Outros
Mário de Sá-Carneiro
Inter-Sonho
Toda a minh’alma se esconde
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…
Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!
…………………………………………………………….
Tateio… dobro… resvalo…
…………………………………………………………….
Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…
…………………………………………………………….
Que pesadelo tão bom…
…………………………………………………………….
Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…
Mário de Sá-Carneiro
Inter-Sonho
Toda a minh’alma se esconde
Reminiscências de Aonde
Perturbam-me em nostalgia…
Manhã d’armas! Manhã d’armas!
Romaria! Romaria!
…………………………………………………………….
Tateio… dobro… resvalo…
…………………………………………………………….
Princesas de fantasia
Desencantam-se das flores…
…………………………………………………………….
Que pesadelo tão bom…
…………………………………………………………….
Pressinto um grande intervalo,
Deliro todas as cores,
Vivo em roxo e morro em som…
Amália Bautista
Façamos uma limpeza geral
e deitemos fora todas as coisas
que não nos servem para nada, essas
coisas que nós já não usamos, essas
coisas que ficam a apanhar pó,
as que evitamos encontrar porque
nos trazem as lembranças mais amargas,
as que nos magoam, ocupam espaço
ou nunca quisemos ter junto a nós.
Façamos uma limpeza geral
ou, melhor ainda, uma mudança
que nos permita abandonar as coisas
sem sequer lhes tocar, sem nos sujarmos,
deixando-as onde sempre estiveram;
e vamos nós embora, vida minha,
para começar de novo a acumular.
Ou então deitemos fogo a tudo
e fiquemos em paz, com essa imagem
das chamas do mundo perante os olhos
e com o coração desabitado.
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Primavera
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Maria da Saudade Cortesão Mendes
Primavera
Não era a que sabias.
Vinha em lua minguante
A espaços vestida
Por espelhos azuis
E narcisos de frio.
Que remanso tão meigo
Em seus peitos havia!
Que miosótis de leite
Em suas veias tíbias,
Três tangentes tocavam
O seu coração dúbio.
Não lhe soubeste o corpo —
Terra da madrugada
Que se dava ferida,
Nem os seus cursos de água.
Olhavas tão ao longe
Enquanto o amor te olhava.
Martha Medeiros
Relações virtuais
São sete horas de uma manhã chuvosa. Você não dormiu bem à noite. Põe pra tocar um som instrumental que deixa suas emoções à flor da pele. Vai para o computador e começa a escrever para alguém especial as coisas mais íntimas que lhe passam no coração. Chora. Escreve. Olha para a chuva. Escreve mais um pouco. Envia.
São onze horas da noite deste mesmo dia. O destinatário da sua mensagem está dando uma festa. Todo mundo fala alto, ri muito, rola a maior sonzeira. Ele pega uma cerveja e dá uma escapada até o computador. Abre o correio. Está lá a mensagem. Um texto longo que ele lê com pressa. Destaca algumas palavras: "a saudade é tanta... sozinha demais... dividir o que sinto..." Papo brabo. Responderá amanhã. Deleta.
Alguém pode escrever com raiva, escrever com dor, escrever com ironia, escrever com dificuldade, escrever debochando, escrever apressado, escrever na obrigação, escrever com segundas intenções. Nada disso chegará no outro lado da tela: a pressa, a hesitação, a tristeza. As palavras chegarão desacompanhadas. Será preciso confiar no talento do remetente em passar emoção junto de cada frase. Como pouquíssimas pessoas têm esse dom, uma mensagem sensível poderá ser confundida com secura, tudo porque faltou um par de olhos, faltou um tom de voz.
Se você passou a desprezar alguém, pode escrever "não quero mais te ver". Se você ama muito alguém, mas a falta de sintonia lhe vem machucando, pode escrever "não quero mais te ver".
Uma mesma frase e duas mensagens diferentes. Palavras são apenas resumos dos nossos sentimentos profundos, sentimentos que para serem explanados precisam mais do que um sujeito, um verbo e um predicado. Precisam de toque, visão, audição. Amor virtual é legal, mas o teclado ainda não dá conta de certas sutilezas.
