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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Conselho Amigável Para Muitos Jovens

Vá para o Tibet.
Monte em um camelo.
Leia a bíblia.
Pinte seus sapatos de azul.
Deixe a barba crescer.
Dê a volta ao mundo numa canoa de papel.
Assine The Saturday Evening Post.
Mastigue apenas com o lado esquerdo da boca.
Case-se com uma perneta e se barbeie com uma navalha.
E entalhe seu nome no braço dela.
Escove os dentes com gasolina.
Durma o dia inteiro e suba em árvores à noite.
Seja um monge e beba chumbo grosso e cerveja.
Mantenha sua cabeça dentro d’água e toque violino.
Faça uma dança do ventre diante de velas cor-de-rosa.
Mate seu cachorro.
Concorra à prefeitura.
Viva num barril.
Rompa sua cabeça com uma machadinha.
Plante tulipas sob a chuva.
Mas não escreva poesia.

Para acalmar Lydia, concordei em ir até Muleshead, Utah. Sua irmã estava acampando nas montanhas. As irmãs eram na verdade donas de boa parte daquelas terras. Haviam-nas herdado do pai. Glendoline, uma das irmãs, tinha uma barraca montada na floresta. Ela estava escrevendo um romance, A mulher selvagem das montanhas. As outras irmãs chegariam qualquer dia desses. Lydia e eu chegamos primeiro. Tínhamos uma barraca pequena. Arrastamo-nos para dentro dela, seguidos pelos mosquitos. Foi um negócio pavoroso.
Na manhã seguinte nos sentamos ao redor da fogueira. Glendoline e Lydia esquentaram o café da manhã. Eu tinha gastado quarenta pratas em mercadorias que incluíam uma quantidade razoável de garrafas de cerveja. Mantinha-as geladas numa fonte da montanha. Terminamos o café. Ajudei com os pratos e então Glendoline trouxe sua novela e começou a lê-la para nós. Não era de todo má, mas estava longe de ser um texto profissional e precisava de muito polimento. Glendoline supunha que os leitores estivessem tão fascinados quanto ela por sua própria vida – o que era um erro fatal. Os outros erros de mesma natureza que ela cometera eram numerosos demais para mencionar.
Caminhei até a fonte e voltei com três garrafas de cerveja. As garotas disseram não, não queriam beber. Eram bastante contrárias à cerveja. Discutimos o romance de Glendoline. Me dei conta de que qualquer pessoa capaz de ler seu romance em voz alta para outras devia ser posta sob suspeita. Se aquilo não era o velho beijo da morte, não sei mais o que poderia ser.
A conversa mudou de rumo, e as garotas passaram a falar sobre homens, festas, dança, e sexo. Glendoline tinha uma voz alta e esganiçada e ria de um modo nervoso e constante. Ela já ia na metade dos quarenta, era gorducha e um tanto sebosa. Além disso, assim como eu, ela era simplesmente feia.
Glendoline deve ter falado por mais de uma hora sem parar, exclusivamente sobre sexo. Comecei a ficar tonto. Ela gesticulava com os braços acima da cabeça:
– SOU A MULHER SELVAGEM DAS MONTANHAS! Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, Ó, ONDE ESTÁ O HOMEM, O HOMEM DE VERDADE QUE TERÁ CORAGEM DE ME PEGAR?
Bem, ele certamente não estaria por aqui, pensei.
Olhei para Lydia.
– Vamos dar uma caminhada.
– Não – ela disse –, quero ler este livro. – Chamava-se Amor e orgasmo: um guia revolucionário para a realização sexual.
– Tudo bem – eu disse –, vou dar uma caminhada então.
Caminhei até a fonte da montanha. Apanhei mais uma cerveja, abri a tampinha e me sentei por ali, bebendo. Eu estava preso no meio das montanhas e da floresta com duas mulheres loucas. Elas esvaziavam toda alegria que havia numa trepada por não falarem de outra coisa o tempo todo. Eu também gostava de foder, mas não fazia disso minha religião. Havia uma série de coisas ridículas e ao mesmo trágicas sobre o assunto. As pessoas pareciam ser incapazes de lidar com isso. Então transformaram o negócio num passatempo. Um passatempo capaz de destruir pessoas.
