Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Herberto Helder
76
no ar vibram as colinas desse tempo, colinas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
amarelas, vibram do chão
de onde se erguiam, o chão cruzam-no às cegas linhas
para cima: frias,
cruas fruticulturas, esse tempo que ponho agora sobre a mesa
não tem nada: nem colinas nem vibração, e o ar
está na cabeça, as colinas respiram
nela, a seiva onde se apoia a mesa,
a mão onde o sangue se apoia,
movem-se, alumiam-se,
o ar foi de outro dia, colinas nem sei se as houve, a seiva escoa-se,
mas estas coisas idas,
divididas, unem-se na frase cheia
de atmosfera,
e no tamanho da luz no papel, na mesa, agora, leio
a concordância do que não era, as colinas
desses dias trémulos e entreabertos,
e a madeira soprada: colinas
escritas, potentes, exímias, amarelas
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Herberto Helder
17
como de facto dia a dia sinto que morro muito,
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
melhor é pôr-me de lado quando alguém puxa dos números,
agora parece que já ninguém nasce,
as pessoas agora querem é morrer,
e como não morrem bem porque no esplendor das obras as
compensações são baixas,
procuram a morte módica,
vão todos juntos para as praias onde não há socorristas,
praias do inferno sem nenhuma salvação,
às vezes marcam-se encontros nos apogeus dessas tardes
desmedidas,
e quando lá chegam já vomitam os bofes,
nestes lugares não há sombras que nos valham,
estes lugares, diz alguém, nem precisam ser simbólicos,
o poema agora por exemplo não tem simbolismo nenhum,
morro dentro dele sem força para respirar,
toda a gente a caminho das praias culminantes,
toda a gente calada com medo que a praia se tenha ido embora,
coisa única do paraíso, pensa ele,
é saber que nem o inferno nem o paraíso podem mudar de
condição e sítio,
estátuas gregas nuas sem ponta de excitação, apenas
solenes anúncios de churrascos,
a morte não salva nada: começamos pelo menos a entender
a cultura que nos sufoca,
eu pelo menos deito os pulmões boca fora,
mas de repente alguém diz: contudo,
diz: contudo já se inventou o ar condicionado
(o ar condicionado na praia?)
e a maravilha demoníaca desmorona-se,
e outra vez: pai pai porque me abandonas?
nenhum mito se cumpre,
ninguém ainda acredita nos poderes sequer de erudição menos
inexpugnável,
nem o capítulo do amor quando ela vem vindo diuturna com fruta
à escolha nas duas mãos.
anda como quem dança, o cabelo apartado ao meio,
vista de todos os ângulos como no cinema,
magnificamente manobrada por esta luz não assim tão lenta que
nos há-de a todos devorar,
não, não me abandonaste,
as tuas mãos abundantes congeminam milagres atrás de milagres
ah enfim alguma coisa muito límpida,
introduz aqui o capítulo infernal por todos os lados,
o meu fato de banho não tem bolsos,
pai, pai, porque me abandonas com a ironia em fato de banho,
e a areia, e a luz, e o iodo, e essa água toda,
como se o inferno fosse alegria apenas,
em setembro,
corpos mais nus do que se não tivessem fato de banho
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Herberto Helder
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um dos módulos da peça caiu e esmagou-o contra um suporte
de aço do atelier
arrancara a unhas frias dos testículos à boca,
beltà beauty beauté,
a áspera beleza amarrada pelo sangue,
porque tinha pintado com tintas de spray anúncios atmosféricos
e depois, no apogeu de qualquer coisa,
pôs-se a fazer uma coisa fora de moda, uma coisa animal,
acerba,
suada,
com as técnicas ardentes um respiradouro,
com os órgãos do amor,
com as mãos uma coisa alerta,
e então ele, o escultor norte-americano Luis Jiménez, morreu
esmagado pela sua obra:
o jornal diz que durante dez anos trabalhou na mesma peça,
um cavalo com dez metros de altura raptado ao caos, ligado
pelo sangue sombrio,
diz a notícia que ele amava as grandes dimensões das imagens,
