Poemas neste tema
Outros
Sophia de Mello Breyner Andresen
Lua
Entre a terra e os astros, flor intensa,
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.
Nascida do silêncio, a lua cheia
Dá vertigens ao mar e azula a areia,
E a terra segue-a em êxtases suspensa.
6 207
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não Te Ofenderei Com Poemas
Não te ofenderei com poemas
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
3 582
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não Te Ofenderei Com Poemas
Não te ofenderei com poemas
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
3 582
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Não Te Ofenderei Com Poemas
Não te ofenderei com poemas
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
Param os meus olhos quando penso em ti
Não farei do meu remorso um canto
Com árvores e céus mas sem poemas
Demasiado humano para poder ser dito
O teu mundo era simples e difícil
Quotidiano e límpido.
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Kassandra
Homens, barcos, batalhas e poentes,
Não sei quem, não sei onde, delirava.
E o futuro vermelho transbordava
Através das pupilas transparentes.
Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,
Os rostos tinham almas que mudavam,
E as aves estrangeiras trespassavam
As minhas mãos abertas e presentes.
Houve instantes de força e de verdade —
Era o cantar de um deus que me embalava
Enchendo o céu de sol e de saudade.
Mas não deteve a lei que me levava,
Perdida sem saber se caminhava
Entre os deuses ou entre a humanidade.
Não sei quem, não sei onde, delirava.
E o futuro vermelho transbordava
Através das pupilas transparentes.
Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,
Os rostos tinham almas que mudavam,
E as aves estrangeiras trespassavam
As minhas mãos abertas e presentes.
Houve instantes de força e de verdade —
Era o cantar de um deus que me embalava
Enchendo o céu de sol e de saudade.
Mas não deteve a lei que me levava,
Perdida sem saber se caminhava
Entre os deuses ou entre a humanidade.
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Kassandra
Homens, barcos, batalhas e poentes,
Não sei quem, não sei onde, delirava.
E o futuro vermelho transbordava
Através das pupilas transparentes.
Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,
Os rostos tinham almas que mudavam,
E as aves estrangeiras trespassavam
As minhas mãos abertas e presentes.
Houve instantes de força e de verdade —
Era o cantar de um deus que me embalava
Enchendo o céu de sol e de saudade.
Mas não deteve a lei que me levava,
Perdida sem saber se caminhava
Entre os deuses ou entre a humanidade.
Não sei quem, não sei onde, delirava.
E o futuro vermelho transbordava
Através das pupilas transparentes.
Ó dia de oiro sobre as coisas quentes,
Os rostos tinham almas que mudavam,
E as aves estrangeiras trespassavam
As minhas mãos abertas e presentes.
Houve instantes de força e de verdade —
Era o cantar de um deus que me embalava
Enchendo o céu de sol e de saudade.
Mas não deteve a lei que me levava,
Perdida sem saber se caminhava
Entre os deuses ou entre a humanidade.
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1
Nuno Júdice
Branco (a Eugénio de Andrade)
Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
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Nuno Júdice
Branco (a Eugénio de Andrade)
Não queiras saber o que é o branco para
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
além do branco, a ilusão de que o mar
se prolonga nesse mar que o branco
devora, com os lábios do vento; nem
interrogues o rosto que se esconde
no horizonte do branco, onde só o
silêncio te dá a resposta que ignoras.
No entanto, se o olhar que esse
horizonte te devolve tem a luz do
rosto que só no branco entrevês,
quando o vento empurra as cortinas
do mar, talvez reconheças no seu
fundo o corpo que habita o céu
em que o branco coincide com o mar.
E nos olhos fechados de um rosto
preso à cama da madrugada, o branco
do horizonte submerge o mar que
avança por dentro do branco, como se
a luz do dia que o vento te abre
não fosse branca, como esse branco
lençol que esconde o corpo sob o mar.
E em cada nuvem que passa no branco
do céu, um rosto revela o branco
para além do horizonte que o branco descobre.
