Poemas neste tema
Outros
Herberto Helder
Iii J
O dia meteu-se para dentro: a água enche o meu sono
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
e transborda.
Os dons obscurecem-me.
Nas redes da pedra coa-se o muito forte
das matérias. E numa volta espasmódica a curva exaltada arranca
dos fundos da carne trémula
grandes massas côncavas, difíceis, terrestres, convexas.
Meto para dentro a linha sísmica,
ponho os dedos de fora,
e a linha
— os pontos poderosos das palavras:
amor, velocidade, morte, metamorfose — a linha
vibra, a linha do mundo. Escreva-se:
obscurece, revela.
Nos lugares frios as pedras longamente pousadas sobre leques de água.
Nem sempre se tem a voltagem das coisas: mesa aqui, fogão aceso,
torneiras fechadas com aquela assombrosa massa de água
atrás, à espera,
roupas, madeiras, livros.
Oh como alguém espera que a luz se levante asperamente até à cara
Ou se espera ver em alguém assim
tocado ver
o sangue nos orifícios da cabeça, ou
melhor:
amígdalas, palato, língua, a voz tratada a sangue e rapidez.
E a maneira de andar na escuridão sob as gotas,
cuidar da ferida, cuidar
da gramática, árduo cuidar, quem
pensaria?, cuidar da música,
do mundo.
Há um azul selvagem defronte se alguém se vira,
nas costas rebenta a espuma.
Que sim, que os elementos através da casa: um espaço
na beleza: água atrás das paredes,
fogo nas botijas,
cristal nas unhas.
Mantém o nome, tu, o gás cingido pelos aros de ferro, mesa
e papéis, a morte atenta, mantém-na, tarda, não
tarda, abertas, fechadas
as torneiras.
Oh mundo escrito dolorosamente nas faixas de seda
saída de bichos como que
plenos, em brasa, mas
macios, saída
do âmago dos bichos.
Quem morre morre, tão fulgurante nas mãos e na testa.
O bafo trabalha nas linhas perigosas.
A estrela estala.
1 222
Herberto Helder
I J
E aparece a criança;
mostra o braço: a água iluminada no ar, o braço
ceifando a água
— tudo tão do perigo da leveza, tão dos elementos
meteorológicos, instáveis,
que só agora a escrita o fixa e fecha
dentro das massas maternais ligadas
no profundo das trevas.
mostra o braço: a água iluminada no ar, o braço
ceifando a água
— tudo tão do perigo da leveza, tão dos elementos
meteorológicos, instáveis,
que só agora a escrita o fixa e fecha
dentro das massas maternais ligadas
no profundo das trevas.
1 186
Herberto Helder
Iii I
Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
976
Herberto Helder
Iii I
Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
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Herberto Helder
Iii I
Se o fio acaba nos dedos, o fio vivo, se os dedos
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
não chegam à alma do tecido
onde coloca tudo, o convexo e o côncavo, os elementos
nobres, ar em redor da cabeça, fogo
que o ar sustenta,
e os remoinhos trazidos ao tecido pela fusão dos dedos na matéria
nascente —
se o bafo atiça a trama em que trabalha as fibras:
tem de arrancá-las: nervos,
cartilagens, linhas
de glóbulos: tem de coá-la, à substância difícil, torná-la
dúctil, dócil,
pronta
para o jeito dos dedos e a força da boca:
dar respiração desde o começo
do fio ao extremo — se o fio é longo
para aquilo que ele com mão técnica toda adentro põe e tira
do recôndito, se um como que brilho de hélio
é muito para bexiga,
língua,
cerebelo —
que deixe o corpo tapado porque hão-de um dia abri-lo
num abalo, o pneuma por um cano de ouro,
astros em bruto,
o escuro
— e esses dedos mexendo em medidas de sangue,
pesos de osso.
976
Herberto Helder
I M
Porque abalando as águas côncavas o acordou a lua e empurrou para fora,
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
e ele estava amarrado pelo meio movendo os membros nos abismos do mundo,
o espaço pulmonar do sangue,
o espaço do sangue na cabeça,
e depois disseram: está vivo!,
e bateram, cortaram, limparam, estiveram
a ver esse pedaço de matéria fechada, a matéria vibrante aberta
nos orifícios intensos,
vivo!, disseram, aquele que um dia,
a mão sobre a mesa em cada linha celular,
a potência refluxa da mesa na mão por ele dentro, e já ninguém
batia e cortava e soprava e fechava e abria, ninguém
com o tremor das teias de sangue na cabeça, as teias de seiva
na mesa, e a mão em cima, e ele passava
do mais profundo para o mais leve na obscuridade,
o mais absoluto,
ninguém que dissesse: as águas exaltadas,
aura,
e ele era impelido por entre os renques de luz
plenamente.
