Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Oswaldo Osório
Cavalos de silex
ainda estávamos em guerra quando fomos à lua
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
e tínhamos fome e feridas nos olhos de cegar
agarrávamos o futuro com a luz do laser
e as flores gelavam aqui donde partíamos com carbúnculos nos braços
pássaros de pio futuro por onde andávamos
deixámos a terra grávida de salamandras esventradas
ganhávamos o pão nosso cada dia com medidas de suor
e um inverno de vómito estarrecia sob as raizes
as galáxias mediam-se por braçadas de legumes ou milho ou arroz
que no-las distanciavam e as estrelas fugiam perseguidas
por cavalos de sílex
o sonho criava lodo cada manhã
as palavras mal nasciam apodreciam em limo
nesta situação-limite os seios o sexo o sémen
convenceram os homens nas suas fábricas
de cavalos de sílex
tarde
peitos punhos pulsos resolvemos ousar nosso pão
1 168
Neves e Sousa
Ilha de Moçambique
Ilha de oiro e angustia
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.
Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...
Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.
Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.
Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados
E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...
Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...
Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.
Feita de sol e de prata
Marfim talhado em relíquias
Cobre batido do vento
Num moinho de saudades.
Fortaleza escancarada
A memórias esquecidas...
Senhora do Baluarte velando
As brancas velas do Canal.
Sermões de S. Francisco Xavier
Guardados nas rochas de coral.
Riquexos vagueando ao sol
Brancas praias sonolentas
Enfeitadas de saris e cofios
Brancos, pretos, encarnados
E rostos cor da verdade
De viver num monumento
De prata, de oiro e de cobre
Cobre batido do vento...
Portico dos sonhos, momento
de indias descobertas e vencidas
Monumento, monumento,
De memórias esquecidas...
Além-portas de marfim
Paredes meias com a História
Dentro da fama e memória
Para que nela sempre fique
A Ilha de Moçambique.
1 321
David Mestre
África
É neste silêncio neste assalto do vento a
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
navegar a floresta neste sol neste amor
neste vegetal cobrir-me de verde e ser
catana cerce a executar o ânimo
afagar as mulheres no regresso da lavra
fazer das mãos a festa sonora do sexo
na cultivação do milho
É neste grito rente ao corpo frágil das
folhas que mais em ti me venço e
moro nas grandes batalhas da vida
no extenso vale das nossas angústias
no duelo cíclico das nossas intenções
1 273
Arlindo Barbeitos
Mão Frágil
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
se quebra o galho de gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
sussurrar de vento
não é voz de capim crescendo
é murmúrio impaciente
de gentes
no azul de parte alguma
em mão frágil de amarelo
se quebra o galho da gajajeira
pela tardinha vermelha em flor
1 679
Virgilio Pires
Reminiscência
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminescência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!
ritmos brasileiros fox mazurcas
E a morna a sublimar paixões
Ao longe na Achada o roncar cadenciado
Dos tambores da Tabanca
No campo de futebol ali pertinho
O Vitória sucumbia perante um Trovadores
Em que o Chabali era o rei
O mundo em guerra
E na terra amaldiçoada
Sem canhões sem Hitler
O povo morria de olhos voltados para o céu
Num gesto clamor secular
Que o hábito tornou ritual
Chuva! Fome! Chuva! Fome!
Quem não se lembra dos bailes da bola preta?
A sala decorada com bolas pretas
Os ritmos brasileiros a transportar os pares
Para o "Rio de Janeiro cidade maravilhosa"
Mazurcas com passos rigorosamente medidos
E a morna morna no violino crioulo do Djédji
Há muitos anos
Os nazis perderam a guerra
A Tabanca desapareceu
Anatematizada como vergonhosa reminescência africana
O Chabali morreu
Surgiram outras guerras
Outros tiranos outros ídolos outros ritmos
E na terra amaldiçoada
O ano passado hoje e sempre
O povo continua com os olhos voltados para o céu
Num gesto ritual
Clamor súplice para outros homens e para Deus
Chuva! Chuva! Chuva!
1 010
Reis Ventura
Baião de Luanda
Tão velhinha e tão linda, e tão presa
nos mistérios das ondas do mar,
é Luanda uma flor, uma beleza
com perfume e encantos sem par.
