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João Garcia de Guilhade
Nunca [A]Tam Gram Torto Vi
Nunca [a]tam gram torto vi
com'eu prendo d'um infançom,
e quantos ena terra som,
todo'lo têm por assi:
o infançom, cada que quer,
vai-se deitar com sa molher
e nulha rem nom dá por mi.
E já me nunca temerá,
ca sempre me tev'em desdém,
des i ar quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
- siquer três filhos que fiz i,
filha-os todos pera si:
o Demo lev'o que m'en dá!
Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai-se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
des i, se filh'ou filha faz,
nõn'o quer outorgar por meu!
com'eu prendo d'um infançom,
e quantos ena terra som,
todo'lo têm por assi:
o infançom, cada que quer,
vai-se deitar com sa molher
e nulha rem nom dá por mi.
E já me nunca temerá,
ca sempre me tev'em desdém,
des i ar quer sa molher bem
e já sempr'i filhos fará
- siquer três filhos que fiz i,
filha-os todos pera si:
o Demo lev'o que m'en dá!
Em tam gram coita viv'hoj'eu
que nom poderia maior:
vai-se deitar com mia senhor
e diz do leito que é seu
e deita-se a dormir em paz;
des i, se filh'ou filha faz,
nõn'o quer outorgar por meu!
586
João Garcia de Guilhade
Vistes, Mias Donas: Quando Noutro Dia
Vistes, mias donas: quando noutro dia
o meu amigo conmigo falou,
foi mui queixos', e pero se queixou,
dei-lh'eu entom a cinta que tragia,
mais el demanda-m'[or']outra folia.
E vistes (que nunca que m’eu tal visse!):
por s'ir queixar, mias donas, tam sem guisa,
fez-mi tirar a corda da camisa,
e dei-lh'eu dela bem quanta m'el disse,
mais el demanda-mi al - quen'o ferisse!
Sempr'haverá dom Joam de Guilhade,
mentr'el quiser, amigas, das mias dõas,
ca já m'end'el muitas deu e mui bõas;
des i terrei-lhi sempre lealdade,
mais el demanda-m'outra torpidade.
o meu amigo conmigo falou,
foi mui queixos', e pero se queixou,
dei-lh'eu entom a cinta que tragia,
mais el demanda-m'[or']outra folia.
E vistes (que nunca que m’eu tal visse!):
por s'ir queixar, mias donas, tam sem guisa,
fez-mi tirar a corda da camisa,
e dei-lh'eu dela bem quanta m'el disse,
mais el demanda-mi al - quen'o ferisse!
Sempr'haverá dom Joam de Guilhade,
mentr'el quiser, amigas, das mias dõas,
ca já m'end'el muitas deu e mui bõas;
des i terrei-lhi sempre lealdade,
mais el demanda-m'outra torpidade.
569
João Garcia de Guilhade
Par Deus, Lourenço, Mui Desaguisadas
Par Deus, Lourenço, mui desaguisadas
novas oí agor'aqui dizer:
mias tenções quiseram desfazer
e que ar fossem per ti amparadas.
Joam Soares foi; e di-lh'assi:
que louv'eu donas, mais nunca per mi,
mentr'eu viver, seram amas loadas.
E se eu fosse u forom escançadas
aquestas novas de que ti falei,
Lourenço, gram verdade ti direi:
tôdalas novas foram acaladas;
mais mim e ti poss'eu bem defender,
ca nunca eu donas mandei tecer,
nem lhis trobei nunca polas maladas.
Cordas e cintas muitas hei eu dadas,
Lourenç', a donas e elas a mim;
mais pero nunca com donas teci,
nem trobei nunca por amas honradas;
mais [as] que me criarom, dar-lhis-ei
sempr'em que vivam e vesti-las-ei,
e seram donas de mi sempr'amadas.
Lourenço, di-lhe que sempre trobei
por bõas donas, e sempr'estranhei
os que trobavam por amas mamadas.
novas oí agor'aqui dizer:
mias tenções quiseram desfazer
e que ar fossem per ti amparadas.
Joam Soares foi; e di-lh'assi:
que louv'eu donas, mais nunca per mi,
mentr'eu viver, seram amas loadas.
E se eu fosse u forom escançadas
aquestas novas de que ti falei,
Lourenço, gram verdade ti direi:
tôdalas novas foram acaladas;
mais mim e ti poss'eu bem defender,
ca nunca eu donas mandei tecer,
nem lhis trobei nunca polas maladas.
