Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Ona Gaia
Evolução
As armas sangram açaí
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.
de risos ariscos e roxos
mas na décima parte
de toda a vida
a ida não encontrará fim
porque se num dia foram muitos
na eterna abóbada celeste sim
pras estrelas só haverá um
mais poderoso que todos eles
quando tudo parecer perdido
quando tudo parecer nenhum.
845
Natalício Barroso
O Mercador
Deus, como se fosse o artífice meticuloso
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.
1 066
Natalício Barroso
O Mercador
Deus, como se fosse o artífice meticuloso
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.
e um mercador de pedras preciosas,
bordou o Universo num tapete
enrolou-o
e saiu com ele pelas ruas de Nova York.
Tinha muitas estrelas para vender.
Cada uma delas valia milhões.
Mas como o Universo não é composto só de estrelas
mas de cometas, anéis e arco-íris
(para não falar nos meteoros, etc.)
Deus também bordou a sua sombra, como se fosse um halo de
luz,
em volta do Universo.
Em Nova York, Washington e Maryland
Deus carregou o tapete sobre os ombros
e anunciou-o levando uma lua cheia na cabeça
e um relâmpago tão enredado quanto uma serpente nos
braços;
mas ninguém quis comprar.
Nem mesmo os árabes, donos de camelos
petróleo
e oásis no deserto;
nem os turistas,
cada um mais atarefado do que o outro,
que todos os dias desembarcam em Miami.
Estavam todos muito preocupados
com a cotação da bolsa em Wall Street
e com o dsempenho de alguns pilotos na Fórmula 1.
O Universo, para eles,
não era precioso:
— nem o Universo
nem os astros;
por isso Deus sentou-se numa grande nuvem,
quando se sentiu cansado;
abriu o tapete e pensou:
"— A Lua", disse ele olhando para a Lua,
"não vale um dólar;
o Sol, que eu pensava valer alguma coisa,
não vale nada (nem um raio de atenção)
e os anéis de Saturno que, para mim,
eram incalculáveis nem mesmo suscitaram
atenção".
Deus ficou tão ofendido
quando percebeu isso que, no lugar de desenrolar
e guardar o Universo a seus pés,
enrolou e guardou a sua sombra.
1 066
Nelson Nunes
Aos que Se Foram
Não sei dos homens que ficaram
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.
Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.
Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.
Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.
Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.
Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.
Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.
802
Nelson Nunes
Aos que Se Foram
Não sei dos homens que ficaram
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.
Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.
Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.
Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.
Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.
Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.
Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.
802
Nelson Nunes
Aos que Se Foram
Não sei dos homens que ficaram
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.
Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.
Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.
Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.
E guardam seus segredos
No fundo dos olhos banhados de medo
a ruminar a verde folhagem da esperança
a embalar a coragem que ainda não nasceu.
Sei dos homens que se foram
E se perderam
Com seu medo
Desejos e sonhos secretos.
Desconheço todos os homens de fé
E todas as formas de felicidade
Que espalham-se em inumeráveis cartazes
a sujar com seu estrume todas as faces da cidade
a subjugar os miseráveis com sua faca de dois gumes.
Não sei dos homens que ficaram
A tramar o futuro.
Sei dos homens que se rebelaram
E voaram ara desencontrá-lo.
802
Natalício Barroso
Definição
Venho de uma terra em que os homens
põem uma cadeira na calçada e se cumprimentam no meio da
rua.
De vez em quando contam uma história mal-assombrada
para amendrontar as crianças
e riem de si mesmos nos braços da cadeira.
longe ficava o mar
e os navios atracados nos livros de geografia;
os aviões decolando nos mapas escolares
e os primeiros automóveis buzinando na imaginação.
põem uma cadeira na calçada e se cumprimentam no meio da
rua.
De vez em quando contam uma história mal-assombrada
para amendrontar as crianças
e riem de si mesmos nos braços da cadeira.
longe ficava o mar
e os navios atracados nos livros de geografia;
os aviões decolando nos mapas escolares
e os primeiros automóveis buzinando na imaginação.
932
Natalício Barroso
A Pasta
Um dia me surpreendi.
