Poemas neste tema
Sociedade e Mundo
Stéphane Mallarmé
Brise Marine
Brise Marine
La chair est triste, hélas! et jai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
Dêtre parmi lécume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève lancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à ladieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux quun vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots!
La chair est triste, hélas! et jai lu tous les livres.
Fuir! là-bas fuir! Je sens que des oiseaux sont ivres
Dêtre parmi lécume inconnue et les cieux!
Rien, ni les vieux jardins reflétés par les yeux
Ne retiendra ce cœur qui dans la mer se trempe
O nuits! ni la clarté déserte de ma lampe
Sur le vide papier que la blancheur défend
Et ni la jeune femme allaitant son enfant.
Je partirai! Steamer balançant ta mâture,
Lève lancre pour une exotique nature!
Un Ennui, désolé par les cruels espoirs,
Croit encore à ladieu suprême des mouchoirs!
Et, peut-être, les mâts, invitant les orages
Sont-ils de ceux quun vent penche sur les naufrages
Perdus, sans mâts, sans mâts, ni fertiles îlots...
Mais, ô mon cœur, entends le chant des matelots!
3 383
3
William Shakespeare
Trecho de Ricardo II
Acto III, Cena 2
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
4 131
3
William Shakespeare
Trecho de Ricardo II
Acto III, Cena 2
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
4 131
3
William Shakespeare
Trecho de Ricardo II
Acto III, Cena 2
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
RICARDO
Falemos de sepulcros, vermes, epitáfios,
Sejamos pó, e com pluviosos olhos
Inscrevamos tristeza no seio da terra.
Do nosso testamento aqui tratemos.
E para quê? Que temos que testar,
Salvo o deposto corpo entregue ao túmulo?
Tudo que é nosso e a vida a Bolingbroke advém,
E que diremos nosso senão morte nossa
E esta pequena crosta de singela terra,
Que serve só para cobrir os ossos?
Ali, por amor de Deus, sentemo-nos no chão,
Contando histórias tristes da morte dos Reis:
Como têm sido alguns depostos; outros
Caíram em combate, alguns possessos
Pelos fantasmas que deposto haviam;
Outros, envenenados por esposas,
Enquanto outros, dormindo, foram mortos:
Assassinados todos. Pois dentro da Coroa
Que as têmperas mortais de um Rei circunda
Tem sua Corte a Morte, e lá está o Bobo
Zombando de seu Estado, e rindo-lhe da pompa,
Permitindo um suspiro, ou uma cena breve,
Que monarquize, o temam, mate com olhares,
Embebendo-o de estultas presunções,
Como se a carne que muralha a vida
Nos fosse inexpugnável bronze: oh, ilusão!
Quando ela vem por fim, e com um alfinete
Perfura os muros do Castelo... e adeus Rei.
Cobri-vos. Não troceis da carne e osso,
Com reverências solenes. Deitai fora
Respeito, as tradições, as etiquetas,
Porque me haveis julgado o que não sou:
Vivo de pão, qual um de vós. E sinto faltas,
Procuro amigos, sofro dores. Assim sujeito,
Corno podeis dizer-me que sou Rei?
(tradução
de Jorge de Sena)
4 131
3
Al Berto
Horto
homens cegos procuram a visão do amor
onde os dias ergueram esta parede
intransponível
caminham vergados no zumbido dos ventos
com os braços erguidos - cantam
a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades
escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios
adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse
no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios
prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de um fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro.
onde os dias ergueram esta parede
intransponível
caminham vergados no zumbido dos ventos
com os braços erguidos - cantam
a linha do horizonte é uma lâmina
corta os cabelos dos meteoros - corta
as faces dos homens que espreitam para o palco
nocturno das invisíveis cidades
escorre uma linfa prateada para o coração dos cegos
e o sono atormenta-os com os seus sonhos vazios
adormecem sempre
antes que a cinza dos olhos arda
e se disperse
no fundo do muito longe ouve-se
um lamento escuro
quando a alba se levanta de novo no horto
dos incêndios
prosseguem caminho
com a voz atada por uma corda de lírios
os cegos
são o corpo de um fogo lento - uma sarça
que se acende subitamente por dentro.
