Poemas neste tema
Natureza e Elementos
Aymar Mendonça
Palavras
O aclive convida-nos à luta. Anima-nos a aventura da escalada: ela nos leva a antever Polymnia no cimo da montanha. Alçamos os braços como a querer sondar o Infinito, na busca dos encantos da musa, de seu aconchego.
Aqui nos repetimos, no intuito de levar a nossos leitores algo que vagueia nos labirintos da fala. O mistério, às vezes, condiz com a beleza da arte. É-nos importante lançar idéias positivas: fomentar o tormento não faz sentido.
Cada um de nós é responsável pela alegria do mundo porque fazemos parte de toda essa loucura que passeia pelo tempo.
Não podemos deixar que nossos olhos se molhem no pranto de ontem.
Aqui nos repetimos, no intuito de levar a nossos leitores algo que vagueia nos labirintos da fala. O mistério, às vezes, condiz com a beleza da arte. É-nos importante lançar idéias positivas: fomentar o tormento não faz sentido.
Cada um de nós é responsável pela alegria do mundo porque fazemos parte de toda essa loucura que passeia pelo tempo.
Não podemos deixar que nossos olhos se molhem no pranto de ontem.
894
Beatriz Alcântara
Tiradentes
O perfume da dama da noite apouca
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
séculos de vielas íngremes
tempo cansado de ver subir descer
ruas de pedra vermelha roliça
a entremear-se com outra em lâmina.
O perfume da dama da noite destouca
Lembranças da inconfidência insubmissa
enquanto a igreja no alto de portões cerrados
parece não acreditar por não se ofender
pecados de hoje já por tantos sussurrados.
O perfume da dama da noite touca
a brisa que volteia jardins e casas
candeeiros solitários de chama mortiça
amigos à volta da mesa grande a comer
jantar entre vinho e risos preparado.
O perfume da dama da noite treslouca
quem a vida dos outros cobiça
não aceita pelo amor viver sobre brasas
com os encantos namorados sente desprazer
gemidos a ecoarem no coração angustiado.
1 018
Bernardo Guimarães
Hino à Tarde
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
Que convida a cismar .. Ei-la saudosa
E meiga reclinada
Em seu etéreo leito,
Da muda noite amável precursora;
Do róseo seio aromas transpirando,
Com vagos cantos, com gentil sorriso
Ao repouso convida a natureza.
Montão de nuvens, como vasto incêndio,
Resplende no horizonte, e o clarão rábido
Céus e montes ao longe purpureia.
Pelas odoras veigas
As auras brandamente se espreguiçam,
E o sabiá na encosta solitária
Saudoso cadenceia
Pousado arpejo, que entristece os termos.
Oh! que grato remanso! — que hora amena,
Propícia aos sonhos dalma!
Quem me dera voltar à feliz quadra,
Em que este coração me transbordava
De emoções virginais, de afetos puros!
Em que esta alma em seu selo refletia,
Como o cristal da fonte, pura ainda,
Todo o fulgor do céu, toda a beleza
E magia da terra! ...ó doce quadrar
Quão veloz te sumiste — como um sonho
Nas sombras do passado!
Quanto eu te amava então, tarde formosa.
Qual pastora gentil, que se reclina
Rósea e louçã, sobre a macia relva,
Das diurnas fadigas descansando;
A face em que o afã lhe acende as cores,
Na mão repousa — os seios lhe estremecem
No mole arfar, e o lume de seus olhos
Em suave langor vai desmaiando;
Assim me aparecias, meiga tarde,
Sobre os montes do ocaso debruçada;
Tu eras o anjo da melancolia
Que à paz da solidão me convidava.
Então no tronco, que o tufão prostrava
No viso da colina ou na erma rocha,
Sobre a margem do abismo pendurada,
Me assentava a cismar, nutrindo a mente
De arroubadas visões, de aéreos sonhos.
Contigo a sós sentindo o teu bafejo
De aromas e frescor banhar-me a fronte,
E afagar brandamente os meus cabelos,
Minhalma então boiava docemente
Por um mar de ilusões e parecia
Que um coro aéreo, pelo azul do espaço,
Me ia embalando com sonoras dálias:
De um puro sonho sobre as asas de ouro
Me voava enlevado o pensamento,
Encantadas paragens devassando;
Ou nas vagas de luz que o ocaso inundam
Afoito me embebia, e o espaço infindo
Transpondo, ia entrever no estranho arroubo
Os radiantes pórticos do Elísio.
Ó sonhos meus, ó ilusões amenas
De meus primeiros anos,
Poesia, amor, Saudades, esperanças,
Onde fostes? por que me abandonasses?
Inda do tempo me não pesa a destra
E não me alveja a fronte; — inda não sinto
Cercar-me o coração da idade os gelos,
E já vós me fugis, ó ledas flores
De minha primavera!