Cordas e cintas muitas hei eu dadas,
Lourenç', a donas e elas a mim;
mais pero nunca com donas teci,
nem trobei nunca por amas honradas;
mais [as] que me criarom, dar-lhis-ei
sempr'em que vivam e vesti-las-ei,
e seram donas de mi sempr'amadas.
Lourenço, di-lhe que sempre trobei
por bõas donas, e sempr'estranhei
os que trobavam por amas mamadas.
565
João Garcia de Guilhade
Par Deus, Lourenço, Mui Desaguisadas
Par Deus, Lourenço, mui desaguisadas
novas oí agor'aqui dizer:
mias tenções quiseram desfazer
e que ar fossem per ti amparadas.
Joam Soares foi; e di-lh'assi:
que louv'eu donas, mais nunca per mi,
mentr'eu viver, seram amas loadas.
E se eu fosse u forom escançadas
aquestas novas de que ti falei,
Lourenço, gram verdade ti direi:
tôdalas novas foram acaladas;
mais mim e ti poss'eu bem defender,
ca nunca eu donas mandei tecer,
nem lhis trobei nunca polas maladas.
Cordas e cintas muitas hei eu dadas,
Lourenç', a donas e elas a mim;
mais pero nunca com donas teci,
nem trobei nunca por amas honradas;
mais [as] que me criarom, dar-lhis-ei
sempr'em que vivam e vesti-las-ei,
e seram donas de mi sempr'amadas.
Lourenço, di-lhe que sempre trobei
por bõas donas, e sempr'estranhei
os que trobavam por amas mamadas.
novas oí agor'aqui dizer:
mias tenções quiseram desfazer
e que ar fossem per ti amparadas.
Joam Soares foi; e di-lh'assi:
que louv'eu donas, mais nunca per mi,
mentr'eu viver, seram amas loadas.
E se eu fosse u forom escançadas
aquestas novas de que ti falei,
Lourenço, gram verdade ti direi:
tôdalas novas foram acaladas;
mais mim e ti poss'eu bem defender,
ca nunca eu donas mandei tecer,
nem lhis trobei nunca polas maladas.
Cordas e cintas muitas hei eu dadas,
Lourenç', a donas e elas a mim;
mais pero nunca com donas teci,
nem trobei nunca por amas honradas;
mais [as] que me criarom, dar-lhis-ei
sempr'em que vivam e vesti-las-ei,
e seram donas de mi sempr'amadas.
Lourenço, di-lhe que sempre trobei
por bõas donas, e sempr'estranhei
os que trobavam por amas mamadas.
565
João Garcia de Guilhade
Diss', Ai Amigas, Dom J'am Garcia
Diss', ai amigas, dom J'am Garcia
que, por mi nom pesar, nom morria;
mal baratou, porque o dizia,
ca por esto o faço morrer por mi;
e vistes vós o que s'enfengia;
demo lev'o conselho que há de si!
El disse já que por mi trobava,
ar enmentou-me, quando lidava,
seu dano fez que se nom calava,
ca por esto o faço morrer por mi;
sabedes vós o que se gabava;
demo lev'o conselho que há de si!
El andou por mi muito trobando,
e quant'havia por mi o dando,
e nas lides me ia enmentando
e por esto o faço morrer por mi;
pero se muito andava gabando,
demo lev'o conselho que há de si!
que, por mi nom pesar, nom morria;
mal baratou, porque o dizia,
ca por esto o faço morrer por mi;
e vistes vós o que s'enfengia;
demo lev'o conselho que há de si!
El disse já que por mi trobava,
ar enmentou-me, quando lidava,
seu dano fez que se nom calava,
ca por esto o faço morrer por mi;
sabedes vós o que se gabava;
demo lev'o conselho que há de si!
El andou por mi muito trobando,
e quant'havia por mi o dando,
e nas lides me ia enmentando
e por esto o faço morrer por mi;
pero se muito andava gabando,
demo lev'o conselho que há de si!
480
João Garcia de Guilhade
Diss', Ai Amigas, Dom J'am Garcia
Diss', ai amigas, dom J'am Garcia
que, por mi nom pesar, nom morria;
mal baratou, porque o dizia,
ca por esto o faço morrer por mi;
e vistes vós o que s'enfengia;
demo lev'o conselho que há de si!
El disse já que por mi trobava,
ar enmentou-me, quando lidava,
seu dano fez que se nom calava,
ca por esto o faço morrer por mi;
sabedes vós o que se gabava;
demo lev'o conselho que há de si!