O principal a fazer, decidi, era encontrar a mulher certa. Mas como? Tinha um caderninho vermelho comigo e uma caneta. Rabisquei um poema meditativo numa das folhas. Então caminhei em direção ao lago. Vance Pastures era o nome do lugar. As irmãs eram donas de quase toda a terra. Eu precisava dar uma cagada. Baixei as calças e me acocorei no meio do mato, cercado por moscas e mosquitos. Como seria bom poder contar com os confortos da cidade. Tive que me limpar com umas folhas. Caminhei até o lago e meti um pé na água. Estava fria como gelo.
Seja homem, seu velho. Entre.
Minha pele era branca como marfim. Me senti decrépito, muito flácido. Entrei na água gelada. Fui submergindo até a cintura, então tomei bastante fôlego e me lancei para frente. Eu tinha mergulhado por inteiro! A lama se ergueu do fundo do lago e entrou em meus ouvidos, na minha boca, grudou nos meus cabelos. Fiquei ali, em meio à água lamacenta, os dentes batendo.
Esperei por muito tempo até que a água voltasse a ficar limpa. Então retornei. Vesti minhas roupas e percorri o caminho ao longo do lago. Quando cheguei ao fim da margem, escutei um som que parecia o de uma cachoeira. Entrei na floresta, seguindo na direção do som. Tive que vencer algumas pedras através de um córrego. O som se tornava cada vez mais vivo. As moscas e os mosquitos fervilhavam ao meu redor. As moscas eram maiores e furiosas e famintas, muito maiores do que as moscas da cidade, além de saber reconhecer uma refeição quando avistavam uma.
Embrenhei-me na mata, avancei, e então lá estava: minha primeira cachoeira de verdade. A água simplesmente brotava da montanha e corria sobre uma saliência na pedra. Era uma coisa linda. A água não parava de correr. Vinha de algum lugar. E corria para algum lugar. Havia três ou quatro córregos que era bem provável que desaguassem no lago.
Por fim, cansei de olhar a cachoeira e decidi voltar. Decidi, também, tomar um caminho diferente, um atalho. Abri caminho na direção oposta ao lago, para chegar mais rápido ao acampamento. Eu tinha noção de onde ele ficava. Trazia ainda comigo o meu caderninho vermelho. Parei e escrevi outro poema, menos meditativo, e então prossegui. Continuei caminhando. Nada do acampamento. Caminhei um pouco mais. Olhei em volta à procura do lago. Não conseguia encontrá-lo, não sabia mais onde ele estava. De súbito, percebi: eu estava PERDIDO. Aquelas vadias taradas tinham me deixado louco e agora eu estava PERDIDO. Olhei em volta. Dava para ver as montanhas no horizonte e ao meu redor árvores e mato. Não havia nenhum centro, nenhum ponto de partida, nenhuma conexão entre nada. Senti medo, medo de verdade. Por que fui deixar que elas me tirassem da minha cidade, da minha Los Angeles querida? Lá um homem poderia chamar um táxi, dar um telefonema. Havia soluções razoáveis para problemas razoáveis.
Vance Pastures se estendia à minha volta por quilômetros e quilômetros. Joguei longe meu caderninho. Que modo para um escritor morrer! Já podia ver a notícia no jornal:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR,
ENCONTRADO MORTO NAS MATAS DE UTAH
Henry Chinaski, ex-funcionário dos Correios que virou escritor, foi encontrado em estado de decomposição na tarde de ontem pelo guarda florestal W. K. Brooks Jr. Perto de seu corpo também foi encontrado um pequeno caderno vermelho, que continha evidentemente os últimos escritos do sr. Chinaski.
Segui caminhando. Eu estava numa área pantanosa. A todo momento, uma de minhas pernas afundava até o joelho no lodaçal, e eu tinha que dar um jeito de libertá-la.