amava a fibra de vidro o ferro o aço e amava
a energia das formas rápidas,
a inoxidável radiação das formas,
eu penso que ele meteu os dedos de cada mão até ambos os braços desaparecerem no mundo
já a luz se fazia da madura matéria do mundo,
já dez anos em dez metros de beleza arterial arrancada trémula
— tu que és tão leve,
que tocas com as unhas, que danças,
que sopras,
e colhes o orvalho e recolhes as chamas cortadas,
e abraças,
e boca a boca respiras até ao fundo de ti próprio,
tu que morres quando respiras,
que aprendes dedo a dedo a escrever o teu nome entre os dedos
— morreu esmagado pela sua obra
de aço do atelier
arrancara a unhas frias dos testículos à boca,
beltà beauty beauté,
a áspera beleza amarrada pelo sangue,
porque tinha pintado com tintas de spray anúncios atmosféricos
e depois, no apogeu de qualquer coisa,
pôs-se a fazer uma coisa fora de moda, uma coisa animal,
acerba,
suada,
com as técnicas ardentes um respiradouro,
com os órgãos do amor,
com as mãos uma coisa alerta,
e então ele, o escultor norte-americano Luis Jiménez, morreu
esmagado pela sua obra:
o jornal diz que durante dez anos trabalhou na mesma peça,
um cavalo com dez metros de altura raptado ao caos, ligado
pelo sangue sombrio,
diz a notícia que ele amava as grandes dimensões das imagens,
amava a fibra de vidro o ferro o aço e amava
a energia das formas rápidas,
a inoxidável radiação das formas,
eu penso que ele meteu os dedos de cada mão até ambos os braços desaparecerem no mundo
já a luz se fazia da madura matéria do mundo,
já dez anos em dez metros de beleza arterial arrancada trémula
— tu que és tão leve,
que tocas com as unhas, que danças,
que sopras,
e colhes o orvalho e recolhes as chamas cortadas,
e abraças,
e boca a boca respiras até ao fundo de ti próprio,
tu que morres quando respiras,
que aprendes dedo a dedo a escrever o teu nome entre os dedos
— morreu esmagado pela sua obra
955
Herberto Helder
E Chamou Deus À Luz Dia
E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
... e fez a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento.
(Génesis).
... e eis que havia um grande terramoto: e o sol tomou-se negro como um saco de silício: e a lua tomou-se como sangue. E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento: E o céu retirou-se como um livro que se enrola: e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares.
E vi os mortos, pequenos e grandes, ... e foram abertos os livros. (Apocalipse).
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações. (François Yillon).
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. (Dante).
Maravilha fatal da nossa idade. (Camões).
Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. (Autor).
E as estrelas do céu caíram na terra, como quando a figueira lança os seus figos verdes, abalada de um grande vento. E eis que havia um grande terramoto, e o sol tornou-se negro como um saco de silício e a lua tornou-se como sangue. E fez-se a separação entre as águas que estavam debaixo do firmamento e as águas que estavam por cima do firmamento. E o céu retirou-se como um livro que se enrola e todos os montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso. Rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, luz terrível que os homens e as mulheres beijavam cegamente e a que ficavam presos pela boca, arrastados, violentamente brancos — mortos. E essa colina subia e girava, puxando pelos lábios os seres deslumbrados e aniquilados. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Em baixo, vermelhas, estalavam as cúpulas. E vi os mortos, pequenos e grandes, e foram abertos os livros. Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável — maravilha fatal da nossa idade —, cuja simples lembrança basta para despertar o terror. Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Ah, como custa falar desta selvagem floresta tão áspera e inextricável, cuja simples lembrança basta para despertar o terror.
