Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Marly de Oliveira
Perdi a capacidade de assombro
Perdi a capacidade de assombro
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
mas continuo perplexa:
esta cidade é minha, este espaço
que nunca se retrai,
mas onde o ardor da antiga
chama, que me movia no mínimo
gesto?
Esperei tanto, no entanto, esvaem-se
na relva, ao sol, no vento,
os sonhos desorbitados,
parte da minha natureza
sempre em luta com o fado.
Perdi também no contato
com o mundo, pérola radiosa, vão pecúlio,
uma certa inocência;
ficou a nostalgia de uma antiga
união com o que existe,
triste alfaia.
1 413
Milena Azevedo
O povo de Morus
Povo perfeito
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.
Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.
As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.
O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.
Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.
As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.
O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.
816
Milena Azevedo
O povo de Morus
Povo perfeito
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.
Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.
As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.
O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.
com um simples jeito
de viver e uma grande
vontade de aprender.
Leis de fácil acesso,
governantes corretos
e modestos;
lá nunca há protestos.
As mulheres têm direitos
igualitários.
Até na guerra são
solidários.
O jogo, a cobiça, a intolerância
não são sinônimos de bonança.
O respeito mútuo e a religião
do ser absoluto é que faz toda essa união.
816
Maria Lucia Miranda Afonso
Bonsai
Bonsai
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
Enfaixei meu desejo como os pés das chinesas antigas.
Desde pequenino, envolto nas tiras apertadas de mistério.
De madrugada, eu ouvia os ossos trincando,
sentia o dorso do desejo se arquear, buscando ser no espaço mínimo.
Ao tentar andar, tropeçava. Correr? nem pensar.
Desejava asas com seus delicados pés curvos,
miniaturas de pássaros,
pequenas estruturas circulares.
Como uma árvore bonsai, que desde cedo moldam,
contendo-lhe o caule, podando-lhe as raízes,
meu desejo está plantado em um vaso ornamental,
belo e exótico,
cheio de significados e insólitas metáforas,
como os pés das chinesas antigas...
1 326
Manoel Messias Santiago
Eu Te Amo e Era Uma Vez um Beijing
Vivo contigo e tento te aprender,
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
364
Manoel Messias Santiago
Eu Te Amo e Era Uma Vez um Beijing
Vivo contigo e tento te aprender,
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
364
Manoel Messias Santiago
Eu Te Amo e Era Uma Vez um Beijing
Vivo contigo e tento te aprender,
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
me acostumar aos teus atrasos.
Outro dia chegaste madrugada.
Chovia gostoso, ouvia-se La Seguidiila,
de Carmen, e tu brilhavas nos acordes
e bailavas nos meus sentidos.
Se um dia eu não mais puder te ver
será como a "Primavera da China"
como a noite sem gosto, sem ar,
sem agasalho.
Como os tanques sinistros
de Tiananmen Square rangendo seus dentes de
aço.
Aço retirado das minas por homens
que acreditaram na vida, no trabalho;
aço que deveria arar a terra
em forma de lagartas e enxadas
para a colheita do trigo
mas insiste em atropelar cérebros
humanos mundo a fora e numa praça
em Beijing.
Se um dia eu não mais puder te ver
será noite de morcegos de metal
caçando meus olhos espavoridos
com seus incandescentes bicos-lasers;
bubônica noite de roedores obstinados
buscando com destrutiva lascívia
a humana carne. Ah, os ratos...
A Coca-Cola da China tem cor e sabor de sangue
jovem.
E o sangue humano tem todos os sabores.
A batalha é contra o prazer. O medo
banca a guerra.
Mas quando tu voltares
os canhões terão bocas imantadas
e dar-se-á o necessário incesto:
os petardos voltarão aos infaustos ventres
e explodirão as próprias ogivas.
Haverá água e comida farta para todos
flores e perfumes e música bela
e sonoras gargalhadas pelos campos.
As pessoas se tocarão pela carícia
e desfrutarão da liberdade
como um dom natural.
364
Milena Azevedo
As Guerreiras das Quadras
Quanta guarra,
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.
Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.
É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.
É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.
quanta destreza,
são belas guerreiras
que lutam numa pequena fortaleza.
Cada lance,
cada cesta,
fazem a torcida vibrar
com assistências perfeitas que chegam a emocionar
à todos que estiverem a olhar.
É brilho, magia,
não dá para descrever tanta euforia,
tamanho talento e maestria
e nem como elas jogam com tanta energia.
É vontade de vencer,
é tão bom de torcer.
Quanto mais elas suam, mais querem aprender.
É só assim que elas sabem agradecer,
dando o que de melhor têm em seu ser.
856
Herculano Moraes
O rio de minha terra
O rio de minha terra é um deus estranho.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.
Ele tem braços, dentes, corpo, coração,
muitas vezes homicida,
foi ele quem levou o meu irmão.