Nuno Júdice | "As Coisas Mais Simples" | Publicações Dom Quixote, 2007
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Revolução
Como casa limpa
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
Como chão varrido
Como porta aberta
Como puro início
Como tempo novo
Sem mancha nem vício
Como a voz do mar
Interior de um povo
Como página em branco
Onde o poema emerge
Como arquitectura
Do homem que ergue
Sua habitação
27 de Abril de 1974
5 031
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Anjo
O Anjo que em meu redor passa e me espia
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
E cruel me combate, nesse dia
Veio sentar-se ao lado do meu leito
E embalou-me, cantando, no seu peito.
Ele que indiferente olha e me escuta
Sofrer, ou que feroz comigo luta,
Ele que me entregara à solidão,
Poisava a sua mão na minha mão.
E foi como se tudo se extinguisse,
Como se o mundo inteiro se calasse,
E o meu ser liberto enfim florisse,
E um perfeito silêncio me embalasse.
4 351
1
Susana Thénon
Caminhos
Cegueira do gesto
quando em vão se agarra
ao muro espesso dos feitos consumados.
Densa guitarra de sangue
acompanhando a canção
noturna e subterrânea.
Vagueia entre gritos
anônimos,
entre multidões de fome,
sob céus estrangeiros.
Entre humildes,
Ecos desesperançados.
quando em vão se agarra
ao muro espesso dos feitos consumados.
Densa guitarra de sangue
acompanhando a canção
noturna e subterrânea.
Vagueia entre gritos
anônimos,
entre multidões de fome,
sob céus estrangeiros.
Entre humildes,
Ecos desesperançados.
671
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Comecei a escrever
Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter - nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite.
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quási palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.
Como sempre a noite de vento leste misturava extase e pânico.
Frases manuscritas por Sophia, encontradas na ponta de uma folha solta, junto de outra onde consta o que disse ser o seu primeiro poema, "Primeira noite de Verão".
Fonte: Maria Andresen Sousa Tavares e Biblioteca Nacional de Portugal
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quási palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.
Como sempre a noite de vento leste misturava extase e pânico.
Frases manuscritas por Sophia, encontradas na ponta de uma folha solta, junto de outra onde consta o que disse ser o seu primeiro poema, "Primeira noite de Verão".
Fonte: Maria Andresen Sousa Tavares e Biblioteca Nacional de Portugal
1 823
1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Comecei a escrever
Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter - nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite.
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quási palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.
Como sempre a noite de vento leste misturava extase e pânico.
Frases manuscritas por Sophia, encontradas na ponta de uma folha solta, junto de outra onde consta o que disse ser o seu primeiro poema, "Primeira noite de Verão".
Fonte: Maria Andresen Sousa Tavares e Biblioteca Nacional de Portugal
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quási palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.
Como sempre a noite de vento leste misturava extase e pânico.
Frases manuscritas por Sophia, encontradas na ponta de uma folha solta, junto de outra onde consta o que disse ser o seu primeiro poema, "Primeira noite de Verão".
Fonte: Maria Andresen Sousa Tavares e Biblioteca Nacional de Portugal
1 823
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Comecei a escrever
Comecei a escrever numa noite de Primavera, uma incrível noite de vento leste e Junho. Nela o fervor do universo transbordava e eu não podia reter, cercar, conter - nem podia desfazer-me em noite, fundir-me na noite.
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quási palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.
Como sempre a noite de vento leste misturava extase e pânico.
Frases manuscritas por Sophia, encontradas na ponta de uma folha solta, junto de outra onde consta o que disse ser o seu primeiro poema, "Primeira noite de Verão".
Fonte: Maria Andresen Sousa Tavares e Biblioteca Nacional de Portugal
No gume da perfeição, no imenso halo de luz azul e transparente, no rouco da treva, na quási palavra de murmúrio da brisa entre as folhas, no íman da lua, no insondável perfume das rosas, havia algo de pungente, algo de alarme.