E vi os mortos, como quando a figueira lança os seus figos verdes, entre as águas que estavam debaixo do firmamento, águas negras, e a lua como sangue, denso granizo e neves do espaço tenebroso. E as estrelas do céu e as águas que estavam por cima do firmamento caíram na terra, e eis que havia um grande terramoto, e rasgou os limbos a antiga luz das fábulas, e foram abertos os livros. E dentro desta luz e desta morte, os sons amadureciam. Os homens e as mulheres caíam cegamente pela boca, e o sol tornou-se negro como um livro que se enrola, e todos os pequenos e grandes montes e ilhas se moveram dos seus lugares. Abalada de um grande vento, a luz terrível subia e girava, puxando violentamente os mortos brancos que ficavam presos pelos deslumbrados e arrastados lábios ao céu que se tornou como um saco de silício. E os seres aniquilados beijavam essa colina, e em baixo o céu retirou-se, e fez-se a separação, e estalavam as cúpulas
vermelhas.
Maravilha fatal da nossa idade.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
Irmãos Humanos que depois de nós vivereis, não nos guardeis ódio em vossos corações.
Na maravilha desta luz inextricável, vi os homens e as mulheres que estalavam como estrelas, como figos deslumbrados. E o sol negro e a lua de sangue caíram no
vento, nas águas, na terra, caíam da selvagem figueira por cima do firmamento que subia e girava como um livro terrível, uma colina que se enrola. E eis que se rasgou um grande terramoto de águas verdes no céu de silício violentamente baixo. E os seres moveram-se dos seus lugares pelo granizo tenebroso, puxando as cúpulas, os sons, os mortos abertos. E havia águas negras na luz abalada, na áspera floresta dos limbos, e as ilhas vermelhas e os montes arrastados amadureciam no terror da nossa idade. No espaço das fábulas os mortos, cegamente presos, estavam aniquilados pelos lábios e beijavam a grande luz, a grande morte. E fez-se a separação entre a boca e os livros. E quando as águas e as neves estavam dentro do céu, de cuja antiga lembrança custa falar, eu vi os mortos brancos despertar debaixo do céu fatal, e ficavam pequenos e grandes. E estavam todos mortos. Denso granizo, águas negras e neves caíam do espaço tenebroso.
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
... presos pela boca violentamente brancos os mortos amadureciam
e
dentro desta luz ficavam as mulheres puxando as fábulas vermelhas
e
a terrível colina subia pelos sons deslumbrados
e
os limbos estalavam
e
a luz rasgou cegamente os seres aniquilados
e
cúpulas beijavam os lábios arrastados na luz
e
a morte antiga girava em baixo com homens...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite; e fez-se atarde, e fez-se amanhã, dia primeiro...
... luz selvagem... e terramoto que se enrola de estrelas...
e água abalada... inextricável... o sol num saco de vento...
e a lua debaixo das ilhas que se moveram... e livros em silício dentro dos mortos verdes... e coração dos figos abertos... maravilha nos grandes lugares por cima... e montes como dentro das águas negras... espaço... separação... e mulheres vermelhas com cúpulas... a antiga colina do firmamento... e homens violentamente... sons cegamente... e seres arrastados do céu da boca para... luz selvagem...
... E chamou Deus à luz Dia; e às trevas chamou Noite;
e fez-se a tarde, e fez-se a manhã, dia primeiro...
1963.
