Poemas neste tema
Natureza e Elementos
João Augusto Sampaio
MaracuJá!
Subitamente olho para cima e Vejo:
Pendes todo verde e perfeitamente esférico sobre minha cabeça
Amadureces e transformas
Carbono morto em células vivas.
Calmante
Verdeamarelo
Passiflora
Flor da paixão.
Quase na barca do Mordomia. 9/9/1996 AD.
Pendes todo verde e perfeitamente esférico sobre minha cabeça
Amadureces e transformas
Carbono morto em células vivas.
Calmante
Verdeamarelo
Passiflora
Flor da paixão.
Quase na barca do Mordomia. 9/9/1996 AD.
936
João Augusto Sampaio
MaracuJá!
Subitamente olho para cima e Vejo:
Pendes todo verde e perfeitamente esférico sobre minha cabeça
Amadureces e transformas
Carbono morto em células vivas.
Calmante
Verdeamarelo
Passiflora
Flor da paixão.
Quase na barca do Mordomia. 9/9/1996 AD.
Pendes todo verde e perfeitamente esférico sobre minha cabeça
Amadureces e transformas
Carbono morto em células vivas.
Calmante
Verdeamarelo
Passiflora
Flor da paixão.
Quase na barca do Mordomia. 9/9/1996 AD.
936
Ruy Pereira e Alvim
Monólogo em Noite sem Estrelas
Da pátria chegam as noites
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
como semáforos vermelhos
a interromper o caminho
por onde me afoito.
E o jogo de palavras
percorre o tempo
à procura de um sonho entorpecido.
O continente esvazia-se
e flutua sobre pélagos
gelados:
só contém loucura
e sonhos sufocados.
Emergem estranhos arquipélagos
de um estranho rito
de anjos mascarados.
As estrelas apagam suas luzes
e o céu dorme às escuras
na longa noite sem poemas.
883
Renato Russo
Soul Parsifal
Ninguém pode dizer o que sentir
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
Meu coração está disperto
É sereno nosso amor e santo este lugar
Dos tempos de tristeza tive o tanto que era bom
Eu tive o teu veneno
E o sopro leve do luar
Porque foi calma a tempestade
E tua lembrança, e estrela a me guiar
Da alfazema fiz um bordado
Vem, meu amor, é hora de acordar
Tenho anis
Tenho hortelã
Tenho um cesto de flores
Eu tenho um jardim e uma canção
Vivo feliz, tenho amor
Eu tenho um desejo e um coração
Tenho coragem e sei quem sou
Eu tenho um segredo e uma oração
Vê que a minha força é quase santa
Como foi santo o meu penar
Pecado é provocar desejo
E depois renunciar
Estive cansado
Meu orgulho me deixou cansado
Meu egoísmo me deixou cansado
Minha vaidade me deixou cansado
Não falo pelos outros
Só falo por mim
Ninguém vai me dizer o que sentir
Tenhos jasmim tenho hostelã
Eu tenho um anjo, eu tenho uma irmã
Com a saudade teci uma prece
E preparei erva-cidreira no café da manhã
Ninguém vai me dizer o que sentir
E eu vou cantar uma canção pra mim
1 453
Shinobu Saiki
Haicai
Chaminés lançam
fumaças da lareira,
Campos do Jordão.
Geada rude
brancura inclemente
Lua minguante
fumaças da lareira,
Campos do Jordão.
Geada rude
brancura inclemente
Lua minguante
1 014
Shinobu Saiki
Haicai
Chaminés lançam
fumaças da lareira,
Campos do Jordão.
Geada rude
brancura inclemente
Lua minguante
fumaças da lareira,
Campos do Jordão.
Geada rude
brancura inclemente
Lua minguante
1 014
Renato Russo
Por Enquanto
Mudaram as estações e nada mudou
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o prá sempre
Sempre acaba ?
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem
Mesmo com tantos motivos prá deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta
Prá casa
Mas eu sei que alguma coisa aconteceu
Está tudo assim tão diferente
Se lembra quando a gente chegou um dia a acreditar
Que tudo era prá sempre
Sem saber
Que o prá sempre
Sempre acaba ?
