse
e nem tampouco nozes
para chapéu de bolo no ano inteiro.
15/11/1959
755
Carlos Drummond de Andrade
O Morto de Mênfis
A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 247
Carlos Drummond de Andrade
O Morto de Mênfis
A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 247
Carlos Drummond de Andrade
O Morto de Mênfis
A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 247
Carlos Drummond de Andrade
O Morto de Mênfis
A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 247
Carlos Drummond de Andrade
O Morto de Mênfis
A arma branca
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
e o alvo preto
não cabem
no soneto.
A mão
que move o fuzil
destrói o til
da canção.
Fica no ar
o som
do verbo matar.
Na varanda, sem cor,
os restos
do amor.
Nos vergéis da justiça
o sol faísca
sobre carniça.
O ódio e seu olho
telescópico
formam um demônio
ubíquo.
Seu nome, Legião.
Não
perdoa a vida.
Onde a vida brota
seu talo verde,
ele vai e corta.
Onde a vida fala
sua esperança,
ele crava a lança,
borda o epitáfio:
Aqui jaz,
desossada, a paz.
Na linha de cor,
na linha de dor,
na linha de horror
da caçada,
a mata é basculante
de banheiro; mais nada.
(Ou janela debruçada
sobre o carro.
Caça ou curra?)
O homem não se reconhece
no semelhante.
O homem anoitece.
O que mais o assusta,
o que mais o ofende
é a luz vasta.
O homem ignora
tudo que já sabe.
E não chora.
Sua intenção
é matar-se na morte
do irmão?
É negar o irmão
e seguir sozinho,
seco, surdo, torto
espinho?
As artes, os sonhos
dissipam-se no projeto
medonho.
Mas renascem. De lágrimas,
pânico, tortura,
emerge a vida pura,
em sua fraqueza
mais forte que a força,
mais força que a morte.
A raiz do homem
vai tentar de novo
o ato de amar.
Vai recomeçar,
Vai continuar.
Continuar.
O morto de Mênfis
continua a amar.
Ninguém mais o pode
matar.
12/04/1968
1 247
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Em Verso
Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
1 071
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Em Verso
Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
1 071
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Em Verso
Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
1 071
Carlos Drummond de Andrade
Jornal Em Verso
Janeiro: nasce mais uma República
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
— a sexta! — no Brasil. Torna-se pública
a panqueca do novo Ministério,
que vamos, a sorrir, levando a sério…
Entre os nomes procuro, olho, joeiro
e não encontro o de Darcy Ribeiro.
Provara bem demais como ministro?
No Torto alguém comenta e aqui registro:
“Dava cartilha a todos… Que perigo!
Era amigo da onça ou nosso amigo?”
O fato é que, se existe homem sem fila
à sua austera porta, é Raul Pila,
tanto maior em seu isolamento,
quanto mais vário e louco sopra o vento.
Mas não é vento, é gente da polícia
— sadismo, horror —, que após muita sevícia
vai jogando mendigos desgraçados
à correnteza, e, tendo-os bem lavados,
outorga-lhes por fim a liberdade
no regaço abissal da eternidade.
Turvo Rio da Guarda, que carreias
culpas medonhas entre lodo e areias!
(A condição humana sai vencida
nesta peleja entre a polícia e a vida.)
Quem é esse que cumpre o seu destino
em barro e volta ao barro? Vitalino.
Depois de modelar o seu Nordeste
em formas gráceis que a poesia veste
de candura primeva, ei-lo deitado,
ele próprio em silêncio modelado.
Olha o boizinho e mais o cangaceiro!
Olha a noiva montada no sendeiro!
Olha o doutor, o padre, a bicharada,
tudo em volta, fitando a mão parada…
Vamos cortar o Rio em mil pedaços
ou deixá-lo perfeito nos seus traços?
Se o dividem, requeiro, por favor,
o azúleo município do Arpoador.
Lá, prefeito da espuma e do biquíni,
ante os jardins onde a cigarra zine,
o pasto da gaivota, o verso da onda,
e belas vereadoras numa ronda
— orçamentos, posturas e outras leis
farei melhores que os melhores reis…
Mas, se me negam essa sesmaria
que o PTB cobiça — ave, Maria! —,
então sou contra, e quero a Guanabara
una, indivisa, em sua forma rara.