1 096
Herberto Helder
26
há não sei quantos mil anos um canavial estremeceu na Assiria
e um douto poeta inscreveu esse tremor num curto poema lirico
lido agora por mim junto a um canavial nos subúrbios de Lisboa
e eu penso que os dois canaviais estremeceram igualmente
a tantos tempos e lugares de distância
e só se extinguirão devorados pelo fogo
quando o fogo devorar a terra inteira
e um douto poeta inscreveu esse tremor num curto poema lirico
lido agora por mim junto a um canavial nos subúrbios de Lisboa
e eu penso que os dois canaviais estremeceram igualmente
a tantos tempos e lugares de distância
e só se extinguirão devorados pelo fogo
quando o fogo devorar a terra inteira
1 027
Herberto Helder
19
que nenhum outro pensamento me doesse, nenhuma imagem
profunda:
noite erguida até à derradeira estrela
cravada entre os meus olhos cegos
profunda:
noite erguida até à derradeira estrela
cravada entre os meus olhos cegos
1 110
Herberto Helder
70
curva labareda de uma chávena,
colher no seu anel de estrela inóx,
a força terrestre da colher e da chávena,
coisas ditas com luz própria erguida,
palavra e mão uma a uma até ao cume irrespirável de umas quantas
linhas,
e ninguém sabe por mais abrupto que suba da muita iluminação,
dias botânicos, cerâmicos, aumentados,
frutas a pleno oxigénio,
o verão é de azulejo,
que vida alpinista, que epifania!
de tudo se fulgura e se resulta curto,
néon de um astro no quarto,
trate-se o erro intratável no recôndito sentado,
mas antes sentido a salto do que sentado escrito
colher no seu anel de estrela inóx,
a força terrestre da colher e da chávena,
coisas ditas com luz própria erguida,
palavra e mão uma a uma até ao cume irrespirável de umas quantas
linhas,
e ninguém sabe por mais abrupto que suba da muita iluminação,
dias botânicos, cerâmicos, aumentados,
frutas a pleno oxigénio,
o verão é de azulejo,
que vida alpinista, que epifania!
de tudo se fulgura e se resulta curto,
néon de um astro no quarto,
trate-se o erro intratável no recôndito sentado,
mas antes sentido a salto do que sentado escrito
1 105
Herberto Helder
72
a labareda da estrela oculta a estrela, numa
rebentação de luz
a camisa oculta a camisa, e o sangue às riscas
gira e brilha no fundo da camisa contra a estrela:
que te abalam do direito adentro ao esquerdo:
o choque púrpura, o ascensional
néon ardendo
— e como é que isto é um segredo? —
a mão oculta-se na queimadura a cada faísca da folha
— mas como se escreve o sentido? —
o sangue que o escreve oculta o sangue e o escrito
— e então como se oculta e desoculta
isto: a estrela que te devora e de que tremes todo,
bêbado e nocturno?
rebentação de luz
a camisa oculta a camisa, e o sangue às riscas
gira e brilha no fundo da camisa contra a estrela:
que te abalam do direito adentro ao esquerdo:
o choque púrpura, o ascensional
néon ardendo
— e como é que isto é um segredo? —
a mão oculta-se na queimadura a cada faísca da folha
— mas como se escreve o sentido? —
o sangue que o escreve oculta o sangue e o escrito
— e então como se oculta e desoculta
isto: a estrela que te devora e de que tremes todo,
bêbado e nocturno?
1 243
Herberto Helder
25
perder o dom, mas quem o perde?
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
com o peso do sangue nos dedos, os dedos no interruptor:
que a luz se faça,
que apareça imediata e toda,
abruptíssima,
a flor com o seu feixe de artérias,
a rosa irrefutável
1 183
Herberto Helder
29
a laranja, com que força aparece de dentro para fora,
como o ar se ocupa dela,
o ar ininterrupto,
como ocupa o ar todo,
como interrompe o mundo
como o ar se ocupa dela,
o ar ininterrupto,
como ocupa o ar todo,
como interrompe o mundo
1 053
Herberto Helder
57
se te
destinasses
a longas fomes, longas correrias, longas carnificinas,
lobo,
insociáveis fomes de cordeiros quentes que leves
de tão primeira substância!
e eras voraz sim mas quem,
fechado sobre a carne doce e confusa,
te
tocasse quando te abrias
pela boca como que cheia de música,
e ouvisse nessa como que música rouca
o inaudível?
destinasses
a longas fomes, longas correrias, longas carnificinas,
lobo,
insociáveis fomes de cordeiros quentes que leves
de tão primeira substância!
e eras voraz sim mas quem,
fechado sobre a carne doce e confusa,
te
tocasse quando te abrias
pela boca como que cheia de música,
e ouvisse nessa como que música rouca
o inaudível?
