Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
Lugar - Vi
Às vezes penso: o lugar é tremendo.
E sobre os mortos, além da linguagem.
Lugar que se transforma rodando contra a boca.
Em certos dias, habitado por crianças
de uma infelicidade obscura, sobre
o verão. Por duros e belos
peixes entre as mãos perfurando
o sono de Deus.
E eu trago uma criança com um ombro
mergulhado no sangue, e o outro
ombro metido no sono triste.
Que pensa sempre, dentro de suas águas,
e é ameaçada por uma intraduzível beleza.
Muitas crianças caminham para o silêncio
de uma semana ambígua, quando
o verão anda de um lado para outro
e se desarruma por dentro.
O verão começa pelas partes mortas.
Ao longe, nas fronteiras da ilusão.
Crianças básicas fazem de mim uma rosa
iracunda, e atiram-na
contra a boca de Deus.
Para diante, através das águas estivais.
Não queiram viver em mim, quando entram
como espelhos as vozes virgens.
Ou morrer, se as colinas se aproximam
tão perto do rosto, e estremecendo
com muitas vozes.
Tão respirando, as colinas que se toldam
como povos embriagados.
Eu digo: não desejem amar-me, morrer
de mim. Porque destruo com aboca
o beijo transformado.
Morro em todas as pessoas que a delicadeza consome.
Digam-me devagar quais os vocábulos alarmantes.
Uma história de crianças com folhas
dispersas é sempre
uma história de morte. Embora a doçura
levede sua alma cega, crianças, eis como digo:
são uma musa devoradora.
Estão ligadas a toda a grande idade,
à terrífica fantasia do tempo.
Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem,
sonham com seu ombro fendendo o sangue,
entrando no poder de Deus.
Tenho uma criança profunda em todos os lugares.
Desabitai-me a beleza que bati na pedra,
abaixado e louco.
E que a mulher se desabite da solidão que tive,
enquanto falei ao alto, inspirado
pelo assassínio do amor.
Desabitai-me da minha fome e da neve
onde fui brilhante brilhante.
LUGAR 143
Brilhante como o trigo escorrido nos dedos.
Gomo os pés sugeridos em volta da cinza.
A tristeza do verão é um modo de saber.
Ou ser puro. Ou estar afastado.
E preciso abandonar-se no meio da tarefa,
enquanto o crime é o autor, embebido.
Conheço crianças esgotantes pelo sono
onde acordam.
É preciso que Deus se liberte dos meus dons.
Que se não perca em minha fabulosa
ironia.
Também vi crianças empurradas nos meses.
Pela leveza da luz, empurradas
crianças supremas. Vi-as da mais subtil
matéria, com cerejas, com mãos.
Porque Deus é tão leve como a água atravessada.
Água que iracundos peixes rompem em todos os lugares.
Porque um poema alude ao mistério.
E eu ia pelo ar
de um canto de devotamento, eu
amava e amava.
E então levanto de mim próprio, contra
a inspiradora confusão,
as mãos de crianças preciosas caídas em sangue.
Mãos que Deus exerce no sono.
Deixai às crianças minhas zonas primitivas.
Minha terna loucura.
Deixai-as virar a alma para o lado,
de cara contra uma fria onda.
Em mim é que nascem e vivem com nomes
castos, e esquecem.
E de repente se lembram, e se esquecem
de tudo.
Porque são delicadíssimas.
E verdadeiras.
Abandonai-me no mês de Deus aberto,
com as crianças sorrindo com grãos de sal.
Esse Deus sobre as patas ao lado
de catedrais difusas.
Onde encosto meu rosto da cor
assaltada das lágrimas.
Cor de quando tudo pára.
É a minha voz que se ouve para diante da noite,
voz tremente e limpa.
Voz acocorada depois numa obra obscura.
Voz bebida em si própria.
Meu sangue percorre os mortos
que me beijam no escuro com sua boca
de barro fechado.
O sangue passa por toda a doçura.
Os mortos tremem, luzem com o dom
em mim voltado para a sua solidão.
E criam, em cadeia, a mãe
descida em silêncio, mais remota
por detrás dos dons.
Um galho de sangue bate contra seus ouvidos.
Mãe afogada empoeiras interiores.
E chegada então ao cimo da escada.
Olhando pelos meus dons dentro, olhando
o meu dom.
Olhando toda a minha força, ela
ao cimo de uma escada terrível, olhando
dentro de uma doçura mortal
a solidão dos meus dons. Olhando
inteiramente.