Acabei topando com uma cerca de arames farpados. Soube de imediato que eu não devia pular aquela cerca. Sabia que era a coisa errada a fazer, mas parecia não haver alternativa. Escalei a cerca e fiquei parado lá em cima, fiz uma concha com minhas mãos ao redor da boca e gritei:
– LYDIA!
Não houve resposta.
Tentei novamente:
– LYDIA!
Minha voz soou bastante chorosa. A voz de um covarde.
Prossegui. Seria bom, pensei, estar de novo com as irmãs, ouvindo-as falar sobre sexo e homens e sair pra dançar e festas. Seria bom ouvir a voz de Glendoline. Seria bom passar minha mão pelos longos cabelos de Lydia. De coração, eu a levaria a todas as festas da cidade. Chegaria mesmo a dançar com todas as mulheres e faria piadas maravilhosas sobre todo e qualquer assunto. Suportaria toda a bobajada que escorre das bocas com um sorriso. Quase podia me ouvir:
– Ei, essa música é ótima para dançar! Quem está querendo ir embora? Quem quer botar pra quebrar na pista de dança?
Segui caminhando através do lodo. Finalmente cheguei à terra seca. Depois, encontrei uma estrada. Não era mais que uma estrada velha e suja, mas parecia boa. Dava pra ver algumas marcas de pneu e de cascos de animais. Havia até mesmo alguns postes que levavam eletricidade para algum lugar. Tudo o que eu tinha a fazer era seguir esses fios. Caminhei ao longo da estrada. O sol ia alto no céu, devia ser perto de meio-dia. Continuei me arrastando, sentindo-me um otário.
Mais adiante avistei um portão do outro lado da estrada que estava trancado. O que significava aquilo? Havia uma pequena entrada lateral. Era evidente que o portão era de uma propriedade de gado. Mas onde estavam os animais? Onde estava o dono da fazenda? Talvez ele só aparecesse a cada seis meses.
O topo da minha cabeça começou a doer. Levei uma das mãos até ali e senti o local onde trinta anos antes, num bar da Filadélfia, eu havia tomado uma cacetada. A cicatriz nunca desapareceu por completo. Agora, tostada ao sol, a cicatriz havia inchado. Parecia um pequeno chifre. Arranquei um pedaço do tecido que a cobria e joguei na estrada.
Caminhei por mais uma hora, então decidi voltar. Isso significava ter que refazer todo o caminho percorrido, mas ainda assim me pareceu a coisa certa a fazer. Tirei minha camisa e a enrolei na cabeça. De vez em quando dava uma parada para gritar:
– LYDIA!
Não havia resposta.
Algum tempo depois cheguei de novo ao portão. Tudo o que eu precisava fazer era contorná-lo, mas havia alguma coisa no caminho. Ficava na frente do portão, a uns cinco metros de onde eu estava. Era um pequeno veado, uma gazela, algo assim.
Movi-me devagar em sua direção. O bicho não saiu do lugar. Será que me deixaria passar? Não parecia ter medo de mim. Supus que ele tivesse percebido minha confusão, minha covardia. Aproximei-me mais e mais. Ele não iria sair do caminho. Tinha olhos grandes e castanhos, olhos mais belos do que os de qualquer mulher que eu já tenha visto. Era inacreditável. Estávamos a um metro de distância, e eu prestes a recuar, quando ele se afastou. Correu para a mata além da estrada. Estava em ótima forma; era capaz de correr de verdade.
Enquanto seguia caminhando pela margem da estrada ouvi o som de água corrente. Eu precisava de água. Não se podia viver por muito tempo sem água. Abandonei a estrada e segui na direção do som da água corrente. Havia um pequeno monte coberto de grama e, assim que o venci, lá estava: água corrente, jorrando de canos de cimento para dentro de uma represa e então para um tipo de reservatório. Sentei-me à beira do reservatório e tirei meus sapatos e minhas meias, arregacei as calças e enfiei minhas pernas na água. Então despejei água sobre minha cabeça. Depois a bebi – mas não muito ou muito depressa –, do mesmo modo como vi fazerem nos filmes.