912
Herberto Helder
35
pêras plenas na luz subida para colhê-las
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
com hábil ebriedade, tardas
frutas no talento de amadurecerem, e tão afundadas em si mesmas e
prontas
quando se colhem: e era eu no orvalho:
que júbilo contabilista me levava a somá-las:
a quantidade de amor, o cuidado virado ao brilho,
às colinas,
e o medo então de que o sabor me fira muito
lábios e língua,
e a acuidade me destroce a fala: tanto
quero lucidez e
estudo para me arrebatarem, e não sei
de operação que me devolva
ali, no ápice
terrestre,
a unidade numérica, unhas
e cascas luzindo:
pêra tão única no mais apurado desde a raiz,
que me tremesse a boca
como se fosse de um idioma estrito mas desmedido no sentido,
e a arte apenas das contas bastasse para o alvoroço
de erguer-me num pomar,
o tacto atento nas pêras densas,
oh destros dedos repetidos no extremo dos dias, eu:
formal, aritmético,
quem sabe se escolhendo a morte pelos dedos
537
Herberto Helder
24
noite funcionada a furos de ouro fundido,
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
combustível, comburente,
inexcedível,
e eu não sei se é de onde me vejo dentro dela,
força da imagem ou fogo ou
desabitação do mundo,
nesta língua onde me encontro e que me funda com mão fluida,
caos,
e como se move tudo, os dedos
pelo sistema decimal contando para trás pessoa
a pessoa, unha
a unha de rapina, diz a canção: a flor inversa,
ar resplan la flors enversa,
desde o hábil desgoverno da matéria à pronúncia tumultuosa,
floral glória colinas ar afora,
com que choque tecnológico a terra pós-moderna,
faúlhas, lâmpadas, quem as maneie e atice,
iluminam-se a si próprias,
houvesse em mim potência e elegância,
e jorrasse a flor inversa,
e para a frente as vezes dos dedos que ainda faltam,
ar movido no cabelo, lápis
maduro sobre o escrito,
idade,
styx,
renascimento,
o júbilo,
trabalhos, etc., desordens, arranquem-mos todos para nunca
terem existido,
nem um só nome é indestrutível,
avança, retrocede, apaga,
ar resplan, e então resplende a flor inversa
1 065
Herberto Helder
31
os animais fazem tremer o chão se passam debaixo dela
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
— e a laranja cai do seu fogo,
e tu apanha-la:
deixa salitre de ouro na ponta dos dedos,
troca a ordem dos dedos com o peso
da luz trazida ao escuro
dos teus números: fruta,
uma, abrupta; dedos, cinco, poucos para contar qualidades e coisas,
e os fundamentos:
e a idade que tens quando aparece
o mundo arrancado aos limbos,
assim: água irrompendo do fundo da luz; e a beleza mamífera,
a carne e a sua graça complexa; ocupações: todas —
e tu andas em torno com a laranja entre os dedos
— nada existe para lá do poder desse campo:
curvas cruzadas dos olhos e das formas: esta
simetria dos ofícios:
faca, laranja, boca,
e o hausto e o bafo circundam numa volta
as obras, as pequenas
obras gerais: só
tuas: nada de nada, e tudo, eximiamente com
muita força
1 071
Herberto Helder
A Água Desceu As Escadas
a água desceu as escadas,
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
a noite pode subi-las,
e a lua violenta a trabalhar lá em cima
¿ah de que matéria se faria o sono que me não visita sequer duas horas, ou uma, ou sequer metade de uma,
de que maneira poderia eu trabalhar a morte sempre tão difícil,
dedos, ritmos, respiração e o silêncio audível,
de que maneira a infusa fria,
a urna,
a água que desce e a noite que sobe
e o clarão que me envolve,
poderia eu trabalhar as cinzas,
para sempre o fogo no fundo das mãos sensíveis,
poderia eu de que maneira estremece este poema apenas,
o poema fremente?