El andou por mi muito trobando,
e quant'havia por mi o dando,
e nas lides me ia enmentando
e por esto o faço morrer por mi;
pero se muito andava gabando,
demo lev'o conselho que há de si!
que, por mi nom pesar, nom morria;
mal baratou, porque o dizia,
ca por esto o faço morrer por mi;
e vistes vós o que s'enfengia;
demo lev'o conselho que há de si!
El disse já que por mi trobava,
ar enmentou-me, quando lidava,
seu dano fez que se nom calava,
ca por esto o faço morrer por mi;
sabedes vós o que se gabava;
demo lev'o conselho que há de si!
El andou por mi muito trobando,
e quant'havia por mi o dando,
e nas lides me ia enmentando
e por esto o faço morrer por mi;
pero se muito andava gabando,
demo lev'o conselho que há de si!
480
João Lobeira
Um Cavaleiro Há 'Qui Tal Entendença
Um cavaleiro há 'qui tal entendença
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.
E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.
Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.
E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.
E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.
Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.
E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
624
João Lobeira
Um Cavaleiro Há 'Qui Tal Entendença
Um cavaleiro há 'qui tal entendença
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.
E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.
Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.
E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
qual vos eu agora quero contar:
faz, u dev'a fazer prazer, pesar,
e sa mesura toda é entença;
e o que lhi preguntam, respond'al;
e o seu bem fazer é fazer mal,
e todo seu saber é sem sabença.
E nom depart'em rem, de que se vença,
pero lh'outro [a]guisado falar;
e verveja, u se dev'a calar,
e nunca diz verdad', u mais nom mença;
e, u lhi pedem cousimento, fal;
pero é mans', u dev'a fazer al
e, u deve sofrer, é sem sofrença.
Des i er fala sempr'em conhocença
que sabe bem sem-conhocer mostrar;
e dorme, quando se dev'espertar,
e meos sab', u mete mais femença;
e, se com guisa diz, logo s'en sal;
e, u lh'avém algũa cousa tal
que lh'é mester cienç', é sem ciença.
E nom lhi fazem mal, de que se sença,
ante leix'assi o preito passar,
e os que lhi deviam a peitar,
peita-lhis el, por fazer aveença,
e diz que nẽum prez nada nom val;
mais Deus, que o fez tam descomunal,
lhi queira dar, por saúde, doença.
624
João Lobeira
Amigos, Eu Nom Posso Bem Haver
Amigos, eu nom posso bem haver,
nem mal, se mi nom vem de mia senhor;
e pois m'ela faz mal e desamor,
bem vos posso com verdade dizer:
que a mim aveo em guisa tal
que vi todo meu bem por gram meu mal.
Ca vi ela, de que m'assi avém,
que já nom posso, assi Deus mi perdom!,
d'al haver bem, nem mal, se dela nom;
e pois end'hei mal, posso dizer bem
que a mim aveo em guisa tal
que vi todo meu bem por gram meu mal.
Pois bem nem mal nom m'é senom o seu,
e que mi o bem falec'e o mal hei,
e pois meu tempo tod'assi passei,
com gram verdade posso dizer eu
que a mim aveo em guisa tal
que vi todo meu bem por gram meu mal.
nem mal, se mi nom vem de mia senhor;
e pois m'ela faz mal e desamor,
bem vos posso com verdade dizer:
que a mim aveo em guisa tal
que vi todo meu bem por gram meu mal.
Ca vi ela, de que m'assi avém,
que já nom posso, assi Deus mi perdom!,
d'al haver bem, nem mal, se dela nom;
e pois end'hei mal, posso dizer bem
que a mim aveo em guisa tal
que vi todo meu bem por gram meu mal.
Pois bem nem mal nom m'é senom o seu,
e que mi o bem falec'e o mal hei,
e pois meu tempo tod'assi passei,
com gram verdade posso dizer eu
que a mim aveo em guisa tal
que vi todo meu bem por gram meu mal.
671
João Lobeira
Se Soubess'ora Mia Senhor
Se soubess'ora mia senhor
que muit'a mi praz d'eu morrer
ante ca sa ira temer,
(que houv' e que sempre temi
mais ca morte, des que a vi)
pesar-lh'-ia mais doutra rem
d'eu morrer, pois a mi praz en.
Esto entend'eu do seu amor,
ca, des que a vi, vi-lh'haver
sempre pesar do meu prazer
e sempre sanha contra mi;
e por esto entend'eu assi:
que da morte, que m'ora vem,
pesar-lh'-á, porque é meu bem.
