Poemas neste tema
Outros
Pablo Neruda
Manhã - XIV
Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
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Pablo Neruda
Manhã - XIV
Me falta tempo para celebrar teus cabelos.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
Um por um devo contá-los e louvá-los:
outros amantes querem viver com certos olhos,
eu só quero ser penteador de teus cabelos.
Na Itália te batizaram Medusa
pela encrespada e alta luz de tua cabeleira.
Eu te chamo brejeira minha e emaranhada:
meu coração conhece as portas de teu pelo.
Quando tu te extraviares em teus próprios cabelos,
não me esqueças, lembra-te que te amo,
não me deixes perdido ir sem tua cabeleira
pelo mundo sombrio de todos os caminhos
que só tem sombra, transitórias dores,
até que o sol suba à torre de teu pelo.
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Ana Martins Marques
Um café com a Medusa
Ou será então que você acredita, teria ela, escreve Beyle, ainda acrescentado, que Petrarca foi infeliz só porque nunca pôde tomar um café?
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
W. G. Sebald, Vertigem
Tudo o que com os olhos toco
ela diz
transformo em pedra
mas tudo é já
desde sempre pedra
pó futuro
seus pais eram filhos do mar e da terra
cetáceos de um mundo arcaico
informe ainda
mas ela é mortal
destinada, como nós, ao pó
Ovídio diz ter sido justo e merecido
o castigo que lhe impingiu Atenas
transformando seus cabelos em serpentes
porque ela se deitara com Poseidon
são desde sempre as mulheres, ela diz,
condenadas pelo que fazem no leito
desde sempre amputadas
de suas terríveis cabeças
mas hoje estamos velhas
ela e eu
cansadas de refletir o tempo
como um escudo
só queremos tomar nosso café
cada serpente que lhe adorna a cabeça
fala em uma língua
e a traduz
mas na realidade
falamos pouco
enquanto olhamos o porto
e ela ajeita as asas
na cadeira
cúmplices
ela e eu
(embora eu evite
confesso
olhá-la nos olhos)
tomamos nosso café quase
em silêncio
ela diz que agora sonha apenas com o mar
que seus cabelos são algas e não serpentes
e que dançam lentamente no fundo de um oceano
cheio de monstros, como são os oceanos,
lagostas enormes e águas-vivas
e outras incongruências marinhas
corais e conchas que são
como estojos
e baleias que vivem até duzentos anos
o que para ela é nada, alguns segundos
como de fato é
e rimos as duas
que duas velhas sonhem ainda
e sempre o sexo
é talvez o que há no desejo de mais cruel
quando nele há tanto de cruel:
que ele dure, continue
e às vezes seja só desejo
do desejo
e seja móvel e mesmo
como o mar
aos que não têm mais pátria
seja porque se exilaram
seja porque o país se exilou de nós
e toma a forma dos nossos pesadelos
seja porque na realidade não há países
mas extensões variáveis de terra
que as nuvens sem passaporte
atravessam
resta só a memória do mar
ela diz
batendo inutilmente
o mar e o café
ela diz
e, a cada qual,
suas serpentes
1 883
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Antes Que Escureça – 2
Levanto-me para olhar o mar
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
1 071
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Antes Que Escureça – 2
Levanto-me para olhar o mar
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
antes que escureça.
Sopra um vento de leste
e eu sei que as águas estão mais frias.
Considero as plantas do jardim.
Na estante os livros me contemplam.
Levanto os olhos pesquisando o nada
e vejo uma gaivota no horizonte.
Ruídos da tarde me enternecem:
– uma buzina
– um grito de criança
– o cão latindo persistente.
O Sol se põe à minha direita, exausto.
De tantas tardes esvaídas
esta grafou-se naturalmente no papel.
A tarde tem sortilégios.
Estou maduro para estrelas.
Escrevo. Venta o leste.
Escurece. E algo em mim
aos poucos se esclarece.