Como sempre a noite de vento leste misturava extase e pânico.
Frases manuscritas por Sophia, encontradas na ponta de uma folha solta, junto de outra onde consta o que disse ser o seu primeiro poema, "Primeira noite de Verão".
Fonte: Maria Andresen Sousa Tavares e Biblioteca Nacional de Portugal
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1
Sophia de Mello Breyner Andresen
Em Minha Frente Caminhas
Em minha frente caminhas
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.
Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
Pesado do teu desejo,
Pesado da tua graça,
E as tuas mãos tocam as coisas que hão-de vir
E a sua sombra cobre a tua face.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda apaga
Os meus frágeis gestos de alegria.
E em tua frente estou suplicante e exausta
Pois a tua vinda quebra
A minha vida.
Às vezes todo o dia o teu sorriso
Está presente em cada coisa:
No fundo dos espelhos e nos vidros,
No vermelho das rosas e nos astros.
E através dessa presença caminho em delírio
Para o grande cintilar dos teus desastres
Onde me quero destruir.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Deuses
Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
2 991
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Os Deuses
Nasceram, como um fruto, da paisagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
A brisa dos jardins, a luz do mar,
O branco das espumas e o luar
Extasiados estão na sua imagem.
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Susana Thénon
Não é um Poema
Os rostos são os mesmos,
os corpos são os mesmos,
as palavras voam para o desluzido,
as ideias de cadáver antigo.
Isto não é um poema:
é um ataque de raiva,
raiva pelos olhos ocos,
pelas palavras torpes
que digo e que me dizem,
por baixar a cabeça
para ratos,
para cérebros cheios de mijo,
para mortos persistentes
que interrompem o ar do jardim.
Isto não é um poema:
é um pontapé universal,
um soco no estômago do céu,
uma enorme náusea
vermelha
como era o sangue antes de ser água.
os corpos são os mesmos,
as palavras voam para o desluzido,
as ideias de cadáver antigo.
Isto não é um poema:
é um ataque de raiva,
raiva pelos olhos ocos,
pelas palavras torpes
que digo e que me dizem,
por baixar a cabeça
para ratos,
para cérebros cheios de mijo,
para mortos persistentes
que interrompem o ar do jardim.
Isto não é um poema:
é um pontapé universal,
um soco no estômago do céu,
uma enorme náusea
vermelha
como era o sangue antes de ser água.
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Susana Thénon
Sede
Sei que tua sede se estendeu
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.
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Susana Thénon
Sede
Sei que tua sede se estendeu
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.
para além do mais distante fio d"água:
tua é a sede dos verões,
a que habita na garganta do meio-dia.
Faz muito tempo que o sal
ancorou em tuas vísceras
e é ali onde se dá de beber
o lábio vermelho de nosso atos impunes.
Sim um castigo foi criado
é o do teu silêncio
que grita mais alto que as palavras.
Sim um castigo foi criado
é o de permanecer
como uma cega
em uma selva de olhares.
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Vela
Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Vela
Em redor da luz
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
A casa sai da sombra
Intensamente atenta
Levemente espantada
Em redor da luz
A casa se concentra
Numa espera densa
E quase silabada
Em redor da chama
Que a menor brisa doma
E que um suspiro apaga
A casa fica muda
Enquanto a noite antiga
Imensa e exterior
Tece seus prodígios
E ordena seus milénios
De espaço e de silêncio
De treva e de esplendor
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
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Sophia de Mello Breyner Andresen
Sua Beleza
Sua beleza é total
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
Tem a nítida esquadria de um Mantegna
Porém como um Picasso de repente
Desloca o visual
Seu torso lembra o respirar da vela
Seu corpo é solar e frontal
Sua beleza à força de ser bela
Promete mais do que prazer
Promete um mundo mais inteiro e mais real
Como pátria do ser
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