Depois de me recuperar um pouco, reparei num píer que se projetava sobre o reservatório. Caminhei até ali e me deparei com uma grande caixa de metal, fixada num dos lados do píer. Estava trancada com um cadeado. Era bem provável que houvesse um telefone ali dentro! Eu podia ligar e pedir ajuda!
Fui em busca de uma pedra de bom tamanho e comecei a golpear o cadeado com ela. A tranca não cedia. O que Jack London faria? O que Hemingway faria? Jean Genet?
Continuei golpeando o cadeado com a pedra. Às vezes eu errava o golpe e minha mão atingia o cadeado ou a própria caixa de metal. A pele lacerada, o sangue escorrendo. Reuni minhas forças e disparei um último golpe. O cadeado abriu. Retirei-o e abri a caixa. Não tinha nenhum telefone lá dentro. Havia uma série de comandos e alguns cabos de grosso calibre. Pus minha mão ali, toquei num dos fios e levei um choque terrível. Então acionei um dos comandos. Escutei o rugir das águas. De três ou quatro buracos que estavam na face de concreto da represa jorraram jatos brancos e gigantescos de água. Puxei outro dos comandos. Mais três ou quatro buracos se abriram, liberando toneladas de água. Puxei um terceiro comando, e a represa inteira começou a soltar água. Fiquei ali parado, assistindo a água se espalhar. Talvez eu pudesse dar início a uma inundação, de modo que os caubóis em seus cavalos ou em suas pequenas e robustas picapes viessem me resgatar. Já podia ver a manchete:
HENRY CHINASKI, POETA MENOR, PROVOCA ALAGAMENTO NO INTERIOR DE UTAH PARA SALVAR SEU DELICADO RABO DE HOMEM DA CIDADE GRANDE.
Decidi que isso estava mal. Reverti todos os comandos para a posição normal, fechei a caixa de metal e coloquei o cadeado rompido de volta no seu lugar.
Deixei o reservatório e encontrei outra estrada pelo caminho, que passei a seguir. Esta, porém, parecia ser mais utilizada que a anterior. Avancei por ali. Nunca antes me sentira tão cansado. Eu já não enxergava mais nada. De repente uma garotinha de cinco anos caminhava em minha direção. Trazia um vestidinho azul e sapatos brancos. Pareceu se assustar ao me ver. Tentei, enquanto me aproximava dela cada vez mais, parecer alguém agradável e digno de confiança.
– Não fuja, garotinha. Não vou machucar você. ESTOU PERDIDO! Onde estão seus pais? Garotinha, me leve até seus pais!
A garotinha apontou numa direção. Vi um trailer e um carro estacionados logo à frente.
– EI, ESTOU PERDIDO! – gritei. – POR DEUS, QUE ALEGRIA VER VOCÊ.
Lydia contornou o trailer. Seu cabelo estava cheio de bobes vermelhos.
– Vamos lá, garoto da cidade – ela disse. – Me siga até em casa.
– Estou tão feliz em ver você, baby, me beija!
– Não. Me siga.
Lydia disparou correndo, uns dez metros na minha frente. Era difícil acompanhá-la.
– Perguntei pro pessoal aí se eles tinham visto um garoto da cidade nas redondezas – ela gritou, por sobre o ombro. – E eles disseram: não.
– Lydia, eu te amo!
– Vamos, você parece uma lesma!
– Espere, Lydia, espere!
Ela pulou uma cerca de arames farpados. Eu não consegui. Fiquei preso. Não podia me mover. Era como uma vaca presa.
– LYDIA!
Ela retornou com seus bobes vermelhos e me ajudou a me livrar dos arames farpados.
– Eu segui você. Encontrei o seu caderninho vermelho. Você se perdeu de propósito só porque estava puto da cara.
– Não, eu me perdi por causa da minha ignorância, do meu medo. Não sou uma pessoa completa: sou uma dessas pessoas incapazes da cidade. Sou mais ou menos como um monte de merda fracassada, não tenho absolutamente nada a oferecer.
– Jesus – ela disse –, você acha, por acaso, que eu não sei disso?
Libertou-me do último arame. Lancei-me atrás dela. Eu estava outra vez com Lydia.
– Mulheres
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Charles Bukowski