1 071
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Adágio de Mendelsohn
E como eu tivesse que sair do escritório
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
1 132
1
Affonso Romano de Sant'Anna
Adágio de Mendelsohn
E como eu tivesse que sair do escritório
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
e o rádio tocasse o adágio do Concerto para Violino de Mendelsohn
decidi deixar ligado o aparelho
embora ninguém estivesse ali para apreciar o que se ouvia.
Deixei os livros, o computador, objetos na estante,
as canetas, grampeadores, tesoura, folhas de papel em branco,
deixei tudo entregue
à responsabilidade musical de Mendelsohn.
Quando voltei daí a dez minutos
todos os objetos, absolutamente todos,
olhavam-me agradecidos
e até na paisagem da janela
havia uma densa, muda e imponderável melodia.
1 132
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Francisco de Assis
Poeta do Redentor
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
1 203
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Francisco de Assis
Poeta do Redentor
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
1 203
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
São Francisco de Assis
Poeta do Redentor
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
Poeta do Criador
Procuraste
A inocência primeira que a Redenção reergue
Amaste o Criador não apenas em sua Transfiguração e Palavra
Mas também no temporal jardim das coisas criadas
Saudaste o emergir e a frescura do visível
O teu poema celebra o inaugural
Para lá da morte da lacuna da perca e do desastre
O teu poema saúda a verdade primeira de toda a criatura
A inteireza do dia inicial
E o mar se vê em seu primeiro espelho
1 203
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Evohé Bakkhos
Evohé deus que nos deste
A vida e o vinho
E nele os homens encontraram
O sabor do sol e da resina
E uma consciência múltipla e divina.
A vida e o vinho
E nele os homens encontraram
O sabor do sol e da resina
E uma consciência múltipla e divina.
1 880
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Goesa
Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
1 072
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Goesa
Tudo era atravessado por um rio de memórias
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
E brisas subtis e lentas se cruzavam
E enquanto lá fora baloiçavam
Os grandes leques verdes das palmeiras
Uma rapariga descalça como bailarina sagrada
Atravessou o quarto leve e lenta
Num silêncio de guitarra dedilhada
1 072
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Açores
Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
1 385
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Açores
Há um intenso orgulho
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
Na palavra Açor
E em redor das ilhas
O mar é maior
Como num convés
Respiro amplidão
No ar brilha a luz
Da navegação
Mas este convés
É de terra escura
É de lés a lés
Prado agricultura
É terra lavrada
Por navegadores
E os que no mar pescam
São agricultores
Por isso há nos homens
Aprumo de proa
E não sei que sonho
Em cada pessoa
As casas são brancas
Em luz de pintor
Quem pintou as barras
Afinou a cor
Aqui o antigo
Tem o limpo do novo —
É o mar que traz
Do largo o renovo
E como num convés
De intensa limpeza
Há no ar um brilho
De bruma e clareza
É convés lavrado
Em plena amplidão
É o mar que traz
As ilhas na mão
Buscámos no mundo
Mar e maravilhas
Deslumbradamente
Surgiram nove ilhas
E foi na Terceira
Com o mar à proa
Que nasceu a mãe
Do poeta Pessoa
Em cujo poema
Respiro amplidão
E me cerca a luz
Da navegação
Em cujo poema
Como num convés
A limpeza extrema
Luz de lés a lés
Poema onde está
A palavra pura
De um povo cindido
Por tanta aventura
Poema onde está
A palavra extrema
Que une e reconhece —
Pois só no poema
Um povo amanhece
1976
1 385
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Naquele Tempo
Sob o caramanchão de glicínia lilás
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
As abelhas e eu
Tontas de perfume
Lá no alto as abelhas
Doiradas e pequenas
Não se ocupavam de mim
Iam de flor em flor
E cá em baixo eu
Sentada no banco de azulejos
Entre penumbra e luz
Flor e perfume
Tão ávida como as abelhas
Abril de 98
1 683
1
José Saramago
Parábola
Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
1 463
1
José Saramago
Parábola
Num caroço de mentira
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
Trouxe a verdade escondida
Pus o caroço na terra
Nasceu verdade fingida
Não faltou água dos olhos
Ao viço desta palmeira
Que frutos daria o ramo
Da maligna sementeira
Se do sal que nela morde
Um sabor amargo sobra
É coisa que vai no rasto
Que ficou depois da cobra
Lá em cima onde a verdade
Tem a franqueza do vento
Negam ninhos as raízes
Porque é outro o seu sustento
E o tronco tão levantado
Sobre o caroço partido
Não é tronco mas é homem
Alto firme e decidido
1 463
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
Ó minha noite que eu julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
2 229
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Noite
Mais uma vez encontro a tua face,
Ó minha noite que eu julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
Ó minha noite que eu julguei perdida.