Filipa Leal
Traindo o poema
este poema. Não gosto de supermercados
nem de poetas de supermercado, mas hoje enchi
a casa de manteiga e não pude evitar uma sensação
de metáfora, uma ironia a escorregar-me nos dedos
como anúncio de contemporaneidade. Juro: eu não preciso
de tantas embalagens, nem preciso deste poema,
mas há tantos dias que não posso tomar o pequeno-almoço
na minha casa sem manteiga, sem poema, que hoje enchi-me
de coragem para tudo isto.
E juro: apesar da traição, sinto-me hoje mais
contemporânea
do que nunca.
Amália Bautista
A casinha de chocolate
que percorria pela primeira vez,
deixei-me encantar como uma criança
por aquela casinha. O seu telhado
de chocolate, as paredes doces
cheias de morangos, ginjas, barquilhos,
as janelas de açúcar transparente
e os seus caixilhos em torrão de amêndoa.
Com os olhos e a alma enfastiados,
entregue àquele mundo de fantasia,
abri a porta de baunilha e menta
sem olhar para cima. Aí havia
um belo letreiro de caramelo:
«Abandonai toda a esperança.»
Marcelo Montenegro
Desassossegos
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro
Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul
Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade
Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade
Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou
Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
Marcelo Montenegro
Desassossegos
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro
Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul
Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade
Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade
Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou
Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
Marcelo Montenegro
Desassossegos
olhando uma mariposa
afogada no tinteiro
Brian Wilson
sentando ao piano
depois de escutar Rubber Soul
Lucia Berlin
na enfermaria
da simplicidade
Cartier-Bresson
fotografando
a eternidade
Alejandra Pizarnik
terminando sozinha
o que ninguém começou
Murilo Mendes
vendo a cidade cair
das prateleiras do céu
Martha Medeiros
A nova minoria
A comunidade dos sensatos nunca se organizou formalmente. Seus antepassados acasalaram-se com insensatos, e geraram filhos e netos e bisnetos mistos, o que poderia ser considerada uma bem-vinda diversidade cultural, mas não resultou em grande coisa. Os seres mistos seguiram procriando com outros insensatos, até que a insensatez passou a ser o gene dominante da raça. Restaram poucos sensatos puros.
Reconhecê-los não é difícil. Eles costumam ser objetivos em suas conversas, dizendo claramente o que pensam e baseando seus argumentos no raro e desprestigiado bom senso. Analisam as situações por mais de um ângulo antes de se posicionarem. Tomam decisões justas, mesmo que para isso tenham que ferir suscetibilidades. Não se comovem com os exageros e delírios de seus pares, preferindo manter-se do lado da razão. Serão pessoas frias? É o que dizem deles, mas ninguém imagina como sofrem intimamente por não serem compreendidos.
O sensato age de forma óbvia. Ele conhece o caminho mais curto para fazer as coisas acontecerem, mas as coisas só acontecem quando há um empenho conjunto. Sozinho ele não pode fazer nada contra a avassaladora reação dos que, diferentemente dele, dedicam suas vidas a complicar tudo. Para a maioria, a simplicidade é sempre suspeita, vá entender.
O sensato obedece a regras ancestrais, como, por exemplo, dar valor ao que é emocional e desprezar o que é mesquinho. Ele não ocupa o tempo dos outros com fofocas maldosas e de origem incerta. Ele não concorda com muita coisa que lê e ouve por aí, mas nem por isso exercita o espírito de porco agredindo pessoas que não conhece. Se é impelido a se manifestar, defende sua posição com ideias, sem precisar usar o recurso da violência.
O sensato não considera careta cumprir as leis, é a parte facilitadora do cotidiano. A loucura dele é mais sofisticada, envolve rompimento com algumas convenções, sim, mas convenções particulares, que não afetam a vida pública. O sensato está longe de ser um certinho. Ele tem personalidade, e se as coisas funcionam pra ele, é porque ele tem foco e não se desperdiça, utiliza seu potencial em busca de eficácia, em vez de gastar sua energia com teatralizações que dão em nada.