De S. Paulo à Marginal
- Vem ver , meu amor! -
Luanda ao sol-pôr,
Como é sem favor, divinal!
Raparigas do Bungo e da Samba,
do Cruzeiro e da Sé, do Balão,
na Paris, Polo Norte ou Mutamba,
são a nossa maior tentação.
Nesta terra onde eu nasci
eu quero casar
e ter o meu lar
e rir e chorar
só por ti.
Pelos bailes selectos da Alta,
nos batuques tão ricos de côr,
é Luanda que dança e que salta,
numa festa de vida e amor.
Bungo, Samba e Sambizanga
ou Portas do Mar
- Tudo isto é Luanda,
cidade e quitanda
ao luar...
Tão velhinha e tão bela e fagueira,
debruçada nas ondas do mar,
É Luanda sagaz, feiticeira.
Quem cá chega, cá quer ficar!
nos mistérios das ondas do mar,
é Luanda uma flor, uma beleza
com perfume e encantos sem par.
De S. Paulo à Marginal
- Vem ver , meu amor! -
Luanda ao sol-pôr,
Como é sem favor, divinal!
Raparigas do Bungo e da Samba,
do Cruzeiro e da Sé, do Balão,
na Paris, Polo Norte ou Mutamba,
são a nossa maior tentação.
Nesta terra onde eu nasci
eu quero casar
e ter o meu lar
e rir e chorar
só por ti.
Pelos bailes selectos da Alta,
nos batuques tão ricos de côr,
é Luanda que dança e que salta,
numa festa de vida e amor.
Bungo, Samba e Sambizanga
ou Portas do Mar
- Tudo isto é Luanda,
cidade e quitanda
ao luar...
Tão velhinha e tão bela e fagueira,
debruçada nas ondas do mar,
É Luanda sagaz, feiticeira.
Quem cá chega, cá quer ficar!
1 211
Reis Ventura
Baião de Luanda
Tão velhinha e tão linda, e tão presa
nos mistérios das ondas do mar,
é Luanda uma flor, uma beleza
com perfume e encantos sem par.
De S. Paulo à Marginal
- Vem ver , meu amor! -
Luanda ao sol-pôr,
Como é sem favor, divinal!
Raparigas do Bungo e da Samba,
do Cruzeiro e da Sé, do Balão,
na Paris, Polo Norte ou Mutamba,
são a nossa maior tentação.
Nesta terra onde eu nasci
eu quero casar
e ter o meu lar
e rir e chorar
só por ti.
Pelos bailes selectos da Alta,
nos batuques tão ricos de côr,
é Luanda que dança e que salta,
numa festa de vida e amor.
Bungo, Samba e Sambizanga
ou Portas do Mar
- Tudo isto é Luanda,
cidade e quitanda
ao luar...
Tão velhinha e tão bela e fagueira,
debruçada nas ondas do mar,
É Luanda sagaz, feiticeira.
Quem cá chega, cá quer ficar!
nos mistérios das ondas do mar,
é Luanda uma flor, uma beleza
com perfume e encantos sem par.
De S. Paulo à Marginal
- Vem ver , meu amor! -
Luanda ao sol-pôr,
Como é sem favor, divinal!
Raparigas do Bungo e da Samba,
do Cruzeiro e da Sé, do Balão,
na Paris, Polo Norte ou Mutamba,
são a nossa maior tentação.
Nesta terra onde eu nasci
eu quero casar
e ter o meu lar
e rir e chorar
só por ti.
Pelos bailes selectos da Alta,
nos batuques tão ricos de côr,
é Luanda que dança e que salta,
numa festa de vida e amor.
Bungo, Samba e Sambizanga
ou Portas do Mar
- Tudo isto é Luanda,
cidade e quitanda
ao luar...
Tão velhinha e tão bela e fagueira,
debruçada nas ondas do mar,
É Luanda sagaz, feiticeira.
Quem cá chega, cá quer ficar!
1 211
Alexandre Dáskalos
Resignação
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 357
Alexandre Dáskalos
Resignação
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 357
Alexandre Dáskalos
Resignação
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 357
Cruz e Sousa
Emparedado
(...)
Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente
amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento,
todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta,
quanta raça da África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara
para sempre com o riso haeckeliano e papal!
Surgidos de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda,
cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos
estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras,
as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por
decreto e por lei, e , enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha
bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra,
explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o
peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça
diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na
Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa,
ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na
força impetuosa e indomável da Vontade.
(...)
Publicado no livro Evocações (1898).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.1, p.207. (Literatura brasileira, 12
Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente
amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento,
todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta,
quanta raça da África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara
para sempre com o riso haeckeliano e papal!
Surgidos de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda,
cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos
estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras,
as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por
decreto e por lei, e , enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha
bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra,
explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o
peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça
diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na
Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa,
ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na
força impetuosa e indomável da Vontade.
(...)
Publicado no livro Evocações (1898).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.1, p.207. (Literatura brasileira, 12
3 963
Cruz e Sousa
Emparedado
(...)
Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente
amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento,
todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta,
quanta raça da África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara
para sempre com o riso haeckeliano e papal!
Surgidos de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda,
cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos
estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras,
as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por
decreto e por lei, e , enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha
bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra,
explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o
peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça
diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na
Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa,
ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na
força impetuosa e indomável da Vontade.
(...)
Publicado no livro Evocações (1898).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.1, p.207. (Literatura brasileira, 12
Eu trazia, como cadáveres que me andassem funambulescamente
amarrados às costas, num inquietante e interminável apodrecimento,
todos os empirismos preconceituosos e não sei quanta camada morta,
quanta raça da África curiosa e desolada que a Fisiologia nulificara
para sempre com o riso haeckeliano e papal!
Surgidos de bárbaros, tinha de domar outros mais bárbaros ainda,
cujas plumagens de aborígine alacremente flutuavam através dos
estilos.
Era mister romper o Espaço toldado de brumas, rasgar as espessuras,
as densas argumentações e saberes, desdenhar os juízos altos, por
decreto e por lei, e , enfim, surgir...
Era mister rir com serenidade e afinal com tédio dessa celulazinha
bitolar que irrompe por toda a parte, salta, fecunda, alastra,
explode, transborda e se propaga.
Era mister respirar a grandes haustos na Natureza, desafogar o
peito das opressões ambientes, agitar desassombradamente a cabeça
diante da liberdade absoluta e profunda do Infinito.
Era mister que me deixassem ao menos ser livre no Silêncio e na
Solidão. Que não me negassem a necessidade fatal, imperiosa,
ingênita, de sacudir com liberdade e com volúpia os nervos e
desprender com largueza e com audácia o meu verbo soluçante, na
força impetuosa e indomável da Vontade.
(...)
Publicado no livro Evocações (1898).
In: MURICY, Andrade. Panorama do movimento simbolista brasileiro. 2.ed. Brasília: INL, 1973. v.1, p.207. (Literatura brasileira, 12
3 963
Geraldo Bessa-Victor
Lamento da Maricota
- "Bom dia, senhor José.
Como passou? Passou bem?"
Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:
-"Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?
Pois, então, eu vou ser franca.
Agora tem mulher branca,
a senhora dona Rosa,
a sua mulher casada,
a quem chama "minha esposa";
já não quer saber da preta,
desprezada, abandonada,
a Maricota, coitada!
Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...
Aiué, senhor José!
Hoje está forte e contente,
a passear na avenida;
não lembra que esteve doente,
muito mal, quase morrendo,
e lhe dei jula de dendo,
para lhe salvar a vida,
pois nem doutor em Luanda,
nem quimbanda no muceque,
ninguém o curou, ninguém,
senão eu, pobre moleque!
Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, voçê cheira mal,
vá tomar banho, José!
Veio agora de Lisboa,
comprou uma casa grande,
dorme numa cama boa;
nós tínhamos, lá no Dande,
a cubata de capim,
e dormíamos no luando.
Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!
Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...
Como passou? Passou bem?"
Mas o senhor José virou a cara,
rudemente, com desdém.
E a pobre Maricota, que passara
mesmo ao lado,
a Maricota ficou
a cismar, a dizer com ar banzado:
-"Aiué, senhor José!
