Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Vitor Casimiro
Cadência
Não conto
Estrelas
Me contento
Em vê-las
Sem lupas ou lentes
Vejo estrelas
Algumas imóveis
Outras C
a
d
e
n
t
e
s.
Estrelas
Me contento
Em vê-las
Sem lupas ou lentes
Vejo estrelas
Algumas imóveis
Outras C
a
d
e
n
t
e
s.
981
Vitor L. Mendes
Solidão
Todos os dias, ao cair da noite,
A solidão vem e deita-se ao meu lado.
Fico observando, calado.
Ela acende um cigarro e, silenciosamente,
Brinca com os desenhos que a fumaça descreve no ar.
Seus movimentos lentos, sua indiferença.
Seu rosto é pálido e seu olhos parecem estar fitando
Algum ponto além das paredes do quarto.
Percebo que ela é bonita... O que estará ela pensando?
Jamais vou saber (...) Mas o que importa?
Ela está aqui. Como estará também no outro dia - quem sabe?
Acho que aprendi a gostar dela, como uma doce companhia.
Se ela demora a chegar, fico impaciente - Quem diria?
Se não vier, me sentirei só...
A solidão vem e deita-se ao meu lado.
Fico observando, calado.
Ela acende um cigarro e, silenciosamente,
Brinca com os desenhos que a fumaça descreve no ar.
Seus movimentos lentos, sua indiferença.
Seu rosto é pálido e seu olhos parecem estar fitando
Algum ponto além das paredes do quarto.
Percebo que ela é bonita... O que estará ela pensando?
Jamais vou saber (...) Mas o que importa?
Ela está aqui. Como estará também no outro dia - quem sabe?
Acho que aprendi a gostar dela, como uma doce companhia.
Se ela demora a chegar, fico impaciente - Quem diria?
Se não vier, me sentirei só...
721
Viviane Gehlen
Mar
Mar
O céu, cinza
Cinza também o mar....
A praia, vazia
vazio também meu olhar....
A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...
sou onda,
sou espuma,
sou nada.
Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.
meu coração renasce
meus olhos sorriem
Um veleiro cruza o horizonte....
09-01-97
O céu, cinza
Cinza também o mar....
A praia, vazia
vazio também meu olhar....
A areia se desfaz sob meus pés.
Lágrimas rolam dos meus olhos,
descem pelo meu corpo e
se fundem com o mar...
sou onda,
sou espuma,
sou nada.
Imersa no mar, descubro a Vida.
Submersa na dor, descubro a Vida.
Escondido nas nuvens, descubro o Sol.
Refletido no mar, descubro o Sol.
meu coração renasce
meus olhos sorriem
Um veleiro cruza o horizonte....
09-01-97
1 003
Vargas Neto
Meio-dia
Todo o ar treme sob o sol do meio-dia!
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
1 014
Vargas Neto
Meio-dia
Todo o ar treme sob o sol do meio-dia!
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
O capim se dobrou sobre si mesmo, trepidando...
A gente olhando o campo
tem a impressão que derramam sobre ele
qualquer coisa derretida !
O gado invadiu as restingas e os capões,
para fugir à graxa quente, que o sol derrama
derretida
sobre a grama.
No lombo da coxilha
só um cavalo velho bate o casco,
varado de sede,
porque teve preguiça de fugir do sol,
porque tem preguiça de descer à sanga
Debaixo dos cinamomos da fazenda
a peonada dorme, estirada de costas, com o chapéu nos olhos.
Um guaipeca, deitado aos pés de um peão
erra bocadas nas moscas, estalando os dentes.
Depois cocoricoca uma galinha que botou
e tudo volta ao silêncio porque o calor tonteia.
Até o vento tem preguiça de ventar!...
Apenas se ouve, zunindo, longo, infindo,
o monótono zunzum das moscas vagabundas...