E assim vós me deixais, — tronco sem seiva,
Só, definhando na aridez do mundo?
sonhos meus, por que me abandonasses?
A tarde está tão bela e tão serena
Que convida a cismar: — vai pouco a pouco
Desmaiando o rubor dos horizontes,
E pela amena solidão dos vales
Caladas sombras pousam: — breve a noite
Abrigará com a sombra de seu manto
A terra adormecida.
Vinde ainda uma vez, meus sonhos de ouro,
Nesta hora, em que tudo sobre a terra
Suspira, cisma ou canta,
Como esse afagador extremo raio,
Que à tarde pousa sobre as grimpas ermas,
Vinde pairar ainda sobre a fronte
Do bardo pensativo; — iluminara
Com um raio inspirado;
Antes que os ecos todos adormeçam
Da noite no silêncio,
Quero um hino vibrar nas cordas dharpa
Para saudar a filha do crepúsculo.
Ai de mim! — esses tempos já caíram
Na sombria voragem do passado!
Os meus Sonhos queridos se esvaíram,
Como após o festim murchas se espalham
As flores da grinalda:
Perdeu a fantasia as asas de ouro
Com que Se alava às regiões sublimes
De mágica poesia,
E despojada de seus doces sonhos
Minhalma vela a sós com o sofrimento,
Qual vela o condenado
Em sombria masmorra à luz sinistra
De amortecida lâmpada.
Adeus, formosa filha do Ocidente,
Virgem de olhar sereno que meus sonhos
Em doces harmonias transformavas;
Adeus, ó tarde! — já nas frouxas cordas
Rouqueja o vento e a voz me desfalece...
Mil e mil vezes raiarás ainda
Nestes sítios saudosos que escutaram
De minha lira o desleixado acento;
Mas ai de mim! nas solitárias veigas
Não mais escutarás a voz do bardo,
Hinos casando ao sussurrar da brisa
Para saudar teus mágicos fulgores!
Silenciosa e triste está minhalma,
Bem como lira de estaladas cordas
Que o trovador esquece pendurada
No ramo do arvoredo,
Em ócio triste balançando ao vento.
1 876
Beatriz Alcântara
Morbidez
Encontrei-te outra vez
triste e sombria
correndo solitária e cruel
nos áridos campos do cinza.
Encontramo-nos na destimidez
dos teus passos gélidos
tingidos de fel
a confundirem-se na traça
com os anjos da noite.
Encontrei-te morbidez
uivando verdades e volúpia
ao ritmo irreprimível
das outonias rajadas de vento
a volatilizarem célula após célula.
Encontramo-nos sobre a palidez
tenebrosa e jovem
em boda só compatível
de celebração na crueldade
de teu frio tumular.
Encontrei-te morte
e não era ainda minha vez.
triste e sombria
correndo solitária e cruel
nos áridos campos do cinza.
Encontramo-nos na destimidez
dos teus passos gélidos
tingidos de fel
a confundirem-se na traça
com os anjos da noite.
Encontrei-te morbidez
uivando verdades e volúpia
ao ritmo irreprimível
das outonias rajadas de vento
a volatilizarem célula após célula.
Encontramo-nos sobre a palidez
tenebrosa e jovem
em boda só compatível
de celebração na crueldade
de teu frio tumular.
Encontrei-te morte
e não era ainda minha vez.
1 011
Beatriz Alcântara
Morbidez
Encontrei-te outra vez
triste e sombria
correndo solitária e cruel
nos áridos campos do cinza.
Encontramo-nos na destimidez
dos teus passos gélidos
tingidos de fel
a confundirem-se na traça
com os anjos da noite.
Encontrei-te morbidez
uivando verdades e volúpia
ao ritmo irreprimível
das outonias rajadas de vento
a volatilizarem célula após célula.
Encontramo-nos sobre a palidez
tenebrosa e jovem
em boda só compatível
de celebração na crueldade
de teu frio tumular.
Encontrei-te morte
e não era ainda minha vez.
triste e sombria
correndo solitária e cruel
nos áridos campos do cinza.
Encontramo-nos na destimidez
dos teus passos gélidos
tingidos de fel
a confundirem-se na traça
com os anjos da noite.
Encontrei-te morbidez
uivando verdades e volúpia
ao ritmo irreprimível
das outonias rajadas de vento
a volatilizarem célula após célula.
Encontramo-nos sobre a palidez
tenebrosa e jovem
em boda só compatível
de celebração na crueldade
de teu frio tumular.
Encontrei-te morte
e não era ainda minha vez.
1 011
Birão Santana
Ri Dentes
Assim como as plantas
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.
Simples,
o quadro.
Profundo,
o momento.
Intraduzível
o que se passou.