É muito calmo o rio de minha terra.
Suas águas são feitas de argila e de mistérios.
Nas solidões das noites enluaradas
a maldição de Crispim desce
sobre as águas encrespadas.
O rio de minha terra é um deus estranho.
Um dia ele deixou o monótono caminhar de corpo mole
para subir as poucas rampas do seu cais.
Foi conhecendo o movimento da cidade,
a pobreza residente nas taperas marginais.
Pois tão irado e tão potente fez-se o rio
que todo um povo se juntou para enfrentá-lo.
Mas ele prosseguiu indiferente,
carregando no seu dorso bois e gente,
até roçados de arroz e de feijão.
Na sua obstinada e galopante caminhada,
destruiu paredes, casas, barricadas,
deixando no percurso mágoa e dor.
Depois subiu os degraus da igreja santa
e postou-se horas sob os pés do Criador.
E desceu devagarinho, até deitar-se
novamente no seu leito.
Mas toda noite o seu olhar de rio
fica boiando sob as luzes da cidade.
1 361
Micheliny Verunschk
Cartório do 2º Ofício
Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
1 033
Micheliny Verunschk
Cartório do 2º Ofício
Cato os minutos,
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
Grãos de milho
Caídos na música
Datilográfica
Do relógio velho
Da parede;
Sementes loiras
De tão sonífera
Claridade
Que só os posso
Contemplar
Com os olhos
Semicerrados;
Óvulos de pó
Que ajunto
No bojo do avental
Para tentar
Saciar a fome
Desse galo voraz,
Desse expediente infindo.
1 033
Morais Filho
A mulata
Eu sou mulata vaidosa,
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.
Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.
Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!
Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.
Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...
Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.
Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.
Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.
Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.
Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.
Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...
Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.
Linda, faceira, mimosa,
Quais muitas brancas não são!
Tenho requebros mais belos;
Se a noite são meus cabelos,
O dia é meu coração.
Sob a camisa bordada,
Fina, tão alva, arrendada,
Treme-me o seio moreno:
É como o jambo cheiroso,
Que pende ao galho frondoso
Coberto pelo sereno.
Nos bicos da chinelinha,
Quem voa mais levezinha,
Mais levezinha do que eu?...
Eu sou mulata tafula;
No samba, rompendo a chula,
Jamais ninguém me venceu!
Ao afinar da viola,
Quando estalo a castanhola,
Ferve a dança e o desafio;
Peneiro dum mole anseio,
Vou mansa num bamboleio
Qual vai a garça no rio.
Aos moços todos esquiva,
Sendo de todos cativa,
Demoro os olhares meus;
Mas, se murmuram: "maldita!
Bravo, mulata bonita!"
Adeus, meu ioiô, adeus ...
Minhas iaiás da janela
Me atiram cada olhadela,
Ai dá-se! mortas assim...
E eu sigo mais orgulhosa
Como se a cara raivosa
Não fosse feita pra mim.
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa,
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, qual mulata baiana.
Outra não há no Brasil.
Nos meus pulsos delicados
Trago corais engraçados
Contas de ouro e coralinas;
Prendo meu pano à cintura,
Que mais realça à brancura
Das saias de rendas finas.
Se arde um desejo agora,
De meus afetos senhora,
Sei encontrá-lo no amor;
Minha alma é qual borboleta,
Que voa e voa inquieta
Pousando de flor em flor.
Meus brincos de pedraria
Tombam, fazendo harmonia
Com meu cordão reluzente;
Na correntinha de prata,
Tem sempre e sempre a mulata
Figuinhas de boa gente.
Eu gosto bem desta vida,
Que assim se passa esquecida
De tudo que é triste e vão;
Um dito repinicado,
Um mimo, um riso, um agrado
Cativam meu coração.
Nos presepes da Lapinha,
Só a mulata é rainha,
Meiga a mostrar-se de novo;
De minha face ao encanto,
Vai-se o fervor pelo santo,
Pra o santo não olha o povo!...
Minha existência é de flores,
De sonhos, de luz, de amores,
Alegre como um festim!
Escrava, na terra um dono,
Outro no céu sobre um trono,
Que é meu Senhor do Bonfim!
Na fronte ainda que baça,
Me assenta o torço de cassa
Melhor que coroa gentil;
E eu posso dizer ufana,
Que, por mulata baiana,
Outra não há no Brasil.
1 534
Mário Donizete Massari
Trilogia
nascimento
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
— nasceu nas horas
que precedem
a fome
vida
— cresceu com fome
morte
— morreu de fome
809
Mário Donizete Massari
Estação
Perdi o trem,
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
994
Mário Donizete Massari
Estação
Perdi o trem,
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
mas encontrei alguém
que assim como eu,
esperava o trem.
O trem já se vai . . .
O trem lá se vai . . .
E ficamos nós;
no embarque da estação
passageiros do
tempo em vão
Adversos os caminhos,
distintas as classes sociais
Mas presos ao destino
de ver o trem partindo
sem qualquer[discriminação.