O sensato privilegia tudo o que possui conteúdo, pois está de acordo com a máxima que diz que mais grave do que ter uma vida curta é ter uma vida pequena. Sendo assim, ele faz valer o seu tempo. Reconhece que o Big Brother é um passatempo curioso, por exemplo, mas não tem estômago para aquela sequência de conversas inaproveitáveis. É o vazio da banalidade passando de geração para geração.
Ouvi de um sensato, dia desses: “Perdi minha turma. Eu convivia com pessoas criativas, que falavam a minha língua, que prezavam a liberdade, pessoas antenadas que não perdiam tempo com mediocridades. A gente se dispersou”. Ele parecia um índio.
Mesmo com poucas chances de sobrevivência, que se morra em combate. Sensatos, resistam.
Reynaldo Bessa
uma noite
minha mãe
puxava-me pela mão
éramos quatro;
eu, ela, o medo e a pressa
disso lembro-me bem
enquanto os três conversavam
eu pregava os olhos nos olhos tristes das casas e
me dava uma tremenda vontade de perguntar
"mamãe, o que elas têm?"
Amália Bautista
Em dieta
sonhei que te comia o coração.
Deveria ser por causa da fome.
Enquanto eu devorava aquela fruta,
que era doce e amarga ao mesmo tempo,
tu beijavas-me com os lábios frios,
mais frios e mais pálidos do que nunca.
Deveria ser por causa da morte.
Filipa Leal
Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
Filipa Leal
Digo-te por isso
que não me obrigues a luz.
Que escrever não é fácil,
que viver não é fácil
quando começamos a frase a meio.
Que lavo a cara ao chegar tão tarde
e mesmo assim o dia não se despega,
e mesmo assim
tu não estás, ninguém está.
Que não tenho espaço na minha secretária,
na minha vida, na minha cama
para tanto espaço.
Que já me disseram urbana,
e nem por isso me disseram decadente,
e que eu gostei.
Que já me disseram
muitas vezes
disfarçadamente triste,
e que por isso, por ser triste, por
sermos todos tristes, não mo deviam dizer.
Digo-te por isso
que não era minha intenção dizer-te mais uns versos
tristes e sem luz, e por isso, só por isso,
não era minha intenção dizer-te nada.
Isabel Mendes Ferreira
nada ressuscitará
desmaio. de minúsculas ervas. de poeiras. sem espelho.
e tudo se liga tudo se completa. em múltiplas gradações de uma geografia labiríntica. que não decifro. antes crio.
re.crio. re.inicio. como se sibila fosse não sendo rosto nem ruga nem mapa de areia. as coisas estranhas estranham-se pela metade visível. breve asa de búzio amazónico.
Josely Vianna Baptista
RESTIS
fronhas de linho (sono) áspero quebradiço; o sol passeia
a casa (o rosto adormecido), e em velatura a luz
vai desenhando as coisas: tranças brancas no espelho,
relógios deslustrados, cascas apodrecendo em seus volteios
curvos, vidros ao rés do chão reverberando, réstias.
Filamentos dourados unem o alto e o baixo
– horizonte invisível, abraço em leito alvo:
velame de outros corpos na memória amorosa.
José Mário Rodrigues
A SOLIDÃO E SEU CORPO
às vezes apenas desejado
às vezes apenas na lembrança
de um tempo ido e que ficou marcado.
Toda solidão tem seu descanso
sem o desassossego de pensar
não repousa o corpo noutro corpo
mas tem o sono para flutuar.
Toda solidão é pesada e fria
e fica leve e se consome
e deixa cicatriz quando quer posse
e beija um corpo sem saber seu nome.