Mas nada vai conseguir mudar o que ficou
Quando penso em alguém
Só penso em você
E aí então estamos bem
Mesmo com tantos motivos prá deixar tudo como está
E nem desistir, nem tentar
Agora tanto faz
Estamos indo de volta
Prá casa
2 076
João Augusto Sampaio
Guerra é guerra?
Leio Fernando Pessoa à beira-mar.
Um helicóptero da FAB incomoda-me dando um rasante sobre a praia sem qualquer motivo.
(Vingança por estar a serviço no Reveillon?)
.....................................................................................................................
Memórias de há dez anos são remexidas instantaneamente no fundo do baú da memória:
Cena dos helicópteros de Apocalypse Now,
Cavalgada das Valquírias ao fundo.
O garotão da Califórnia dispara mais um foguete contra os kongs magros.
Fogo, cheiro de carne humana queimada pelo napalm,
E o comandante cow boy desce na praia e proclama:
"Adoro este cheiro de vitória!".
O recrutinha havaiano surfa nas ondas dos kongs já queimados.
Transponho a cena para minha praia e lembro-me de um político baiano que também adora lutar com adversários desiguais,
Mais fracos sempre...
Chama-se a isso atualmente na Bahia de coragem.
Coragem.
Agir com o coração?
Castro Alves revira-se no túmulo no anno do seu sesquicentenário de nascimento.
Um helicóptero da FAB incomoda-me dando um rasante sobre a praia sem qualquer motivo.
(Vingança por estar a serviço no Reveillon?)
.....................................................................................................................
Memórias de há dez anos são remexidas instantaneamente no fundo do baú da memória:
Cena dos helicópteros de Apocalypse Now,
Cavalgada das Valquírias ao fundo.
O garotão da Califórnia dispara mais um foguete contra os kongs magros.
Fogo, cheiro de carne humana queimada pelo napalm,
E o comandante cow boy desce na praia e proclama:
"Adoro este cheiro de vitória!".
O recrutinha havaiano surfa nas ondas dos kongs já queimados.
Transponho a cena para minha praia e lembro-me de um político baiano que também adora lutar com adversários desiguais,
Mais fracos sempre...
Chama-se a isso atualmente na Bahia de coragem.
Coragem.
Agir com o coração?
Castro Alves revira-se no túmulo no anno do seu sesquicentenário de nascimento.
841
Ruy Pereira e Alvim
Sonho Anfíbio
Viver na espuma das ondas
o meu sonho de mar.
Beijar a língua de areia
e refluir
nas ondas submissas
para voltar
a percorrer o sonho
a vida inteira
entre a terra e o porvir.
E viver na espuma das ondas
sem ter pátria no tempo
na saudade sem lar.
o meu sonho de mar.
Beijar a língua de areia
e refluir
nas ondas submissas
para voltar
a percorrer o sonho
a vida inteira
entre a terra e o porvir.
E viver na espuma das ondas
sem ter pátria no tempo
na saudade sem lar.
1 037
Ruy Pereira e Alvim
Desencanto
Eu canto o canto
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
do meu desencanto.
Eu canto a lua
de pele manchada,
despudorada
com astronautas
de quarto em quarto
e nua.
E canto o medo
e as pequenas covardias
que no dia a dia,
em segredo,
fazem as minhas heresias.
Canto o tempo esgotado,
porque, na hora,
o deserto é pranto.
E o meu corpo chora
sem o recado,
que sublimará o meu canto.
999
João Augusto Sampaio
Índia
Nunca houve,
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.
Jamais verão.
Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.
Jamais verão.
Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD
911
João Augusto Sampaio
Índia
Nunca houve,
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.
Jamais verão.
Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD
Não há,
Nem jamais haverá
Fila indiana mais bela e malemolente
Que o coqueiral entre as dunas do Rio Capivara Grande e o Atlântico,
Na Aldeia Hippie de Arembepe,
Quando visto de sudoeste,
Banhado pela luz das 5:15 nas tardes de Verão.
Jamais verão.
Aldeia Hippie, cinco e quinze da tarde de 1/1/1997 AD
911
Roberto Saito
Verão
Súbita tontura.
Ainda mal desperto ouço
o som das cigarras.
Verão. Meio-dia.
Queimando as patas dos gatos —
paralelepípedos.