1 014
Weydson Barros Leal
O Teu Sorriso é uma Dança
O teu sorriso é uma dança
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
tua boca nasce a cada dia
como a faca e a fruta.
há nos teus dentes uma cor
que não há noutra forma de tempo —
a brancura dos teus olhos é irmã e cai
em teu brilho de ursa
e em cada anel.
o teu sorriso é uma forma de vencer as guerras
e as tuas mãos sobre os joelhos
uma arquitetura de gregos.
dei to sobre tudo que desperto
em tua aura de prataria cega
e o meu deleite e a minha dor
copulam numa fogueira pública.
penso que caiu alguma lua no jardim que andaste aqui
e a própria queda dos impérios
é uma predição de ti —
o teu passado é uma praia
onde nasceram as conchas
e o teu presente uma eternidade de luz e de ondas
onde as conchas cantam
teu dom e tua luz.
II
— até quando seremos felizes?
até quando seremos a mira
que o espelho espera?
o duplo multiplicado?
— lembra quando rasgamos o peito e o tempo escoou?
eram moedas e flores
e um hálito de pedras ...
— hoje a flauta doce foi buscada;
o amargo do vinho; a noite;
e uma barca de espelhos
que navega cegamente para guerra...
III
há um poeta rindo no portal da tua casa
que não sou eu mas o eu que te acompanha
e eu estar em ti é lembrar de mim
quando penso que és minha casa.
permaneço em sonho
enquanto tu me navegas,
e existir em ti é realizar os planos
de quando existires
saberes como sofrem os sonhos —
amor é mar
que sempre subexiste
e quando queremos navegar
a vela nos devora
e o vento é sempre triste.
IV - MANHÃ NA LUA
haverás, amada,
de recordar a hora em que éramos felizes:
há poesia no passado
mas não há tempo —
há a dor
a praia e a pedra
onde ancorar o dia
e acordar sobre o teu lado
sem saber
que o sonho é um círculo finito
que sem meios de tecer
tu fias
e colhes a noite
como um manto sobre os braços
uma nau descomunal
ou um verbo que cria.
V - PORTRAIT
sonhávamos tanto que éramos doces
e nosso último disfarce
foi tornarmo-nos amigos
sob a fé de toda balaustrada
de lustres e alaúdes lúgubres
que terminam
quando nua e com flores
cantas
e transbordas os açudes...
acordamos e corremos aos jornais
em busca de poemas
limpamos toda casa onde o sonho é moradia
o sonho que buscamos, o sonho que nos cria
apenas uma trégua
quando a guerra
é a única maneira de se conquistar
e a bandeira só por cada jogo se jogar
porque só é o cadafalso
e falso o laço
do ar.
VI - AUGEN
verde a luzidia forma que encontrares no poema
que verde é seu encanto
enquanto canto sua pena
que a vida nunca estabelece
rara, sem sua medida de tristeza.
talvez a fala
que emudece espaços
a ausência pressentida ou as horas
medirão o tempo da distância...
talvez o olhar
que umedece os passos
o brilho docemente agudo
das pérolas
o jogo
ou as conchas
serão em mim a tua proteção.
as mãos
como os limites de um deus
ou urna pomba absurdamente nua ou despetalada
sobre minha cabeça pousas
nesta sombra que enriquece a luz.
VII - SAL
quando esqueces o meu nome
é poesia a minha dor que se constrói...
— tanta tristeza em sabermos o que seríamos...
e se não fosse a poesia ? — o sonho da noite
é o medo do dia
e o teu sonho é um barco que irá chegar
e o seu vento a minha esperança
que também é sua praia.
vê esta pedra — sim, a que guarda sob o tempo
o pulso das vidas; —
ergue tua mão agora,
sorve o lampejo
que esqueci de esconder sob a pedra:
nesta praia só há um lugar onde o amor sobrevive,
e a fé e a fidelidade
caminham utopicamente
banhando os pés.
