Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Luiz Nogueira Barros
Breves palavras sobre a poética deAntonio Massa
Antônio Massa me faz senti-lo como uma espécie de poeta do desencanto, no tocante ao seu canto e suas queixas sobre a condição humana. O poema Cartesianos é o mais expressivo dos versos que eu li. Nele o racionalismo é ponto de partida, e dentro do qual está, com toda a clareza, uma grande queixa, uma ode, um hino e, finalmente um manifesto pela liberdade, a liberdade que exigiria romper com os laços do convencionalismo racionalista das coisas institucionalizadas. Importa pois, sair das formas geométricas dentro das quais estamos perdidos, engradados, resignados a um teorema.
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
1 000
Luiz Nogueira Barros
Breves palavras sobre a poética deAntonio Massa
Antônio Massa me faz senti-lo como uma espécie de poeta do desencanto, no tocante ao seu canto e suas queixas sobre a condição humana. O poema Cartesianos é o mais expressivo dos versos que eu li. Nele o racionalismo é ponto de partida, e dentro do qual está, com toda a clareza, uma grande queixa, uma ode, um hino e, finalmente um manifesto pela liberdade, a liberdade que exigiria romper com os laços do convencionalismo racionalista das coisas institucionalizadas. Importa pois, sair das formas geométricas dentro das quais estamos perdidos, engradados, resignados a um teorema.
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
1 000
Luiz Nogueira Barros
Breves palavras sobre a poética deAntonio Massa
Antônio Massa me faz senti-lo como uma espécie de poeta do desencanto, no tocante ao seu canto e suas queixas sobre a condição humana. O poema Cartesianos é o mais expressivo dos versos que eu li. Nele o racionalismo é ponto de partida, e dentro do qual está, com toda a clareza, uma grande queixa, uma ode, um hino e, finalmente um manifesto pela liberdade, a liberdade que exigiria romper com os laços do convencionalismo racionalista das coisas institucionalizadas. Importa pois, sair das formas geométricas dentro das quais estamos perdidos, engradados, resignados a um teorema.
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
O racionalismo, então pré-racionalismo, com Santo Agostinho, em "A Cidade de Deus", estava assim expresso, no século III : "Intelligas ut creda; credi ut intelligas"( Ver para crer, crer para compreender). Mas tarde o santo diria " Se eu me engano é porque sou, pois quem não se engana não é" , num rompante próprio dos padres filósofos, da filosofia patrística que procurava explicar Deus não mais à luz dos dogmas e sim de um entendimento racional. René Descartes, século XIV, retoma as perquirições agostinianas e, com o " Penso, logo existo" ( Cogito, ergo sum ), passa à história como o criador do racionalismo, face aos seus conhecimentos das ciências matemáticas...
O racionalismo, portanto, foi apenas a busca das dimensões reais das coisas, quando a humanidade ainda se debatia entre a mitologia, a religião e as ciências. E não poderia ter nada a ver com convencionalismo, muito mais um categoria sócio-político e elemento fundamental das sociedades humanas que nos contiveram em números, datas, e um código de obrigações, forçando a que o poeta, angustiado, afirme em "Firma Reconhecida", com todos tons e matizes da alma que busca o sentido do existir, do homem que busca um papel humano, ou humanístico:
Está tudo no papel
e em todos os papéis
homens carimbados
buscando papel de gente.
Mas Antonio Massa, em Cartesianos, abre fogo contra o racionalismo
Por demais acartesianados
não distinguimos o espírito
despido de números ou códigos.
E segue :
Nem entendemos que o silêncio
foi criado a fim de ouvirmos seu doce pranto.
E prossegue falando das nossas preocupações sobre quantos raios o sol emite ou de quantos pelos há na pubis; da nossa incapacidade de separarmos o homem do lobisomen que há dentro de nós, insensível e incapaz de conceder, conceber, perdoar, empreender, etc, no tocante a certas necessidades e relações entre seres humanos, por vezes não institucionalizadas e por isto estranhas e condenadas...
Num crescendo, Antonio Massa pretende dar por encerrada sua queixa quando nos afirma:
Estamos esperando
que a praia seque
e o mar se vá
para sentarmos, então, ao nada
e queixarmos academicamente
- Onde foi que erramos a conta ?