1 142
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
570
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
570
Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
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Herberto Helder
Iii E
Deixa a madeira preparar-se por si mesma até ao oculto da obra.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
Porque é furo de sangue ou seiva
ou resina ou brando leite dormido na obscuridade,
fechados os punhos que não podem ainda bater às portas do mundo,
fechada a boca porque não sabe a música,
não sabe encantar a serpente. Filho de alguma inspiração é ele, esse
que toca no fundo das tábuas e alumia
as riscas de cristal por onde se dividem, tábuas
num lampejo, arquitectadas, tão físicas
coisas no abstracto,
e difíceis:
como se alcançam tantos objectos últimos nos círculos?
e concretos
nos sítios culpados da maior existência de Deus.
Visita-os uma estrela espumando.
E dorme-se e não se dorme nunca, e morre-se
de ciência nenhuma:
um sopro fabuloso pelo esquerdo dos sopros, os erros
nas tábuas lavradas em raios.
Porque se morre da obra radial com a estrela espumando em cima.
570
Herberto Helder
Ii C
Ferro em brasa no flanco de um só dia, um buraco
de perfume: a rosa florescendo
o seu lugar interior.
de perfume: a rosa florescendo
o seu lugar interior.
1 088
Herberto Helder
I E
Porque eu sou uma abertura,
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.
Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de ouro
— e o orifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.
Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.
porque as noites cruzam os cometas,
porque a minha pedra com os lados frios contra as faúlhas,
porque abre as válvulas e se queima.
Alguém com os dedos na cabeça dando a volta à criança,
metendo-lhe mais força pelo fogo,
criança com um rastilho:
ou muita resistência na armadura, ou
peso, ou muita leveza, ou
dulcíssima:
ou fósforo, enxofre, pólvora, sopro, a farpa de ouro
— e o orifício que traz para o visível
o segredo: gota
com a trama de pedra calcinada em torno,
a pedra só abertura pela potência
de um pouco de pólen
oculto.
Porque riscam com áscua,
porque até à linha pulmonar as labaredas a iluminam,
porque um hausto de sangue a ilumina em toda a linha cardíaca,
porque as pontas irrompem do núcleo
do ouro pequeno.
1 139
Herberto Helder
I D
Se é uma criança, diz: eu cá sou cor-de-laranja.
Crianças de pensamento.
Sou amarela.
E pela sua força apenas se concentram as frutas
por todos os lados iluminadas
a vento, a oxigénio.
As crianças entram no sono que as aguardava como uma sala.
Eu cá sou caldeada na minha labareda.
O sono fecha-lhes os ombros à sua própria volta.
E quem tem tanta memória que a massa de átomos,
quando passe,
encrespe, acorde, alumie a última criança?
O mistério é só este: primeiro são cor de pólen,
transfundem-se depois em palavras siderais, botânicas.
As frutas adoçam-se.
Sacode-se a árvore do ar: eu cá sou de plutónio, chamejo, caio.
Os dias separam-se das suas trevas internas.
Crianças de pensamento.
Sou amarela.
E pela sua força apenas se concentram as frutas
por todos os lados iluminadas
a vento, a oxigénio.
As crianças entram no sono que as aguardava como uma sala.
Eu cá sou caldeada na minha labareda.
O sono fecha-lhes os ombros à sua própria volta.
E quem tem tanta memória que a massa de átomos,
quando passe,
encrespe, acorde, alumie a última criança?
O mistério é só este: primeiro são cor de pólen,
transfundem-se depois em palavras siderais, botânicas.
As frutas adoçam-se.
Sacode-se a árvore do ar: eu cá sou de plutónio, chamejo, caio.
Os dias separam-se das suas trevas internas.
1 121
Herberto Helder
Iii H
Marfim desde o segredo rompendo pela boca,
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
constelação assoprada, arco
vibrante com a flecha sustido pelo arco
do braço — será que o mundo
se transforma, será que estremecem os objectos da terra?
que a terra se ergue à sua labareda
por obra
de um ornamento, um número, uma volta?
queria tocar apenas, eu, a risca enxuta de um rosto,
o declive do osso, como
se a harmonia imperceptivelmente
desaparecesse
nos sorvedouros do corpo, queria só isso:
roçar com as pontas das unhas a curva das criaturas
e coisas, saber
porque é que no planeta em arco de água originária
se cruzam tão árduos ornamentos, arcos
tersos
sobre o caos,
saber qual a razão entre voluta poderosa
e depois mais nada.
1 030
Herberto Helder
Texto 11
“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
650
Herberto Helder
Texto 11
“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
650
Herberto Helder
Texto 11
“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
650
Herberto Helder
Texto 11
“Estudara” muito pouco o comportamento das paisagens
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
“do tempo” pergunto “que sabia ele?”
bruscamente voltara-se para uma explosão de álcool
algures na “biografia” no “mapa” dele naquelas partes
que mexem de leve
junto ao fígado? à espinal medula? coração? intestinos?
