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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

De Ontem, de Hoje

E lá se foi o Gordo, enquanto o Magro
circula a esmo, e os versos que consagro
à velha dupla servem de coroa
sobre a pantalha antiga (era tão boa),
tempos do pastelão, do Chico Boia!
Lembra-se de Asta Nielsen, aquela joia?
Era antes desses dois, mas tudo quanto
luziu no Novecentos cabe em canto.
Você ia ao cinema, via a rosa
da Bertini, e, tal qual Guimarães Rosa,
criava ricas, fortíssimas palavras
para exprimir as emoções escravas…
Somos morgados, sim, daqueles idos,
e os pensamentos idos e vividos
que brotam do teclado meu portátil,
ó pobre Gordo, seguem a versátil
deriva da saudade, du temps perdu.
Falar nisso: e os sessenta anos do Di?
A rima é torta, mas o que é direito
(a juventude mora no seu peito)
são as pinturas mil de mil mulheres,
entrefolhadíssimos malmequeres,
que dizem de sua arte em qualquer parte
— blusa de seda ou saia de zuarte.
Vamos ver os tapetes argentinos,
ali no MAM? Ou quer os cristalinos
acordes de Henryk Sztompka no piano?
E Lili Kraus, Hans Sittner, ai, seu mano!
Assim o DASP fizesse seus concursos
como esse que aí está… Os próprios ursos
fraternos se tornavam, prazenteiros,
quanto mais capixabas e mineiros.
Pois se a música opera tais milagres,
vamos pôr na gaveta ódios, vinagres,
esquecer um momento os truques bobos
da política, e salve, Villa-Lobos!
Custou para saber que ele era o tal.
Mas glória é glória, e eis que vasto coral,
pelo Brasil afora proclamando
esse nome de Heitor, o vai louvando.
Tempo bom de viver: o César Lattes,
o Portinari, o Villa… Ó peito, bates,
não de simples orgulho brasiliano,
mas de sentir-te universal, humano.
E que mais? É, ficou uma beleza
este livro do Rónai, sobre a mesa.
Contos húngaros são, do melhor mosto,
presente delicioso, mel de agosto.
O calor deu um ar de sua graça,
ótimo!, a praia vibra, o tempo esvoaça,
e a mocinha pergunta, com voz pura:
“Mas fica muito longe Singapura?…”
11/08/1957
1 012
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Correio Municipal

De nossa velha Itabira,
meu prezado C. D. A.,
escreve-lhe este caipira
por um “causo” urgente. Tá?

Sucede que há bem treze anos,
oito meses e uns trocados,
os pobres itabiranos,
mais fazem, mais são furtados.

A nossa mina de ferro,
que a todo mundo fascina,
tornou-se (e sei que não erro),
pra nós, o conto da mina.

Vai-se a cova aprofundando
pelas entranhas do vale,
e um dinheiral formidando,
como outro não há que o iguale,

dessas cavernas se escoa
e passa pela cidade,
passa de longe… Essa é boa!
Aceitar isso quem há de?

Não chega à tesouraria
da faminta Prefeitura,
pois vai reto à Companhia
que o povo não mais atura.

Do Rio Doce se chama,
de pranto amargo ela é,
refletindo um panorama
de onde desertou a fé.

Promete mundos e fundos,
piscina, cinemascópio,
avião cada dois segundos,
mas promessa aqui é ópio.

De positivo, batata,
a injusta empresa nos lega
poeira de ferro, sucata
e o diabo (que a carrega).

O doutor Café, doído
de tanta desolação,
dá como bem entendido
que assim não pode ser, não.

Mas a bichinha remancha,
diz que vai, não vai; ou vai?
E assim, driblando na cancha,
se ri da gente e seu ai.

Ante o clamor que não cessa,
depois de fechar-se em copas,
o professor Chico Lessa
divaga pelas Europas.