Charles Bukowski

Enfeitiçado em Nova York

a senhora foi a mais infiel e terrível que eu jamais havia
encontrado e eu sabia disso e ela sabia disso e ela era
as duas coisas, feia e linda ao mesmo tempo e as
duas dela estavam sentadas ali no peitoril
daquela janela aberta no hotel
em Nova York em
um dos dias mais quentes de todos os tempos, sem
ar-condicionado, sem ventilador, suávamos e sofríamos e esperávamos
algo
acontecer.
eu estava bêbado, ela estava nas drogas, havíamos acabado
de concluir uma copulação
rapidinha e logo depois ela disse, "seu filho da
puta, nós estamos encalhados aqui no inferno!"
"bom", eu disse.
então eu a vi cair da janela, estávamos
no quarto andar, eu escutei o grito,
seu corpo se havia ido.
então estava de volta, ela sentada no
peitoril da janela outra vez. "você viu isso?", ela
perguntou. "eu caí da janela!"
"bom", eu disse.
"mas de algum modo eu me empurrei de volta para dentro!", ela
disse.
"bom", eu disse.
"isso é tudo o que você sabe dizer?", ela perguntou.
"bom???"
"eu consigo dizer que acho você uma bruxa ou um demônio
e que seu ato na janela agora só prova
isso."
eu senti que por cair para fora ela havia melhorado meu
humor e que ela o havia estragado de propósito
ao subir de volta
para dentro.
"então eu sou uma bruxa ou um demônio, é? bem, então chega de
bunda para você!"
"bom", eu disse.
às vezes você vive e fica com uma mulher e não tem ideia
real do porquê.
com ela eu sabia: era o simples, fascinante,
inexorável mistério e terror
de ela ser assim.
1 136 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Seja Gentil

sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.

Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
1 507 1
Charles Bukowski

Charles Bukowski

Seja Gentil

sempre nos é pedido
que entendamos os pontos de vista das
outras pessoas
não importa o quão
ultrapassado
tolo ou
odioso.
exige-se de alguém
que encare
os erros totais dos outros
os desperdícios de suas vidas
com
gentileza,
especialmente se eles já forem
velhos.
mas a idade é a soma de
nossos atos.
eles envelheceram
sem dignidade
porque
viveram
desfocados,
recusaram-se a
enxergar.
e não por culpa deles?
então de quem é a culpa?
minha?
pedem-me para esconder
dessas pessoas
meu ponto de vista
por medo do medo
delas.
envelhecer não é nenhum crime.
mas a vergonha
de uma vida
deliberadamente
desperdiçada
entre tantas outras
vidas
deliberadamente
desperdiçadas
é.