7 452
3
Manuel Alegre
Canção tão simples
Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
5 228
3
Manuel Alegre
Canção tão simples
Quem poderá domar os cavalos do vento
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
quem poderá domar este tropel
do pensamento
à flor da pele?
Quem poderá calar a voz do sino triste
que diz por dentro do que não se diz
a fúria em riste
do meu país?
Quem poderá proibir estas letras de chuva
que gota a gota escrevem nas vidraças
pátria viúva
a dor que passa?
Quem poderá prender os dedos farpas
que dentro da canção fazem das brisas
as armas harpas
que são precisas?
5 228
3
Bocage
Apenas vi do dia a luz brilhante
Apenas vi do dia a luz brilhante
Lá em Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
Lá em Túbal no empório celebrado,
Em sanguíneo carácter foi marcado
Pelos Destinos meu primeiro instante.
Aos dois lustros a morte doravante
Me roubou, terna mãe, teu doce agrado;
Segui Marte depois, e em fim meu fado
Dos irmãos e do pai me pôs distante.
Vagando a curva terra, o mar profundo,
Longe da pátria, longe da ventura,
Minhas faces com lágrimas inundo.
E enquanto insana multidão procura
Essas quimeras, esses bens do mundo,
Suspiro pela paz da sepultura.
5 885
3
Mário Cesariny
Homenagem a Cesário Verde
Aos pés do burro que olhava para o mar
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!
depois do bolo-rei comeram-se sardinhas
com as sardinhas um pouco de goiabada
e depois do pudim, para um último cigarro
um feijão branco em sangue e rolas cozidas
Pouco depois cada qual procurou
com cada um o poente que convinha.
Chegou a noite e foram todos para casa ler Cesário Verde
que ainda há passeios ainda há poetas cá no país!
4 475
3
Fernando Grade
O povo manda no rio
Aqui estou, doido de gaivotas, no sítio onde
O povo manda no rio, aqui estou
Com Annie nas margens do bucólico rio Almançor.
Agora conheço, sabemos o peso do trigo,
Somos, não, sou, perdão,
Não quero ser perito em almas (em ervas),
Seremos somente, não, serei mestre em cores
E venenos.
Annie, não deixes que o tempo envelheça
Sobre os teus lábios
Que encobrem o mistério mais audaz da minha vida.
É o virar do Verão,
O acrobático cair dos gladíolos.
Todos os venenos estão contados,
Menos aqui onde o povo manda no rio Almançor:
Vieram as alfaias, os punhos de terra ocra
E na terra em sangue, entre o basalto que
Não há e os pássaros, entre as charruas vedras,
O povo mudou o trajecto das águas,
E as águas, Annie, já não são corruptas:
Cheiram a corpo descalço e a mel,
Cheiram a pão.
O povo manda no rio, aqui estou
Com Annie nas margens do bucólico rio Almançor.
Agora conheço, sabemos o peso do trigo,
Somos, não, sou, perdão,
Não quero ser perito em almas (em ervas),
Seremos somente, não, serei mestre em cores
E venenos.
Annie, não deixes que o tempo envelheça
Sobre os teus lábios
Que encobrem o mistério mais audaz da minha vida.
É o virar do Verão,
O acrobático cair dos gladíolos.
Todos os venenos estão contados,
Menos aqui onde o povo manda no rio Almançor:
Vieram as alfaias, os punhos de terra ocra
E na terra em sangue, entre o basalto que
Não há e os pássaros, entre as charruas vedras,
O povo mudou o trajecto das águas,
E as águas, Annie, já não são corruptas:
Cheiram a corpo descalço e a mel,
Cheiram a pão.