VIII
somos fundamente tristes quando amamos em segredo...
— o que buscamos em nossa lida?...
todas as ilhas sofrem de ser só
e sempre amar por último o penúltimo engano...
adulo duelos no ancoradouro que há em mim...
há mulheres debruçadas sobre a lua
e o tempo e o traço, se hão,
são partes da mão
e o poeta um pedaço
do espaço e do chão...
o sonho é apenas a espera a vida inteira...
num canto em mim todos os homens agonizam
e o deus e a voz
é o eu em nós...
ri, para que eu pense que o mundo acabou!...
teremos que cantar enquanto fundas
as avenidas foscas todas toscas fenecem,
jardins se amontoam sobre os muros
e crianças criam mundos...
canto enquanto sabes que podemos amar...
o amor é um costela que sangra...
o amor é um cortejo sobre o mar...
IX - JORNADA
haverá de nos suportar o tempo da lida,
tudo quanto de tristeza e alegria não cabem no poema —
o verso deve ser comedido
para não comprometer a irmandade
dos solitários poetas.
e haverá a força para não amar e
a tarde para recriar os sapatos — os pés
representam asseados a alma do poeta,
quando sujos, sua coragem e abnegação.
haverá todo tempo para construir o verso
limpar a casa e escrever
literatura —
haverá música e pêssegos
quando o espaço entre o chão e a alma
for um preenchimento apenas de coisas velhas
e com nós
for surdamente esquecido
entre as estações.
1 147
Waldemar Zweiter
Vida
A luz do sol
é forte
e brilhante
como a vida
Porém, cuidado:
pode apagar-se
com o passar de
uma simples nuvem.
é forte
e brilhante
como a vida
Porém, cuidado:
pode apagar-se
com o passar de
uma simples nuvem.
805
Carlos Augusto Viana
José Alcides Pinto
As águas do rio Acaraú te ensinaram, ainda menino,
o grave movimento das palavras. E, desde então,
uma guitarra te espera na noite flamejante. Uma guitarra,
e suas cordas que estendem
sobre o abissal olhar das amadas
ou sobre o silêncio de cactos. Uma guitarra
que constrói, sem degraus, uma escada. Uma guitarra
que adormece o cansaço das lavadeiras. Uma guitarra
que aponta, no escuro, o riso do ditador. Uma guitarra
que cata siri, com as crianças,
nos mangues do Recife. Uma guitarra
que despe a moça de blusa azul
e a pluma de seus sapatos. Uma guitarra
que se estende sobre o longo caminhar das formigas
e conhece de cor a sanha das urtigas. Uma guitarra
que persegue os verdes abutres da colina
e espia de cócoras o pão que o diabo amassou.
Uma guitarra
que, espinha do arco-íris
impele navios como se fossem canções.
II
Guardas, dentro de mim,
um povoado: o poste aceso escorado no oitãoda memória.
Calado, conversas com tua gente: um moinho de vento
girando sem sentido. No Alto dos Angicos,
aprendeste a suportar todas as pragas, os presságios todos,
tantas visões, os sofrimentos tantos. Desde então,
compreendes os homens, debulhas suas espigas,
aprendeste o amor e as veredas de suas sílabas.
Desde então, recuperas pés soçobrados nos curtumes,
mãos em chagas de espinhos,
olhos derramados por sobre léguas em brasa. Desde então,
adormeces nos cabelos de palha da amada
ou rondas a madrugada como um lobo, porque, antes,
certamente, contemplaste o poente
que, em rugas, se dissolvia no peito azul da água de um rio imemorial.
III
Tua poesia
és tu mesmo, e somos todos nós.
Nós que pendoam nos labirintos noturnos.
Nós que cosem e descosem dúvidas, anseios,
boca esquecida num fragmento de tarde,
olhos que tecem adeuses com finíssimas agulhas,
mãos que catam siris e,
da lama,
fazem brotar a flor do poema.
