Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Angela Santos
Recomeço
Recomeçar
como a força silenciosa
dos invernos
Recomeçar
leve a alma
vigilantes os sentidos
Recomeçar
e rasgar num voo
o espaço imenso
onde ainda possa
desenhar sem medos
o meu golpe de asa.
como a força silenciosa
dos invernos
Recomeçar
leve a alma
vigilantes os sentidos
Recomeçar
e rasgar num voo
o espaço imenso
onde ainda possa
desenhar sem medos
o meu golpe de asa.
993
Angela Santos
No dia da morte
decretada de um Poeta
(18/10/85)
Hoje
é o dia decretado
para a morte
do poeta que não morre
corda, a mordaça da voz
sem sombra de silêncio.
Da terra que te abraça
sobe o grito renovado
terra irmã do teu corpo
na força e na cor
Cânticos de liberdade soam
na morte do poeta
que não morre…
E de negro se veste o espiritual
negras vozes o entoam
mas a vida fica perto
de quem morrendo não morre
por cantar liberdade.
(18/10/85)
Hoje
é o dia decretado
para a morte
do poeta que não morre
corda, a mordaça da voz
sem sombra de silêncio.
Da terra que te abraça
sobe o grito renovado
terra irmã do teu corpo
na força e na cor
Cânticos de liberdade soam
na morte do poeta
que não morre…
E de negro se veste o espiritual
negras vozes o entoam
mas a vida fica perto
de quem morrendo não morre
por cantar liberdade.
655
Angela Santos
O Rosto da Verdade
Rasgam-se
os olhos
diante das feridas descobertas
esmaga-se a indiferença
frente ao rosto da verdade
Granítico e implacável
o rosto da verdade
como espectro sobrevoa
entra pelo coração
pelos sentidos, pelos poros.
Já tem nome o que sinto:
dor de viver,
não a sente o vivo-morto
os olhos
diante das feridas descobertas
esmaga-se a indiferença
frente ao rosto da verdade
Granítico e implacável
o rosto da verdade
como espectro sobrevoa
entra pelo coração
pelos sentidos, pelos poros.
Já tem nome o que sinto:
dor de viver,
não a sente o vivo-morto
943
Angela Santos
Às Voltas
Com o Tempo
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
Ao
longo da avenida, numa tarde soalheira de Inverno, anunciando já
o seu fim, aqui e ali a cidade se polvilha de gente. As praças
e jardins se enchem de pessoas que desfrutam de amenas conversas aproveitando
o tempo que se ameniza.
Só
as pequenas cidades ainda oferecem isso que vai rareando em nossos dias:
o contacto das pessoas que se cruzam diariamente, na rua, em um café
ao dobrar de uma esquina, no mercado, esse lugar vivo onde a compra
e venda se faz de forma direta, com as pessoas trocando impressões,
discutindo preços.
Desses
encontros ainda se faz a vida cotidiana das gentes que não foram
submergidas pela azafama das grandes metrópoles, que não
vivem a tortura da pressa, a ameaça dos "salteadores" modernos
, espreitando uma oportunidade para o saque do dia, e que vivem o tempo
a um outro compasso, de forma tal que não reiteram a permanente
queixa da modernidade: a falta de tempo.
O
Tempo parece ter-se tornado um bem escasso. Não temos mais tempo
para ir num cinema, não temos tempo para ficar parados uns minutos
que sejam e escutar a voz do silencio; deixamos de ter tempo para saborear
a leitura de um bom livro; não temos tempo para nossas crianças,
reclamando atenção, emitindo sinais de que deixamos de
dar conta, sabe Deus a que preço.
Na
correria e falta de tempo, que se lhe associa, vamos também perdendo
a memória e esquecemos que há dias especiais, porque marcam
momentos únicos e irrepetíveis em nossas vidas. É
aquele dia que guardávamos como "o dia em que conheci você";
a data marcada na agenda para o encontro dos colegas de formatura; o
aniversário do amigo de longa data. Lembramos depois. Tantas
vezes tarde demais, ao folhear a agenda cujo prazo expirou no ano transato.
Deixamos de ter tempo, e vamos perdendo a memória das coisas
importantes, as que são importantes para nós e para aqueles
que amamos, datas, acontecimentos, pessoas que deveriam estar vivos
em nós e não adormecidos numa agenda ultrapassada.
O
nosso tempo é também ele caraterizado por uma certa amnésia,
a que nos convém, porque a memória abre feridas, e aquela
outra que nos causam, pelo adormecimento das mentes, o entorpecimento
do corpo, pelo acenar do fácil e do "el dorado" que alguém
oferta a troco de" nada", na aparência, mas que para além
de nos esvaziar a alma nos esvazia do resto.