Deixai-me em todos os lugares, em cada
mês que principia.
Casulos e campânulas são imagens misturadas.
Sobre o nocturno tema de Deus, despeço-me de todos.
Não me sabem as crianças, e eu sei
todas as crianças num poema prédio em chamas.
Nos meus dons.
E então penso: o lugar é terrível.
E sobre os mortos, além da linguagem.
Lugar que se transforma rodando contra a boca.
Em certos dias, habitado por crianças
de uma infelicidade obscura, sobre
o verão. Por duros e belos
peixes entre as mãos perfurando
o sono de Deus.
E eu trago uma criança com um ombro
mergulhado no sangue, e o outro
ombro metido no sono triste.
Que pensa sempre, dentro de suas águas,
e é ameaçada por uma intraduzível beleza.
Muitas crianças caminham para o silêncio
de uma semana ambígua, quando
o verão anda de um lado para outro
e se desarruma por dentro.
O verão começa pelas partes mortas.
Ao longe, nas fronteiras da ilusão.
Crianças básicas fazem de mim uma rosa
iracunda, e atiram-na
contra a boca de Deus.
Para diante, através das águas estivais.
Não queiram viver em mim, quando entram
como espelhos as vozes virgens.
Ou morrer, se as colinas se aproximam
tão perto do rosto, e estremecendo
com muitas vozes.
Tão respirando, as colinas que se toldam
como povos embriagados.
Eu digo: não desejem amar-me, morrer
de mim. Porque destruo com aboca
o beijo transformado.
Morro em todas as pessoas que a delicadeza consome.
Digam-me devagar quais os vocábulos alarmantes.
Uma história de crianças com folhas
dispersas é sempre
uma história de morte. Embora a doçura
levede sua alma cega, crianças, eis como digo:
são uma musa devoradora.
Estão ligadas a toda a grande idade,
à terrífica fantasia do tempo.
Porque falam no esgotamento e, enquanto dormem,
sonham com seu ombro fendendo o sangue,
entrando no poder de Deus.
Tenho uma criança profunda em todos os lugares.
Desabitai-me a beleza que bati na pedra,
abaixado e louco.
E que a mulher se desabite da solidão que tive,
enquanto falei ao alto, inspirado
pelo assassínio do amor.
Desabitai-me da minha fome e da neve
onde fui brilhante brilhante.
LUGAR 143
Brilhante como o trigo escorrido nos dedos.
Gomo os pés sugeridos em volta da cinza.
A tristeza do verão é um modo de saber.
Ou ser puro. Ou estar afastado.
E preciso abandonar-se no meio da tarefa,
enquanto o crime é o autor, embebido.
Conheço crianças esgotantes pelo sono
onde acordam.
É preciso que Deus se liberte dos meus dons.
Que se não perca em minha fabulosa
ironia.
Também vi crianças empurradas nos meses.
Pela leveza da luz, empurradas
crianças supremas. Vi-as da mais subtil
matéria, com cerejas, com mãos.
Porque Deus é tão leve como a água atravessada.
Água que iracundos peixes rompem em todos os lugares.
Porque um poema alude ao mistério.
E eu ia pelo ar
de um canto de devotamento, eu
amava e amava.
E então levanto de mim próprio, contra
a inspiradora confusão,
as mãos de crianças preciosas caídas em sangue.
Mãos que Deus exerce no sono.
Deixai às crianças minhas zonas primitivas.
Minha terna loucura.
Deixai-as virar a alma para o lado,
de cara contra uma fria onda.
Em mim é que nascem e vivem com nomes
castos, e esquecem.
E de repente se lembram, e se esquecem
de tudo.
Porque são delicadíssimas.
E verdadeiras.
Abandonai-me no mês de Deus aberto,
com as crianças sorrindo com grãos de sal.
Esse Deus sobre as patas ao lado
de catedrais difusas.
Onde encosto meu rosto da cor
assaltada das lágrimas.
Cor de quando tudo pára.
É a minha voz que se ouve para diante da noite,
voz tremente e limpa.
Voz acocorada depois numa obra obscura.
Voz bebida em si própria.
Meu sangue percorre os mortos
que me beijam no escuro com sua boca
de barro fechado.
O sangue passa por toda a doçura.
Os mortos tremem, luzem com o dom
em mim voltado para a sua solidão.
E criam, em cadeia, a mãe
descida em silêncio, mais remota
por detrás dos dons.
Um galho de sangue bate contra seus ouvidos.