1 218
3
Alberto Pimenta
Balada do resplendor deste século
Balada do resplendor deste século
que o resplendor deste século são empolas de água,
e pó sacudido do vento, que todas as cousas da terra têm por fim a terra.
ama ama
ama zonas
certas zonas
miss issipi
ama indo
ama vindo
ama olga
ama volga
ebro ébrio
bramaputra
escalda escalda
gua diana
com apolo
ama dão
e ama deu
ama teu
e ama tua
ama frates
e eufrates
ama núbio
e danúbio
colorido
colorado
ama tejo
ama sena
ama sado
orinoco e tocantim
xingu ural tarim
ama tudo
e por fim
ama pó
ama pó
ama pó
cinza e nada.
que o resplendor deste século são empolas de água,
e pó sacudido do vento, que todas as cousas da terra têm por fim a terra.
ama ama
ama zonas
certas zonas
miss issipi
ama indo
ama vindo
ama olga
ama volga
ebro ébrio
bramaputra
escalda escalda
gua diana
com apolo
ama dão
e ama deu
ama teu
e ama tua
ama frates
e eufrates
ama núbio
e danúbio
colorido
colorado
ama tejo
ama sena
ama sado
orinoco e tocantim
xingu ural tarim
ama tudo
e por fim
ama pó
ama pó
ama pó
cinza e nada.
738
3
Judas Isgorogota
Os que Vêm de Longe
Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
aos que vêm sem rumo certo, como eu vim;
as tempestades é que nos atiram
para as praias sem fim...
Os que vêm de longe, os que vêm famintos,
os que vêm rasgados de dar compaixão,
os olhos parados, os pés doloridos,
pisando saudades calcadas no chão...
Vocês nunca souberam o que é tempestade
na vida de um homem... e nem saberão!
É a seca na mata... é o mato rangendo,
é a terra tostando, virando zarcão...
É a gente morrendo na estrada vermelha
vendo trapos humanos lutando com o pó...
E as levas se arrastam penosas na estrada,
enchendo as estradas de angústia e de dó...
É a gente, sentindo tonturas na alma,
piedade divina dos céus implorar,
e ver que somente uma gota nos brota
dos olhos cansados de tanto chorar...
É o gado morrendo de fome e de sede,
morrendo e mugindo num doido clamor,
e a gente morrendo de sede, e sonhando...
— a gente tem mesmo de ser sonhador... —
sonhando com água, que ao menos o gado
liberte da angústia da sede e da dor...
E os trapos humanos se arrastam rezando,
caindo, chorando,
sofrendo e clamando por Nosso Senhor...
É a gente ter nalma esperanças e sonhos,
viver da ventura dos olhos de alguém,
um dia encontrar a palhoça deserta
e saber que, faminta, arrastando-se além,
aquela que amamos a leva maldita
levou-a também...
É a gente sofrendo de ver a desdita
sorrindo dos homens... Olhar para o céu,
fechar a palhoça e sair pela estrada,
sem rumo, sem nada, dos ventos ao léu...
E o céu lá em cima piscando de quente...
Lá longe a palhoça ficou, triste e só...
Um fiapo de nuvem vem vindo... vem vindo...
e a gente vai indo com os olhos na nuvem,
os pés escaldando na areia e no pó...
Depois, já se sabe... Depois é isso mesmo ...
a gente vem vindo, tal qual como eu vim,
sem Deus, sem destino, sem sorte, sem nada,
até dar à costa num mundo sem fim...
Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
rasgados, famintos de dar compaixão...
os olhos na terra ... os pés doloridos...
pisando saudades calcadas no chão ...
aos que vêm sem rumo certo, como eu vim;
as tempestades é que nos atiram
para as praias sem fim...
Os que vêm de longe, os que vêm famintos,
os que vêm rasgados de dar compaixão,
os olhos parados, os pés doloridos,
pisando saudades calcadas no chão...
Vocês nunca souberam o que é tempestade
na vida de um homem... e nem saberão!
É a seca na mata... é o mato rangendo,
é a terra tostando, virando zarcão...
É a gente morrendo na estrada vermelha
vendo trapos humanos lutando com o pó...
E as levas se arrastam penosas na estrada,
enchendo as estradas de angústia e de dó...
É a gente, sentindo tonturas na alma,
piedade divina dos céus implorar,
e ver que somente uma gota nos brota
dos olhos cansados de tanto chorar...