Desto sõo já sabedor;
e ar prazer-mi-á de saber:
des que eu mort'[assi] prender,
que[m] lhi sofrerá des ali
tantas coitas com'eu sofri?
Eu creo que lhi falrá quem,
pero m'ela tev'em desdém,
des que a vi; e se pavor
eu nom houvesse de viver
(o que Deus nom leixe seer),
diria quanto mal prendi
dela, por bem que a servi,
e de como errou o sem
contra mi; mais nom mi convém.
que muit'a mi praz d'eu morrer
ante ca sa ira temer,
(que houv' e que sempre temi
mais ca morte, des que a vi)
pesar-lh'-ia mais doutra rem
d'eu morrer, pois a mi praz en.
Esto entend'eu do seu amor,
ca, des que a vi, vi-lh'haver
sempre pesar do meu prazer
e sempre sanha contra mi;
e por esto entend'eu assi:
que da morte, que m'ora vem,
pesar-lh'-á, porque é meu bem.
Desto sõo já sabedor;
e ar prazer-mi-á de saber:
des que eu mort'[assi] prender,
que[m] lhi sofrerá des ali
tantas coitas com'eu sofri?
Eu creo que lhi falrá quem,
pero m'ela tev'em desdém,
des que a vi; e se pavor
eu nom houvesse de viver
(o que Deus nom leixe seer),
diria quanto mal prendi
dela, por bem que a servi,
e de como errou o sem
contra mi; mais nom mi convém.
550
João Baveca
Amigo, Mal Soubestes Encobrir
Amigo, mal soubestes encobrir
meu feit'e voss'e perdestes per i
mi e eu vós; e oimais quem nos vir
de tal se guard', e, se molher amar,
filh'aquel bem que lhi Deus quiser dar
e leix'o mais e pass'o temp'assi.
Ca vós quisestes haver aquel bem
de mim que vos nom podia fazer
sem meu gram dan', e perdestes por en
quanto vos ant'eu fazia d'amor;
e assi faz quem nom é sabedor
de saber bem, pois lho Deus dá, sofrer.
E bem sabedes camanho temp'há
que m'eu daquest', amigo, receei
em que somos; e, pois que o bem já
nom soubestes sofrer, sofred'o mal,
ca, [pero] m'end'eu queira fazer al
o demo lev'o poder que end'hei.
meu feit'e voss'e perdestes per i
mi e eu vós; e oimais quem nos vir
de tal se guard', e, se molher amar,
filh'aquel bem que lhi Deus quiser dar
e leix'o mais e pass'o temp'assi.
Ca vós quisestes haver aquel bem
de mim que vos nom podia fazer
sem meu gram dan', e perdestes por en
quanto vos ant'eu fazia d'amor;
e assi faz quem nom é sabedor
de saber bem, pois lho Deus dá, sofrer.
E bem sabedes camanho temp'há
que m'eu daquest', amigo, receei
em que somos; e, pois que o bem já
nom soubestes sofrer, sofred'o mal,
ca, [pero] m'end'eu queira fazer al
o demo lev'o poder que end'hei.
556
João Baveca
Muitos Dizem Que Gram Coita D'amor
Muitos dizem que gram coita d'amor
os faz em mais de mil guisas cuidar,
e devo-m'eu dest'a maravilhar:
que por vós moir'e nom cuido, senhor,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E se hoj'homem há cuidados, bem sei,
se per coita d'amor ham de seer,
que eu devia cuidados haver;
pero, senhor, nunca em al cuidei,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
Ca me coita voss'amor assi
que nunca dórmi[o], se Deus mi perdom,
e cuido sempre no meu coraçom,
pero nom cuid'[em] al, des que vos vi,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E d'amor sei que nulh'homem nom tem
en maior coita ca mi por vós vem.
os faz em mais de mil guisas cuidar,
e devo-m'eu dest'a maravilhar:
que por vós moir'e nom cuido, senhor,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E se hoj'homem há cuidados, bem sei,
se per coita d'amor ham de seer,
que eu devia cuidados haver;
pero, senhor, nunca em al cuidei,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
Ca me coita voss'amor assi
que nunca dórmi[o], se Deus mi perdom,
e cuido sempre no meu coraçom,
pero nom cuid'[em] al, des que vos vi,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E d'amor sei que nulh'homem nom tem
en maior coita ca mi por vós vem.