Mãe afogada empoeiras interiores.
E chegada então ao cimo da escada.
Olhando pelos meus dons dentro, olhando
o meu dom.
Olhando toda a minha força, ela
ao cimo de uma escada terrível, olhando
dentro de uma doçura mortal
a solidão dos meus dons. Olhando
inteiramente.
Deixai-me em todos os lugares, em cada
mês que principia.
Casulos e campânulas são imagens misturadas.
Sobre o nocturno tema de Deus, despeço-me de todos.
Não me sabem as crianças, e eu sei
todas as crianças num poema prédio em chamas.
Nos meus dons.
E então penso: o lugar é terrível.
1 131
Herberto Helder
Poemas Arabico-Andaluzes - Cavalo Alazão
Era um cavalo alazão, e à sua volta a batalha acendia-se como um tição de
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
coragem.
As crinas eram cor da flor da romãzeira e as orelhas tinham a forma das
folhas de mirto.
No peito, ao meio da cor vermelha, abria-se uma estrela branca, como as
bolhas claras que nascem numa taça de vinho rubro.
1 156
Herberto Helder
Lugar - Iii
As mulheres têm uma assombrada roseira
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
fria espalhada no ventre.
Uma quente roseira às vezes, uma planta
de treva.
Ela sobe dos pés e atravessa
a carne quebrada.
Nasce dos pés, ou da vulva, ou do ânus —
e mistura-se nas águas,
no sonho da cabeça.
As mulheres pensam como uma impensada roseira
que pensa rosas.
Pensam de espinho para espinho,
param de nó em nó.
As mulheres dão folhas, recebem
um orvalho inocente.
Depois sua boca abre-se.
Verão, outono, a onda dolorosa e ardente
das semanas,
passam por cima. As mulheres cantam
na sua alegria terrena.
Que coisa verdadeira cantam?
Elas cantam.
São fechadas e doces, mudam
de cor, anunciam a felicidade no meio da noite,
os dias rutilantes, a graça.
Com lágrimas, sangue, antigas subtilezas
e uma suavidade amarga —
as mulheres tornam impura e magnífica
nossa límpida, estéril
vida masculina.
Porque as mulheres não pensam: abrem
rosas tenebrosas,
alagam a inteligência do poema com o sangue menstrual.
São altas essas roseiras de mulheres,
inclinadas como sinos, como violinos, dentro
do som.
Dentro da sua seiva de cinza brilhante.
O pão de aveia, as maçãs no cesto,
o vinho frio,
ou a candeia sobre o silêncio.
Ou a minha tarefa sobre o tempo.
Ou o meu espírito sobre Deus.
Digo: minha vida é para as mulheres vazias,
as mulheres dos campos, os seres
fundamentais
que cantam de encontro aos sinistros
muros de Deus.
As mulheres de ofício cantante que a Deus mostram
a boca e o ânus
e a mão vermelha lavrada sobre o sexo.
Espero que o amor enleve a minha melancolia.
E flores sazonadas estalem e apodreçam
docemente no ar.
E a suavidade e a loucura parem em mim,
e depois o mundo tenha cidades antigas
que ardam na treva sua inocência lenta
e sangrenta.
Espero tirar de mim o mais veloz
apaixonamento e a inteligência mais pura.
— Porque as mulheres pensarão folhas e folhas
no campo.
Pensarão na noite molhada,
no dia luzente cheio de raios.
Vejo que a morte se inspira na carne
que a luz martela de leve.
Nessas mulheres debruçadas sobre a frescura
veemente da ilusão,
nelas — envoltas pela sua roseira em brasa —
vejo os meses que respiram.
Os meses fortes e pacientes.
Vejo os meses absorvidos pelos meses mais jovens.
Vejo meu pensamento morrendo na escarpada
treva das mulheres.
E digo: elas cantam a minha vida.
Essas mulheres estranguladas por uma beleza
incomparável.
Cantam a alegria de tudo, minha
alegria
por dentro da grande dor masculina.
Essas mulheres tornam feliz e extensa
a morte da terra.
Elas cantam a eternidade.
Cantam o sangue de uma terra exaltada.
1 363
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Quarto Poema
Eu durmo, mas o meu coração vela.
Ouço baterem à porta.
— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»
— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»
Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.
Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.
Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.
Coro das raparigas de Jerusalém
Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?
O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.
As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.
Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.
E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.
Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.
Coro das raparigas de Jerusalém
Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Ouço baterem à porta.
— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»
— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»
Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.
Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.
Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.
Coro das raparigas de Jerusalém
Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?
O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.
As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.
Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.
E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.
Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.
Coro das raparigas de Jerusalém
Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
1 182
Herberto Helder
Cântico Dos Cânticos - Quarto Poema
Eu durmo, mas o meu coração vela.
Ouço baterem à porta.
— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»
— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»
Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.
Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.
Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.
Coro das raparigas de Jerusalém
Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?
O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.
As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.
Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.
E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.
Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.
Coro das raparigas de Jerusalém
Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
Ouço baterem à porta.
— Abre, minha irmã, minha amada,
minha pomba, minha eleita.
Que a minha cabeça está coberta de orvalho,
meus cabelos estão cheios das gotas da noite.»
— Já despi minha túnica, como a tornarei a vestir?
Já meus pés lavei, como os sujarei de novo?»
Já o meu amado passa a mão pelo postigo:
e de súbito estremecem-me as entranhas.
Levantei-me da cama para abrir ao meu amado,
e de minhas mãos se desprendia o perfume da mirra,
de meus dedos se desprendia o perfume da mirra virgem
sobre o fecho da porta.
Eu abri ao meu amado, mas ele já partira.
Meu coração estremecera à sua voz,
e agora procurava-o, e ele tinha desaparecido.
Agora chamava-o, e ele não respondia.
Encontraram-me os guardas que fazem a ronda da cidade.
Espancaram-me e feriram-me, e roubaram-me o manto —
os guardas das muralhas da cidade.
— Suplico-vos, ó raparigas de Jerusalém,
que se virdes o meu amado
lhe digais que estou doente de amor.
Coro das raparigas de Jerusalém
Que tem o teu amado mais que os outros,
ó mais bela entre as mulheres?
Que tem o teu amado mais que os outros,
para que assim te lamentes?
O meu amado é puro e forte, o melhor entre dez mil.
Sua cabeça é de ouro virgem;
seus cabelos, palmas negras, asas de corvo.
São pombas os olhos, pombas na agua de um tanque,
pombas banhando-se em leite,
pousadas nas aguas.
As faces, canteiros de aromas, maciços perfumados;
e os lábios, lírios escorrendo mirra virgem.
Esferas de ouro, as mãos — esferas com pedras de Tarsis.
E as pernas são brancas colunas de mármore
sobre bases de ouro limpo.
Ele é como o Líbano, único
como os cedros do Líbano.
E a sua voz é branca, e tudo
é magnífico.
Assim é o meu amigo, o meu amado,
ó raparigas de Jerusalém.
Coro das raparigas de Jerusalém
Para onde foi o teu amado, ó mais bela entre as mulheres?
Que caminho tomou ele, que o procuramos contigo?
O meu amado desceu ao seu jardim, aos canteiros perfumados,
para colher lírios,
para nos jardins apascentar o seu rebanho.
Eu sou do meu amado e ele é meu.
Ele apascenta o seu rebanho entre os lírios.
1 182
Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
1 095
Herberto Helder
Iii K
Num espaço unido a luz sacode
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
o peso, o curvo, o muito:
laranjas a chamejar contra paredões de água.
Ou então coze-se o oco, faz-se um púcaro,
o fôlego encurva as massas de vidro,
a água pára no barro côncavo.
Imagem unânime do mundo.
A imagem estremece pela potência da água,
o papel estremece pela potência da frase
que o atravessa,
aqueduto.
Mas se a mão se amaciasse para que a frase
fosse delgada como a seda, se de súbito
a seda se rasgasse pela força
de um nome último?
A ascensão do aloés: vê-se,
fica-se bêbado. E tão leve o esperma.
De noite os cabelos crescem tanto que neles se amarra a cabeça,
crescem a cada pancada do sangue,
cada sopro.
Num tronco escreve-se o nome do mundo,
aferida do mundo,
a seiva freme nos dedos.
Que tocam, os dedos, no pénis e nos testículos:
e sente-se em baixo o furor
do ouro.
Com erros misteriosos escreve-se o poema primeiro do tempo:
música, sintaxe, massas
em equilíbrio, a ortografia, o número,
o mais respirado, espaçoso, primário, terrestre
poema
das vozes, das luzes.
A água jorra no caos, fecha-se a água nos tanques:
bebe-se. Mergulha dentro da água
um galho
de estrelas maduras. O esperma torna-se espesso.
Morre-se de alvoroço.
Ressuscita-se, hoje.