Eu estava lá às 8h50 da manhã. Estacionei e esperei por Jon. Ele apareceu às 8h55. Saltei e me aproximei do carro dele.
– Bom dia, Jon...
– Olá, Hank... Como vai?
– Ótimo. Escuta, que aconteceu com a greve de fome?
– Oh, ainda estou nela. Mas mais importante é cortar os pedaços.
Trazia a Black and Decker consigo. Enrolada numa toalha verde-escuro. Entramos no prédio da Firepower juntos. O elevador nos levou ao escritório do advogado. Neeli Zutnick. A recepcionista aguardava a nossa chegada.
– Por favor, entrem direto – disse.
Neeli Zutnick esperava. Levantou-se de detrás de sua mesa e apertou-nos a mão. Depois voltou, sentou-se atrás da mesa.
– Os cavalheiros gostariam de um cafezinho? – perguntou.
– Não – disse Jon.
– Eu tomo um – eu disse.
Zutnick apertou o botão do intercomunicador.
– Rose? Rose, minha querida... um café, por favor... – Olhou para mim. – Creme e açúcar?
– Preto.
– Preto. Obrigado, Rose... Agora, cavalheiros...
– Onde está Friedman? – perguntou Jon.
– O sr. Friedman me deu instruções completas. Agora...
– Onde fica sua tomada? – perguntou Jon.
– Tomada?
– Pra isso... – Jon puxou a toalha, revelando a Black and Decker.
– Por favor, sr. Pinchot...
– Onde fica a tomada? Deixa pra lá, já achei...
Jon adiantou-se e ligou a Black and Decker na tomada.
– Você deve entender – disse Zutnick – que, se eu soubesse que ia trazer esse instrumento, teria mandado desligar a eletricidade.
– Tá tudo bem – disse Jon.
– Não há necessidade desse instrumento – disse Zutnick.
– Espero que não. É só... para o caso...
Rose entrou com o meu café. Jon apertou o botão da Black and Decker. A lâmina entrou em ação, zumbindo.
Rose ficou nervosa e entornou o café, só um pouquinho... o bastante para deixar cair uma gota no vestido. Era um belo vestido vermelho, e ela, gorda, recheava-o lindamente.
– Uau! Me deu um susto!
– Desculpe – disse Jon. – Eu estava só... testando...
– De quem é o café?
– Meu – eu disse. – Obrigado.
Ela me trouxe o café. Eu bem que precisava.
Rose saiu, lançando-nos um olhar preocupado por cima do ombro.
– Os srs. Friedman e Fischman manifestaram consternação por seu atual estado mental...
– Corta essa merda, Zutnick! Ou eu consigo a liberação ou o primeiro pedaço de minha carne será depositado... aqui!
Jon bateu no centro da mesa do advogado com a ponta da Black and Decker.
– Ora, sr. Pinchot, não há necessidade...
– HÁ NECESSIDADE, SIM! E O TEMPO ESTÁ SE ESGOTANDO! EU QUERO AQUELA LIBERAÇÃO JÁ!
Zutnick olhou para mim.
– Que tal seu café, sr. Chinaski?
Jon apertou o gatilho da Black and Decker e ergueu a mão esquerda, o dedo mindinho esticado. Volteou a Black and Decker em torno do dedo, a lâmina funcionando furiosamente.
– JÁ!
– TUDO BEM! – berrou Zutnick.
Jon tirou o dedo do gatilho.
Zutnick abriu a gaveta de cima da sua mesa e puxou duas folhas de papel tamanho ofício. Empurrou-as para Jon. Jon aproximou-se, pegou-as, sentou-se e começou a ler.
– Sr. Zutnick – perguntei –, posso tomar outra xícara de café?
Ele me fuzilou com o olhar, apertou o botão do intercomunicador.
– Outra xícara de café, Rose. Preto...
– Como em Black and Decker – eu disse.
– Sr. Chinaski, isso não tem graça nenhuma.
Jon continuou a ler.
Chegou meu café.
– Obrigado, Rose...
Jon continuava a ler e nós esperávamos. Ele pusera a Black and Decker atravessada no colo.
Então disse:
– Não, isso não serve...