Com as plantas,
a borboleta,
eu
e o vento,
ridentes.
a borboleta sorria.
Eu sorria
e o vento sorria.
Simples,
o quadro.
Profundo,
o momento.
Intraduzível
o que se passou.
Com as plantas,
a borboleta,
eu
e o vento,
ridentes.
1 173
Beatriz Alcântara
Réveillon
A noite feita de copos
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:
— Feliz Ano Novo!
Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.
encontrou-a virgem pura
distribuindo uvas
gritando imprudente:
— Feliz Ano Novo!
Depois desejou uma nuvem
caminhou na esteira da lua
ouviu o canto da pedra
bebeu o hálito do orvalho
chorou o anil do branco
e ao desprender-se da janela
contraiu núpcias com o ano que findou.
996
Bruno Araújo de Melo
Deserto no Litoral
E sempre achávamos que o próximo minuto
Poderia trazer de volta a magia dos inocentes...
Mas o vento soprou forte
E até que ponto fomos levados
Para longe da costa?
Ainda ontem tentei lembrar
E... Que engraçado!
Todo o passado sorria!
Às vezes penso em fazer as malas,
Mas desisto quando vejo
Que todo lugar é como aqui:
As pessoas sufocam o tempo
E deixam de lado as ondas do mar
Que ainda ontem batiam tão bonitas
Nas pedras que miravam a liberdade.
Vem!
Me dá a mão!
Vamos sair daqui
Dessa cidade,
E vamos andar!
E quem sabe um dia
Quando os anjos cantarem
Num ato extremo de doçura
Nossos olhos não divisem
Uma forma concreta de sorriso?
Agora toda culpa é o que devemos fazer
Para fugir desse imenso deserto no litoral.
Poderia trazer de volta a magia dos inocentes...
Mas o vento soprou forte
E até que ponto fomos levados
Para longe da costa?
Ainda ontem tentei lembrar
E... Que engraçado!
Todo o passado sorria!
Às vezes penso em fazer as malas,
Mas desisto quando vejo
Que todo lugar é como aqui:
As pessoas sufocam o tempo
E deixam de lado as ondas do mar
Que ainda ontem batiam tão bonitas
Nas pedras que miravam a liberdade.
Vem!
Me dá a mão!
Vamos sair daqui
Dessa cidade,
E vamos andar!
E quem sabe um dia
Quando os anjos cantarem
Num ato extremo de doçura
Nossos olhos não divisem
Uma forma concreta de sorriso?
Agora toda culpa é o que devemos fazer
Para fugir desse imenso deserto no litoral.
731
Bruno Araújo de Melo
A Tentativa dos Sonâmbulos
Hoje eu quero sair
E conversar com muita gente;
E ver o por-do-sol;
E crer no sol queimando lentamente.
Todo o tempo do mundo
Para mim que estou tão só
Refazer as pinturas
Nesses quadros
Que criei
Enquanto sonhava;
Ainda quero ver
Pessoas rindo sem pensar
Que há tanta lágrima
No fim de tudo.
E quero ver também
O mundo todo se alegrar
Ao perceber que as coisas
Tem um jeito próprio.
E não precisa ser perfeito
O nosso álbum de retratos;
Sempre há momentos ruins...
Um dia iremos nos lembrar
Sem julgamento algum, de tudo.
Sabendo que o que fizemos,
Foi uma tentativa
De fazer a vida
Mais feliz.
E conversar com muita gente;
E ver o por-do-sol;
E crer no sol queimando lentamente.
Todo o tempo do mundo
Para mim que estou tão só
Refazer as pinturas
Nesses quadros
Que criei
Enquanto sonhava;
Ainda quero ver
Pessoas rindo sem pensar
Que há tanta lágrima
No fim de tudo.
E quero ver também
O mundo todo se alegrar
Ao perceber que as coisas
Tem um jeito próprio.
E não precisa ser perfeito
O nosso álbum de retratos;
Sempre há momentos ruins...
Um dia iremos nos lembrar
Sem julgamento algum, de tudo.
Sabendo que o que fizemos,
Foi uma tentativa
De fazer a vida
Mais feliz.
868
Branquinho da Fonseca
O Arquipélago das Sereias
Ó nau Catarineta
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!
Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!
Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!
E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!
E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!
Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.
Ó nau Catarineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!
Em que andei no mar
Por caminhos de ir,
Nunca de voltar!
Veio a tempestade
Perder-se do mundo,
Fez-se o céu infindo,
Fez-se o mar sem fundo!
Ai como era grande
O mundo e a vida
Se a nau, tendo estrela,
Vogava perdida!
E que lindas eram
Lá em Portugal
Aquelas meninas
No seu laranjal!
E o cavalo branco
Também lá o via
Que tão belo e alado
Nenhum outro havia!