1 095
Herberto Helder
Ii M
Murmurar num sítio a frase difícil,
atrás de que língua e vagar escondendo
a pressa e a aspereza,
e o arrepio de cada palavra das unhas aos furos cardíacos —
não ouvir o rouco,
ouvir algum do pouco do júbilo do mundo,
e saber de uma arte repentina de passar para um espaço
estilístico terrível
através de uma porta que a frase encontra em si própria —
e a cada gesto os membros amarrados em estrela,
não ter o destino de morrer enquanto se dá a volta ao interruptor
da estrela, e com ela plena
ver a porta para sair, ou pôr-se no escuro encostado a si mesmo
a arder
por cotovelos, joelhos, pontas, a boca,
por causa da força de não gritar no sítio
doloroso,
tão ligeiro na chaga como quem apenas soma
frutas maduras,
massas de objectos ímpares.
atrás de que língua e vagar escondendo
a pressa e a aspereza,
e o arrepio de cada palavra das unhas aos furos cardíacos —
não ouvir o rouco,
ouvir algum do pouco do júbilo do mundo,
e saber de uma arte repentina de passar para um espaço
estilístico terrível
através de uma porta que a frase encontra em si própria —
e a cada gesto os membros amarrados em estrela,
não ter o destino de morrer enquanto se dá a volta ao interruptor
da estrela, e com ela plena
ver a porta para sair, ou pôr-se no escuro encostado a si mesmo
a arder
por cotovelos, joelhos, pontas, a boca,
por causa da força de não gritar no sítio
doloroso,
tão ligeiro na chaga como quem apenas soma
frutas maduras,
massas de objectos ímpares.
1 025
Herberto Helder
Ii M
Murmurar num sítio a frase difícil,
atrás de que língua e vagar escondendo
a pressa e a aspereza,
e o arrepio de cada palavra das unhas aos furos cardíacos —
não ouvir o rouco,
ouvir algum do pouco do júbilo do mundo,
e saber de uma arte repentina de passar para um espaço
estilístico terrível
através de uma porta que a frase encontra em si própria —
e a cada gesto os membros amarrados em estrela,
não ter o destino de morrer enquanto se dá a volta ao interruptor
da estrela, e com ela plena
ver a porta para sair, ou pôr-se no escuro encostado a si mesmo
a arder
por cotovelos, joelhos, pontas, a boca,
por causa da força de não gritar no sítio
doloroso,
tão ligeiro na chaga como quem apenas soma
frutas maduras,
massas de objectos ímpares.
atrás de que língua e vagar escondendo
a pressa e a aspereza,
e o arrepio de cada palavra das unhas aos furos cardíacos —
não ouvir o rouco,
ouvir algum do pouco do júbilo do mundo,
e saber de uma arte repentina de passar para um espaço
estilístico terrível
através de uma porta que a frase encontra em si própria —
e a cada gesto os membros amarrados em estrela,
não ter o destino de morrer enquanto se dá a volta ao interruptor
da estrela, e com ela plena
ver a porta para sair, ou pôr-se no escuro encostado a si mesmo
a arder
por cotovelos, joelhos, pontas, a boca,
por causa da força de não gritar no sítio
doloroso,
tão ligeiro na chaga como quem apenas soma
frutas maduras,
massas de objectos ímpares.
1 025
Herberto Helder
Ii M
Murmurar num sítio a frase difícil,
atrás de que língua e vagar escondendo
a pressa e a aspereza,
e o arrepio de cada palavra das unhas aos furos cardíacos —
não ouvir o rouco,
ouvir algum do pouco do júbilo do mundo,
e saber de uma arte repentina de passar para um espaço
estilístico terrível
através de uma porta que a frase encontra em si própria —
e a cada gesto os membros amarrados em estrela,
não ter o destino de morrer enquanto se dá a volta ao interruptor
da estrela, e com ela plena
ver a porta para sair, ou pôr-se no escuro encostado a si mesmo
a arder
por cotovelos, joelhos, pontas, a boca,
por causa da força de não gritar no sítio
doloroso,
tão ligeiro na chaga como quem apenas soma
frutas maduras,
massas de objectos ímpares.
atrás de que língua e vagar escondendo
a pressa e a aspereza,
e o arrepio de cada palavra das unhas aos furos cardíacos —
não ouvir o rouco,
ouvir algum do pouco do júbilo do mundo,
e saber de uma arte repentina de passar para um espaço
estilístico terrível
através de uma porta que a frase encontra em si própria —
e a cada gesto os membros amarrados em estrela,
não ter o destino de morrer enquanto se dá a volta ao interruptor
da estrela, e com ela plena
ver a porta para sair, ou pôr-se no escuro encostado a si mesmo
a arder
por cotovelos, joelhos, pontas, a boca,
por causa da força de não gritar no sítio
doloroso,
tão ligeiro na chaga como quem apenas soma
frutas maduras,
massas de objectos ímpares.