– QUÊ? – perguntou Zutnick. – É UMA LIBERAÇÃO TOTAL!
– Toda a cláusula “e” deve ser retirada. Contém ambiguidades demais.
– Posso ver esses papéis? – perguntou Zutnick.
– Certamente...
Jon colocou-os sobre a lâmina da Black and Decker e passou-os para Zutnick. O advogado tirou-os da lâmina com certa repugnância. Começou a ler a cláusula “e”.
– Não estou vendo nada de errado aqui...
– Retire...
– Você realmente pretende cortar um de seus dedos?
– Pretendo. E posso até cortar um dos seus.
– Isso é uma ameaça? Está me ameaçando?
– Pense no seguinte: eu não tenho nada a perder aqui. Só vocês.
– Um contrato assinado sob essas condições pode ser considerado inválido.
– Você me dá nojo, Zutnick! Elimine a cláusula “e” ou meu dedo se vai! JÁ!
Jon apertou o botão. A Black and Decker tornou a saltar em ação. Jon Pinchot estendeu o dedo mindinho da mão esquerda.
– PARE! – gritou Zutnick.
Jon parou.
Zutnick falava no intercomunicador.
– ROSE! Preciso de você...
Rose entrou.
– Mais café para os cavalheiros?
– Não, Rose. Quero todo este contrato revisto e rodado de novo, mas elimine a cláusula “e”, e depois me devolva.
– Pois não, sr. Zutnick.
Ficamos ali sentados por algum tempo.
Então Zutnick disse:
– Pode tirar essa coisa da tomada agora.
– Ainda não – disse Jon. – Só quando tudo estiver finalizado.
– Você tem realmente outro produtor pra essa coisa?
– É claro...
– Se importa de me dizer quem é?
– Claro que não. Hal Edleman. Friedman sabe disso.
Zutnick piscou os olhos. Edleman significava dinheiro. Ele conhecia o nome.
– Eu li o argumento. Parece muito... cru... pra mim.
– Já leu outra obra do sr. Chinaski? – perguntou Jon.
– Não. Mas minha filha leu. Ela tem o livro de contos dele, Sonhos da piscina.
– E?
– Detestou.
Rose voltava com o novo contrato. Entregou-o a Zutnick. O advogado deu uma olhada, levantou-se e aproximou-se de Jon.
Jon releu a coisa toda.
– Muito bem.
Dirigiu-se com o documento para a mesa, curvou-se e assinou-o. Zutnick assinou por Friedman e Fischman. Estava feito. Uma cópia para cada.
Então Zutnick deu uma risada. Parecia aliviado.
– A prática da advocacia se torna cada vez mais estranha...
Jon tirou a Black and Decker da tomada. Zutnick encaminhou-se para um pequeno armário na parede, abriu-o, pegou uma garrafa e três copos. Colocou-os sobre a mesa e serviu a todos.
– Ao acordo, cavalheiros...
– Ao acordo... – disse Jon.
– Ao acordo – disse o escritor.
Bebemos. Era conhaque. E tínhamos o filme de novo.
Acompanhei Jon até o seu carro. Ele jogou a Black and Decker no banco de trás, e entrou na frente.
– Jon – perguntei da calçada –, posso testar você com a grande pergunta?
– Claro.
– Pode me dizer a verdade sobre a Black and Decker. Jamais sairá daqui. Você ia realmente fazer aquilo?
– Mas é claro...
– Mas as outras partes depois? Os outros pedaços. Ia fazer isso?
– Claro. Uma vez que a gente começa uma coisa dessas, não tem como parar.
– Você tem raça, cara.
– Não é nada. Agora estou com fome.
– Posso te pagar um café?
– Bem, tudo bem... Eu sei o lugar certo... Entre no carro e me siga...
– Tudo bem.
Segui Jon de um lado a outro de Hollywood, as luzes e as sombras de Alfred Hitchcock, o Gordo e o Magro, Clark Gable, Gloria Swanson, Mickey Mouse e Humphrey Bogart caindo ao nosso redor.
– Hollywood
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Hélia Correia