nada conhecia das “transcrições” que logo começam a ferver
se caem sob os olhos
foi apenas o melhor numa “agonia transparente para si mesma”
um morto veloz na maneira de pôr os dedos
sobre a “escrita impossível”
treinara o medo como se faz com uma foca
tinha uma cabeça muito boa para isso
e o medo apanhava no ar o seu peixe cruamente alimentar
percebia ainda que “tudo” poderia ser “electrocutado”
de “luz e trevas” não distinguia nada e desejava
da sua “desatenção paciente” e do “vocabulário em pânico”
fazer pelas cercanias da sua morte fazer talvez
uma espécie de “jardinagem” o menos peremptória possível
mas exaltante
alguém às vezes passando debruçava-se queria “respostas”
“o que era e quem e como e onde e porquê”
tudo curiosidades estranhas ao seu tão grave “trabalho”
todos os dias mais lhe cresciam os “órgãos” inúteis
devotara-se ao “movimento” assustador da “limalha”
magnetizada morria morria de pura limalha andante
e alguém passando desejaria saber do “íman”
“onde? qual?” e talvez “para quê?”
sim senhores ele trabalhava bem nestes “instrumentos” pequenos
eram para sempre o seu “modo de escrever” a tempo
“o erro todo”
da infância fora para a adolescência e daí entrara
nos territórios ferozes e mais tarde pendera-se em pinha
fervilhando maduramente como um unido enxame dourado
de abelhas negras
bem se lhe podia chamar “analfabeto” se algo se pode
chamar a quem se interesse tanto
por “nada” do “alfabeto”
“ele via alguma coisa?” perguntam “via por acaso
o que vinha fazendo por fora ou que por fora lhe faziam
a ele às imagens às épocas aos centros
e subúrbios de tudo?”
nunca encontrara a contas com qualquer “casa”
qualquer “operário” tão desavindo com a sua obra
como ele
tudo estava no “sítio” certo onde não estava
apenas o “talento” dele de estar lá
por isso nunca fazia bem o que fazia bem
era um “mestre” na “arte longa” de perder “gramática”
e por isso é que ia sabendo como era isso tudo
650
Herberto Helder
Canção Em Quatro Sonetos
A maçã precipitada, os incêndios da noite, a neve forte
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
1 189
Herberto Helder
Canção Em Quatro Sonetos
A maçã precipitada, os incêndios da noite, a neve forte
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
1 189
Herberto Helder
Canção Em Quatro Sonetos
A maçã precipitada, os incêndios da noite, a neve forte
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
e a rude beleza da cabeça.
— Quem ouvirá em que planetas esta imagem
da minha morte, quando eu abrir o lenço
sobre o coração terrível e suspenso?
Uma criança de sorriso cru
vive em mim sem dar um passo, amando
respirar em sua roupa o cheiro
do sangue maternal. O vício
do sono apouca as frias glicínias
do seu cabelo inocente,
inocente. Ela não sofre e apenas sente
a máquina que é, com cabeleira e dedos cheios
de energia rápida: a magia, os segredos.
Tantos nomes que não há para dizer o silêncio—
a combustão interior do tempo;
uma maçã cortada, uma pomba de éter:
o pensamento.
Não te chames mais, adolescente
comendo uvas negras.
Abres a camisa em que escutas todas as mãos do vento.
E vês atrás de ti as máquinas resolutas
de fabricar as formas rápidas,
e convulsas, do esquecimento.
Isto no ar há-de ficar como frio limpo.
O meu nome parou diante
do instante mortal que o guardara.
Evapora-se a roupa, mas não sinto.
Ás vezes, sobre um soneto voraz e abrupto, passa
uma rapariga lenta que não sabe,
e cuja graça se abaixa e movimenta na obscura
pintura de um paraíso mortal.
Nesse soneto nocturno escrevo que grito, ou então que durmo,
ou que às vezes enlouqueço. E a matéria grave
e delicada do seu corpo pousa no centro
desse sopro feroz. E o soneto
veloz abranda um pouco, e ela curva o corpo
teatral — e o ânus sobe como uma flor animal.
O meu pénis avança, no soneto que soletro
como uma dança, ou um peixe negro nos
frios planos sombrios e sonâmbulos:
— a aliança intrínseca de um pénis e de um ânus.
Sobre os cotovelos a água olha o dia sobre
os cotovelos. Batem as folhas da luz
um pouco abaixo do silêncio. Quero saber
o nome de quem morre: o vestido de ar
ardendo, os pés em movimento no meio
do meu coração. O nome:
madeira que arqueja, seca desde o fundo
do seu tempo vegetal coarctado.
E, ao abrir-se a toalha viva, o
nome: a beleza a voltar-se para trás, com seus
pulmões de algodão queimando.
Uma serpente de ouro abraça os quadris
negros e molhados. E a água que se debruça
olha a loucura com seu nome: indecifrável, cego.
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Herberto Helder
Iii F
Folheie as mãos nas plainas enquanto desusa a gramática da madeira,
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
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Herberto Helder
Iii F
Folheie as mãos nas plainas enquanto desusa a gramática da madeira,
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
obscura
memória: a seiva atravessa-a.
Que a mão lhe seja oblíqua.
Aplaina as tábuas baixas e sonolentas - torne-as
ágeis.
Leveza, oh faça-a como a do ar que entra nelas.
Por súbita verdade a oficina se ilude: que,
de inspiração,
o marceneiro transtorne o artesanato do mundo.
Aparelha, aparelha as tábuas cândidas.
A sua vida é cada vez mais lenta.
Como entra o ar na gramática!
Que Deus apareça.
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