Tua poesia são os olhos sem cal do pássaro morto,
a lucidez de um piano, o corvo a assombrar as estrelas,
tuas horas e teu suor acumulados.
Por isso carrego comigo o teu Pequeno Caderno de Palavras,
Os Seres, os Cantos de Lúcifer, a Ilha dos Patrupachas,
de onde fluem as águas, as pontes, o chão
de apodrecidas frutas, o tortuoso vôo de um morcego.
Lá, às vezes, só brota a flora vegetal das urtigas,
sob os indiferentes pés da moça de preto,
que, por ser um poema, é mesmo tua namorada.
IV
Um dia, desceste ao Vale dos Abutres
e te anunciaste o guardião dos corpos insepultos,
dançaste para os gatos e para tua própria morte.
E como houvesse uma irremediável aurora,
e como o cigarro se transformasse num corvo,
e como o tempo nada mais fosse
que tardes e montanhas incendiadas,
costuraste, em silêncio, as melodias de um secreto carnaval.
Leia José Alcides Pinto
Biografia de um Santo por Soares Feitosa
o grave movimento das palavras. E, desde então,
uma guitarra te espera na noite flamejante. Uma guitarra,
e suas cordas que estendem
sobre o abissal olhar das amadas
ou sobre o silêncio de cactos. Uma guitarra
que constrói, sem degraus, uma escada. Uma guitarra
que adormece o cansaço das lavadeiras. Uma guitarra
que aponta, no escuro, o riso do ditador. Uma guitarra
que cata siri, com as crianças,
nos mangues do Recife. Uma guitarra
que despe a moça de blusa azul
e a pluma de seus sapatos. Uma guitarra
que se estende sobre o longo caminhar das formigas
e conhece de cor a sanha das urtigas. Uma guitarra
que persegue os verdes abutres da colina
e espia de cócoras o pão que o diabo amassou.
Uma guitarra
que, espinha do arco-íris
impele navios como se fossem canções.
II
Guardas, dentro de mim,
um povoado: o poste aceso escorado no oitãoda memória.
Calado, conversas com tua gente: um moinho de vento
girando sem sentido. No Alto dos Angicos,
aprendeste a suportar todas as pragas, os presságios todos,
tantas visões, os sofrimentos tantos. Desde então,
compreendes os homens, debulhas suas espigas,
aprendeste o amor e as veredas de suas sílabas.
Desde então, recuperas pés soçobrados nos curtumes,
mãos em chagas de espinhos,
olhos derramados por sobre léguas em brasa. Desde então,
adormeces nos cabelos de palha da amada
ou rondas a madrugada como um lobo, porque, antes,
certamente, contemplaste o poente
que, em rugas, se dissolvia no peito azul da água de um rio imemorial.
III
Tua poesia
és tu mesmo, e somos todos nós.
Nós que pendoam nos labirintos noturnos.
Nós que cosem e descosem dúvidas, anseios,
boca esquecida num fragmento de tarde,
olhos que tecem adeuses com finíssimas agulhas,
mãos que catam siris e,
da lama,
fazem brotar a flor do poema.
Tua poesia são os olhos sem cal do pássaro morto,
a lucidez de um piano, o corvo a assombrar as estrelas,
tuas horas e teu suor acumulados.
Por isso carrego comigo o teu Pequeno Caderno de Palavras,
Os Seres, os Cantos de Lúcifer, a Ilha dos Patrupachas,
de onde fluem as águas, as pontes, o chão
de apodrecidas frutas, o tortuoso vôo de um morcego.
Lá, às vezes, só brota a flora vegetal das urtigas,
sob os indiferentes pés da moça de preto,
que, por ser um poema, é mesmo tua namorada.
IV
Um dia, desceste ao Vale dos Abutres
e te anunciaste o guardião dos corpos insepultos,
dançaste para os gatos e para tua própria morte.