Hélia Correia

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
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Hélia Correia

Hélia Correia

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
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Hélia Correia

Hélia Correia

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
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Hélia Correia

Hélia Correia

Esmola

I
Lançai‑me
uma palavra, como alguns
atiram côdea aos cães.
Uma palavra
que, embrulhada nesse cuspo
que vos escorre pelos queixos,
brilha
e desconcerta a própria
repugnância.
Sacudi‑a
de vós, tal como alguém
sacode a lama seca do sapato
sem perceber sequer que lama é
porque não tira os pés
do alcatrão.
Essa palavra abandonada à porta,
eu a recolherei, como se houvesse
nela um pedido,
a súplica de um órfão,
de uma cria deixada para
morrer.
Eu pegarei nessa palavra ao colo
e, não sabendo onde encontrar abrigo
nem alimento,
dormirei com ela,
ouvindo‑a
murmurar,
enquanto os bosques
vão crepitando e a cinza
nos recobre.

II

Mas entregai uma qualquer palavra,
dessas que tanto desprezais,
ao meu cuidado.
Uma palavra, por exemplo,
sobre a qual
ninguém se incline já
porque a confunde
com uma pedra do caminho
ou um excremento,
tão insignificante
se tornou.
Oh, que estranho é pensar que elas tiveram,
até, reis como servos, as palavras.
Pensar que elas passavam pelos séculos
com o seu corpo musical, tão frágil
e tão convocador de tempestades.
Essas pequenas criaturas transparentes,
sem peso, com alguma vocação
para a malignidade, pois não têm
nem sombra nem reflexo,
e dos seus dedos
desce a grande beleza do terrível
e a grande redenção
que há no poema

III


Pequenas, misteriosas criaturas
que não nascem do mundo natural,
que são obra dos homens,
sendo os homens a obra delas,
vejo‑as
hoje mais do que escorraçadas:
submetidas.
Elas que eram solenes e risonhas,
tanto mais necessárias quanto inúteis,
e tanto mais inúteis quanto pura
exaltação do texto, essas palavras
rolam humildemente pelo chão.
Deixai, deixai cair uma palavra,
e outra, e outra,
os ossos do banquete,
para que me roje e as apanhe com a boca,
sendo eu menos
do que mendiga,
menos do que cadela,
sendo eu menos do que um bicho
com fome:
sendo a fome.
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Soares de Passos

Soares de Passos

Amor e Eternidade

Repara, doce amiga, olha esta lousa,
E junto aquella que lhe fica unida:
Aqui d'um terno amor, aqui repousa
O despojo mortal, sem luz, sem vida.
Esgotando talvez o fel da sorte,
Poderam ambos descançar tranquillos;
Amaram-se na vida, e inda na morte
Não pôde a fria tumba desunil-os.
Oh! quão saudosa a viração murmura
         No cypreste virente
Que lhes protege as urnas funerárias!
E o sol, ao descahir lá no occidente,
         Quão bello lhes fulgura
         Nas campas solitárias!
Assim, anjo adorado, assim um dia
De nossas vidas murcharão flores...
Assim ao menos sob a campa fria
Se reunam também nossos amores!
Mas que vejo! estremeces, e teu rosto,
Teu bello rosto no meu seio inclinas,
Pallido como o lírio que ao sol posto
         Desmaia nas campinas?
Oh? vem, não perturbemos a ventura
Do coração, que jubiloso anceia...
Vem, gosemos da vida em quanto dura;
Desterremos da morte a negra ideia!
Longe, longe de nós essa lembrança!
Mas não receies o funesto corte...
         Doce amiga, descança:
Quem ama como nós, sorri à morte.
         Vês estas sepulturas?
         Aqui cinzas escuras,
Sem vida, sem vigor, jazem agora;   
Mas esse ardor que as animou outr'ora,
Voou nas azas d'immortal aurora
         A regiões mais puras.
Não, a chamma que o peito ao peito envia
Não morre extincta no funéreo gelo.
O coração é immenso: a campa fria
É pequena de mais para contê-lo.
Nada receies, pois: a tumba encerra
Um breve espaço e uma breve idade:
É o amor tem por pátria o céo e a terra,
         Por vida a eternidade!
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