É o gado morrendo de fome e de sede,
morrendo e mugindo num doido clamor,
e a gente morrendo de sede, e sonhando...
— a gente tem mesmo de ser sonhador... —
sonhando com água, que ao menos o gado
liberte da angústia da sede e da dor...
E os trapos humanos se arrastam rezando,
caindo, chorando,
sofrendo e clamando por Nosso Senhor...
É a gente ter nalma esperanças e sonhos,
viver da ventura dos olhos de alguém,
um dia encontrar a palhoça deserta
e saber que, faminta, arrastando-se além,
aquela que amamos a leva maldita
levou-a também...
É a gente sofrendo de ver a desdita
sorrindo dos homens... Olhar para o céu,
fechar a palhoça e sair pela estrada,
sem rumo, sem nada, dos ventos ao léu...
E o céu lá em cima piscando de quente...
Lá longe a palhoça ficou, triste e só...
Um fiapo de nuvem vem vindo... vem vindo...
e a gente vai indo com os olhos na nuvem,
os pés escaldando na areia e no pó...
Depois, já se sabe... Depois é isso mesmo ...
a gente vem vindo, tal qual como eu vim,
sem Deus, sem destino, sem sorte, sem nada,
até dar à costa num mundo sem fim...
Vocês não queiram mal aos que vêm de longe,
rasgados, famintos de dar compaixão...
os olhos na terra ... os pés doloridos...
pisando saudades calcadas no chão ...
1 837
3
Judas Isgorogota
Os Ipês
Quando o homem, que fora um bom, fechou os olhos
e a alma entregou a Deus, este, num gesto suave,
a recebeu sorrindo. Ele fora na terra
alguém que teve sempre aberta a mão
para o infeliz necessitado,
e, para o sofredor, aberto o coração...
Todo o ouro que tinha, ele, piedosamente,
ia dando de esmola... havia sempre
mãos ressequidas, mas famélicas, nervosas,
pedindo pão...
Foi assim que, ao morrer, tão pobre estava
que só tinha de seu, em frente à casa,
uns modestos ipês, que jamais floresceram,
minguados de folhagem,
enterrados no chão...
— Ele que foi um rico... imaginem... ao menos
que deixasse com que adquirir-se agora
uma mísera cova...
Ouro ele teve, e muito, o maganão!...
Mas, onde está seu ouro? Onde está seu ouro?...
Jogou-o fora, o vilão!"
Assim falavam todos — os parentes
e os amigos,
numa geral condenação...
Eis porém, que ao passar em frente às árvores tristonhas,
O desgraçado morto em seu desgraçado caixão,
num milagre de amor, os ipês começaram
a florir, a encher o céu de pétalas de ouro,
E de ouro, ouro divino, atapetou-se o chão!
e a alma entregou a Deus, este, num gesto suave,
a recebeu sorrindo. Ele fora na terra
alguém que teve sempre aberta a mão
para o infeliz necessitado,
e, para o sofredor, aberto o coração...
Todo o ouro que tinha, ele, piedosamente,
ia dando de esmola... havia sempre
mãos ressequidas, mas famélicas, nervosas,
pedindo pão...
Foi assim que, ao morrer, tão pobre estava
que só tinha de seu, em frente à casa,
uns modestos ipês, que jamais floresceram,
minguados de folhagem,
enterrados no chão...
— Ele que foi um rico... imaginem... ao menos
que deixasse com que adquirir-se agora
uma mísera cova...
Ouro ele teve, e muito, o maganão!...
Mas, onde está seu ouro? Onde está seu ouro?...
Jogou-o fora, o vilão!"
Assim falavam todos — os parentes
e os amigos,
numa geral condenação...
Eis porém, que ao passar em frente às árvores tristonhas,
O desgraçado morto em seu desgraçado caixão,
num milagre de amor, os ipês começaram
a florir, a encher o céu de pétalas de ouro,
E de ouro, ouro divino, atapetou-se o chão!
1 373
3
Judas Isgorogota
Os Ipês
Quando o homem, que fora um bom, fechou os olhos
e a alma entregou a Deus, este, num gesto suave,
a recebeu sorrindo. Ele fora na terra
alguém que teve sempre aberta a mão
para o infeliz necessitado,
e, para o sofredor, aberto o coração...