E como houvesse uma irremediável aurora,
e como o cigarro se transformasse num corvo,
e como o tempo nada mais fosse
que tardes e montanhas incendiadas,
costuraste, em silêncio, as melodias de um secreto carnaval.
Leia José Alcides Pinto
Biografia de um Santo por Soares Feitosa
937
Vitorino Nemésio
Outro Testamento
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.
1 995
Vitor Casimiro
Um Dia Rosa, no Outro Pétala
PétalaVem ao chão.Do Chão não volta maisJamais esquece,A pétala,A chance valiosaDe ter sido,Um dia,Rosa.
964
Waldomiro Siqueira Jr.
Haicai
O Sentenciado
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
Na cela minúscula
Contemplava, pensativo,
A mosca voando.
Restos
Casa ao abandono.
Telhado já desabado.
Uiva um cão sem dono.
1 821
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 115
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 115
Vitor L. Mendes
Poemas ao Vento
A poesia cavalga no sopro do vento.
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
Nada existe em seu caminho, que possa se esconder.
Nada escapa ao toque gélido do Minuano,
Para que o vento norte venha, logo após, aquecer.
O poema encontra voz no murmúrio do mar,
No canto dos grilos nas noites de luar
E na orquestra de pássaros ao alvorecer,
Que a natureza sempre teima em reger.
Os versos se vestem de luz na paisagem,
Na lourice alegre dos raios do sol,
Que bricam de bordar sonho e imagem
Em leves filigranas tecendo o arrebol.
Tento em vão descrever em palavras
Tudo aquilo que sinto e quero te contar,
Mas teus ouvidos se negam
E teus olhos desviam o olhar.
Quem sabe teu coração venha algum dia saber,
Que o galope do poema não pode parar...
1 115
Carlos Augusto Viana
Jorge Tuffic
I
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
O tempo, bem o sabes, escorre das mãos,
e todas as horas são abissais.
Em qualquer cidade, as ruas,
assim como o grande rio,
desembocam sobre o imponderável.
Por isso, teus pés aprenderam, muito cedo,
a desembrulhar os caminhos.
Tua passagem,
o espanto da abstrata carne.
Tua palavra,
o desespero das traças. Teu olho
sobre a mulher que flutuava à janela.
Tuas mãos
doadas aos jarros de flores murchas.
Teu peito,
um cais soçobrado na madrugada.
Muitas terras percorreste,
e hoje, cada uma delas,
dentro de ti, é inefável lavoura.
II
O teu país, hoje, veste-se de líquidos tecidos
e deixa em estilhaços os vidros do sol.
Da praia de Iracema, contemplas o mar,
a brancura extenuada de suas espumas,
onde gaivotas bicam a pele de sombras esbraseadas.
Além desse mar, por certo, estende-se o rio,
— a tua primeira cartilha de espantos.
Por certo, é sobre ele que lanças o teu olhar
quando te enches de longos fragmentos de silêncio.
Navegas na concha negra de suas lendas
e, náufrago, agarras-te à fúria silenciosa de suas margens.
III
Entre ti e o grande rio,
um secreto dicionário.
Com suas palavras-árvore,
com suas palavras-pássaro,
com suas palavras-pórtico,
com suas palavras-lótus.
Entre ti e o grande rio,
as léguas de um estuário.
Onde florescem os álamos,
onde adormecem os pântanos,
onde se tecem os cânticos,
onde fenecem as pátinas.
Entre ti e o grande rio,
Há um secreto calendário.
As horas de tuas lágrimas,
as horas enchendo cântaros,
as horas colhendo lâminas
as horas de teus átrios.
Entre ti e o grande rio,
há um tecido visionário.
Com que se cosem as túnicas
para os mais secretos ritos:
raízes das noites únicas,
húmus que alimentam mitos.
IV
Ainda hoje, conservas contigo
os trôpegos relâmpagos,
uma floresta de vozes,
o cristal da mais límpida estrela.