Ainda mal desperto ouço
o som das cigarras.
Verão. Meio-dia.
Queimando as patas dos gatos —
paralelepípedos.
959
Roberto Saito
Verão
Súbita tontura.
Ainda mal desperto ouço
o som das cigarras.
Verão. Meio-dia.
Queimando as patas dos gatos —
paralelepípedos.
Ainda mal desperto ouço
o som das cigarras.
Verão. Meio-dia.
Queimando as patas dos gatos —
paralelepípedos.
959
Renato Russo
Quase sem querer
Tenho andado distraído
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente:
Estou tão tranquilo
E tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar prá todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada prá ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Prá você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir prá si mesmo
É sempre a pior mentira
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras que nunca são ditas ?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você
Impaciente e indeciso
E ainda estou confuso
Só que agora é diferente:
Estou tão tranquilo
E tão contente.
Quantas chances desperdicei
Quando o que eu mais queria
Era provar prá todo o mundo
Que eu não precisava
Provar nada prá ninguém.
Me fiz em mil pedaços
Prá você juntar
E queria sempre achar
Explicação pro que eu sentia.
Como um anjo caído
Fiz questão de esquecer
Que mentir prá si mesmo
É sempre a pior mentira
Mas não sou mais
Tão criança a ponto de saber
Tudo.
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu vejo o mesmo que você.
Tão correto e tão bonito:
O infinito é realmente
Um dos deuses mais lindos.
Sei que às vezes uso
Palavras repetidas
Mas quais são as palavras que nunca são ditas ?
Me disseram que você estava chorando
E foi então que percebi
Como lhe quero tanto
Já não me preocupo
Se eu não sei porquê
Às vezes o que eu vejo
Quase ninguém vê
E eu sei que você sabe
Quase sem querer
Que eu quero o mesmo que você
1 886
Renato Russo
Vento no litoral
De tarde quero descansar, chegar até a praia
Ver se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim ?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
Quando vejo o mar
Existe algo que diz:
- A vida continua e se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem ?
- Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Ver se o vento ainda está forte
E vai ser bom subir nas pedras
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
Agora está tão longe
Vê, a linha do horizonte me distrai:
Dos nossos planos é que tenho mais saudade
Quando olhávamos juntos na mesma direção
Aonde está você agora
Além de aqui dentro de mim ?
Agimos certo sem querer
Foi só o tempo que errou
Vai ser difícil sem você
Porque você está comigo o tempo todo
Quando vejo o mar
Existe algo que diz:
- A vida continua e se entregar é uma bobagem
Já que você não está aqui
O que posso fazer é cuidar de mim
Quero ser feliz ao menos
Lembra que o plano era ficarmos bem ?
- Ei, olha só o que achei: cavalos-marinhos
Sei que faço isso para esquecer
Eu deixo a onda me acertar
E o vento vai levando tudo embora
2 067
Renato Russo
Tempo perdido
Todos os dias quando acordo,
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.
Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.
Não tenho mais o tempo que passou
Mas tenho muito tempo:
Temos todo o tempo do mundo.
Todos os dias antes de dormir,
Lembro e esqueço como foi o dia:
"Sempre em frente,
Não temos tempo a perder".
Nosso suor sagrado
É bem mais belo que esse sangue amargo
E tão sério
E selvagem.
Veja o sol dessa manhã tão cinza:
A tempestade que chega é da cor dos teus olhos castanhos.
Então me abraça forte e me diz mais uma vez
Que já estamos distantes de tudo:
Temos nosso próprio tempo.
Não tenho medo do escuro, mas deixe as luzes acesas agora.
O que foi escondido é o que se escondeu
E o que foi prometido, ninguém prometeu.
Nem foi tempo perdido;
Somos tão jovens.
2 365
Roberto Pontes
As Nuvens
As nuvens são sempre puras
em qualquer lugar e tempo.
A rosa-dos-ventos flora
e a ampulheta
filtra tênues detritos
de azul contaminação.
Entre as coisas de perene fluxo
as nuvens são sempre puras.
em qualquer lugar e tempo.
A rosa-dos-ventos flora
e a ampulheta
filtra tênues detritos
de azul contaminação.