Quando imagino que o poema lembra uma ode á liberdade, lembro-me de Max Nordau, que escreveu sobre as mentiras convencionais do século XX. E até mesmo de Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que desteta os que se escondem por detrás de uma estrela e não lutam pela terra...
Quando tudo parece estar finalizando, então, Antonio Massa dá uma receita de como encerar o homem, na verdade a sua vaiade, o seu egoismo, a sua pretendida identidade, no fundo mesmo a sua caricatura, em Instruções para se Encerar um Homem. E depois de muitas peripécias chega ao topo do homem, a cabeça, afirmando:
Ao chegar ao topo,
deve-se abrir a caixa
e sujar o homem com seu
conteúdo
e quando
depois de ofuscada a cera
teremos um homem perfeito.
...o que o poeta parece nos querer dizer, que o brilho, o polimento dado no homem tanto pode ser efêmero como necessário, por vezes, que a caricatura do homem que somos e temos sido é algo incômodo.
Mas quando menos se espera que o tema está terminado Antonio Massa nos informa, em Não há vagas, que o homem continua procurando vagas ( espaço ) em todos os lugares:
...nas casas, nas mágoas
no ofício de gente
no prato do irmão.
...nos muros , na arte
e nos arremates
de vida e de sorte.
...apesar de tudo, numa fatalidade dramática, se não estiver enganado. Mas agora um certo "darwinismo social" toma conta do tema do poeta
porque, feliz ou felizmente
...os senhores da Ordem
justos e prestos
buscam informatizar
as alas do inferno.
...impedindo-nos mesmo de uma morte tranquila...
O que há de belo nos poetas e nas poesias são as suas afirmativas e negativas, as suas contraposições metafísicas, mas, de repente, a espiral dialética que lhes permitem sair no outro lado do túnel.
Continuo acreditando no Zaratustra, de Nietzsche, quando nos afirma que às vezes é preciso termos o caos dentro de nós para darmos à luz uma estrela cintilante.
Pode ter sido, não sei, o caos que Antonio Massa vê em torno do homem o motivo para que ele desse ao mundo a sua estrela cintilante, sob forma de poesia.
Quem sabe,finalmente, e também, não lhe moveu, inconscientemente, a alma de Gonçalves Dias, o poeta guerreiro que o convocou para não se intimidar diante do mundo e do homem, ordenando-lhe denunciar as prefigurações do ente que está mais próximo dele mesmo e sobre o qual ele tem algumas dúvidas...
O mundo é assim mesmo, meu caro poeta. Mas apesar de tudo estaremos sempre a sair do outro lado do túnel. E você saiu, com sua poesia, apesar das "dores do mundo", do melancólico mas extraordinário Schopenhauer...
Quando Nietzsche, do "Ecce Homo", trata do homem no tocante à "vontade do advento" nos afirma, categoricamente: "...aquilo que não o aniquila, torna-o bem mais forte..."
O advento da poesia, em sua vida, meu caro poeta, é a sua estrela cintilante.
Vá em frente...
Luiz Nogueira Barros
1 000
Luiz Nogueira Barros
Eu
Eu sou aquele
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.
Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...
Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...
O JORNAL - 14.04.96
das esperanças eternas:
peregrino entre a humanidade,
com mão de carícias
plantando sementes de sonhos.
Pedinte das ruas
vejo as pessoas:
de olhares aflitos,
de passos trôpegos,
de ouvidos magoados,
de almas dilaceradas,
de corações partidos,
e ainda lhes suplico
irem adiante
que a vida é tênue
e denso é o sonho !...
Eu sou aquele
que sempre chega
e que sempre parte
de mão vazias
sem ver os frutos
do seu trabalho :
- sou a utopia !...
O JORNAL - 14.04.96
948
Leandro Nogueira Monteiro
TEL AVIV, 05-11-95
Por que morrem as pombas da Paz?
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?
Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.
Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.
O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?
Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.
Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.
O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...
965
Leandro Nogueira Monteiro
TEL AVIV, 05-11-95
Por que morrem as pombas da Paz?
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?
Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.
Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.
O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...
Por que são elas devoradas pelas serpentes?