Diz-que espera a lua nova,
ou por outra, o Juscelino,
e então teremos a prova
de quem é o mais ladino.

Ora, não creio: esta terra,
em sua sorte mofina,
e nas feridas da serra,
lembra muito Diamantina.

Dos grão-mogóis do Tijuco,
hoje que resta? lembrança.
(A exploração leva o suco,
deixa a fome como herança.)

Um presidente que sabe
as lições de nossa história,
é de esperar que ele acabe
com a comédia embromatória.

Se não acabar… paciência.
No vale já se perscruta
uma sagrada violência
de povo inclinado à luta.

As pedras juntam-se aos braços…
Que o desespero nos una!
E é só. Duzentos abraços
do velho Nico Zuzuna.
12/10/1955
1 125
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa Domingueira

Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
516
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa Domingueira

Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
516
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa Domingueira

Cante, musa, o que foi esta semana
com o Ionesco no Copacabana
valorizado por Luís de Lima,
artista que descobre, capta e lima
cada pungente ou malicioso efeito
do texto, e tudo faz muito direito.
São duas peças e uma só menina
— Camila Amado — broto e velha… É sina
desses Amado ter talento às pampas
(vejam mestre Gilberto). E essas estampas
que surgem nas gazetas? Leite escorre
pelos cochos dos porcos, e ali morre
uma criancinha a quem se nega leite,
pois nem sequer existe para enfeite.
Sumiu-se mesmo o em pó. Em pó, as metas
da produção, engodo de patetas.
Falar em criancinha: viu a pobre
recém-nascida que um jornal encobre
e lá vinha, jogada na lixeira,
aos cuidados da mosca varejeira?
Que mãe envergonhada fez assim,
que pai tão pouco pai, que signo ruim,
que pressão social ou que capricho
inumano converte a vida em lixo?
Quando os garotos não podem nascer,
sente a pena desgosto de escrever.
Mas felizmente é logo compensado
esse instante de náusea. Tenho ao lado
um livro diferente, raro: os contos
da Lispector (Clarice). Entrega os pontos,
ó leitor resmungão, e louva a teia
de luz sutil, submersa, que encandeia
a atmosfera de Laços de família.
E também não te esqueças que Cecília
Meireles, de seu alto belveder,
funde em joias o Metal rosicler.
Pois é, o Juscelino foi viajar…
Que novidade! Ele despacha no ar.
Foi sugerir talvez que de Lisboa
a capital se mude para Goa,
enquanto prova Jango as excelências
turísticas de doutas conferências.
Que coisa: não demoram nem um mês.
Ninguém vá pensar que foi de vez,
mas assim mesmo servirá de ensaio
e torna o nosso peito leve e gaio.
Pois sim: neste formoso céu de anil,
vê Lott um urubu: guerra civil,
se Jânio teima em expedir bilhetes
desagradáveis, em vez de sorvetes.
Que perigo, escrever! À vista disso,
fecho esta croniquinha e dou sumiço.
07/08/1960
516
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dominicália

Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
875
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Dominicália