Ainda hoje, conservas contigo
o claro augúrio de Vésper
soletrando o silêncio dos mortos
que vencem o lodo da memória.
Ainda hoje, conservas contigo
a solidão e o diamante de seus gumes,
o barro e a insônia de sua herança,
o verbo e o labirinto de suas fábulas.
Mas, dentre todos os abismos,
— aquele que se esgarça
entre o rio e o mar,
é o que mais te alucina.
V
Estendeste — e ainda estendes — tuas mãos
para as flores crestadas, a cinza em vôo dos pássaros,
o cromo das esperas, o gesso da insônia,
a lâmina inexorável dos espelhos. Estendidas,
tuas mãos nos oferecem a Varanda de Pássaros,
o Chão sem Mácula, a Faturação do ócio,
a terra e o sangue cravados na Lâmina Agreste.
Cúmplices dos minerais e dos jardins,
das ruas ladrilhadas de silêncio,
dos gritos que tombam dos espelhos,
do sono geométrico dos peixes,
— tuas mãos estendidas para o que,
na carne, é flor e tortura.
Estendidas, tuas mãos não te pertencem,
mas ao que te olha desde que nasceste,
ao que te suga e ao que, realejo,
desfolha-se em música. Tuas mãos
— se estendidas — libertam-nos da ferrugem
e, água clara, banham a fadiga dos frutos.
VI
A poesia
(como descobriste?)
é um ser sem origem.
A poesia,
se há desertos,
abriga-se
em sua própria sombra.
A poesia,
ave solitária,
recusa
o ofertório das palmeiras.
A poesia,
lobo enrodilhado,
oferece a noite
a cada uma de suas presas.
A poesia tem rugas
como a pele de um rio.
Adormecem flautas
sob rochas antiquíssimas.
VII
Os pássaros, mais que as árvores,
deram-te lições de raízes. Os silêncios,
mais que as palavras, apontaram-te
a fragilidade. Teus olhos,
mais que os pés, sangraram
aos espinhos da pátria. A cítara,
mais que a lâmina, os dedos dilacerados.
A pétala, mais que a rosa,
o aroma irremediável. A pedra,
mais que a água, o musgo do efêmero.
A noite, mais que o dia,
a chama dos minutos.
o pó, mais que a carne,
à casa regressa.
1 185
Carlos Augusto Viana
A Báscula do Desejo
1O mar inventa canteiros nos cílios das areias,
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
multiplica-se no marulhar do ar nos grãos de milho
move-se em murmúrios nas conchas múltiplas do alpendre.
Estilhaços da chuva na memória:
um mapa embrulhado nas pálpebras,
um cavalo singrando o arco-íris,
um girassol se contorcendo num jarro.
2Teus peitos em chamas cobrem de espumas as ilhas,
as franjas do vento inauguram temporais.
Teu corpo se derrama, enorme, sobre as dunas
que a mão dos vendavais tece no litoral de novembro.
O amor são as patas do cavalo
sobre os espelhos das campinas,
o sol incendiando a penugem do canavial,
o mapa dos olhos no escuro,
uma cidade que se despe como um calendário.
O amor é um roçado de enigmas,
claros como o silêncio dos retratos,
iniludíveis como o olhar dos bois,
ávidos
como as mãos que cavam a terra
ou os pés que namoram caminhos.
Amar é escrever teu nome
no ventre de uma inacessível praia
onde adormecem um deus e as cordas de uma guitarra.
Amar é escrever teu nome
como se escreve um poema sem palavras,
assim como a noite se inscreve na solidão de um homem.
3O amor
se
pétala
sempre
exala
por isso
amar
não conserva arames
em suas léguas
4De teus olhos em água
saltam inscrições em fogo,
assim como existe um outro mar
que se desdobra além das ondas,
um calendário nas sombras
que se diluem nas paredes.