Havia um raio de sol escondido no meu guarda-roupa.
Abriu a janela do meu quarto quando eu a abri,
e se projetou nas minhas roupas com as pontas dos meus dedos.
Era um raio de sol tão claro quanto um jado dágua na
escuridão
e me molhou o semblante de contentamento.
Mas foi passageiro.
Bastou vestir a calça comprida
e pôr a camisa depois dos sapatos
para o dia, entrando na minha pasta preta, se cobrir de luto nas minhas
mãos.
Havia um raio de sol escondido no meu guarda-roupa.
Abriu a janela do meu quarto quando eu a abri,
e se projetou nas minhas roupas com as pontas dos meus dedos.
Era um raio de sol tão claro quanto um jado dágua na
escuridão
e me molhou o semblante de contentamento.
Mas foi passageiro.
Bastou vestir a calça comprida
e pôr a camisa depois dos sapatos
para o dia, entrando na minha pasta preta, se cobrir de luto nas minhas
mãos.
961
Joaquim Namorado
ARS
Os muros brancos da indiferença
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 902
Joaquim Namorado
ARS
Os muros brancos da indiferença
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
desafiam os pintores
a pintar neles a esperança
amarelos sóis girando
roxos violetas azuis
gente animais árvores flores
como há e não há inventados
largas janelas abertas
para a vida e para o sonho
vermelhos entusiasmos
castanhos terra serenos
verdes e verdes terrenos
de horizontes rasgados
onde caibam os países
e os continentes e os mares ainda por descobrir
e o homem caiba inteiro
na verdadeira grandeza
em profundas perspectivas
tudo o que é grande e pequeno
dos outros o que a nós pertence
de nós o que a todos damos
a noite intensa povoada de sóis
que outros dias iluminam
a esperança neles pintada
a Paz o Pão o Amor.
E nas mansardas escuras
com os brancos muros em frente
da gelada indiferença
os artistas febris
esboçam em traços difusos
a própria morte do sonho.
Mas já na sombra da sombra
que sobre os brancos muros se estende
O coro das carpideiras
tece flores de retórica
para coroar-lhes as caveiras
e os conservadores misantropos
dos museus do que já foi
fazem o espólio das artes
com requintes de molduras.
Nos muros brancos da indiferença
gela o frio esquecimento…
(in Antologia de Poetas Alentejanos)
1 902
Noel Rosa
Amor de Parceria
Saibam primeiro
Que fulano é meu amigo
E com ele eu não brigo
Com ciúmes de você.
Você provocou briga entre rivais
Pra depois ver nos jornais
Seu nome, seu clichê.
Há muito tempo meu amigo já sabia
Que você me oferecia
Chocolate no jardim.
E começou a nossa parceria:
Eu fui por ele
E ele foi por mim.
Você pensou
Que fomos enganados,
Marcando encontro em dias alternados.
E nós fizemos a sua vontade.
Dentro daquele enredo
Eu e ele não tivemos prejuízo
Na sociedade.
Quando meu sócio
Namorava em seu portão,
Eu ficava na esquina
Distraindo seu irmão.
E quantas vezes eu perdia a fala
Quando estava sem tostão
E ele pedia bala!
Nós aturamos sua tia implicante
Mas filamos seu jantar,
Não pagamos restaurante.
Você não sai do nosso pensamento.
Você foi negócio, foi divertimento.
Que fulano é meu amigo
E com ele eu não brigo
Com ciúmes de você.
Você provocou briga entre rivais
Pra depois ver nos jornais
Seu nome, seu clichê.
Há muito tempo meu amigo já sabia
Que você me oferecia
Chocolate no jardim.
E começou a nossa parceria:
Eu fui por ele
E ele foi por mim.
Você pensou
Que fomos enganados,
Marcando encontro em dias alternados.
E nós fizemos a sua vontade.
Dentro daquele enredo
Eu e ele não tivemos prejuízo
Na sociedade.
Quando meu sócio
Namorava em seu portão,
Eu ficava na esquina
Distraindo seu irmão.
E quantas vezes eu perdia a fala
Quando estava sem tostão
E ele pedia bala!