Boa ideia essas “ruas de recreio”
onde não passe carro e onde o chilreio
da garotada em festa nos distraia
das maldades que o mar tem feito à praia.
Tanta menina em flor hoje no Leme
arquiva o seu maiô… Detém-te, lê-me,
Netuno: em tua cólera romântica,
não me destruas a avenida Atlântica.
Há mil joias ali a preservar, e
no Posto 2 reside o Portinari.
Desabamentos, poeira? Tais horrores,
deixa-os, amigo, a certos construtores
de grampiolas: prédio ainda não findo,
e já de puro vento vai caindo.
Quero é ver na onda verde as doces curvas
e os meneios gentis: elfos ou u(r)vas?
Perdoai-me a rima atroz: o ouvido lasso
padece as consequências do mormaço
terrível deste agreste fevereiro
que vai torrando o Rio de Janeiro,
e não poupa cronistas nem poetas,
que em uísques gelados veem metas
impossíveis, com o dólar teleguiado,
bem alto, se fazendo de engraçado.
Mas esse carnaval? sem burburinho.
Minas Gerais recria o Senadinho
(pois conversa fiada sempre ajuda).
Toda cautela com o Esmerino Arruda,
capaz de prorrogar o improrrogável.
A rima é pobre e justa: deplorável.
Voltando ao Carnaval: a rolley-flex
não pode entrar nos clubes: very sexy…
Mas sem fotografia perde a graça
o brinquedo, a mexida, o vai-na-raça,
e omite-se um capítulo na História,
se a câmara não conta do Hotel Glória.
Antes de terminar, vai a Belgrado,
ó Musa, e ali por mim deixa abraçado
Ribeiro Couto, poeta e amigo, e tece a
loa devida ao prêmio que Lutécia
lhe conferiu e que deixa feliz
este brasílio peito. Ave, Paris!
Mas foge o espaço, amiga: pinga um pingo
sobre o versinho torto de domingo.
09/02/1958
875
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana

Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 033
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana

Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 033
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana

Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 033
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

A Semana

Atendendo, compadre, a seu apelo,
envio-lhe esta carta, mas sem selo
(que a tarifa postal subiu à lua
e a controle nenhum cede ou recua),
para lhe dar as últimas notícias,
enquanto agosto vai, entre carícias
de um leve sol de julho, recordando
a matinal doçura de ir flanando.
Quem encontrei na praia? Aquele moço,
glória da Rússia, presa do alvoroço
de brotos mil: “Que pão!” — diziam elas,
e Gagárin, a sorrir, por entre as belas
garotas espaciais, me botou triste.
Ó mocidade, ave fugida! alpiste
nenhum te faz voltar, e nenhum verso
vale esse giro azul pelo universo.
(Gagarinamos, sim, em pensamento,
e nossa cosmonave é fumo e vento.)
Mas, compadre, voltando ao terra-a-terra,
se minha matemática não erra,
evite, enquanto é tempo, abrir falência,
evitando qualquer correspondência.
(Já pensou na copiosa Sévigné,
no Brasil, reduzida ao miserê?)
Com telegrama a cinco por palavra,
a pena do silêncio faz-se escrava.
Quero me distrair. E eis que se fecha
o velho, bom, jovial Circo Olimecha.
Um circo a menos? Dois. Outro, de horrores,
lá se foi, o de artistas-vereadores.
Não divertiu ninguém e custou caro,
deixando na lembrança gosto amaro…
Marota foi a Câmara, em Brasília:
passa a chamar “descanso” de “vigília”
— não já gratuito, mas remunerado —
e trabalho… é tortura do passado.
Inaugura-se um campo de corridas
quando elas já são coisas abolidas.
Nos açougues paulistas, a prová-lo,
a nova bossa: carne de cavalo.
Disseram por aí que isto é progresso,
porém meu coração diz que é regresso.
O caso de Berlim, você não pense
que, por não ter nascido berlinense,
eu dele me descuide. A autoridade
vem daí: ser alheio a essa cidade.
É Berlim coisa russa? americana?
Ou tudo é confusão, em meio à vana
verba de conferências e tratados?
Adeus, compadre, abraços apertados.
06/08/1961
1 033
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 185
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 185
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Musa de Outubro

— Seu número qual é? — Muito obrigado!
Vai escolher-me para deputado?
— Não. É mero palpite para o bicho.
(Diga-me ao pé do ouvido, num cochicho.)
Mas, se for favorável a centena,
minha adesão eu lhe ofereço, plena.
Olhe, aproxima-se outro candidato,
na Cinelândia, prometendo a jato
com tal estrondo e com zoeira tal
que abala a Biblioteca Nacional.