Para quê fazer assim?
Não se recorda de mim?
Pois, então, eu vou ser franca.
Agora tem mulher branca,
a senhora dona Rosa,
a sua mulher casada,
a quem chama "minha esposa";
já não quer saber da preta,
desprezada, abandonada,
a Maricota, coitada!
Agora veste bom fato,
estreia lindo sapato;
não se lembra do passado,
quando usava calça rota
e casaco remendado,
e sapato esburacado
mostrando os dedos do pé...
Aiué, senhor José!
Hoje está forte e contente,
a passear na avenida;
não lembra que esteve doente,
muito mal, quase morrendo,
e lhe dei jula de dendo,
para lhe salvar a vida,
pois nem doutor em Luanda,
nem quimbanda no muceque,
ninguém o curou, ninguém,
senão eu, pobre moleque!
Agora já cheira bem,
com boa perfumaria,
quer de noite quer de dia;
não se recorda, afinal,
da catinga, do chulé,
no tempo em que lhe dizia:
- José, voçê cheira mal,
vá tomar banho, José!
Veio agora de Lisboa,
comprou uma casa grande,
dorme numa cama boa;
nós tínhamos, lá no Dande,
a cubata de capim,
e dormíamos no luando.
Agora tem dona Rosa,
já não se lembra de mim!
Aiué, senhor José,
para quê fazer assim!?...
1 532
Bernardo Guimarães
A Campanha do Paraguai
HERÓIDES BRASILEIRAS
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
1 551
Bernardo Guimarães
A Campanha do Paraguai
HERÓIDES BRASILEIRAS
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
IV
RIACHUELO E BARROSO
(...)
Salve, ó nomes tão dignos de memória!
Vós sós sois um poema!
E entre os troféus da brasileira glória
O mais formoso emblema!
..............................................
Porém que atroz painel!... da luta insana
Vede o cenário horrendo!
Espesso fumo ainda os céus empana
Do turvo rio o seio escurecendo.
Tristes destroços, corpos mutilados,
Troncos, cabeças, braços decepados
Lá vão rolando... mas silêncio, ó musa!...
Cantar não tentes a gentil proeza;
Arcar não deves com tamanha empresa
Que a teus débeis acentos se recusa...
Vem tu, Meirelles; vem, preclaro artista!
Rei do pincel, em meu socorro acode:
Desdobra à nossa vista
A tua radiante, imensa tela,
Mais eloquente, mais vivaz, mais bela
Que a mais formosa ode.
E o que da musa o canto desmaiado
A custo mal exprime,
Vem revelar ao mundo deslumbrado
Com teu pincel sublime.
Publicado no livro Novas Poesias (1876).
In: GUIMARÃES, Bernardo. Poesias completas. Org. introd. cronol. e notas Alphonsus de Guimaraens Filho. Rio de Janeiro: INL, 1959
NOTA: Poema composto de 8 partes: I - Invocação; II - Lopez e Humaitá; III - Osório e a passagem do Passo da Pátria; IV - Riachuelo e Barroso; V - Uruguaiana e Canavarro; VI - Tuiuti e 24 de Maio; VII - Porto Alegre; VIII - Assalto a Curuz
1 551
Herrique Guerra
Vem, Cacimbo
Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
1 205
Herrique Guerra
Vem, Cacimbo
Estende teus dedos anelados sobre a minha carapinha
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
derrama a tua inconsciente tranquilidade
sobre a minha angústia submergida.
Vem, cacimbo
eu quero ver os cafeeiros ao peso dos bagos vermelhos
endireita os troncos vencidos dos bambus
coroa os cumes altos das serras do Bailundo
limpa a visão empoeirada dos comboios que descem para Benguela
nimba poeticamente os horizontes dos camionistas de Angola.
Vem, cacimbo
debruça-te cuidadosamente sobre as plantas da madrugada,
destrói a angústia resignada das gentes da minha terra
abre-lhes os horizontes dos cantos de esperança.