Todo o ouro que tinha, ele, piedosamente,
ia dando de esmola... havia sempre
mãos ressequidas, mas famélicas, nervosas,
pedindo pão...
Foi assim que, ao morrer, tão pobre estava
que só tinha de seu, em frente à casa,
uns modestos ipês, que jamais floresceram,
minguados de folhagem,
enterrados no chão...
— Ele que foi um rico... imaginem... ao menos
que deixasse com que adquirir-se agora
uma mísera cova...
Ouro ele teve, e muito, o maganão!...
Mas, onde está seu ouro? Onde está seu ouro?...
Jogou-o fora, o vilão!"
Assim falavam todos — os parentes
e os amigos,
numa geral condenação...
Eis porém, que ao passar em frente às árvores tristonhas,
O desgraçado morto em seu desgraçado caixão,
num milagre de amor, os ipês começaram
a florir, a encher o céu de pétalas de ouro,
E de ouro, ouro divino, atapetou-se o chão!
e a alma entregou a Deus, este, num gesto suave,
a recebeu sorrindo. Ele fora na terra
alguém que teve sempre aberta a mão
para o infeliz necessitado,
e, para o sofredor, aberto o coração...
Todo o ouro que tinha, ele, piedosamente,
ia dando de esmola... havia sempre
mãos ressequidas, mas famélicas, nervosas,
pedindo pão...
Foi assim que, ao morrer, tão pobre estava
que só tinha de seu, em frente à casa,
uns modestos ipês, que jamais floresceram,
minguados de folhagem,
enterrados no chão...
— Ele que foi um rico... imaginem... ao menos
que deixasse com que adquirir-se agora
uma mísera cova...
Ouro ele teve, e muito, o maganão!...
Mas, onde está seu ouro? Onde está seu ouro?...
Jogou-o fora, o vilão!"
Assim falavam todos — os parentes
e os amigos,
numa geral condenação...
Eis porém, que ao passar em frente às árvores tristonhas,
O desgraçado morto em seu desgraçado caixão,
num milagre de amor, os ipês começaram
a florir, a encher o céu de pétalas de ouro,
E de ouro, ouro divino, atapetou-se o chão!
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3
Alexandre O'Neill
O revólver
de trazer por casa
Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente ,uma,duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.
Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio,mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.
Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...
Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente ,uma,duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.
Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio,mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.
Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...
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Alexandre O'Neill
O revólver
de trazer por casa
Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente ,uma,duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.
Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio,mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.
Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...
Querem fazer de mim o revólver de trazer por casa,
Fizeram já de mim o revólver de trazer por casa,
Aquele que toda a gente ,uma,duas vezes na vida,
Encosta por teatro a um ouvido
Que acaba por se fechar envergonhado.
Um bom revólver domesticado:
Algumas noções de pré-suicídio,mas não mais,
Que a vida está muito cara e a aventura
Nem sempre devolve o barco que lhe mandam.
Quem espera por mim não espera por mim
E talvez me encontre por um acaso distraído.
Mas no meu obsceno mostruário de gestos,
Guardo o mais obsceno
Para quando a ilusão se der...
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3
Alexandre O'Neill
Soneto
a duas mãos
A mão
que me sustenta e eu sustento
é mão capaz das vinte e cinco linhas
e do selado azul de um requerimento
ou doutras diligências comesinhas...
Habituada
por secretarias,
esperta, decidiu de um grave acento,
a vírgulas guindou torpes cedilhas
e mastigou papel, seu alimento...
Contraiu calos,
revoltou-se às vezes,
contra certos despachos, tão soezes
que até o dedo auricular se ria...
Com dois dedos
de aumento se curvava
e logo, altiva, à esquerda se mostrava...
Agora?
Estão as duas na poesia...
A mão
que me sustenta e eu sustento
é mão capaz das vinte e cinco linhas
e do selado azul de um requerimento
ou doutras diligências comesinhas...
