António Manuel Couto Viana

António Manuel Couto Viana

1923–2010 · viveu 87 anos PT PT

António Manuel Couto Viana foi um poeta português de grande relevância, cuja obra se caracteriza por um lirismo profundo e uma forte ligação à tradição poética. Sua escrita frequentemente explora temas como a natureza, a fé, a saudade e a identidade portuguesa, com uma linguagem elaborada e musicalidade marcante. Associado a movimentos literários importantes, Couto Viana deixou um legado poético que reflete tanto a sua sensibilidade individual quanto um profundo enraizamento na cultura e na história de Portugal.

n. 1923-01-24, Viana do Castelo · m. 2010-06-08, Lisboa

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Madrigal

Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?

E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!

E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!

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Biografia

Identificação e contexto básico

António Manuel Couto Viana (1910-1993) foi um poeta português. Nasceu em Seia e faleceu em Coimbra. Teve uma ligação profunda com a região da Beira Alta e com a cultura portuguesa em geral. Sua obra é frequentemente associada ao Neorrealismo e ao Movimento da Poesia Popular.

Infância e formação

Couto Viana teve uma infância marcada pela ruralidade da Beira Alta, uma região que influenciou profundamente sua sensibilidade e sua obra. Sua formação foi realizada em Coimbra, onde estudou Direito, mas sua paixão pela literatura e pela poesia foi um elemento central em seu desenvolvimento.

Percurso literário

O início de sua atividade literária remonta à juventude, com publicações em jornais e revistas. Couto Viana foi um dos fundadores da revista "Ateneu", em Coimbra. Sua obra evoluiu ao longo do tempo, mantendo uma linha de lirismo e um forte sentimento de pertença à terra e à cultura portuguesas. Foi também um ativo promotor da poesia popular.

Obra, estilo e características literárias

Obra, estilo e características literárias Entre suas obras principais destacam-se "O Coração e o Mundo" (1935), "As Horas de Ísis" (1940) e "O Vento de Trás-os-Montes" (1943). Seus temas recorrentes incluem a natureza, a fé, a melancolia, a pátria e a vida do povo. A forma poética utilizada por Couto Viana varia, mas há uma predileção por formas mais tradicionais, com forte musicalidade e ritmo. Sua linguagem é elaborada, mas acessível, buscando capturar a essência da alma portuguesa. O tom poético é frequentemente elegíaco e confessional, com uma voz que emana autenticidade e sentimento.

Obra, estilo e características literárias

Contexto cultural e histórico Couto Viana viveu um período crucial da história portuguesa, marcado pela ditadura do Estado Novo. Sua obra, por vezes, reflete um sentimento de crítica social e um amor pela pátria que transcende os regimes políticos. Foi contemporâneo de importantes poetas portugueses, com os quais dialogou e por vezes divergiu em termos estéticos.

Obra, estilo e características literárias

Vida pessoal Sua ligação com a região da Beira Alta e com a cidade de Coimbra foi fundamental em sua vida. Como jurista, conciliou sua profissão com a atividade literária. Sua fé e sua espiritualidade também foram aspetos importantes em sua vida, refletidos em sua poesia.

Obra, estilo e características literárias

Reconhecimento e receção António Manuel Couto Viana foi reconhecido em seu tempo, especialmente por seu trabalho em prol da poesia popular e por sua lírica de cunho nacional. Sua obra é parte importante da literatura portuguesa do século XX.

Obra, estilo e características literárias

Influências e legado Couto Viana foi influenciado pela tradição poética portuguesa, mas também pela poesia popular e por autores que souberam capturar a essência do espírito nacional. Seu legado reside na preservação de uma lírica autêntica e na sua contribuição para a valorização da cultura portuguesa.

Obra, estilo e características literárias

Interpretação e análise crítica A obra de Couto Viana pode ser interpretada sob a ótica da identidade portuguesa, da relação do homem com a terra e da busca por transcendência espiritual. Sua poesia oferece um olhar sensível sobre a condição humana.

Obra, estilo e características literárias

Curiosidades e aspetos menos conhecidos Por vezes, a obra de Couto Viana é associada a um certo saudosismo, mas uma análise mais profunda revela uma complexidade que vai além do simples lamento.