É
verdade que as conversas são como as cerejas, umas puxam as outras,
e por isso mesmo tergiversei sobre a vida moderna, quando queria mesmo
era falar de como ainda é possível encontrar nichos de
mundos quase perdidos. Mundos de comunicação real e profícua,
por oposição a essa outra forma de comunicação
massiva, que nos coloca no centro de um dilema e contradição:
nos aproxima, realizando o prodígio de nada mais poder ser ignorado
por ser distante, e irremediavelmente nos afasta da vida aqui e agora.
Nunca estivemos tão próximos, agora que a globalização
se tornou um palavrão de bolso, mas em boa verdade, talvez nunca
antes se tenha sofrido tanto de solidão.
E,
quem sabe, para espantar a solidão e cultivar o gosto pelas trocas
humanas, é que nessas tardes soalheiras, as pracinhas e a avenida
sobranceira ao oceano se enchem de pessoas em busca do sol de inverno,
mais apreciado, porque tem sabor de coisa rara.
Não
é possível passar indiferente às personagens que
inundam esses lugares, na sua maioria jovens estudantes ou desocupados
e homens idosos. Estes esperam que a tarde anuncie o seu final, para
depois de cumprida a tarefa do dia, que é afinal cumprir mais
um dia, regressarem a suas casas, ou a seus lares de acolhimento. Esses
outros que esmolam, de igual modo aguardam a vinda da noite para se
acolherem nos recantos mais abrigados e iluminados das cidades.
Essa
gente de pele sulcada, cabelos a que o tempo emprestou a cor da neve,
uns de cigarro ao canto da boca deambulando pelas cidades, outros em
pequenos grupos aqui e ali, são o que sem pudor chamamos de "nossos
velhos", mas na verdade são a nossa memória, e mais que
passada prospetiva. E é na medida em que nos acordam para um
futuro que sempre chega, que preferimos, tantas vezes esquecê-los.
O velho continente, envelhecido, esquece os que vão envelhecendo.
Vivemos
de forma orgiástica o endeusamento da beleza e da juventude,
mas um dia, se tivermos a felicidade de viver longos dias, tomaremos
a estrada da velhice. Pudéssemos encara-la como uma espécie
de "idade do ouro" o momento único de realizarmos a síntese
de nossas vidas.
Vamos
perdendo a memória, mergulhados no turbilhão do dia que
passa. Aqui e agora sendo a dimensão primordial de nossa existência,
jamais nos deveria fazer perder de vista o futuro. Nas praças
e jardins das cidades, ele surge na forma de um quadro vivo: um dia
poderemos estar ao fim da tarde saboreando o sol num banco de jardim,
ou seja ter a felicidade de chegar a "velho". Nesse momento da vida,
já não andaremos às voltas com o Tempo, do que
seja te-lo ou da sua falta, já que é o momento de convivermos
de perto com a eternidade. Então, teremos todo o tempo do mundo.
1 075
Angela Santos
Mundo
Tudo
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre
Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea
Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.
me lembra o imundo
e de beleza é a sede
dos meus olhos
de cada fibra do meu corpo
de cada nervo que me percorre
Tudo me lembra o imundo
e cada gesto, cada rosto
cada palavra
renova a lembrança da náusea
Sacode o meu corpo um leve estertor
e numa sonata de luz
lavo os resquícios
da sujidade humana que trago em mim.
1 090
Angela Santos
Farol do Tempo
Traço
em movimento
um navio a horizonte
onde se prende o olhar
e lembro
Portos sem amarras
praias longínquas
de um mar que eu mesma
invento
E uma centelha
vinda não sei de onde
emerge fugaz de uma tempestade,
qual farol do tempo
a lembrar viagens que não começaram.
Fixo os olhos no poente
que lá de longe me chama
e sinto que lá só chega
quem o oceano rompe
e abre as velas ao vento
para o alcançar.
em movimento
um navio a horizonte
onde se prende o olhar
e lembro
Portos sem amarras
praias longínquas
de um mar que eu mesma
invento
E uma centelha
vinda não sei de onde
emerge fugaz de uma tempestade,
qual farol do tempo
a lembrar viagens que não começaram.
Fixo os olhos no poente
que lá de longe me chama
e sinto que lá só chega
quem o oceano rompe
e abre as velas ao vento
para o alcançar.