Habituada
por secretarias,
esperta, decidiu de um grave acento,
a vírgulas guindou torpes cedilhas
e mastigou papel, seu alimento...
Contraiu calos,
revoltou-se às vezes,
contra certos despachos, tão soezes
que até o dedo auricular se ria...
Com dois dedos
de aumento se curvava
e logo, altiva, à esquerda se mostrava...
Agora?
Estão as duas na poesia...
5 222
3
Mário Cesariny
uma certa quantidade
Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
de gente à procura duma certa quantidade
Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião
Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá
E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar
Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro
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3
Mário de Sá-Carneiro
Éstatua Falsa
Só de oiro falso os meus olhos se douram;
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...
Sou esfinge sem mistério no poente.
A tristeza das coisas que não foram
Na minh'alma desceu veladamente.
Na minha dor quebram-se espadas de ânsia,
Gomos de luz em treva se misturam.
As sombras que eu dimano não perduram,
Como ontem, para mim, hoje é distância.
Já não estremeço em face do segredo;
Nada me aloira já, nada me aterra:
A vida corre sobre mim em guerra,
E nem sequer um arrepio de medo!
Sou estrela ébria que perdeu os céus,
Sereia louca que deixou o mar;
Sou templo prestes a ruir sem deus,
Estátua falsa ainda erguida no ar...
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3
Manuel Alegre
Última Página
Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.
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Manuel Alegre
Última Página
Vou deixar este livro. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.
Aqui morei nas ruas infinitas.
Adeus meu bairro página branca
onde morri onde nasci algumas vezes.
Adeus palavras comboios
adeus navio. De ti povo
não me despeço. Vou contigo.
Adeus meu bairro versos ventos.
Não voltarei a Nambuangongo
onde tu meu amor não viste nada. Adeus
camaradas dos campos de batalha.
Parto sem ti Pedro Soldado.
Tu Rapariga do País de Abril
tu vens comigo. Não te esqueças
da primavera. Vamos soltar
a primavera no País de Abril.
Livro: meu suor meu sangue
aqui te deixo no cimo da pátria
Meto a viola debaixo do braço
e viro a página. Adeus.
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J. Veiga
A Espingarda do Rei da Síria
A vida não estava tratando bem o Juventino Andas desde que ele perdera a espingarda numa espera. Para um caçador de fama e rama, perder a espingarda numa espera pode parecer um feito desonroso — mas é preciso atentar para as circunstâncias. Ninguém esperava chuva aquela noite, e choveu; a lanterna, que ele havia experimentado antes de sair de casa, falhou no mato; e o cavalo, assustado por alguma onça, arrebentou o cabresto e fugiu. Foi quando procurava o cavalo na noite escura que Juventino rolou numa grota, perdeu a espingarda e ainda destroncou um braço. No outro dia o cavalo apareceu na porteira de Seu Ângelo Furnas com a sela quase na barriga e a crina cheia de carrapicho. Seu Ângelo reconheceu-o e o recolheu e mandou recado para Juventino.
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
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J. Veiga
A Espingarda do Rei da Síria
A vida não estava tratando bem o Juventino Andas desde que ele perdera a espingarda numa espera. Para um caçador de fama e rama, perder a espingarda numa espera pode parecer um feito desonroso — mas é preciso atentar para as circunstâncias. Ninguém esperava chuva aquela noite, e choveu; a lanterna, que ele havia experimentado antes de sair de casa, falhou no mato; e o cavalo, assustado por alguma onça, arrebentou o cabresto e fugiu. Foi quando procurava o cavalo na noite escura que Juventino rolou numa grota, perdeu a espingarda e ainda destroncou um braço. No outro dia o cavalo apareceu na porteira de Seu Ângelo Furnas com a sela quase na barriga e a crina cheia de carrapicho. Seu Ângelo reconheceu-o e o recolheu e mandou recado para Juventino.