Pó da mesma estrada
cor da noite e cor do sal
ficamos nós
passageiros do dia a dia
presos à estação
Sem qualquer discriminação
994
Mário Donizete Massari
Moeda
A moeda
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
1 041
Mário Donizete Massari
Moeda
A moeda
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
rola no ar
vil metal a delinear
destinos.
A fome no olhar
sentimento vendido
a moeda seduz
e oprime.
Que importa a
poesia,
se a fome ronda a
esquina?
O que importa
a poesia,
se a moeda é pobre
sendo rica?
Na cara a coroa
de ouro
duas faces
moeda e poesia
Pobre moeda
Rica poesia
1 041
Mário Donizete Massari
Poesia louca
A ave voa
e pousa
sobre o ovo
e o povo?
o povo é o ovo.
És poeta,
pois se rimas?
Não. Sou uma rosa ferida
um sonho desfeito
um dia de fadiga,
e olho o povo
e sua vida.
e pousa
sobre o ovo
e o povo?
o povo é o ovo.
És poeta,
pois se rimas?
Não. Sou uma rosa ferida
um sonho desfeito
um dia de fadiga,
e olho o povo
e sua vida.
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Mário Donizete Massari
Poesia louca
A ave voa
e pousa
sobre o ovo
e o povo?
o povo é o ovo.
És poeta,
pois se rimas?
Não. Sou uma rosa ferida
um sonho desfeito
um dia de fadiga,
e olho o povo
e sua vida.
e pousa
sobre o ovo
e o povo?
o povo é o ovo.
És poeta,
pois se rimas?
Não. Sou uma rosa ferida
um sonho desfeito
um dia de fadiga,
e olho o povo
e sua vida.
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Micheliny Verunschk
Déjà Vu
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.
pelo boulevard,
pegam o bonde
e imaginam
ou sonham
ou querem
estar no trenzinho caipira.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
tropeçam na calçada
e brincam
ou fingem
ou querem
estar apaixonados.
Olhos que passeiam
pelo boulevard,
fumam um cigarro
tomam um sorvete
assobiam uma cantiga
escrevem um bilhete
cumprimentam outros olhos
e fazem do boulevard
seu eppor si muove.
1 082
Micheliny Verunschk
Feira
Me comove o apurado capricho
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.
1 047
Micheliny Verunschk
Feira
Me comove o apurado capricho
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.
Dos meninos carroceiros da feira:
Arrumam da melhor maneira
A mercadoria nas suas
Mais possantes carroças.
1 047
Mário Donizete Massari
brasil
Seu nome era Raimundo
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
mas como é de praxe
apelidaram-no de mundo
Mas acharam tão
vasto, que resolveram
chamá-lo de
brasil
Ele tinha uma infância comum
num contexto relativo
Vivia às expensas dos outros
vez ou outra se nutria,
mas almejava um promissor
futuro.
Queria ser grande logo,
para desenvolver suas idéias,
já que possuía um potencial
significativo.
Corria atrás de bola
e sonhava conquistar o mundo
sendo um grande jogador
de futebol.
Enfim, teve brasil
uma infância comum,
num contexto relativo.
Perdi-os nos caminhos da vida
mas espero ainda revê-lo grande,
no futuro.
595
Maria Inês Gambogi
Com um pouco menos de liberdader
Com um pouco menos de liberdade
não se capta a translucidez da vida.
Com um pouco a mais de ilusão
as vida é árida.
Com um pouco mais de hipocrisia
a vida fere a qualquer momento.
Com um olhar de soslaio
a vida não ocorre em nossa existência.
Com opiniões de formação perene
a nossa vida não sai para além de si mesma.
Um naco a mais de frustração
e a vida enm nos roça!
Com os nossos próprios desejos à frente
e a vida de ninguém nos interessa.
No cotidiano de nossas impessoalidades
impurezas e lamentos
a vida surge de dentro de nossa inocência
quando nos perdemos de vista
e vivemos todas as peles ganhando uma delicadeza
sem nome e sem vizinho.
Sem poesia
e a vida não vai.
não se capta a translucidez da vida.
Com um pouco a mais de ilusão
as vida é árida.
Com um pouco mais de hipocrisia
a vida fere a qualquer momento.
Com um olhar de soslaio
a vida não ocorre em nossa existência.
Com opiniões de formação perene
a nossa vida não sai para além de si mesma.
Um naco a mais de frustração
e a vida enm nos roça!
Com os nossos próprios desejos à frente
e a vida de ninguém nos interessa.
No cotidiano de nossas impessoalidades
impurezas e lamentos
a vida surge de dentro de nossa inocência
quando nos perdemos de vista
e vivemos todas as peles ganhando uma delicadeza
sem nome e sem vizinho.
Sem poesia
e a vida não vai.
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