Será que dessa Paz tem pavor
Aqueles que lutam em guerras de sangue?
Canta hoje o mundo a canção da dor
A mesma canção que ontem glorificou a Paz,
Embutida num aperto de mãos,
A mesma que amanhã adorará uma memória.
Choram-se hoje os risos de ontem
A perda, não de mais uma pomba, mas dum ninho,
De um vitorioso, que trazia consigo
O dom de ser o que era.
O mundo hoje diminuiu seu exército,
Perdeu um batalhão bem disfarçado de soldado.
Adeus, Yitzhak Rabin, guerreiro sem guerra.
Pomba, voa mais alto...
965
Luis Manoel Paes Siqueira
Telegrama Urgente para Solange Siqueira
Um dia você recebeu
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.
(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)
O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.
Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)
Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.
"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"
As suas mãos revidaram
criando flores de prata.
Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.
Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.
Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:
- Eu levo a boneca comigo.
Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
uma boneca suíça
e resolveu que com ela
jamais iria brincar.
(Ela era bonita demais
diante dos outros brinquedos)
O tempo passou e lhe fez
boneca mais que suíça
Aquela menina morena
que adorava cantar.
Mas Deus mudou seu caminho
brincando de marionete
(Que dados estranhos ele joga
no jogo que só ele ganha?)
Nublaram as suas idéias
do sonho de ser feliz
e os cães paramentados
fecharam as portas dos templos.
"Aqui não pode ficar
quem faz o livre-pensar
e pra poder frequentar
somente usando o crachá"
As suas mãos revidaram
criando flores de prata.
Agora o jogo termina
e como sempre acontece
o vencedor se recolhe
ao seu silêncio profundo.
Escuta um conselho do amigo:
não entre no céu loteado
do clero esclerosado.
Procure um planeta florido
e um anjo assim distraído
que saiba tocar violão
e espera por teu irmão:
- Eu levo a boneca comigo.
Notas Explicativas (Ao modo Soares Feitosa)
1. Numa viagem de meu pai àquele país, deu-lhe uma boneca belíssima.
2. Solange, assim como a boneca, também era.
3. Deus brinca de boneca com a gente e com "dados viciados".
4. A boneca e a dona se confundem. Só que uma canta e é moreninha.
5. Aos vinte e três anos, solange apresentou problemas psiquiátricos graves Esquizofrenia. Mesmo assim, terminou o curso de Arquitetura e noivou com um amigo de infância. Mas eu e ela, desde os 17, havíamos deixado de frequentar igrejas protestantes. Por pedido de meu pai, ela voltou a essas igrejas para casar lá, mas elas se recusaram pelo fato de termos nos afastados. (Meu avô era pastor presbiteriano e construiu várias igrejas no sertão — veja a ironia).
6. Solange por muitos anos desenhou jóias e ficou muito conhecida no Recife como designer.
7. Agora, a morte. E o vencedor se recolhe...
1 142
Luiz Moraes
A Morte de Nel
Virgem santa ignorância
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
1 043
Luiz Moraes
A Morte de Nel
Virgem santa ignorância
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
1 043
Luiz Moraes
A Morte de Nel
Virgem santa ignorância
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
onde só viram o ABC,
De doença estoporada
Muitos lá vivem a morrer.
Foi mais um fato concreto
Pois muitos viram de perto
o que aqui vou descrever.
Lá pras bandas onde nasci
Morava um NEL bom de cana,
Uma mulher e três filhos
Em uma pobre choupana.
Se houvesse todo dia
Aguardente ele bebia
Como achava isso bacana.
Um dia uma simples febre
Causando-lhe alguma dor,
Falaram logo é mulesta
Com o ramo de estopor,
Se escapar fica imperfeito
Aí só pode dar jeito
Se for um bom benzedor.
Vá chamar seu Filomeno
Pra benzer não tem melhor,
Tem também João Cachoeira
Que curou a minha vó,
Corre depressa menino
Se não achar trás Orcino
Que o homem já está pior.
Um dos mateiro confirma
Isso é mulesta do ar,
Só cristé de pino roxo
Bota água pra mornar
Enquanto o remédio apronta
Azeite e dez pílula contra
Dão logo pra ele tomar.