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
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J. Veiga
A Espingarda do Rei da Síria
A vida não estava tratando bem o Juventino Andas desde que ele perdera a espingarda numa espera. Para um caçador de fama e rama, perder a espingarda numa espera pode parecer um feito desonroso — mas é preciso atentar para as circunstâncias. Ninguém esperava chuva aquela noite, e choveu; a lanterna, que ele havia experimentado antes de sair de casa, falhou no mato; e o cavalo, assustado por alguma onça, arrebentou o cabresto e fugiu. Foi quando procurava o cavalo na noite escura que Juventino rolou numa grota, perdeu a espingarda e ainda destroncou um braço. No outro dia o cavalo apareceu na porteira de Seu Ângelo Furnas com a sela quase na barriga e a crina cheia de carrapicho. Seu Ângelo reconheceu-o e o recolheu e mandou recado para Juventino.
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
Sendo homem sem malícia, apesar de caçador, Juventino achou que devia agradecer a gentileza contando candidamente como se apartara do cavalo. Ângelo ouviu com simpatia, fez uma pergunta aqui outra ali, não mostrou ter achado graça, e nada disse que pudesse ferir a reputação do amigo; mas depois de uma visita que fez à cidade um ou dois dias mais tarde, todo mundo estava gozando o lado cômico do episódio. Juventino não percebeu de logo o que era que lhe estava acontecendo, e até contribuiu para o riso geral acrescentando uma ou outra informação que havia omitido na conversa com Seu Ângelo; mas quando desconfiou que ao assunto estava rendendo mais do que a sua importância justificava, já era tarde para recolocar as coisas na sua exata perspectiva. Aos olhos dos amigos ele era agora como um soldado que perdeu a arma na guerra. Tudo o que ele dissesse teria que ser pesado contra esse único e singelo episódio. Juventino achou que o mais acertado naquelas circunstâncias era viver mais para si e evitar locais como a farmácia de Seu Castiço, que era uma espécie de bolsa de comentários sobre caçadas.
Mas a perda do prestígio de caçador não foi o único aborrecimento de Juventino; havia outro igualmente grande: a privação de caçar, por falta de espingarda. Enquanto aos sábados os outros preparavam seus cartuchos, arreavam seus cavalos e saíam para o Ouro-Fino, os Peludos ou a Mandaquinha, ele ficava em sua janela fumando cigarros de palha, cuspindo nas pedras da calçada e olhando as beatas passarem para o terço. Uma vez, quando a coceira que dizem dar na nunca dos caçadores ficou muito forte, Juventino venceu o escrúpulo e foi pedir a espingarda da Manuel Davém, que ele sabia estar de cama com a ciática. Manuel arregalou os olhos e rebateu quase desesperado:
— Emprestar a minha espingarda? Não, Seu Juventino. O senhor me desobrigue, isso eu não posso. Empresto o cavalo, os arreios, se o senhor quiser. A espingarda não.
Havia também os que se fingiam de inocentes, passavam e perguntavam como se não soubessem de nada:
— Uai, Seu Juventino, o senhor brigou com as pacas?
Mas isso só acontecia porque ele não gostava de criar questão. Se ele fosse como o tenente Aurélio, daria uma resposta arrepiada, e quem não gostasse que corresse dentro. Alguém ia querer briga com tenente Aurélio? Se tenente Aurélio tivesse perdido a espingarda, que teria acontecido? Nada. Nada. Teria comprado outra, se não ganhasse de presente. Foi esperar, choveu, a lanterna zangou, a onça espantou o cavalo, o caçador rolou numa grota, perdeu a espingarda. Não pode acontecer? Alguém ia rir? Ia!
Mas uma coisa dessas só é natural quando acontece a quem pode comprar outra arma no dia seguinte; a graça está justamente quando o caçador não tem recurso e fica impossibilitado de praticar o seu divertimento, isso é que é engraçado e dá assunto. Se Juventino não fosse como era não haveria problema nenhum. Ele iria ao Dr. Amoedo e mandaria suspender o trabalho da dentadura porque precisava do dinheiro para comprar uma espingarda; mas com o trabalho já começado era preciso coragem para fazer isso.