De teus olhos em água,
as inscrições em fogo
tingem de nova cor a paisagem
e dão às horas o enigma dos minerais.
Das inscrições em fogo,
o amor e sua linguagem de água,
o amor e suas sombras nas areias da memória.
o amor
e a escritura de seu abandono,
as tenebrosas buscas, as urtigas da dúvida,
o trigo interrompido, o gesto não pendoado,
o grão das horas a arder sob o sol das esperas.
O amor
e suas mãos que palmilham palavras,
o inatingível, o inumerável,
o que não se conhece, o que não se aprende jamais.
1 655
Vivaldo Beldade
A Morte da Arvore
Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
1 070
Vivaldo Beldade
A Morte da Arvore
Leio nos teus ramos desnudados
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
e nas hastes quebradas
a luta travada na noite em que tombaste.
As tuas veias sem sangue
trazem-me aos sentidos a sinfonia da morte
no último acorde da tempestade.
Arvore agonizante,
eu sinto a dor da última folha que te abandona
e a prece desesperada do fim
na última lágrima que aspiras à terra.
1 070
Venúsia Neiva
O Cemitério
cruzes.
guirlandas.
flores.
ciprestes.
tudo se confunde num funéreo lamento de loucura.
podridão de estátuas que já foram vivas,
que sorriam,
que choravam,
que gritavam ao mundo a inutilidade das coisas mortas.
eu sinto o vento a gemer na solidão e no tempo.
eu vejo os anjos de mármore incendiarem-se no luar
que povoa a cidade deserta.
madrugadas gélidas.
dentro de noites gélidas.
corujas piando sobre cruzes eretas.
coroas de rosas desbotadas.
vôos agoureiros de morcegos negros.
tudo pede luz. tudo pede vida!
alvas sombras entrechocam-se ao ritmo macabro
das convulsões do pavor.
a morte mora ali.
ela vigia seus súditos acorrentados sob lápides marmóreas.
nunca mais os deixará sair.
para sempre escravizados.
até à eternidade, até ao fim dos tempos!
até que a ressurreição se processe
em suas cinzas esquecidas.
guirlandas.
flores.
ciprestes.
tudo se confunde num funéreo lamento de loucura.
podridão de estátuas que já foram vivas,
que sorriam,
que choravam,
que gritavam ao mundo a inutilidade das coisas mortas.
eu sinto o vento a gemer na solidão e no tempo.
eu vejo os anjos de mármore incendiarem-se no luar
que povoa a cidade deserta.
madrugadas gélidas.
dentro de noites gélidas.
corujas piando sobre cruzes eretas.
coroas de rosas desbotadas.
vôos agoureiros de morcegos negros.
tudo pede luz. tudo pede vida!
alvas sombras entrechocam-se ao ritmo macabro
das convulsões do pavor.
a morte mora ali.
ela vigia seus súditos acorrentados sob lápides marmóreas.
nunca mais os deixará sair.
para sempre escravizados.
até à eternidade, até ao fim dos tempos!
até que a ressurreição se processe
em suas cinzas esquecidas.
732
Tatiana Ramminger
Oferenda
Oferenda
Nos meus momentos de inconsciência
Nos meus momentos de inconsistência
Em um acaso muito bem planejado
Meu beija-flor inconseqüente
Me leva
Ao teu escorpião de asas azuis
E quanto estrago não fazem
Impregnados
Embriagados
Da vida
Pintada relaxadamente com cores fortes
Ofuscando olhares
Desfazendo contornos
Jogando de sombras
Que trazem a realidade
Em oferenda
Nos meus momentos de inconsciência
Nos meus momentos de inconsistência
Em um acaso muito bem planejado
Meu beija-flor inconseqüente
Me leva
Ao teu escorpião de asas azuis
E quanto estrago não fazem
Impregnados
Embriagados
Da vida
Pintada relaxadamente com cores fortes
Ofuscando olhares
Desfazendo contornos
Jogando de sombras
Que trazem a realidade
Em oferenda
1 239
Teófilo Dias
A Matilha
Pendente a língua rubra, os sentidos atentos,
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético, respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, disperses,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados,
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo entumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.