1 025
Herberto Helder
Iv C
Se houver ainda para desentranhar da assimetria
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
1 002
Herberto Helder
Iv C
Se houver ainda para desentranhar da assimetria
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
dos sítios, das estações,
alguns bocados do corpo vibrando do ar que o atravessa,
alguns núcleos rútilos, pedaços
de intestino,
fígado, testículos, traqueia, placas da testa, se houver
água nos orifícios, ouro
nas fieiras
secretas, uma coisa como palavras mexendo por causa
de um vento interno, isso
a que chamo por enquanto,
se houver,
feixe de carnes cruas, uma
posta de sangue,
ou centro de um poema,
ou cega massa que se ajunta, oh Deus,
com tanta força para soprar um pouco,
fulgir o anel no dedo sem unha que aponta,
se houver o nome de si mesmo
como
um nó corrido na garganta
— é isto agora: nenhuma obra mas aquela
arquitectura que a luz
sustentava:
e já se abriam as portas e as noites vinham fechá-las.
1 002
Herberto Helder
V B
Não peço que o espaço à minha volta se engrandeça,
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encurve o ar — curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que a escassa estria ainda se ouça.
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encurve o ar — curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que a escassa estria ainda se ouça.
1 062
Herberto Helder
V B
Não peço que o espaço à minha volta se engrandeça,
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encurve o ar — curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que a escassa estria ainda se ouça.
peço
que a força do sangue na garganta
não a cerre toda: e eu sopre uma canção
biorrítmica
onde se encurve o ar — curta canção
gutural, obscura, rouca:
o sangue coalha numa posta
púrpura, sufoca o movimento da música,
mas peço
que a escassa estria ainda se ouça.
1 062
Herberto Helder
Era Uma Vez Toda a Força Com a Boca Nos Jornais:
Era uma vez toda a força com a boca nos jornais:
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.
550
Herberto Helder
Era Uma Vez Toda a Força Com a Boca Nos Jornais:
Era uma vez toda a força com a boca nos jornais:
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.
e vinham os mortos com sapatos leves,
roendo maçãs.
Caminhavam balouçando entre as linhas
secas dos necrológios, como
se a lua lhes tocasse nos cabelos
vivos ainda para números de semanas.
Uma vez essa força balouçando como bêbeda,
se a lua tocasse o gosto,
lançava a boca sobre o som dos sapatos leves.
E os mortos nas linhas secas, roendo
maçãs vivas, andavam pelo escuro de um nosso
pensamento. Os mortos com vestidos estampados lá dentro.
Nos jornais os cabelos viviam violentamente.
Eles sabiam de cór os países completos.
Devagar recitavam os palácios do som.
E os animais para eles eram de cimento
que a erosão lavrasse
como uma esponja tremente. Completos,
os países de cimento
recitavam o som.
Os mortos devagar lavravam animais
nos palácios violentos.
Com orelhas direitas como livros amados,
eu ouvia a chegada
das semanas fechadas no terror dos jornais.
Curvavam-se os mortos como vírgulas
na terra, e as folhas —
para dentro — eram vivas como águas
solitárias.
Nos meus livros entravam as cabeças teóricas —
e as folhas voltavam-se, terríveis,
respirando.
E eu ouvia a chegada através dos jornais.
Os leves sapatos tocavam no som:
violento, o cabelo vivia
cheio de folhas. Os mortos curvavam-se
para dentro como águas solitárias —
e de novo partiam através das linhas secas
para semanas terríveis em países
completos. E não voltavam mais
como se a lua não tocasse, balouçando
entre as linhas lavradas,
suas cabeças animais, seus teóricos
vestidos estampados para dentro.
Desapareciam nas orelhas dos jornais.
550
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
558
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
558
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
558
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
558
Herberto Helder
Iv E
Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
1 024
Herberto Helder
Iv E
Quero um erro de gramática que refaça
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
na metade luminosa o poema do mundo,
e que Deus mantenha oculto na metade nocturna
o erro do erro:
alta voltagem do ouro,
bafo no rosto.
1 024