Nós aturamos sua tia implicante
Mas filamos seu jantar,
Não pagamos restaurante.
Você não sai do nosso pensamento.
Você foi negócio, foi divertimento.
1 127
Natércia Freire
Fantasmas
Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
1 219
Natércia Freire
Fantasmas
Mesmo que vós me toqueis,
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
ainda assim me não contento.
Mesmo que vós me leveis ...
Estão muito longe os anéis
que há nos cabelos ao vento ...
Para nossos bailes de fumo
não há saletas reais.
Corpos de fio de prumo,
olhos de barcos sem rumo
e ouvidos nos temporais.
Quando a casa dorme e sonha
é que os passos vem espreitar.
Da torre negra, as cegonhas,
sobre a planície que sonha,
deitam fantasmas ao mar.
Minhas claras companhias!
Ainda assim me não contento.
Há de haver praias vazias,
melancolias bravias
como aquelas que eu invento.
Tudo que em mim é fracasso
já não tem raiz humana.
Nas pontas do mesmo laço
é que o aço nos irmana.
Convosco em pó me desato
e a viagem não termina.
Parto de mim em retrato
no movimento sem ato
que o Destino me destina.
1 219
Noel de Arriaga
Guitarra
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
Na atmosfera de fumo,
Roçando pelo vício,
Em mim dum outro rumo
Encontro um vago indício.
Unem-se em gestos vãos,
Ao sabor da guitarra,
Suplicantes as mãos
Da fadista bizarra.
Se canta, logo após
Nos prende e enfeitiça
O que perdura em nós
Da sua voz castiça.
Meu coração já batia
Muito antes de te ver,
Mas só depois desse dia
É que eu o senti bater! ...
Candeeiros de cobre
Pousados sobre as mesas
Tingem de aspecto nobre
longas velas acesas.
Perfume de recado,
Em pouco se resume
O mistério do fado:
— No amor e no ciúme.
E também na saudade,
Mais funda hora a hora,
Que, fugindo à cidade,
Foi pela barra fora!
Saudade? Ciúme? Amor?
As naus da índia onde
Estão? Envolto em dor
Quem é que me responde?
Esta noite prefiro
O típico cenário
Desse velho retiro
Fadista e literário.
823
Neco Martins
Pega do Cel Neco e Chica Barrósa
Neco:
Eu, agora estou ciente,
que negro não é cristão
pois a alma dessa gente
saiu debaixo do chão,
e lá na mensão celeste
não entra quem é ladrão
Barrósa:
Mais, seu Neco, a diferença
entre nós é só na cô,
eu também fui batizada,
sô cristão cuma o sinhô
de lançar mão no aleie,
nunca ninguém me acusô !
se quiser Nosso Sinhô
vai o branco pra cozinha
e o preto para o andô !
Neco:
De onde veio essa negra
com fama de cantador ?
querendo ser respeitada
como se fosse um senhor!
pois negro na minha terra
só come é chiquerador !
Barrósa:
Mas seu Neco, me permita
dizer o que foi notado:
que num beco sem saída
quando eu deixo encorrentado:
vem o branco contra mim,
façanhudo e tão irado.
Tome agora um bom conselho,
numa tão boa hora dado,
não é preciso mostrar-se
carrancudo e agastado.
Branco que canta com preto
não pode ser respeitado !
Eu, agora estou ciente,
que negro não é cristão
pois a alma dessa gente
saiu debaixo do chão,
e lá na mensão celeste
não entra quem é ladrão
Barrósa:
Mais, seu Neco, a diferença
entre nós é só na cô,
eu também fui batizada,
sô cristão cuma o sinhô
de lançar mão no aleie,
nunca ninguém me acusô !
se quiser Nosso Sinhô
vai o branco pra cozinha
e o preto para o andô !
Neco:
De onde veio essa negra
com fama de cantador ?
querendo ser respeitada
como se fosse um senhor!
pois negro na minha terra
só come é chiquerador !
Barrósa:
Mas seu Neco, me permita
dizer o que foi notado:
que num beco sem saída
quando eu deixo encorrentado:
vem o branco contra mim,
façanhudo e tão irado.