Mundo que não era,
Terras nunca vistas!
Tive eu de perder-me
Pra que tu existas.
Ó nau Catarineta
Perdida no mar,
Não te percas ainda,
Vem-me cá buscar!
2 067
Birão Santana
Desembotar
Aciono sentidos
e capto sons
num borbulhar de emoções.
São grilos, cigarras, pássaros.
Insetos da noite,
farfalhar de vento em coqueiro,
bananeira, canavial.
Absoluta ausência
de sons, ruídos,
dos homens
e suas máquinas.
Todo ouvidos,
insiro em meu sub-consciente
a cristalina sinfonia.
Incorporo-a, indelével,
e saio,
misturando-me aos homens
e suas máquinas,
sem ouvi-los
e a ouvir
num borbulhar de emoções
grilos, cigarras, pássaros,
insetos, farfalhar de coqueiro,
bananeira, canavial.
e capto sons
num borbulhar de emoções.
São grilos, cigarras, pássaros.
Insetos da noite,
farfalhar de vento em coqueiro,
bananeira, canavial.
Absoluta ausência
de sons, ruídos,
dos homens
e suas máquinas.
Todo ouvidos,
insiro em meu sub-consciente
a cristalina sinfonia.
Incorporo-a, indelével,
e saio,
misturando-me aos homens
e suas máquinas,
sem ouvi-los
e a ouvir
num borbulhar de emoções
grilos, cigarras, pássaros,
insetos, farfalhar de coqueiro,
bananeira, canavial.
1 144
Alcides Werk
Do Tempo Entre Duas Águas
A mãe-do-rio virá com suas águas poderosas,
e inundará a várzea,
e cobrirá os jutais e os tapiris,
e invadirá os domínios da mata.
Minha gente conhecerá, ainda uma vez,
o espanto da enchente
e a ilusão dos jutais e das lamas humosas,
e se refugiará nas marombas
com seus animais
e as sementes de novas esperanças.
Os peixes se multiplicarão nos igapós,
e o rio doará à varzea a fertilidade das águas.
As florestas indomadas guardarão, ainda,
as riquezas da terra firme
e o segredo milenar das nossas jazidas.
Então,
convocaremos a força benéfica
que desobstruirá os canais dos nossos sonhos,
e iluminará os nossos corações;
e nos ensinará os caminhos da urbe,
com suas indústrias e seu comércio,
em que não seremos um amontoado de seres revoltados;
e nos ensinará os caminhos da várzea,
em que cultivaremos os nossos alimentos,
sem sermos consumidos pelas águas;
e nos ensinará os caminhos da terra firme,
em que apaziguaremos as florestas e o subsolo,
sem enveredarmos por transamazônicas impossíveis.
E o espírito da cidade será um bom companheiro,
e não nos punirá a cada dia
por nossas vidas;
e a mãe-do-rio permanecerá fértil e generosa,
e apascentará os cardumes
que alimentarão nossos filhos;
e o senhor da mata
porá nos nossos lábios a palavra certa
para o diálogo com as árvores e com a terra.
E terá chegado a hora
em que perpetuaremos o gesto simples
do amanho e da partilha justa,
entre nós mesmos,
dos nossos bens.
e inundará a várzea,
e cobrirá os jutais e os tapiris,
e invadirá os domínios da mata.
Minha gente conhecerá, ainda uma vez,
o espanto da enchente
e a ilusão dos jutais e das lamas humosas,
e se refugiará nas marombas
com seus animais
e as sementes de novas esperanças.
Os peixes se multiplicarão nos igapós,
e o rio doará à varzea a fertilidade das águas.
As florestas indomadas guardarão, ainda,
as riquezas da terra firme
e o segredo milenar das nossas jazidas.
Então,
convocaremos a força benéfica
que desobstruirá os canais dos nossos sonhos,
e iluminará os nossos corações;
e nos ensinará os caminhos da urbe,
com suas indústrias e seu comércio,
em que não seremos um amontoado de seres revoltados;
e nos ensinará os caminhos da várzea,
em que cultivaremos os nossos alimentos,
sem sermos consumidos pelas águas;
e nos ensinará os caminhos da terra firme,
em que apaziguaremos as florestas e o subsolo,
sem enveredarmos por transamazônicas impossíveis.
E o espírito da cidade será um bom companheiro,
e não nos punirá a cada dia
por nossas vidas;
e a mãe-do-rio permanecerá fértil e generosa,
e apascentará os cardumes
que alimentarão nossos filhos;
e o senhor da mata
porá nos nossos lábios a palavra certa
para o diálogo com as árvores e com a terra.
E terá chegado a hora
em que perpetuaremos o gesto simples
do amanho e da partilha justa,
entre nós mesmos,
dos nossos bens.
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