Entre as coisas de perene fluxo
as nuvens são sempre puras.
1 148
Roque da Silva Ferreira
Haicai
Marinha
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
913
Roque da Silva Ferreira
Haicai
Marinha
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
farol da barra
clareia um barco na areia
que a maré agarra...
Atração
Há uma estrela boa
no olhar que me faz lembrar
uma ave que voa...
913
Roberto Pontes
Poesia e Libertação em Roberto Pontes
por Pedro Lyra
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema
o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro
o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça
a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)
o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:
o fazedeiro
de safras
lavra a dor
e lavrador
lavra dores
dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)
uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:
salário
solário (p.18)
O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:
o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática
tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato
cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada
entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)
Nesse livro, n
Um dos temas mais problemáticos da teoria literária contemporânea é a sobrevivência do épico. Dada a natureza por essência histórica deste gênero, creio que o problema não pode ser questionado antes de colocado num determinado tempo. Deste modo, a falência e/ou apogeu do épico se encontram vinculados à existência/inexistência de grandes acontecimentos sociais que, numa certa fase da história humana, ofereçam ou não temas de conteúdo épico.
Por que a Antigüidade e o Renascimento foram tão fecundos neste gênero? Simplesmente: pela ocorrência, nessas épocas, de fatos sociais de grandes implicações humanas no sentido universal. Aplicada a tese ao momento presente, o problema se resolve: não foi o épico que morreu como gênero literário, mas um certo épico de linguagem inadequada ao nosso tempo, um épico de conceituação sedimentada nos limites de uma estética restrita ao ideário clássico – o pomposo e solene épico de Homero, Virgílio, Camões, próprio para as sociedades que o gerararm e consumiram, como só elas poderiam gerá-lo e consumí-lo.
A aparente falência do épico em nossa época se explica por esta evidência: a instabilidade do mundo contemporâneo – este pragmatismo materialesco a que nos atiraram – por um lado nega ao escritor o tempo indispensável para o labor épico (pelo menos, para o labor épico "a la antigua") e, por outro lado, nega também ao leitor essa mesma parcela de tempo necessário para o convívio com os longos poemas que requerem exegese.
Mas o epos está presente em qualquer tempo. E a nossa época é, sem talvez, a mais fecunda de toda a história humana em essência épica: aí estão ainda as radiações atômicas da última guerra mundial e das mais recentes bombas de intimidação e exibição; aí estão as lutas de classe propagando a revolução socialista por todo o globo; aí está o surgimento deste vasto Terceiro Mundo para uma nova realidade mundial; e aí está, por fim, a conquista do espaço, afirmando o domínio do homem sobre o seu universo próximo. Tudo isso, junto ou isolado, se oferece ao poeta contemporâneo como num desafio: um desafio àquele que se proponha a deixar, numa obra de fôlego, uma imagem poética deste tempo desesperado.
Pois bem: um desses temas – o último – acaba de ser tratado, num longo poema, por um jovem poeta cearense: Roberto Pontes, prêmio "Esso–Jornal de Letras" de 1970 (com o ensaio Vanguarda Brasileira: Introdução e Tese), no livro-poema Lições de Espaço: Teletipos, Módulos e Quânticas 1 , premiado pela Universidade Federal no mesmo ano.
Com certeza, podemos vincular este poema à corrente vanguardista da poesia brasileira: vanguarda pelo tema, vanguarda pela linguagem. Nisto, cabe notar que Roberto não circunscreveu o fazer vanguardista ao problema da linguagem: sendo vanguarda o que sugere um passo à frente – o que, incorporando um dado novo ao patrimônio preexistente, aponte um rumo a seguir – ele se situa como vanguardista menos numa perspectiva lingüística do que numa perspectiva social.
Trabalhando exclusivamente com a palavra, Roberto Pontes compreende que tem de explorá-la ao máximo, para compensar a ausência da contribuição não-solicitada ao figurativo. Por isso ele está sempre experimentando, reinventando, neologizando a matéria-prima do verbo. As múltiplas tendências, os vários processos, a polivalência usual da palavra – todas as diretivas da vanguarada vocabular foram amalgamadas em Lições de Espaço por um tenaz esforço pessoal crítico-teórico-criativo em torno de poetas e movimentos vanguardistas, donde resultou um poema antes de tudo pesquisa-informação, atualizadas pela unidade de linguagem conseguida do primeiro ao último verso.