Vem, cacimbo
Derrama a tua inquieta saciedade sobre a minha natureza
a esta hora empoeirada com o barulho das esquinas
com o cheiro a óleo sujo dos automóveis
e com a visão daquele nosso amigo
cujo ordenado são quinze escudos diários
irremediavelmente caido sobre a grama do jardim
O cacimbo
eu quero percorrer teus campos sossegados
orquestrados pela alegria do beija-flor.
1 205
Geraldo Bessa-Victor
O feitiço do batuque
Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
2 240
Geraldo Bessa-Victor
O feitiço do batuque
Sinto o som do batuque nos meus ossos,
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
o ritmo do batuque no meu sangue.
É a voz da marimba e do quissange,
que vibra e plange dentro de minh'alma,
- e meus sonhos, já mortos, já destroços,
ressuscitam, povoando a noite calma.
Tenho na minha voz ardente o grito
desses gritos febris das batucadas,
nas noites em que o fogo das queimadas
parece caminhar para o infinito...
E meus versos são feitos desse canto,
que o vento vai cantando, em riso e pranto,
quanto o batuque avança desflorando
o silêncio de virgens madrugadas.
Músicos negros, colossos,
e negras bailarinas, sensuais,
tocam e dançam, cantando,
agitando meus impetos carnais.
O batuque ressoa-se nos ossos,
seu ritmo louco no meu sangue vibra,
vibra-me nas entranhas, fibra a fibra,
sinto em mim o batuque penetrando
- e já sou possuido de magia!
A batucada tem feitiço eterno.
O batuque de dor e de alegria,
que sinto no meu ser, dentro de mim,
nunca mais tera fim,
nem mesmo alem do Céu e além do Inferno!
2 240
David Mestre
Espera
Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
914
David Mestre
Espera
Existo acento de palavra, carapinha
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
recordação áspera de monandengue,
mapa de conversas na visitação da lua,
grávida luena sentada no verso da fome.
aqui esqueço África, permaneço
rente ao tiroteio dialecto das mulheres
negras, pasmadas na superfície do medo
que bate oblíquo no quimbo quebrado.
num gabinete da Europa, dois geógrafos
vão assinalar a estranha posição
dum poeta cruzado na esperança morosa
das palavras africanas aguardarem acento.
914
Alexandre Dáskalos
Qu é São Tomé
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 509
Alexandre Dáskalos
Qu é São Tomé
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
1 509
Alexandre Dáskalos
Qu é São Tomé
I
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
Quatro anos de contrato
com vinte anos de roça.
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné
Eu foi São Tomé!
Calção e boné
boné e calção
cabelo rapado
dinheiro na mão...
Agora então volto
mas volto outra vez
à terra que é nossa.
Acabou-se o contrato
dos anos na roça
Eu vi São Tomé!
Cuidado com o branco
que anda por lá...
Não sejas roubado
cuidado! cuidado!
Dinheiro de roça
ganhaste-o. Té dá
galinhas... e bois...
e terras... Depois
já tiras de graça
o milho da fuba,
o leite, a jinguba
e bebes cachaça.
Eh! Vai descansado,
dinheiro guardado
no bolso da blusa.
Que é São Tomé?
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
II
Este mente, aquele mente
outro mente... tudo igual.
O sítio da minha embala
aonde fica afinal?
A terra que é nossa cheira
e pelo cheiro se sente.
A minha boca não fala
a língua da minha gente.
Com vinte anos de contrato
nas roças de São Tomé
só fiz quatro.
Voltei à terra que é minha.
É minha? É ou não é?
Vai a rusga, passa a rusga
em noites de fim do mundo.
Quem não ficou apanhado?
Vai o sono, vem o sono
vai o sono
quero ficar acordado.
No meio da outra gente
lá ia naquela corda
mas acordei de repente.
Quero ficar acordado.
Onde está o meu dinheiro,
onde está o meu calção
meu calção e meu boné?
O meu dinheiro arranjado
nas roças de São Tomé?
Vou comprar com o dinheiro
sagrado da minha mãe
tudo quanto a gente come:
trinta vacas de fome,
galinhas... de papelão.
Vou trabalhar nesta lavra
em terra que dizem nossa
quatro anos de contrato
em vinte anos de roça.
Eu foi São Tomé!
Cabelo rapado
blusa de branco
dinheiro no bolso
calção e boné.
Aiuéé!
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