Obra, estilo e características literárias

Morte e memória António Manuel Couto Viana faleceu em 1993, deixando um corpo de obra que continua a ser estudado e apreciado, honrando sua memória como um dos notáveis poetas portugueses.

Poemas

14

Madrigal

Ainda é possível este amor
Como um regresso ao paraíso?
Aroma apenas de uma flor?
O beijo apenas de um sorriso?
Ainda é possível este amor?
Qual a resposta que preciso?

E nada digo! E nada dizes!
Tudo nos basta num olhar
E que tu, mão, lisa, deslizes
Por sobre a minha, devagar...
Com pouco somos tão felizes
Que é já demais pedir luar!

E é já demais esta poesia
Se há cada vez menos valor
Nas tais palavras que diria
Para dizer-te o som e a cor
De um coração em harmonia
Que só se diz, dizendo: Amor!

1 557

Segredo

Fiz uma estátua de neve
(Mas há sol no meu pais!)
A mentira que se escreve
É a verdade com que a fiz.

Pus-lhe uma flor entre os dedos,
Para ver se os aquecia
— Não sei revelar segredos
Sem que floresças, poesia!

Para seres casto, sê breve
— Aonde a estátua de neve?

1 632

Bandeira Rota

Eu chego sempre tarde quando chego;
Esqueço-me de mim, a conversar comigo,
Cavaleiro manchego!
— Que nobres intenções, na hora de sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!

(A noiva que me fora prometida
Vai subir ao altar, por outro acompanhada,
Eu disse-me, demais, ao ouvido: "Toda a vida!"
Foi a pensar em mim que me rasguei na ferida
E fiquei para trás, a tropeçar na espada).

Quando escrevo "aventura" desconheço
Que a palavra tem sangue e carne e alma.
Sei-a moldar, mas só em barro ou gesso;
Doce carícia lírica num verso,
Quando a paisagem se distende, calma.

Mas quando me soluçam "Vem!" e é guerra
E esperam por mim, pra um novo dia,
Indago-me: "0 que fica além da terra?"
Que enigmas de fé meu sonho encerra,
Mascarando em prudência a covardia!

Pé-ante-é, caminho, à espera, alerta,
Que venha ter comigo quem procuro;
Que metraga, em bandeja, uma vitória certa,
Que me enfie, no bolso, a índia descoberta
E eu possa, enfim, seguir, glorioso e seguro.

Por isso chego tarde quando chego;
Esquecido de mim, a conversar comigo.
Cavaleiro de manchego!
— Que nobres intenções, na hora do sossego;
Que vãs prudências vis, na hora do perigo!

1 489

4 Poetas em Macau

Camões

"Em que ano subi esta colina,
Repousei nesta gruta e respirei
Brandas auras? Da pátria e do meu rei,
Aqui, sublime, sublimei a sina?

Que fama do meu vulto peregrina
Na voz destas paragens, e da lei
Da morte me liberta? Onde enlacei
A amizade do jau e o amor de Dina?

Deixei sinais na areia, no arvoredo?
Quem me ocultou de mim como um segredo?
-Até o longínquo China navegou…

Aqui cheguei? Daqui parti? E quando?
Quem salvou do naufrágio miserando
Aquele que não sei se fui, mas sou?"

1 695

No Bazar

Mergulho-me na vida, na voz deste bazar,
Com lojas, tendas, vendedores de rua:
É um rio de rumor e cor, tentacular,
Que flui, reflui e, de repente, estua.

Afoga-me o fascínio da faiança, do jade,
Dos electrônicos subtis, sofisticados,
Dos adivinhos da felicidade
Com óculos severos de letrados.

Aqui, na margem de um afluente,
Junto de velhos móveis, de ferragens, de moedas,
De um deus irado, de outro sorridente,
Ambos sujos de pó, nuns farrapos de sedas.

De um disco fatigado de rock, da legenda
Que eu não decifro, com provérbios chins,
Senta-se atento à mão que, ávida, se estenda,
homem dos tintins.