Tome agora um bom conselho,
numa tão boa hora dado,
não é preciso mostrar-se
carrancudo e agastado.
Branco que canta com preto
não pode ser respeitado !
808
Neco Martins
Pega do Cel Neco e Chica Barrósa
Neco:
Eu, agora estou ciente,
que negro não é cristão
pois a alma dessa gente
saiu debaixo do chão,
e lá na mensão celeste
não entra quem é ladrão
Barrósa:
Mais, seu Neco, a diferença
entre nós é só na cô,
eu também fui batizada,
sô cristão cuma o sinhô
de lançar mão no aleie,
nunca ninguém me acusô !
se quiser Nosso Sinhô
vai o branco pra cozinha
e o preto para o andô !
Neco:
De onde veio essa negra
com fama de cantador ?
querendo ser respeitada
como se fosse um senhor!
pois negro na minha terra
só come é chiquerador !
Barrósa:
Mas seu Neco, me permita
dizer o que foi notado:
que num beco sem saída
quando eu deixo encorrentado:
vem o branco contra mim,
façanhudo e tão irado.
Tome agora um bom conselho,
numa tão boa hora dado,
não é preciso mostrar-se
carrancudo e agastado.
Branco que canta com preto
não pode ser respeitado !
Eu, agora estou ciente,
que negro não é cristão
pois a alma dessa gente
saiu debaixo do chão,
e lá na mensão celeste
não entra quem é ladrão
Barrósa:
Mais, seu Neco, a diferença
entre nós é só na cô,
eu também fui batizada,
sô cristão cuma o sinhô
de lançar mão no aleie,
nunca ninguém me acusô !
se quiser Nosso Sinhô
vai o branco pra cozinha
e o preto para o andô !
Neco:
De onde veio essa negra
com fama de cantador ?
querendo ser respeitada
como se fosse um senhor!
pois negro na minha terra
só come é chiquerador !
Barrósa:
Mas seu Neco, me permita
dizer o que foi notado:
que num beco sem saída
quando eu deixo encorrentado:
vem o branco contra mim,
façanhudo e tão irado.
Tome agora um bom conselho,
numa tão boa hora dado,
não é preciso mostrar-se
carrancudo e agastado.
Branco que canta com preto
não pode ser respeitado !
808
Neusa Peçanha
Haicai
Começa a ventar:
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.
o velho apanha o casaco,
o menino, a pipa.
O bonde da praça,
entre balanços vadios,
é brinquedo triste.
702
Noel Nascimento
Astrovate
Fazedor de artes,
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.
Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.
Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.
Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.
Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.
Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.
Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.
Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.
Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.
No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.
Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.
Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.
Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.
Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.
Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.
Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.
no tempo dos aeroplanos
tornei-me um astrovate.
Em frente à igrejinha
ao lado da escola,
haviam arrancado o pinheiro
— uma Torre de Babel vegetal —
antes que alcançara o céu.
Fora lá a plataforma
(largo onde atracavam os circos)
dos meus vôos iniciais.
Eu subia as ruas do arco-íris
no meu carrinho.
Na pipa,
me levava o vento
até o fim do carretel.
No balão,
seguia com os da Via Láctea,
tocha — o coração.
Comigo no clarão do lombo
corcoveava no ar
o boitatá.
Espelhavam um céu estrelado
os campos
com o lume dos pirilampos.
Eu deslizava de patins
pelas nuvens,
e meu pai ia me buscar
com a vara de marmelo.
Nas asas de uma borboleta,
vi a Terra multicor.
Nos Andes
eram as asa de um condor,
e sobre o Oriente
apenas um tapete voador.
Antes,
muito antes dos astronautas
dei uma volta pelo universo
na cauda de um cometa.
Com tecnologia de brinquedo
inventei uma astronave,
aprendi a dirigi-la
com um bando de andorinhas.
No primeiro lançamento
houve explosão na plataforma:
nove soldadinhos de chumbo
morreram.
Num passe de poesia,
batuta, pena ou pincel
fazem o prodígio:
vôo pelas pautas
de compasso em compasso:
pelas tintas, pelas palavras.