718
Herberto Helder
Fonte - Iv
Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
1 207
Herberto Helder
Fonte - Iv
Mal se empina a cabra com as patas traseiras
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
na lua, e o cheiro a trevo
no focinho puro, e os cornos no ar
arremetendo aos astros. E sobre a solidão das casas,
entre o sono e o vinho derramado,
curvam-se os ágeis
cascos de demónio.
E o sonâmbulo desejo do coração
absorve tudo ao alto numa vertigem
tenebrosa.
E quando o esplendor invade as bagas
venenosas, o silêncio dos dedos
docemente o procura.
Então as veias mudam a conjunção
suspensa
do sangue que ascende e que mergulha.
Uma estrela feroz queima a fronte de apoio.
E as mandíbulas, os pés, a invenção, a loucura, o sono
secreto, a beleza terrível
espalham sobre nós a branca
luz violenta.
Um dia começa a alma, e um caçador atinge
a cabra fremente no flanco
com uma flecha viva.
Cantamos devagar o espírito dos livros.
E brilha toda a noite, no sangue espesso
e maduro do bicho
maravilhoso,
o dardo do caçador.
Um dia começa o amor louco.
Porque a cabra
é uma coisa materna e antiga.
À noite o trigo irrompe da terra.
E sob a nossa boca roda a imagem do mundo, rosácea
abstracta, ou rosa aglomerada
e ardente. Na penumbra das casas as mulheres
respiram —surdas, lentas, cegas
de beleza. E no sono as palavras
são mortalmente confusas.
— Mal se levanta a cabra sobre as letras puras, sobre
a forma árdua e amarga da melancolia.
1 207
Herberto Helder
22
e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
581
Herberto Helder
22
e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
581
Herberto Helder
22
e regresso ao resplendor,
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
água inocente na bilha, sem nós, bilha contra a rapariga,
exposto tudo à potência fotovoltaica da estrela,
primeiro contra o quadril a curva
cozida trabalhada
na marga; e
no cruzamento dos braços num só clarão
atrás do escuro; e ao alto da cabeça, não como peso
ou equilíbrio ou diadema, mas
como
espaço que se alarga:
o estio:
e ela estremece, tocada, a rapariga debaixo da fábrica da estrela;
a água pelos respiradouros nos dias termodinâmicos, trazem-na
elas, estreitas,
rítmicas,
direitas raparigas, e eu regresso para beber, através da fábula
não já equilibrista, mas
nas linhas de luz ao de cima da água vertida,
colhida à mina, oculta, baixa, centígrada,
o cru que há em tudo quanto por dom é atado
e desatado no profundo: o mais agraz, oh
matriz! o rude, o redivivo,
o resplendor
581
Herberto Helder
Logo Pela Manhã É Um Corrupio Funerário
logo pela manhã é um corrupio funerário nos telefones,
um quer enterrar o pai todo nu embrulhado num lençol branco,
outro que o filho seja cremado e as cinzas espalhadas
sobre as rosas do jardim botânico,
outro vai suicidar-se e pede que o enterrem de cabeça para baixo
(diz: há entre mim e as minhas mãos um rastro de sangue),
outro quer ainda que seja eu próprio a morrer com os braços abertos,
que seja levado para um penhasco abraçado pela espuma,
no Índico longínquo, no mar do norte atlântico,
que o sal me cubra,
que o sol me curta,
que as águas vibrem contra o meu coração devorado
— eu que sou tão subtil e acerbo,
eu que nunca escapo
um quer enterrar o pai todo nu embrulhado num lençol branco,
outro que o filho seja cremado e as cinzas espalhadas
sobre as rosas do jardim botânico,
outro vai suicidar-se e pede que o enterrem de cabeça para baixo
(diz: há entre mim e as minhas mãos um rastro de sangue),
outro quer ainda que seja eu próprio a morrer com os braços abertos,
que seja levado para um penhasco abraçado pela espuma,
no Índico longínquo, no mar do norte atlântico,
que o sal me cubra,
que o sol me curta,
que as águas vibrem contra o meu coração devorado