1 075
Angela Santos
Transfiguração
O
quotidiano uiva, grita, sangra
esmaga, dilacera, esventra
corpos almas, sonhos.
quotidiano servido
em taças de amargo gosto
leva-nos na crista de alterosas vagas
sentimos a vida no silencio ou como grito
a vida que espontânea brota
e nos faz sentir
tocados pela morte com suas leves asas
roçando cada instante
de nossos dias
Irrompe a luz e a alvorada,
emerge da terra a rubra papoila
ri a criança nos braços da sua mãe,
o abraço amante numa noite enluarada,
a beleza viva nos traços que o pincel eternizou
ou que a mão do poeta rasgou
levam-nos de volta à vida
frágil, perene
e ao sabor das coisas únicas, simples
aos campos da guerra quotidiana
onde salva a beleza guardada em nossos olhos
e a vontade de e teimar ir além.
Guerreiros sem nome
batemo-nos indómitos nesse imenso campo
onde a vida se dá e se furta também.
quotidiano uiva, grita, sangra
esmaga, dilacera, esventra
corpos almas, sonhos.
quotidiano servido
em taças de amargo gosto
leva-nos na crista de alterosas vagas
sentimos a vida no silencio ou como grito
a vida que espontânea brota
e nos faz sentir
tocados pela morte com suas leves asas
roçando cada instante
de nossos dias
Irrompe a luz e a alvorada,
emerge da terra a rubra papoila
ri a criança nos braços da sua mãe,
o abraço amante numa noite enluarada,
a beleza viva nos traços que o pincel eternizou
ou que a mão do poeta rasgou
levam-nos de volta à vida
frágil, perene
e ao sabor das coisas únicas, simples
aos campos da guerra quotidiana
onde salva a beleza guardada em nossos olhos
e a vontade de e teimar ir além.
Guerreiros sem nome
batemo-nos indómitos nesse imenso campo
onde a vida se dá e se furta também.
686
Angela Santos
Ideologia
Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
1 072
Angela Santos
Ideologia
Vinham
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
de longe,
atravessavam desertos
tempestades resistiam,
e no coração guardada
a fórmula do alquimista
viandantes condenados
grilhões de ferro nos pés
vezes e vezes caíram,
seguir era a sua sina
fosse ou não razão ficar.
E cumpriam-se à chegada
exaustos, e sem sentido
um outro norte, a mesma senha…
por eles de novo se erguiam
por eles de novo partir…
Alvoradas, bandeiras, hinos
espadas em punho brandindo
contra o tempo contra os ventos,
sem resistência lá iam,
um novo mundo cumprir.
1 072
Angela Santos
Além-Limite
Partir
rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…
Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…
Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…
Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito
rumo ao
ser secreto
que espera
viagem sempre adiada…
Seguir…
reter rostos e vozes
embriagar os sentidos
a tragos de vida.
e partir…
Navegar…
oceanos que nuns olhos inventar,
descobrir
na terra passos irmãos
entender
da vida os sinais
e seguir…
Ousar…
ir além-limite
num golpe de asa que ousando
chega a tocar o infinito
700
Angela Santos
Asas
Do
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
cimo de uma falésia
olhou com olhos despidos de mágoa
dentro do sonho suspenso no tempo
e fez dos gestos um grito
de encontro ao silencio
dos que o olhavam.
Olhos abertos ao devir
e ao sonho,
esfinge resistindo ao tempo
afrontando o vago de almas
e o olhar sem deslumbre,
ao chão da evidência preso.
729
Angela Santos
Nau das Descobertas
Cantar
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
1 131
Angela Santos
Nau das Descobertas
Cantar
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
o agri-doce fado
dos que por destino têm
vastíssimos
os campos do mar
Velas, quilhas, mastros,
oceano a condição,
mas na bruma se perdeu
a seda, o ópio a canela
e o sonho imperial que no tempo
se esfumou.
Olhos de fogo cravados
no adensar dos nevoeiros
filhos deste mar tão perto
na orla das praias cansamos
as viagens adiadas,
e a espera do Encoberto
Navegar é preciso!
por dentro do corpo que respira
rente a este chão que somos
nova Nau das Descobertas
rumo a si, porto e destino…
Ausentes a Cruz de Cristo
o arcabuz e os grilhões
encontraremos ainda
esse longe que buscámos,
não na lança do inimigo
mas no regresso ao destino
da língua- mater e o mar
nos tornar tão só iguais.
1 131
Angela Santos
Escravo e Senhor
Vem
ao meu castelo
Senta-te à mesa
com os fantasmas que o habitam,
ergue a taça e brinda
à vida
que não se sabe ainda
Vai pelos corredores,
labirintos
olha os retratos antigos
as paredes decaídas,
mas não te detenhas diante
daquela moldura vazia
Vem!
Senta-te no trono destruído
sente a força do que servi
e diz-me se é senhor
o que é escravo de si.
ao meu castelo
Senta-te à mesa
com os fantasmas que o habitam,
ergue a taça e brinda
à vida
que não se sabe ainda
Vai pelos corredores,
labirintos
olha os retratos antigos
as paredes decaídas,
mas não te detenhas diante
daquela moldura vazia
Vem!