27/01/1963
1 071
Carlos Drummond de Andrade
Do Voto Ao Verso
A cozinheira quis sair mais cedo
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
1 081
Carlos Drummond de Andrade
Do Voto Ao Verso
A cozinheira quis sair mais cedo
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
1 081
Carlos Drummond de Andrade
Do Voto Ao Verso
A cozinheira quis sair mais cedo
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
para correr à aula, mas o dedo
da patroa vetou: “Não, Herculina,
seja eleitora, bossa que é mais fina”.
E disse o avô sisudo para o neto
de três anos: “Pois que és analfabeto,
vai e vota por mim, que sou letrado
e temo não estar habilitado”.
Abrem-se escolas? Esse mau costume
é corrigido: agora se resume
em diploma de curso paroquial
a todo analfabeto eleitoral.
Mas vamos para a frente. Olha a revista.
Esse novo maiô bole com a vista.
Pois sim: miro e remiro a todo custo.
A peça foi tapada pelo busto.
E, sendo a moda assim tão escondida,
como saber se a moça está despida?
Só pode ser usado nas piscinas
particulares? Logo as turmalinas
ondas praieiras destes e outros mares
enchem-se de invisíveis exemplares.
Mas diz-que só a brotos interessa
a novidade… A peça prega peça.
E é tão ruim o meu pobre jeu de mots
que retiro da crônica o maiô.
Onde andará aquele tal suplente
convocado a assumir, em tom veemente,
e que se esconde, tão autocassado
que foge a léguas de ser deputado?
Procura-se, procura-se, procura-se
no chão, no ar, no mar, e esta figura se
oculta de tal modo da família,
que se homiziou sem dúvida em Brasília.
No mais, amiga, é este inverninho manso
que torna o Rio suave e em que descanso
o pensamento na manhã laivada
de névoa e luz tão meiga e temperada.
Ouve-se a Sinfonieta do Murilo
à noite, e no relvado crila o grilo.
Um piano fabuloso, se não erro,
dedilha-o Madalena Tagliaferro.
O Fernando Goldgaber mostra fotos
excelentes, e sou dos seus devotos.
Mas, se o frio castiga, vou ficar
junto de Jeremias Sem-Chorar.
Constou-lhe que Cassiano mata o verso?
Cria um mais forte no seu uni’verso.
E assim a lã me envolve: não é fria
a noite, se aquecida de poesia.
21/06/1964
1 081
Carlos Drummond de Andrade
Tago-Sako-Kosaka
Tago-Sako-Kosaka
vem da noite de Tóquio
atucanar-me a cuca.
Mas que cometa é este
que, flagrado na exata,
sua órbita me tapa
e não se vê de fato
nem tico de cometa
no azul-noturno mato?
Tago-Sako-Kosaka,
estrela de Belém
(dizem uns), e eu ataco:
por favor, a que vem
essa estrela tão tarda,
anunciar o quê?
por quê? de graça? a quem?
É anúncio, batata,
Tago-Sako-Kosaka?
Vem um outro Messias
no rumo de outra cruz
e é nela pregado,
ou de um poste, aqui mesmo,
Nova Iguaçu talvez?
Como apurar se o morto
era apenas um louco,
e louco é ver na estrela
um bilhete divino?
Tago-Sako-Kosaka
vende um novo automóvel
veloxsiderobárbaro?
uma nova mulher
sem falhas de motor,
ortografia e sexo?
vende novas crianças
de urânioplac, imunes
ao palavrão e ao tóxico?
Vem ao mundo contar
que surge a nova era
para os homens, enfim,
e tudo que era injusto
e tudo que era infame
a um sopro se espedaça
que nem folha de inhame,
e a nova realidade
é beleza e verdade?
Ou vem, quem sabe, estrela
de pavoroso augúrio,
comunicar o termo
da experiência terrestre:
tudo falhou, e resta
ao falido cientista
(oculto) arrebentar
de uma só martelada
a retorta e a cobaia?
Tago (três sábios), Sako
e Kosaka percebem
o susto que nos pregam
descobrindo esse astro?
E tão maroto é ele,
cometa ou o quer que seja
no espaço que negreja,
que nem se mostra à vista
nem dá pelota ou pista?
Sobre nós, sobre nosso
destino obscuro passa
o cometa nipônico,
todo mistério, e lança
a turbação e o pânico:
é signo de esperança?
correio de desgraça?
Ou mera promoção
de rádios do Japão?