Inquieta, rastejando os vestígios sangrentos,
A matilha feroz persegue enfurecida,
Alucinadamente, a presa malferida.
Um, afitando o olhar, sonda a escura folhagem;
Outro consulta o vento; outro sorve a bafagem,
O fresco, vivo odor, cálido, penetrante,
Que, na rápida fuga, a vítima arquejante
Vai deixando no ar, pérfido e traiçoeiro;
Todos, num turbilhão fantástico, ligeiro,
Ora, em vórtice, aqui se agrupam, rodam, giram,
E, cheios de furor frenético, respiram,
Ora, cegos de raiva, afastados, disperses,
Arrojam-se a correr. Vão por trilhos diversos,
Esbraseando o olhar, dilatando as narinas.
Transpõem num momento os vales e as colinas,
Sobem aos alcantis, descem pelas encostas,
Recruzam-se febris em direções opostas,
Té que da presa, enfim, nos músculos cansados
Cravam com avidez os dentes afiados.
Não de outro modo, assim meus sôfregos desejos,
Em matilha voraz de alucinados beijos
Percorrem-te o primor às langorosas linhas,
As curvas juvenis, onde a volúpia aninhas,
Frescas ondulações de formas florescentes
Que o teu contorno imprime às roupas eloqüentes:
O dorso aveludado, elétrico, felino,
Que poreja um vapor aromático e fino;
O cabelo revolto em anéis perfumados,
Em fofos turbilhões, elásticos, pesados;
As fibrilhas sutis dos lindos braços brancos,
Feitos para apertar em nervosos arrancos;
A exata correção das azuladas veias,
Que palpitam, de fogo entumescidas, cheias,
— Tudo a matilha audaz perlustra, corre, aspira,
Sonda, esquadrinha, explora, e anelante respira,
Até que, finalmente, embriagada, louca,
Vai encontrar a presa — o gozo — em tua boca.
1 837
Maria Thereza Noronha
Palavras
O poeta nas montanhas arma a tenda. Estende os olhos sobre o abismo, apruma as asas, espera. O peito entoca o inquieto pássaro. O vento breve traz as palavras. Espalhadas na relva, ele as recolhe, ajunta, separa: cada uma com seu sol interior, sua recôndita lenda, os matizes à espreita de propícia luz onde se apurem. O poeta desentoca o pássaro e vai bicando as letras, alinhando-as, brunindo-as, tecendo ali um colar de sílabas, aqui um diadema de signos, uma tiara de imagens - um poema.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
O pássaro sobrevoa as montanhas, ultrapassando-as. Tem nas vértebras a vertigem do verso, e vai levando-o para outras paragens: praias, planícies, planaltos, vales.
1 012
Tristão da Cunha
Virgem Primitiva
A pobre Ofélia deu-lhe os tristes olhos mansos
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados,
De tarde, a meditar nos eternos descansos.
Há idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vem dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.
Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros,
Noiva morta de amor na primeira manhã...
Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astros,
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...
Onde bóia um luar de sonhos afogados;
Mãos piedosas dormindo em gestos resignados,
De tarde, a meditar nos eternos descansos.
Há idílios de irmãos, inviolados remansos,
Soluços de ternura, e sorrisos cansados,
E saudades que não vem dos tempos passados,
No sobre-humano olhar daqueles olhos mansos.
Eu vejo-a morta já (que tristeza tão doce!...)
As mãos no colo em cruz e branca de alabastros,
Noiva morta de amor na primeira manhã...
Na Via-Láctea que a leva, pura como a trouxe,
Florindo-lhe o caminho anjos espalham astros,
E a lua vai seguindo atrás, como uma irmã...
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