Os livros caem todos das estantes,
foi-se o sossego que reinava antes.
Ó terrível furgão, que pelas ruas
vais gritando pior que as cacatuas,
queres que eu vote em Lott e me azucrinas
a alma com tuas lótticas verrinas?
Já não se pode, ao pôr do sol, num banco
deste jardim, acompanhar o branco-
-róseo-safíreo evoluir das pombas,
pois os berros explodem que nem bombas?

Nem votarei, já disse e alto repito,
nos que barram o que há de mais bonito
por sobre a face turva da cidade:
as minhas irmãs árvores. Piedade
para os oitis e para as amendoeiras,
de onde pássaros fogem às carreiras
ao ver que em seu aéreo território
barbazulizam barbas de Tenório,
e que, onde havia um ninho a balouçar,
reina (mistério) a face de Ademar.

Esta não: “Vacas gordas para o povo”.
Nem galeto, pois sim; nem simples ovo.
Não prometam escolas: o alfabeto
é um engenho atômico secreto,
e, se espalharem por demais o ensino,
isso de se eleger pia mais fino.
Cuidado, PSD: o teu prestígio,
mal comparando, tal como o uropígio
ou como o voto, deve ser oculto,
e, quanto menos cresces, mais tens vulto.

Gosto de matutar, de camarote,
o teu programa pela voz de Lott:
que feijoada mais nacionalista,
regada a vodca… Não há quem resista.
Quanto à reforma agrária, já se sabe,
há de vir, mas depois que a terra acabe.
Entre direita e esquerda, o nosso bravo
marechal gasta apenas um centavo
de coerência, e lá vai, na escaramuça,
espada à mão, montado em mula ruça.

Musa de outubro, põe de lado o enjoo
dessa politiquinha, e alça teu voo
até onde a esperança, mesmo vaga,
esculpe o sonho, e o vento não a apaga.
Envolve este país num halo puro
de justiça e verdade, em que o futuro
se projete mais claro e mais humano.
Cairemos outra vez no desengano?
Se a vassoura varrer com força e arte,
cantando a louvarei por toda parte.
17/09/1960
1 185
Carlos Drummond de Andrade

Carlos Drummond de Andrade

Fábula

Foi em março, ao findar das férias, quase à entrada
do Congresso,
que onças apareceram de mansinho,
começando a soltar miados leves.
Na praça atormentada,
onde sangue raiava pluma e arminho,
pombos em pânico pediam
ao céu que os libertasse
da garra de um gavião pouco distinto,
falco mato-grossensis, tão faminto.
Vendo as malhadas bichas
chegarem pela estrada de Belém
(com escala em Brasília),
exclamaram em coro: “Eis que aí vem
a nossa salvação, em forma de onça!
Ei, oncinhas, benzocas, já, depressa,
caçai o caçador que nos devora
e que num desafio pousa agora
lá no alto daquela geringonça!”
Ouvem as onças a arrulhante súplica
e, profissionalmente puladeiras,
já se aprestam à grande prova pública:
pegar o gavião
em seu voo rasante ou no relógio
aéreo, onde medita o necrológio
de suas vítimas, e zomba de alçapão.
E cada qual mais pincha e sacoleja,
disfarça, uiva, fareja,
sem vero resultado.
Aquelas, mais sabidas, se consultam
e convocam o falco, em tom matreiro,
a um fino ajantarado.
Baixa o gavião, e bica ali,
aqui, além, o pinto ao molho pardo,
um nadinha de bife, enxuga o chope,
mas tão rápido e alígero, dir-se-ia
um locutor da rádio do Berardo.
À mole sobremesa,
eis que as onças, uivando um sustenido
(com a assistência amável do Penido),
saltam, felinas — pá!
e na fereza
do bote julgam morto o gavião.
Que nada. A ave desguia, em pleno azul,
grasnindo: “Eu volto já”,
toma, sereno, o rumo do Japão.

Aprenda no colégio a aluna onça
que todo gavião é ave sonsa.
08/03/1959
845