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Poemas neste tema

Sociedade e Mundo

Christiano Nunes Fernandes

Christiano Nunes Fernandes

Cinco sonetos para um passarinho

I

SEM desvelo nenhum pelo ecológico
- antes pensando tudo por amor -
o pássaro deixou-se, por ilógico,
aprisionar-se todo, até a cor

dourada da plumagem, mais o verde
dos seus olhos e mais o que ele era:
pássaro alado de desejo e sede.

Depois, acomodado na gaiola,
imaginou-se cravos e viola
e pôs-se a fiar o tempo em seus teares...

Até que em certa tarde morna viu-se
pairando além, e livre pressentiu-se
se reofertando à festa dos pomares.
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II

O MAR, o mar imenso era um brinquedo
e o céu distante era um azul deserto.
Seus olhos eram como longos dedos
trazendo as longitudes para perto

das ânsias de suas asas que, em segredo,
o vôo libertavam para um certo
espaço já perdido e desde cedo
roubado de seus sonhos mal despertos.

Cativo, agora, o pássaro modula
uma canção plangente que se ondula
nas harpas da manhã e, então, se evola

em árias e sonatas e se perde
pelo deserto azul e pelo verde
mar, alheios ao pássaro e à gaiola.

III

POSTO que do mar não seja
e seja ave de pomar
pelo mar sempre ela adeja
ela é louca pelo mar.

Pelas naves da manhã
ela faz sua viagem
enquanto a ardente romã
do sol lhe doura a plumagem.

Viaja mesmo na areia...
E quando faz maré cheia,
há ventos fortes, marola,

ela que é ave campestre
com destino terrestre
sonha com o mar na gaiola.

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IV

DE DOURADO fez-se azul
naquela manhã, o pássaro.
Ou foram ventos do sul
que de repente perpassam

pelas paisagens que habita,
ou foi uma certa aragem
que em certas horas transita
e muda a cor da plumagem.

E em frio azul transmudado
pôs azul no seu trinado
e o mundo inteiro azulesce...

revestindo a corda dourada
nos clarins da madrugada.

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V

SENTIR meus dedos entre as suas penas,
tatear meus olhos pelos seus segredos
é esse o jogo a que me entrego, apenas
o pássaro diviso em em seus degredos

aéreos, no altiplano de concreto,
em cujo frio chão nada germina
além de sombras e seu vulto incerto
que se divisa de uma esquiva esquina.

Onde no chão os grirassóis florescem.
Nos braços da manhã ele amanhece
adeja leve e nada lhe sofreia

o vôo dourado em direção do mar.
E redivivo deixa-se pousar,
se entrega ao sol e se desfaz na areia.

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Sosigenes Costa

Sosigenes Costa

Case Comigo, Mariá

Case comigo, Mariá,
que ou te dou, Mariá,
que ou te dou, Meriá,
meu coração.

(Cantiga de roda)

O mar também é casado,
o mar também tem mulher.
É casado com a areia.
Dá-lhe beijos quando quer.

(Quadra popular]

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?
Se até o peixlnho é casado...
Não sabes que o mar é casado
com uma filha do rei?
Mariá, o mar é casado
com a filha loura do rei.
Mariá, por que não te casas
se o próprio mar é casado?

Ouem é a mulher do mar?
É a sereia?
É a areia, Mariá.
É a princesa dos seios de concha.

Mandei ao mar uma rosa, Mariá,
porque ele vai se casar.
O mar pediu que a sereia, Mariá,
viesse me visitar
e agradecer o presente.
Ouando foi isto? No passado, Mariá.

Sabes que fez a sereia, Mariá?
Deu-me um punhado de areia;
esta cidade de areia,
nossa terra, Mariá.

Aquela moça da praia, Mariá,
é namorada do mar.
Só vive olhando pra as ondas
e o mar vive a suspirar.

Aquela areia da praia
veio do Engenho de Areia, Mariá.
Que bela é a mulher do mar,
em cima daquela coroa!

Areia da Pedra Branca
desceste o rio correndo.
Tu viste a Ilha das Pombas,
ah! tu viste Mariá.

Adeus, Coroa da Palha,
que eu vou aos tombos da sorte,
rolando aos tombos da vida,
caindo e me levantando.
Só me salvo se cair
nos braços de Mariá.

Donde viria esta areia?
Da serra da Pedra Redonda.
Veio de Minas, Mariá,
rolando no Rio das Pedras
e só entrou na Bahia
quando passou dando um pulo
na cachoeira do Salto.

Deu um pulo no Salto Grande
a areia, a mulher do mar.
Em cima do Salto, está Minas.
Embaixo do Salto a Bahia.
Lá em cima a água é mineira,
caindo embaixo é baiana, Mariá.

Ah! como é linda esta roda
às sete horas da noite,
à hora em que a lua cheia
acabou de sair do mar,
iluminando Belmonte
com todas as suas ruas de areia.