Mistério das luzes e das sombras
Sobre os caminhos de areia,
Rios de palidez em que escorre
Sobre os campos a lua cheia,
Ansioso subir de cada voz,
Que na noite clara se desfaz e morre.
Secreto, extasiado murmurar
De mil gestos entre a folhagem,
Tristeza das cigarras a cantar.
Ó minha noite, em cada imagem
Reconheço e adoro a tua face,
Tão exaltadamente desejada,
Tão exaltadamente encontrada,
Que a vida há-de passar, sem que ela passe,
Do fundo dos meus olhos onde está gravada.
2 229
1
Martha Medeiros
o sentido da vida
o sentido da vida
é o que a gente sente
por um filho
que é a cara da gente
por um trabalho
que ocupa a mente
por um amor
que nos deixa doente
pena que isso não baste
por mais que se tente
é o que a gente sente
por um filho
que é a cara da gente
por um trabalho
que ocupa a mente
por um amor
que nos deixa doente
pena que isso não baste
por mais que se tente
1 417
1
Adélia Prado
Lápide Para Steve Jobs
A Deus entrego meus pecados,
entrego-os a quem pertencem,
não a Satanás que é um dos nossos
e sofre também o tormento dos filhos
que têm o Pai ocupado em alimentar pardais.
Nem torres que tocam a lua,
ou o que quer que nos roube o fôlego,
fazem assomar Seu rosto.
Por que nos abandonastes?
Vosso Filho soube, na obediência da morte,
e o que se viu foi só um tremor rasgando a pele da terra.
Alguém no derradeiro instante exclamou Oh! Oh!
E fechou os olhos.
Eu não tenho aonde ir, tudo me ignora,
ignoro tudo, pois sou natureza.
Um beija-flor enfia numa flor natalina
o seu bico comprido e come e bebe e voa,
não pousa no meu ombro,
não bebe do meu olho a água de sal.
Por agora, o que me faz prosseguir
é sua indiferença. Esta ausência de milagre.
entrego-os a quem pertencem,
não a Satanás que é um dos nossos
e sofre também o tormento dos filhos
que têm o Pai ocupado em alimentar pardais.
Nem torres que tocam a lua,
ou o que quer que nos roube o fôlego,
fazem assomar Seu rosto.
Por que nos abandonastes?
Vosso Filho soube, na obediência da morte,
e o que se viu foi só um tremor rasgando a pele da terra.
Alguém no derradeiro instante exclamou Oh! Oh!
E fechou os olhos.
Eu não tenho aonde ir, tudo me ignora,
ignoro tudo, pois sou natureza.
Um beija-flor enfia numa flor natalina
o seu bico comprido e come e bebe e voa,
não pousa no meu ombro,
não bebe do meu olho a água de sal.
Por agora, o que me faz prosseguir
é sua indiferença. Esta ausência de milagre.
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1
José Saramago
Antes Calados
E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
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José Saramago
Antes Calados
E se os ossos rangessem quando os gritos
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
Dentro no sangue negro se amordaçam?
E se os olhos uivassem quando a lágrima
Grossa de sal amargo rasga a pele?
E se as unhas mudadas em navalhas
Abrissem dez caminhos de desforra?
E se os versos doessem mastigados
Entre dentes que mordem o vazio?
(Mais perguntas, amor? Antes calados.)
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