De sorte que naquela ocasião a vida de Juventino girava em volta de uma espingarda, ou da falta de uma espingarda. Por caminhos ocultos o seu pensamento voltava sempre ao mesmo assunto. As pessoas que conheciam o seu problema — eram quase todos na vila — podiam acompanhar os seus silêncios, os seus suspiros, os seus sorrisos secretos e ver na frente uma espingarda.
Como daquela vez que ele entrou na loja de Seu Gontijinho para comprar um par de ligas e estava lá um cometa. Seu Gontijinho era um homem muito delicado, um dos poucos que não caçoavam de Juventino pela perda da espingarda. Era pequenino, usava óculos sem aro e piscava avidamente.
Seu Gontijinho pediu a opinião de Juventino sobre determinado artigo que o cometa estava oferecendo, Juventino gostou da consideração e demorou-se mais do que de costume. O cometa também era simpático, chamava as pessoas pelo nome e tinha sempre coisas engraçadas para dizer. Quando chegou aos mostruários dos cachimbos ele escolheu o mais bonito e deu-o a Juventino para admirar e aproveitou a ocasião para contar que os colonizadores ingleses na África arranjaram uma maneira muito prática de curtir cachimbo novo: retiram o canudo e dão o cachimbo para um preto fumar; quando o cachimbo está bem curtido tomam-no de volta e colocam novamente o canudo novo.
Juventino ouviu a história e ficou muito tempo com o cachimbo na mão, os olhos parados longe. Depois, sem perceber que era observado, ergueu o cachimbo à altura do rosto, segurando-o pelo bojo, fechou um olho em pontaria e deu um estalo com a boca.
O cometa olhou desconfiado e tratou de recuperar o cachimbo para o mostruário. Seu Gontijinho olhou, piscou e perguntou a Juventino o que ele achava de uns borzeguins de bico fino que o cometa havia oferecido antes a preço de saldo. Juventino pensou e disse que era capaz de encalhar, todo mundo agora estava querendo era sapato bico de pato, era a moda. Seu Gontijinho concordou e encomendou só meia dúzia de pares para atender os fregueses mais velhos.
Juventino estava sentado em sua mesa no cartório fumando um cachimbo, e apesar de ser pela primeira vez ele não tossia, nem engasgava, nem sentia nada do que dizem sentir o cachimbeiro principiante, achava até bom; e como o cachimbo não era dele, ele já sentia pena de ter de devolvê-lo mais cedo ou mais tarde. Provavelmente por isso ele queria aproveitar ao máximo o cachimbo, chupando-o sem parar nem mesmo para descansar e enchendo-o de cada vez que ele começava a chiar e pipocar e que o ar quente que saía pelo canudo ameaçava queimar-lhe a língua.
Tão calmante era o efeito do cachimbo que Juventino sentia-se leve e otimista, e até um tanto importante. O problema que o vinha preocupando nos últimos tempos, e que lhe pesara tanto na cabeça ainda no dia anterior, agora parecia primário e distante. De pernas esticadas, pés cruzados na mesa, as costas no descanso da cadeira, ele olhava pela janela e via o largo muito verde pendendo em brando declive até quase tocar os telhados da rua lá embaixo, animais pastando peados entre os pés de vassourinhas. Era engraçado vê-los de longe movendo-se aos saltos como se brincassem de pular de pés juntos. Se não fosse maldade, nem desse processo, ele podia derrubá-los todos um a um sem se levantar do lugar; bastava esticar a mão e apanhar a espingarda que descansava no estojo de couro no chão ao pé da mesa. Mas naturalmente ele não ia fazer isso, era preciso fazer bom uso da esp8ngarda, como dissera Sua Majestade na carta.
Juventino abriu a gaveta, tirou a carta e leu-a mais uma vez, apesar de já sabê-la de cor. Cada vez que ouvia o eco daquelas palavras e pensava na espingarda brilhando em seu estojo, ele gostava porque sentia estar vivendo. Antes, mesmo quando ainda tinha a velha espingarda, ele estava sempre adiando o momento de viver; mas agora era diferente, agora o presente era mais importante do que o futuro.
Mas é claro que nenhum homem pode viver por muito tempo contente apenas com as ofertas do presente; o futuro é tão tentador que acaba sempre metendo a cab
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