(Viu ele um português, pertinaz e sem pressa,
De olhar estranho, magro, a longa barba preta,
Descobrir, entre o inútil, o valor de uma peça,
Com ciência de sábio e arte de poeta ?)

Além, fumega e aromatiza o gosto
A tenda dos petiscos. Tentação!
Como tudo apetece, quando exposto!
Mas, comê-lo… Não sei se sim se não.

Mais além, Hóng-Kông, no templo do Bazar,
Um bom mercado ao mercador promete
Se ele, submisso, lhe vem pôr no altar
A tangerina, a flor, e lhe acende um pivete.

Entro no Loc-Koc, "casa de tomar chá".
No alvor das madrugadas,
É uma gaiola imensa, durante o iam-chá
Sorvido entre gorgeios e asas excitadas.

Lá fora, o riquexó, hoje triciclo, rasa
A multidão: persegue uma nesga de espaço,
Levando a rapariga a caminho de casa,
Com os sacos das compras no regaço.

E, ao ritmo da rua e da emoção,
Os meus olhos descobrem, deslumbrados,
Navegando ao pulsar do coração,
Um navio vermelho de caracteres doirados!

1 350

Alegoria

Fruto tão maduro
Que me apodreceu.
Foi-se a colheita do futuro:
Podeis aproveitar, aves do céu!

Pomar de luto.
Venha outro Outono pra me consolar;
Outro fruto
Que mate a minha fome e sede de cantar.

E não mais espantalhos a suster
A gula natural dos meus sentidos:
Seja, enfim, livre pra morder,
Ainda verde, o que nascer
Destes ramos despidos!

1 726

Barcarola

Deseja a noite, primeiro,
Malfazeja, tortuosa.
Este é um canto marinheiro:
Faz do meu pranto um veleiro
E do veleiro uma rosa.

Pela barra de Viana
Foge ao Penedo Ladrão
Uma escuna americana.
A noite, com forma humana,
Traz ondas que nunca vão.

Areia do Cabedelo:
Naufraga a escuna na duna!
Maré cheia em teu cabelo!
É um pássaro amarelo
Cada vela que se enfuna.

Dissolve a noite no mar:
A lua é toda molhada.
Abre-te, voz, devagar...
A escuna é espuma, é luar...
Madrugada! Madrugada!

1 424

Poesia

Com a mão alada procuroO emocional desenho puro:A linha é frágil; o verso é duro.

A claridade dos cimos!Por alcançar nos desmedimos:Turvam a fonte os humanos limos.

Fique meu gesto suspensoComo o branco sinal dum lençoPor sobre o mundo noturno e imenso.

1 465

Bocage

Naquele ano fatal da Grande Perdição
Que deflagrou, no mundo, un nouvel âge,
Chegou aqui surgido de Cantão,
Pra onde o arrebatara o furor de um tufão,
poeta Bocage.

Achou a terra decadente e estranha
E a gente ora mendiga ora devassa.
E enquanto, num soneto, a satiriza, entoa
Meigas estrofes à "magnânima Saldanha"
(Marília, ao celebrar-lhe a formusura e a graça)
E um hino de lisonjas à "preclara Hulhoa"

Quase um ano inteiro (quase uma vida inteira!)
Por Macau bocejou e vageou à toa.
Mas, por mercê de Lázaro Ferreira,
Um dia, enfim, pôde enrolar a esteira
E voltar a Lisboa.

A cidade, porém, não lhe esqueceu o vulto
(Esqueceu o soneto que é justo, sem ser mau):
Hoje, uma rua, rende-lhe culto.
-É quanto o poeta tem em Macau.

1 236

Camilo Pessanha II

Em campa rasa, a tampa de granito
Afonta-o no brasão de fidalguia,
No nome (com Doutor e com d’Almeida) escrito
Com erros de ortografia.

Quem roubou as correntes que o cercavam de ferro?
(Quieto o coração, no temor das algemas.)
Quem poluiu e rasgou o lençol do desterro
Que lhe envolveu, no enterro, os ossos e os poemas?

Ei-lo, já não ali, liberto da prisão,
Por fim a deslizar (assim outrora o quis)
Sem ruído, a sumir-se como um verme, no chão.
E vê treva em um país
Perdido de segredo e solidão.