Depois de tudo tomado
Ele foi se esmorecendo,
Todo comê vinha fora
E a barriga crescendo,
Deram outra misturada
Não demorou a zoada
Meu Deus, o NEL tá morrendo!
E assim muitos perecem
Enganados pela crença,
Sob o mal sem lenitivo
Onde a cura é uma sentença.
De purgante e de cristé
Intoxicaram mané
Sem acertar com a doença.
1 043
Luiz Nogueira Barros
Obs:
Obs: sou médico. Escrevo nos jornais alagoanos, sobre temas de pol[itica internacional, maioria das vezes com páginas inteiras. Consócio efetivo do Instituto Histórico e Geográfico de Alagoas. Tenho dois livros publicado: "A Solidão dos Espaços Políticos", um ensaio sobre a história alagoana e suas implicações com a política nas décadas de 30 a 50, com revisão sobre o Ciclo dos góis Monteiro; e "O que se passa com o rei", uma fábula sobre a guerra, publicada no Rio de Janeiro. Aguardo publicação de outro livro "Crise do Pensamento", já aprovado pela Universidade de Alagoas.
Selecionei 5 poemas, como amostragem.
Desejo assinar o seu Jornal de Poesia. Indiquei a sua Home Page para Eduardo Bomfim, futuro secretário de cultura do município. Estou fazendo isto com relação a outros colegas da atividade intelectual, sobretudo os poetas.
Cordialmente
Luiz Nogueira Barros
Selecionei 5 poemas, como amostragem.
Desejo assinar o seu Jornal de Poesia. Indiquei a sua Home Page para Eduardo Bomfim, futuro secretário de cultura do município. Estou fazendo isto com relação a outros colegas da atividade intelectual, sobretudo os poetas.
Cordialmente
Luiz Nogueira Barros
925
Leopoldo Neto
Noite de Natal
Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
948
Leopoldo Neto
Noite de Natal
Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
948
Leopoldo Neto
Noite de Natal
Cidades enfeitadas
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
Luzes multicores acesas
Parecendo passeata de princesas !...
Chego num clube elegante,
Vislumbro crianças ,
Com as mãos abarrotadas de brinquedos,
Mesas com variadas bebidas,
Adornadas de guloseimas !...
Crianças alegres,
Cantando músicas de Natal ,
Adultos
Se abraçando e se beijando ,
Todos falando : Feliz Natal , Feliz Natal !...
Chego num bairro de periferia,
Vejo pais e mães, carregando tristezas,
Vítimas das incertezas
Do hoje e do amanhã !...
Crianças famintas, sem nenhum brinquedo,
Até quando continuará ? Até quando ?...
Perguntem às princesas.
948
Leão Moysés Zagury
Somália
Somália; terra sem dono,
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
1 158
Leão Moysés Zagury
Somália
Somália; terra sem dono,
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
infinita luta rubra,
vertente de rio desumano.
Cidades ao léu,
descrevem os horrores
da guerra.
Lutas fratricidas
arrancam a seiva da vida.
Guerra!
Oh! antropofagia moderna!
Homens sem rostos
deixados à mingua
de fome.
Guerreiros
secam esperanças,
matam de fome.
Somália sem dono,
extingue-se...
Somália
agoniza!
1 158
João Linneu
Espanha
Que quero eu do Sul da Espanha?
As neves eternas da Sierra Nevada.
As videiras das suas vertentes.
O balir de suas ovelhas.
O olíveo odor de seu azeite.
As águas de suas nascentes.
O olvidar do Hotel Ovídeo?
Que quero eu do Sul da Espanha?
O amor único de suas mulheres.
O justo orgulho de seus homens.
A fúria elegante de seus touros.
A luz do seu sol.
O azul do mar andaluz.
Que quero eu do Sul da Espanha?
A esperança transatlântica dos meus avós.
O sustento da miga em minha pança.
O descer do vinho por minha goela.
O desafiar moinhos de vento.
O ninar de minha abuela.
Que quero eu do Sul da Espanha?
Atávica fúria ibérica,
saudade avoenga
que me faz perder o norte
pelo Sul da Espanha!
As neves eternas da Sierra Nevada.