E fico, a noite inteira,
interrogando a treva,
o guarda, a vizinhança:
Onde o cometa? sua
cabeleira não vejo.
Há de ser um cometa
da polícia secreta,
e nessas profundezas
é bom que eu não me meta.
24/01/1970
vem da noite de Tóquio
atucanar-me a cuca.
Mas que cometa é este
que, flagrado na exata,
sua órbita me tapa
e não se vê de fato
nem tico de cometa
no azul-noturno mato?
Tago-Sako-Kosaka,
estrela de Belém
(dizem uns), e eu ataco:
por favor, a que vem
essa estrela tão tarda,
anunciar o quê?
por quê? de graça? a quem?
É anúncio, batata,
Tago-Sako-Kosaka?
Vem um outro Messias
no rumo de outra cruz
e é nela pregado,
ou de um poste, aqui mesmo,
Nova Iguaçu talvez?
Como apurar se o morto
era apenas um louco,
e louco é ver na estrela
um bilhete divino?
Tago-Sako-Kosaka
vende um novo automóvel
veloxsiderobárbaro?
uma nova mulher
sem falhas de motor,
ortografia e sexo?
vende novas crianças
de urânioplac, imunes
ao palavrão e ao tóxico?
Vem ao mundo contar
que surge a nova era
para os homens, enfim,
e tudo que era injusto
e tudo que era infame
a um sopro se espedaça
que nem folha de inhame,
e a nova realidade
é beleza e verdade?
Ou vem, quem sabe, estrela
de pavoroso augúrio,
comunicar o termo
da experiência terrestre:
tudo falhou, e resta
ao falido cientista
(oculto) arrebentar
de uma só martelada
a retorta e a cobaia?
Tago (três sábios), Sako
e Kosaka percebem
o susto que nos pregam
descobrindo esse astro?
E tão maroto é ele,
cometa ou o quer que seja
no espaço que negreja,
que nem se mostra à vista
nem dá pelota ou pista?
Sobre nós, sobre nosso
destino obscuro passa
o cometa nipônico,
todo mistério, e lança
a turbação e o pânico:
é signo de esperança?
correio de desgraça?
Ou mera promoção
de rádios do Japão?
E fico, a noite inteira,
interrogando a treva,
o guarda, a vizinhança:
Onde o cometa? sua
cabeleira não vejo.
Há de ser um cometa
da polícia secreta,
e nessas profundezas
é bom que eu não me meta.
24/01/1970
1 186
Carlos Drummond de Andrade
Reportagem Matinal
Subo a Santa Teresa
para ouvir o sino
que na praia não se faz escutar.
(O rumor das ondas o abafa
ou só se escuta no seio do mar?)
Vai comigo o Poeta
relatando a paisagem
de muros intatos.
(Mais depressa morrem os homens
do que as casas de Paula Matos.)
— Neste convento minha prima
vive. Em total recolhimento.
A manhã, nos altos pagos,
tem a claridade primeira.
Velhas coisas se inauguram
continuamente, na luz, novas.
Conhecer-se tão mal o Rio.
Conhecer-se tão pouco o ar.
Conhecer-se nada de tudo.
Eis que ouço a batida nítida
no azul rasgado ao meio
perto
longe
no tempo
em mim.
Quando a palavra já não vale
e os encantamentos se perderam,
resta um sino.
Quando não este, o antigo sineiro
desce o roído degrau da torre
para nunca mais tocar,
resta, pensativo, no adro verde,
o menino escutando o sino.
12/04/1963
para ouvir o sino
que na praia não se faz escutar.
(O rumor das ondas o abafa
ou só se escuta no seio do mar?)
Vai comigo o Poeta
relatando a paisagem
de muros intatos.
(Mais depressa morrem os homens
do que as casas de Paula Matos.)
— Neste convento minha prima
vive. Em total recolhimento.
A manhã, nos altos pagos,
tem a claridade primeira.
Velhas coisas se inauguram
continuamente, na luz, novas.
Conhecer-se tão mal o Rio.
Conhecer-se tão pouco o ar.
Conhecer-se nada de tudo.
Eis que ouço a batida nítida
no azul rasgado ao meio
perto
longe
no tempo
em mim.
Quando a palavra já não vale
e os encantamentos se perderam,
resta um sino.
Quando não este, o antigo sineiro
desce o roído degrau da torre
para nunca mais tocar,
resta, pensativo, no adro verde,
o menino escutando o sino.
12/04/1963
1 159