A lua nasce chorando
lágrimas de prata na areia.
Apanhem numa redoma este pranto,
guardem bem guardada esta jóia
que um dia será adorada.
É a lágrima azul da saudade.
Que foi? O que teve? Nada.
Apenas uma lágrima salgada
caiu dos meus olhos na areia.

Marlá, por que não te casas?
Me diga; por que não te casas
comigo, se eu quero te dar,
se eu quero te dar, Mariá,
num beijo o meu coração?

Crianças cantando roda
nas ruas brancas da areia,
naquelas ruas tão longas
como as estradas de areia.

Cantando desde a Atalaia
até a Ponta de areia.
Cantando lá na Biela,
na rua do Camba e nas Baixas
e em todas as ruas de areia.

Ah! lá no Pontal da Barra
é que brilha a lua na areia,
nas areias da Barrinha
e na estrada da Barra Velha.
Mariá, por que não te casas?
Se tu casares comigo,
sabes o que te darei, Mariá?
Sabes o que te darei, Mariá?
Quantos beijos tu quiseres,
cem beijos se tu quiseres,
Mariá, meu coração.
Deitado dontigo na areia,
dar-te-ei meu coração.

Não é só o mar que é casado, Mariá.
O peixinho também é casado.
E o passarinho é casado.
Também quero ser casado
mas contigo, Mariá.

Mariá. case comigo,
já que o mar casou com a areia.

Mariá, por que não te casas,
se o mar também é casado?

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Caio Porfírio Carneiro

Caio Porfírio Carneiro

Espelho de Duas Faces

Este livro de Rosani Abou Adal, dividido em segmentos, conforme a abordagem temática dos poemas, guarda aquela conhecida homogeneidade criadora da poeta, tão sutilmente lírica, que já a consagrou perante a crítica e o público.
Tudo que nasce do talento de Rosani é a um tempo perquirição interior e observação aguda da vida; vibração de amor, do instante erótico à sua contemplação quase divinatória; integração da própria alma à Alma da natureza e das coisas, em alcance ecológico que resiste e denuncia o vezo destruidor do homem; clamor de liberdade, no seu sentido mágico e viageiro, que a leva a outras plagas, como à procura de uma unção plena com o próprio universo; vibração do seu carma, seu id e ego maiores e inconscientes, em procura das suas raízes ancestrais, tão vívidas, como se ela própria se envolvesse num tapete mágico para uma visão e vivência amiga junto ao Nilo e às pirâmides do Egito.
A poesia de Rosani Abou Adal, toda ela, das curtas às maiores, é igualmente um espelho de duas faces, para além do que possa ela ter de multifacetada: é fotográfica e contemplativa. Ou seja: é ela mesma, poeta, e a projeção de si, não com vistas a uma imponderável continuidade da própria vida, mas um quê de busca do amor totalizante, que é, ou há de ser, a solidão somada às inquietações do mundo. O amor, aqui, é erotizante e dadivoso. A solidão, aqui, não se anula em devaneios. Há sempre um caminho de fuga. Rosani, ao mesmo tempo que expõe e mostra, contempla, sublima, vai e vem, mas sem tergiversação.

Presa no meu dormitório
tento dividir a solidão com o peixe
cercado de paredes de vidro.

Auto-retrato, um dos segmentos, não é só a visão e confissão de si própria. Soma-se a isto o que antes foi exposto na abordagem da sua poesia em conjunto.

Estou tão só dentro de mim
que até as estrelas emudeceram.

A metáfora estelar assinala a solidão sofrida e lhe dá o anteparo para que ela, poeta, por mais que se veja só, deixe entreaberta uma visão plena de vida. É que, por outro lado, o seu veio romântico é forte, chegando, às vezes, àquela fulguração só alcançada pelos bons poetas.
Todos os blocos seguem este ritmo notável de contensão e espiralação poética. Como ela própria diz: "Sou uma eremita que divaga nas ruas, / bares, matos, casas, em todos os lugares/ nos dias sem sol, nas noites sem luar e estrelas/ em busca das belezas da vida e da alma."
Rosani parece solfejar canções, espargir oferendas, com a mesma leveza dalma como vai à denúncia com o aríete e o látego. Há um pouco de magia nisto. Há um pouco de mistério invisível nestes poemas. Há um pouco de prece. Há uma totalização de vida.
A Vida exsurge plena nestes poemas de versos notáveis, treliçados de Amor latejante:

No amanhecer, ao meio-dia,
no entardecer, no silêncio da noite,
a todo instante, a cada segundo
beijo tua face, mãos, boca...

E da fragilidade vai em busca da força cósmica:

Há momentos em que me sinto
tão forte quanto as montanhas do Tibet...

Existem instantes em que sou
tão grande quanto a força divina...

Temos, nesta Catedral do Silêncio, não só silêncio ( no seu sentido metafórico), nem só sonhos (como sugeriu o Poeta), mas uma nave ampla de pulsações poéticas que vão à alma de qualquer leitor.

Leia obra poética de Rosani Abou Adal

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