Senta-te no trono destruído
sente a força do que servi
e diz-me se é senhor
o que é escravo de si.
1 066
Angela Santos
Guerra
Já
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
761
Angela Santos
Guerra
Já
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
761
Angela Santos
Guerra
Já
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
nada os fazia seguir ou ficar…
lá ao longe o eco de explosões e gritos
O asfalto da guerra
e a vida distante
envolta em lembranças de sonhos perdidos,
O sonho tingido de fumos e negro
inventava cores desenhava horizontes
cada passo em frente era um passo
a menos
cada vez mais perto
do sonho acabar
Corpos e memória desnudos, exaustos
Cavados por dentro
por uma raiva lume,
funda de raiz…
um grito apertado
expresso nos olhos,
e no crispar da arma
nas mãos de crianças
sem tempo de o ser…
E os senhores do tempo
sem alma e sem Deus
perdidos nos jogos de ódios
e razões,
lembram novos Neros
saboreando pérfidos
a visão do sangue
invadindo a arena.
761
Angela Santos
Cume
E
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
1 188
Angela Santos
Cume
E
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
tudo o que eu quiser
posso!
fronteiras a mim cabe
derrubá-las…
rasgo um voo que me leva
a rasar a tempestade,
de mim parto a mim regresso
não sei onde está o fim
da ousadia que teço..
sem grilhões o voo é plano,
olho os escombros de cima
o lance ousado deu-me asas
para sobrevoar o abismo..
Do voo raso ensaio
o voo que a águia lança
e do cimo da montanha,
que passo a passo é subida,
vejo quão longe se alcança
quão fundo e alto se atinge
o fundo de onde viemos
o cume que pressentimos.
1 188
Angela Santos
Denúncia
Ecos
de fome
um rosto acusa
existência e agonia
mórbida simbiose,
o não à vida
Ecos de humilhação
corpo ressequido
fatalmente anónimo .. longínquo
a limpeza gélida do número,
a inócua visão da morte…
colorida.
O horror
não age no descanso
de mentes anestesiadas,
a morte compromete
mas é de longe que vem…
distancia, entorpecimento da culpa,
da nossa culpa…sem defesa!
de fome
um rosto acusa
existência e agonia
mórbida simbiose,
o não à vida
Ecos de humilhação
corpo ressequido
fatalmente anónimo .. longínquo
a limpeza gélida do número,
a inócua visão da morte…
colorida.
O horror
não age no descanso
de mentes anestesiadas,
a morte compromete
mas é de longe que vem…
distancia, entorpecimento da culpa,
da nossa culpa…sem defesa!
1 124
Angela Santos
Mordaça
Quanto
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.
Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.
grito amordaçado
à garganta preso trago …
quanto desejo amortalhado
sem razão
quanto de mim renegado
à força de um qualquer não.
Força em tumulto
que me traz inquieta
e a ânsia em sinais que não decifro,
grades douradas que não quis
e contudo vivo.
1 202
Odylo Costa Filho
Soneto da Revisitação
Partamos juntos a rever o rio
onde primeiro o nosso amor nasceu
e acalentando o meu humor sombrio
entre os teus seios amadureceu.
Nasceu tão pleno quanto um sol de estio
mas sobre a dor e a morte ainda cresceu,
embora a prata tenha posto um fio
no teu cabelo, e muitos neste meu.
Vamos em busca de um repouso fundo
que nos envolva de uma leve areia
no banho antigo, em meio aos juçarais.
Que a viagem nos cure deste mundo,
cheia de vozes de teus filhos, cheia
desta alegria de te amar demais.
onde primeiro o nosso amor nasceu
e acalentando o meu humor sombrio
entre os teus seios amadureceu.
Nasceu tão pleno quanto um sol de estio
mas sobre a dor e a morte ainda cresceu,
embora a prata tenha posto um fio
no teu cabelo, e muitos neste meu.
Vamos em busca de um repouso fundo
que nos envolva de uma leve areia
no banho antigo, em meio aos juçarais.
Que a viagem nos cure deste mundo,
cheia de vozes de teus filhos, cheia
desta alegria de te amar demais.
1 069
Angela Santos
Recusa
Hábeis,
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
1 138
Angela Santos
Recusa
Hábeis,
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
as vozes dos arautos
anunciam o jugo
num canto de inocência
simulado
e as nossas asas presas
perdem o jeito de voar.
Guarda o fundo da memória
um bater de asas
que o verdugo não profana,
e devagar vai esboçando
a forma de uma falésia antiga
sobrevoada
Inúteis fontes e oásis
prometidos
à nossa sede sem cura…
num gesto ousado
a alma se desprende
com o voo por destino.
1 138