As videiras das suas vertentes.
O balir de suas ovelhas.
O olíveo odor de seu azeite.
As águas de suas nascentes.
O olvidar do Hotel Ovídeo?
Que quero eu do Sul da Espanha?
O amor único de suas mulheres.
O justo orgulho de seus homens.
A fúria elegante de seus touros.
A luz do seu sol.
O azul do mar andaluz.
Que quero eu do Sul da Espanha?
A esperança transatlântica dos meus avós.
O sustento da miga em minha pança.
O descer do vinho por minha goela.
O desafiar moinhos de vento.
O ninar de minha abuela.
Que quero eu do Sul da Espanha?
Atávica fúria ibérica,
saudade avoenga
que me faz perder o norte
pelo Sul da Espanha!
877
João Linneu
Espanha
Que quero eu do Sul da Espanha?
As neves eternas da Sierra Nevada.
As videiras das suas vertentes.
O balir de suas ovelhas.
O olíveo odor de seu azeite.
As águas de suas nascentes.
O olvidar do Hotel Ovídeo?
Que quero eu do Sul da Espanha?
O amor único de suas mulheres.
O justo orgulho de seus homens.
A fúria elegante de seus touros.
A luz do seu sol.
O azul do mar andaluz.
Que quero eu do Sul da Espanha?
A esperança transatlântica dos meus avós.
O sustento da miga em minha pança.
O descer do vinho por minha goela.
O desafiar moinhos de vento.
O ninar de minha abuela.
Que quero eu do Sul da Espanha?
Atávica fúria ibérica,
saudade avoenga
que me faz perder o norte
pelo Sul da Espanha!
As neves eternas da Sierra Nevada.
As videiras das suas vertentes.
O balir de suas ovelhas.
O olíveo odor de seu azeite.
As águas de suas nascentes.
O olvidar do Hotel Ovídeo?
Que quero eu do Sul da Espanha?
O amor único de suas mulheres.
O justo orgulho de seus homens.
A fúria elegante de seus touros.
A luz do seu sol.
O azul do mar andaluz.
Que quero eu do Sul da Espanha?
A esperança transatlântica dos meus avós.
O sustento da miga em minha pança.
O descer do vinho por minha goela.
O desafiar moinhos de vento.
O ninar de minha abuela.
Que quero eu do Sul da Espanha?
Atávica fúria ibérica,
saudade avoenga
que me faz perder o norte
pelo Sul da Espanha!
877
Leny Mara Souza
Salvem-se
Não quero ser destruída pelo tempo
O tempo é constituído
Por seres humanos,
Na maioria insensíveis e corruptos
... Num processo de auto destruição
O tempo é constituído
Por seres humanos,
Na maioria insensíveis e corruptos
... Num processo de auto destruição
1 007
Luiz Moraes
Limites
Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
974
Luiz Moraes
Limites
Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
974
Luiz Moraes
Limites
Vi sofrendo
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
Outro irmão
Em busca de pão e amor
Na rua deserta
Igual a um profeta
Ou um bicho qualquer
Mais bicho não o é
No céu já não pensa
Perdeu sua crença
No pátio da Sé
Nem um trocado
Sapato furado
E agora como é?
A fome lhe dói
O rato lhe rói
É um bicho ou não é?
Tem medo do escuro
Queria ser duro
Como foi José
No lixo sua mesa
A gula indefesa
Para saciar
Engole impurezas
Vomita tristeza
E começa a chorar
Cheguei mais perto
Para ver de certo
Se aquilo era um cão
Era um homem sem colo
Caído no solo
Dos homens sem mãos
974
Luís Inácio Araújo
Agreste
Não mais recuo:
o que escrevo é escassez e fendas,
é contra esse modo reto e seguro de escrever
que escrevo
— em desaprumo.
Bebo o gosto travado desse poema
numa cobiça de ser dito:
um laivo de sangue escorre de minha boca.
O processo vital subsiste ainda na artéria,
a manhã poluída prossegue sua lenta engrenagem,
seu incêndio diário, sua assimetria
— apesar do azinhavre no garfo
do pêndulo,
do cotidiano cigarro
igual ao trabalho noturno da morte num corpo.