Através da simples leitura do poema é possível notar a familiaridade do autor com os experimentalistas da tradição internacional, como Mallarmé, Pound, Joyce, Cummings, Apollinaire, Maiacovski, ou com os da melhor vertente nacional nacional, como Oswald de Andrade, Cassiano Ricardo, Carlos Drummond de Andrade, João Cabral, Haroldo de Campos, Mário Chamie. Através dessa convergência de processos, o autor destas lições de espaço integra-se, via experimentalismo com a palavra, na determinante verbal da vanguarda brasileira – na mesma perspectiva em que Guimarães Rosa também é vanguarda, na prosa.
Ele consegue reinventar o épico através de uma inusitada contenção verbal, de uma fala renovada, de um discurso condensado, na melhor terminologia poundiana. Por isso, sendo os seus blocos de verso uma síntese da cultura humana, eles requerem um nível receptor exigente. Mas é exatamente no nível solicitado que se concentra a melhor poesia.
O poema está dividido em três livros.
O primeiro apresenta, em doze pequenos poemas, a problemática do espaço numa perspectiva regional. O espaço é o Nordeste brasileiro. Os poemas vão abrindo, pouco a pouco, um leque de problemas ecológicos, econômicos, antropológicos e sociais de sua sofrida região, ao mesmo tempo em que anatemiza a conivência que os conserva.
O poeta se define diante dos problemas em apenas um texto, apesar de sempre curto, apresentados numa linguagem tão estéril quanto a própria natureza nordestina. Mais que em qualquer outra parte do poema, é neste primeiro livro que se tem a perfeita adequação da linguagem ao tema focalizado: através da aridez da linguagem chega-se a uma idéia da aridez da vida que ela representa.
No poema
o piso não fabula a verdura
engastada na poeira e no salitre
nem mesmo as próprias raízes
desbebidas no lençol de anidro
o solo ingere as forras tessituras
dessangradas dos folículos e folhas
ele suga a sudorência do granito
seus produtos se arrimam na caliça
a terra não concebe o nobre cepo do cedro
cisma a figura inane do xerófito
o gozo estriado dos fibromas
e a indigência epitelial da citra (p.10)
o poeta descreve esse espaço e revela a natureza do solo naquilo que ele pode germinar. Mas esse solo não germina o que pode – "a terra não concebe" – esterilizado pela incipiência da agricultura:
o fazedeiro
de safras
lavra a dor
e lavrador
lavra dores
dá cifras
e não decifra
a grandeza do lavrar (p.22)
uma agricultura desinstrumentalizada, que explora mais o homem ("lavra a dor") do que a terra, num processo onde o sertanejo, ignorante de sua função social ("dá cifras/ e não decifra/ a grandeza do lavrar"), é o forte que, antes de tudo, ainda depende da chuva, preso a um sistema medievalizado que lhe proporciona uma subsistência de conveniência, como na expressiva síntese práxis-concretista destes dois versos-palavra:
salário
solário (p.18)
O segundo livro apresenta, em quarenta poemas de seis versos em média, a configuração do espaço numa perspectiva planetária. O espaço é a Terra. E, para entendê-lo, o poeta ressalta o uso que o homem faz do raciocínio, da inteligência, da sensibilidade e do seu poder de criação. Com o espaço circundante compreendido, vem a apreensão do universo – tônica do segundo livro. E, numa linguagem agora lírica, o poeta tenta uma definição do planeta, apoiado em informações científicas:
o universo
tem seu porte e suporte
em elétrons nêutrons prótons
é urgência ao poema
a fissão da massa atômica
a micro física quântica
os princípia matemática
tem o limite dos cardos
cortantes da metafísica
estrela sistema cosmos
o fascínio da galáxia
o silêncio da palavra
o carpir em abstrato
cem mil milhares de sóis
igual lote de anos-luz
o poeta assim disserta
premissas e teoremas
de sua esfera anilada
entre parábolas e elipses
que vagam por aí em expansão
burila zumbidos de metal (p. 37-40)
Nesse livro, n
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