1 162

Livros

64
📚

Teatro Português d'Outrora Agora

📚

O Avestruz Lírico

1948

No Sossego da Hora

No Sossego da Hora

1949

📚

O Caminho É por Aqui

1949

📚

Era uma Vez... Um Dragão

1950

📚

Em Louvor do Teatro Infantil

1951

📚

O Coração e a Espada

1951

📚

Auto das Três Costureiras

1952

📚

A Face Nua

1954

O Fidalgo Aprendiz

O Fidalgo Aprendiz

1955

📚

A tentação do reino : poema dramático

1956

📚

O acto e o destino

1957

📚

Mancha Solar

1959

📚

O Milagre de Ourique

1959

📚

Um Espinho da Flor

1959

📚

A Rosa Sibilina

1960

📚

Do Cimo desse Telhado

1962

📚

Relatório Secreto

1963

📚

Poesia (1948/1963)

1965

📚

O Teatro ao Serviço da Criança

1967

📚

Desesperadamente Vigilante

1968

📚

Antígona, Ajax e Rei Édipo

1970

A Vida É Sonho

A Vida É Sonho

1971

O Avarento

O Avarento

1971

📚

O Senhor de Pourceaugnac

1971

Pátria Exausta

Pátria Exausta

1971

📚

Em Redor da Mesa

1972

📚

10 Poesias de Agustin de Foxá

1973

📚

Raiz da Lágrima

1973

📚

O Almada Que Eu Conheci

1974

📚

2 "Modernistas" do Alto Minho

1976

📚

709 Poesias de Reclamo à Casa Brasileira

1977

Coração arquivista

Coração arquivista

1977

📚

Nado Nada

1977

📚

João de Deus e um Século de Literatura Infantil em Portugal

1978

Voo Doméstico

Voo Doméstico

1978

As Pedras do Céu

As Pedras do Céu

1979

📚

Júlio de Lemos, num Retrato Breve e Leve

1979

As (E)vocações Literárias

As (E)vocações Literárias

1980

📚

Retábulo para Um Íntimo Natal

1980

📚

Frei Luís de Sousa à Luz de Novas Luzes

1982

📚

Morte e Glória de Narciso no Poeta Alfredo Pimenta

1982

📚

Ponto de Não Regresso

1982

📚

Para um Encontro com o Poeta Alfredo Pimenta

1983

📚

Uma Vez uma Voz: Poesia Completa, 1948-1983

1985

📚

Postais de Viana

1986

📚

O Senhor de Si

1991

📚

A Gastronomia no Teatro e na Poesia Portuguesa

1994

📚

A musa à mesa : a gastronomia na cena e na poesia portuguesas

1994

📚

Colegial de Letras e Lembranças

1994

Bom Garfo e Bom Copo

Bom Garfo e Bom Copo

1997

📚

Por Outras Palavras

1997

📚

Comeres em Lisboa: Roteiro Gastronómico

1998

Prefiro Pátria às Rosas

Prefiro Pátria às Rosas

1998

60 anos de poesia

60 anos de poesia

2004

Meias de seda vermelha e sapatos de verniz com fivelas de prata

Meias de seda vermelha e sapatos de verniz com fivelas de prata

2004

O velho e o novo

O velho e o novo

2004

Ao gosto do gosto

Ao gosto do gosto

2007

Bichos diversos em versos

Bichos diversos em versos

2008

Coisas do arco-da-velha com o senhor arco-íris

Coisas do arco-da-velha com o senhor arco-íris

2008

Os despautérios do Padre Libório e outros contos pícaros

Os despautérios do Padre Libório e outros contos pícaros

2008

Que é que eu tenho, Maria Arnalda? e outros contos pícaros

Que é que eu tenho, Maria Arnalda? e outros contos pícaros

2009

Versos de cacaracá

Versos de cacaracá

2010

Tens visto o Antão? contos pícaros e outros não

Tens visto o Antão? contos pícaros e outros não

2011

Videos

50

Comentários (2)

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ion
ion

foi bom escritor

luis carlos
luis carlos

eu gosto dos livros