Mas pra nomear o que respira secretamente
por trás dessa vida de veias nervos assombros penhoras
e sofre desfiladeiros poços terrenos baldios,
a mais inexplicável vertigem
— nenhuma palavra é possível:
nenhum selo.
o que escrevo é escassez e fendas,
é contra esse modo reto e seguro de escrever
que escrevo
— em desaprumo.
Bebo o gosto travado desse poema
numa cobiça de ser dito:
um laivo de sangue escorre de minha boca.
O processo vital subsiste ainda na artéria,
a manhã poluída prossegue sua lenta engrenagem,
seu incêndio diário, sua assimetria
— apesar do azinhavre no garfo
do pêndulo,
do cotidiano cigarro
igual ao trabalho noturno da morte num corpo.
Mas pra nomear o que respira secretamente
por trás dessa vida de veias nervos assombros penhoras
e sofre desfiladeiros poços terrenos baldios,
a mais inexplicável vertigem
— nenhuma palavra é possível:
nenhum selo.
868
João Linneu
Cana
É o começo da safra o corte na pernabote de jararacaguizo de cascavel.
É o frio da madrugadaa azia da tardecalor dos infernosa garapa gelada.
É o moer da moendaa pinga benditao ganho do donogavião de atalaia.
É a dor nas costasventania no rostorabeira de caminhãoo barranco da estrada.
É no fio do facão bagaço da canatouceira de socaaçúcar mascavo.
É a fumaça nos olhosfuligem no arum golpe de vento cheiro do restilo.
É a menina em casavelando a caçulaa doçura da canao travo da pinga.
É o suor escorrendoa vida vertendoa moenda moendoa cãibra da noite.
É o pouco sonocagando na moitao choro do filhoamando em silencio.
É a cachaça diária o tapa na filhao ranho do netopileque de domingo.
É uma curva de nívelestrepe na mãoum caco de dentepedaços de gente.
É um jeito de corpochuva de ventoo barro vermelho ruflar de lagarto.
É o bicho-de-péo coró da madeirapedra de fogochuva de estrelas.É o olho-dáguaum pé de ventoo fogo de encontro a coivara.
É uma manga de veza broca da canao berne na carneo sol no cangote
É a saudade, é a saudade da lida com porcodo ciscar da galinhada horta de couveda polenta em feta é a saudade, é a saudadeda panceta da porcada canga do boida pamonha na palhada canjica da tardeé a saudade, é a saudadedo leite de éguada curva do rioda prosa da noite do pé-de-molequeé a saudade, é a saudadedo fumo de corda pão de torresmo do borralho do fornoreza e catira.é a saudade , é a saudade.
É o frio da madrugadaa azia da tardecalor dos infernosa garapa gelada.
É o moer da moendaa pinga benditao ganho do donogavião de atalaia.
É a dor nas costasventania no rostorabeira de caminhãoo barranco da estrada.
É no fio do facão bagaço da canatouceira de socaaçúcar mascavo.
É a fumaça nos olhosfuligem no arum golpe de vento cheiro do restilo.
É a menina em casavelando a caçulaa doçura da canao travo da pinga.
É o suor escorrendoa vida vertendoa moenda moendoa cãibra da noite.
É o pouco sonocagando na moitao choro do filhoamando em silencio.
É a cachaça diária o tapa na filhao ranho do netopileque de domingo.
É uma curva de nívelestrepe na mãoum caco de dentepedaços de gente.
É um jeito de corpochuva de ventoo barro vermelho ruflar de lagarto.
É o bicho-de-péo coró da madeirapedra de fogochuva de estrelas.É o olho-dáguaum pé de ventoo fogo de encontro a coivara.
É uma manga de veza broca da canao berne na carneo sol no cangote
É a saudade, é a saudade da lida com porcodo ciscar da galinhada horta de couveda polenta em feta é a saudade, é a saudadeda panceta da porcada canga do boida pamonha na palhada canjica da tardeé a saudade, é a saudadedo leite de éguada curva do rioda prosa da noite do pé-de-molequeé a saudade, é a saudadedo fumo de corda pão de torresmo do borralho do fornoreza e catira.é a saudade , é a saudade.
951