— eu que sou tão subtil e acerbo,
eu que nunca escapo
1 030
Herberto Helder
Levanto À Vista o Que Foi a Terra Magnífica
levanto à vista o que foi a terra magnífica
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
e as estações mais bêbedas,
e estou tão leve porque não tenho nenhum segredo,
e tão oculto porque daqui a nada já posso dizer tudo,
daqui a uma pouca ciência saberei pensar
que algum pouco depois estarei morto,
e só de o pensar já nem respiro,
já quase em nada toco,
já só vejo no fundo das mãos daquilo que fica escrito
que escrevi coisa nenhuma do mundo até ao esquecimento,
e movendo-me com as unhas movo os nomes inúmeros
para dizer que mal nasci logo me deram por morto,
e não fui tido nem havido na razão do episódio
de um rosto ter passado por um espelho
e ter desaparecido,
portanto não me venha ninguém falar de nada,
sei bastante do que sabem todos,
vejo a água a mover-se contra si mesma, tão marítima,
e acho até que é bonito,
cada qual morre do quanto alcança e não alcança,
e ninguém compreende,
a água quebra os dedos que escreveram até às pontas
e passa, a água fácil, sem retorno,
porque nada tem retorno e tudo é dificílimo
(não só o máximo mas também o mínimo)
1 050
Herberto Helder
Elegia Múltipla - Ii
Sobre o meu coração ainda vibram seus pés: a alta
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo — e eu estou imensamente vivo.
Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Nada sei dos mortos.
Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito
fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada, vermelha.
Porque morrem assim no interior do vinho quando
se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde
as videiras se derramavam e subiam as escadas?
Uma um vão nascendo meus pensamentos
nocturnos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?
E agora é a minha vida que assombrada se fecha.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se apaga a labareda de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje
nada sei. Correm em mim os mortos, como água —
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.
E digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia
tanto ouro dentro e fora deles, porque
se extinguiram?
Nada sei dos mortos.
Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta
de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,
um amor terrível.
— Porque era de ouro firme, e ressoava.
formosura do ouro. E se acordo e me agito,
minha mão entreabre o subtil arbusto
de fogo — e eu estou imensamente vivo.
Se com a neve e o mosto dei ao tempo
a medida secreta, na minha vida tumultuam
os rostos mais antigos. Não sei
o que é a morte. Enchia com meu desejo
o vestíbulo da primavera, eu próprio me tornava uma árvore
abismada e cantante. E a beleza é uma chama
solitária, um dardo que atravessa
o sono doloroso. Nada sei dos mortos.
Deixaram em mim os pés sombrios, um súbito
fulgor de ausência. — De mim, vivo e ofegante,
sei uma flor de coral: delicada, vermelha.
Porque morrem assim no interior do vinho quando
se extasiam e cantam? Porque escurecem os ombros onde
as videiras se derramavam e subiam as escadas?
Uma um vão nascendo meus pensamentos
nocturnos, e eu digo: porque morrem
os que tinham a carne com seu peso e milagre e sorriam
sobre a mesa
como seres imortais?
E agora é a minha vida que assombrada se fecha.
A vida funda e selvagem. Porque um dia,
como se apaga a labareda de um cacho,
o brilho se apagará onde estava a minha letra.
Dançarei uma só vez em redor da taça,
festejando a última estação. Hoje
nada sei. Correm em mim os mortos, como água —
com o murmúrio gelado da sua incalculável ausência.
E digo: não refulgia a carne quando
a primavera inclinava a cabeça sobre a sua confusão?