Isabel Mendes Ferreira
a sombra é a pedra fosforescente
como jóia ou substância.
papel de veludo.
a desnudar o invisível.
são de claros e escuros os teus olhos. declaro.
para amanhã ser. amanhecendo-te um ser liso e vegetal.
segredo côncavo. na planura da lucidez. alimento feroz de todos os silêncios. pedra. e terra. nascentes curvas. que te esgrimo. na candura dos dias. em desordem.
e
/um sulco. um nome e um adeus/
assim . em fundo. ao fundo.
uma frágil navalha. a colher a saliva. a mudar os cantos da melancolia.
/não de fera/________. chaga ou escama
um sulco. mordente. mordaz.
_________________________ouço o respirar!
Daniel Francoy
Este jardim foi construído
e não seja mais do que alguns botões secos de rosas
ainda presos aos ramos ou um punhado de pétalas secas
ao redor das raízes – um idílico cenário para que nele
vivêssemos jovens e não tivéssemos terror maior
do que os animais que desconhecem a palavra morte
e foi construído tendo como alicerce um princípio fundamental
para a tranquilidade de nossa agonia: o princípio da distração,
mas agora há um espelho diante do jardim
e ninguém consegue ser distraído de um espelho.
No começo, a atenção sobre cada detalhe do jardim refletido
causa certo encantamento: a beleza da louça do chá da tarde,
a placidez no semblante das estátuas, a ascensão tortuosa
e dolorosa das flores que buscam o céu com um sentimento
de profunda irmandade, a clareira de grama gasta e batida
no local em que dançamos, certos efeitos de claridade
nas horas em que sol parece evocar a pureza da água,
nós mesmos sentados – deuses que riem.
É preciso algum tempo – mas não tempo maior
do que o percurso de uma tarde – para que a imagem refletida
comece a causar certo incômodo. Então são moscas
que pousam sobre o resto de comida nos pratos
e voam em torno de nossas cabeças? E este bolor
no coração das estátuas não é incompatível
com o clima de sol perpétuo? Há também galhos
quebrados, com trapos sujos de sangue presos
aos espinhos, como que a delimitar o local
onde ocorreu uma cena de violência pouco comentada
durante o sarau. E sob o chão da clareira
não há sinais da presença de um formigueiro
e isso não explica por que nunca dançamos descalços
e por que enterramos os mortos em caixões?
Daniel Francoy
O MEU LUGAR NO ESTADO DAS COISAS
e não ouso dizer o sentimento do mundo.
O jardim renovado, os hibiscos em flor
não são o planeta inteiro e tampouco
o meu coração. Antes, são uma mentira
que frutificou melhor do que um poema.
Um simples arranjo de cores, como bananas
num quadro de natureza morta, como cédulas
antigas de dinheiro, tornadas singelas
porque agora nada valem e ninguém
– nem mesmo eu – viverá por elas.
Apenas um modo de se enternecer,
de talvez pedir perdão, uma maneira
sutil de não se confundir com os assassinos,
uma impotente variação do verbo resistir,
um pacífico modo de calar a boca,
de não gritar, de não se render
ao coração pleno de napalm, de estar
entre vizinhos no país ocupado.
Josely Vianna Baptista
para leminsky
penso e surpreendo dentro
esse peso suspenso
entre fuga e allegro
entre risos e abismo
resgato fragmentos
e vestígios do vértigo
(espreito, rima leonina,
as naus, bits e ítacas
de tuas russas cismas,
as lengua-lengas feras
de teus trobares raros)
entre sóis e êsseoésses
miro etrelas-desastres
e desorientes ferozes
rumo ao ouro quase-Órion
de um perhappiness
entre o novo e o velho
só vejo o vero fogo
que te tornou eterno
só vestígios do vétigo
desde que o caos
deixou de ser acaso
José Mário Rodrigues
OFERENDA
com os mortos
nem secarão sob o sol
dos cemitérios vazios.
Essas flores vão além dos jarros
em que elas se amontoam
e exalam o perfume
que flutua na constelação
de tua convivência
de tua morada.
Essas flores são tua eternidade
momentânea;
a lembrança mais discreta.
São o teu alívio
das feridas dos desfiladeiros do mundo.
Mansamente recolhe-as
para um jardim imaginário
em que, todos os dias,
recomeças as andanças dos mistérios.