Viajo entre contos e lendas.
Tudo é real:
o País de Alice,
deslumbra-me o dos sacis-pererês.
A Terra viajo tão rápido
que a Itália parece a bota de sete léguas
do gigante.
Em órbita flutua,
mas dispara além da lua;
aprendiz de feiticeiro,
não sei como pará-la.
Quanto mais se distancia,
surge mais perto
como se a saudade a impelira.
Aumenta o nariz de Pinóquio
com a mentira,
acorda a Bela Adormecida
com um beijo,
uma bruxa muda gente
em sapo ou serpente,
o astrovate faz a sua nave
um condão de versos.
Com a fuselagem a coruscar nas entrelinhas
das estrelas,
o poema peregrina anunciando
a revolução da Fraternidade
para salvar a vida na Terra
com os encantos das historinhas.
880
Neide Archanjo
Estou aqui
Estou aqui
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
1 001
Neide Archanjo
Estou aqui
Estou aqui
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
1 001
Neide Archanjo
Estou aqui
Estou aqui
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
numa das esquinas do planeta
entre o Mediterraneu e o Oceanus Atlanticus
nestas costas
onde cerraram-se para sempre
rios abras e baías
e mesmo algumas ilhas
estuários interiores.
Eu, selvagem, mulher silvestre,
florida em telas e museus
vergonhas não-cobertas
—ah, Iracemas Paraguaçus Moemas! —
entre os deleites da corte instalada.
Eu que não tive por trisavô nenhum celta
bem rico e bem atrevido no mar
a quem chamasse armador.
Eu que deixei para trás
sertões não-navegados
em terra e mar fundidos
nossas Aljubarrotas e Alcácer-Quibires
chão de estrelas e derrotas
compostas identidades
onde o imenso amadurece.
1 001
Noel de Arriaga
Lisboa
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!
Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!
Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
E depois fecha-me os olhos!
Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!
Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!
Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
1 070
Noel de Arriaga
Lisboa
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!
Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!
Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
E depois fecha-me os olhos!
Adeus Terreiro do Paço!
Adeus Torre de Belém!
Adeus ruelas estreitas
Altas horas, sem ninguém!
Adeus estrelas tombando
Nas águas mansas do Tejo!
Adeus, adeus nostalgia
Das saudades que antevejo!
Adeus guitarras gemendo
Através dos bairros fáceis!
Adeus varinas-meninas
Dos seios que foram gráceis!
Adeus sotaque estrangeiro
Que a guerra trouxe até nós!
Adeus fadista em que o fado
Serviu de herói e de algoz!
Adeus poetas sem pátria!
Adeus pátria dos poetas!
Adeus Lisboa, cidade
Que no sonho te completas!
— Mãe! Quero ver o Castelo
E depois fecha-me os olhos!
1 070
Noel Nascimento
Reprise
Ao ancorar a nave
à laje
entre ciprestes
no campo sacro,
liberta no espaço
minha alma há de alegrar-se
de saudades.
Tê-las já é reportar-me
à viagem como se estivesse em curso.
Não seja triste a despedida
qual se de um sonho
não houvesse reprise.
Há miríades de galáxias,
infinidade de astros
e até universos paralelos.
Numa nova nave,
por bondade divina,
hei de encontrar outra Terra,
um mundo igualzinho ao de outrora,
um mesmo sol, a mesma lua,
— a casa, as ruas, as pessoas —,
a cidadezinha no alto
reviver tudo como era,
amar e repetir a vida
da viagem finda.
à laje
entre ciprestes
no campo sacro,
liberta no espaço
minha alma há de alegrar-se
de saudades.
Tê-las já é reportar-me
à viagem como se estivesse em curso.
Não seja triste a despedida
qual se de um sonho
não houvesse reprise.
Há miríades de galáxias,
infinidade de astros
e até universos paralelos.
Numa nova nave,
por bondade divina,
hei de encontrar outra Terra,
um mundo igualzinho ao de outrora,
um mesmo sol, a mesma lua,
— a casa, as ruas, as pessoas —,
a cidadezinha no alto
reviver tudo como era,
amar e repetir a vida
da viagem finda.
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