Não dormiam junto ao mosto com lírios no pensamento?
Ei-los em mim, os mortos longos, e digo: se havia
tanto ouro dentro e fora deles, porque
se extinguiram?
Nada sei dos mortos.
Um dia hei-de ser como espuma absorta em volta
de um coração, e dele se erguerá uma onda de púrpura,
um amor terrível.
— Porque era de ouro firme, e ressoava.
669
Herberto Helder
Narração de Um Homem Em Maio
Estou deitado no nome: maio, e sou uma pessoa
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
que saiu
violenta e violentamente para o campo.
Um homem deitado entre os malmequeres
rotativos do mês atravessado pelo movimento.
E a noite aproximada com o livro
dentro. Deitado sobre bocados
de estrelas no pensamento.
Era a casa absorvida na manhã
embatente.
Livro da poesia arrebatada. Poesia
da mulher emparedada no amor
e o homem emparedado na destruição
do amor.
É agora o leitor com a atenção corrupta
sobre o livro.
O livro que arde nos ossos
do leitor afogado no poema arrebatado.
Estou estendido como autor na ligeira
palavra que a noite molha
e os ventos sopram como se sopra
uma brasa.
Um homem que saiu de casa, com toda
a magnífica violência do amor.
É o tempo revelador.
Agora inteligente deste lado,
contra o lado exemplar de maio aglomerado.
Espécie de primavera comburente.
A dor total. O livro.
O pensamento do amor. A
experiência.
E a vida ardente do autor.
Deitei-me também no campo
de outras coisas. Com discurso. Com
rigoroso segredo.
Vi o caçador levantar o arco-íris
e atirar, fechada, a morte
ao cabrito primaveril.
E tudo calei como experiência
de um sono inspirado.
Vi a ressurreição, maio
infestado. Ouvi
passar o ciclista da primavera
sobre o ruído da ressurreição.
Conheci a existência do roubador, o ciclista
que penetra no exemplo da fábula.
Estou deitado em meio campo
de uma espécie de despedida.
Meio campo de maio, e outro meio
de pessoalíssima vida.
São coisas que já não estão mais
do que na maturidade da idade.
Fiz comércio. Indústria. Dor.
A garganta lavrada pelo canto.
Ia a bicicleta com o seu poeta que punha a mão
no poema da bicicleta.
E iam todos — poema, bicicleta, poeta e mão —
por sobre o coração da terra e a ressurreição
da primavera. Ganhei
a minha idade concluída.
Cacei. Ou plantei. Ou cortei.
A vida vida.
Havia o movimento com a sua bicicleta
e a canção com o seu poeta.
A vida merecida.
Vejo ervas movimentadas e estrelas paradas.
E a consumação das coisas universais.
Geram-se de novo as coisas
universais. A pureza.
A natureza da pureza.
Apropria natureza das coisas universais.
Da dor sei o amor.
O amor do ardor. Sei mais
do que posso saber da matéria do amor.
Fico deitado no campo revolucionário:
a paciente brutalidade da primavera
é como a brutalidade
delicada da paixão.
O violentamente demorado amor,
e a sua ressurreição.
Já estivera deitado ao lado das mulheres.
Elas paravam completamente
como caçadores oubichos fascinados.
Não tinham pensamento nem idade.
Era a força do corpo. O movimento.
Estou neste lado desse lado
do corpo. Sei o poema
do conhecimento informulado.
Respira monotonamente uma estrela
entre os ossos.
Estrela levemente destruída.
Roída pelo louco rato lírico
da idade. Estou no pensamento.
Parado no movimento de uma vida.
Mexo aboca, mexo os dedos, mexo
a ideia da experiência.
Não mexo no arrependimento.
Pois o corpo é interno e eterno
do seu corpo.
Não tenho inocência, mas o dom
de toda uma inocência.
E lentidão ou harmonia.
Poesia sem perdão ou esquecimento.
Idade de poesia.
1953-60
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