368
João Baveca
Muitos Dizem Que Gram Coita D'amor
Muitos dizem que gram coita d'amor
os faz em mais de mil guisas cuidar,
e devo-m'eu dest'a maravilhar:
que por vós moir'e nom cuido, senhor,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E se hoj'homem há cuidados, bem sei,
se per coita d'amor ham de seer,
que eu devia cuidados haver;
pero, senhor, nunca em al cuidei,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
Ca me coita voss'amor assi
que nunca dórmi[o], se Deus mi perdom,
e cuido sempre no meu coraçom,
pero nom cuid'[em] al, des que vos vi,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E d'amor sei que nulh'homem nom tem
en maior coita ca mi por vós vem.
os faz em mais de mil guisas cuidar,
e devo-m'eu dest'a maravilhar:
que por vós moir'e nom cuido, senhor,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E se hoj'homem há cuidados, bem sei,
se per coita d'amor ham de seer,
que eu devia cuidados haver;
pero, senhor, nunca em al cuidei,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
Ca me coita voss'amor assi
que nunca dórmi[o], se Deus mi perdom,
e cuido sempre no meu coraçom,
pero nom cuid'[em] al, des que vos vi,
senom em como parecedes bem,
des i em como haverei de vós bem.
E d'amor sei que nulh'homem nom tem
en maior coita ca mi por vós vem.
368
João Garcia de Guilhade
A Bõa Dona Por Que Eu Trobava
A bõa dona por que eu trobava,
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.
E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:
por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:
sandec'e morte, que busquei sempr'i,
e seu amor me deu quant'eu buscava!
e que nom dava nulha rem por mi,
pero s'ela de mi rem nom pagava,
sofrendo coita sempre a servi;
e ora já por ela 'nsandeci,
e dá por mi bem quanto x'ante dava.
E pero x'ela com bom prez estava
e com [tam] bom parecer, qual lh'eu vi,
e lhi sempre com meu trobar pesava,
trobei eu tant'e tanto a servi
que já por ela lum'e sem perdi;
e anda-x'ela por qual x'ant'andava:
por de bom prez; e muito se preçava,
e dereit'é de sempr'andar assi;
ca, se lh'alguém na mia coita falava,
sol nom oía, nem tornava i;
pero, por coita grande que sofri,
oimais hei dela quant'haver cuidava:
sandec'e morte, que busquei sempr'i,
e seu amor me deu quant'eu buscava!
990
João Baveca
Joam Baveca, Fé Que Vós Devedes
- Joam Baveca, fé que vós devedes,
que me digades ora ũa rem
que eu nom sei, e segundo meu sem,
tenh'eu de pram de vós que o sabedes,
e por aquesto vos vim preguntar:
cantar d'amor de quem nom sab'amar,
que me digades porque lho dizedes.
- Pero d'Ambroa, vós nom m'oiredes
dizer cantar - esto creede bem -
senom bem feit'e igual; e por en
nom dig'estes "bõos" que vós fazedes,
ante digo dos que faz trobador
que troba bem e há coita d'amor;
e vós, por esto, nom me vos queixedes.
- Joam Baveca, se vós nom queredes
os meus cantares dizer ant'alguém,
direi-vos ora como vos avém:
nunca por en contra mim per dizedes.
Mais lo que sabe molher bem querer,
bem quanto sab'o asno de leer,
por namorado porque o metedes?
- Pero d'Ambroa, vós mais [nom] podedes
saber de mim do que vos já dix'en:
os cantares que eu digo fez quem
há grand'amor; mais pois sanha prendedes,
aqui ante todos leix'eu a tençom;
ca, se quiséssedes caber razom,
dig'eu verdad', esto nom duvidedes.
que me digades ora ũa rem
que eu nom sei, e segundo meu sem,
tenh'eu de pram de vós que o sabedes,
e por aquesto vos vim preguntar:
cantar d'amor de quem nom sab'amar,
que me digades porque lho dizedes.
- Pero d'Ambroa, vós nom m'oiredes
dizer cantar - esto creede bem -
senom bem feit'e igual; e por en
nom dig'estes "bõos" que vós fazedes,
ante digo dos que faz trobador
que troba bem e há coita d'amor;
e vós, por esto, nom me vos queixedes.
- Joam Baveca, se vós nom queredes
os meus cantares dizer ant'alguém,
direi-vos ora como vos avém:
nunca por en contra mim per dizedes.
Mais lo que sabe molher bem querer,
bem quanto sab'o asno de leer,
por namorado porque o metedes?
- Pero d'Ambroa, vós mais [nom] podedes
saber de mim do que vos já dix'en:
os cantares que eu digo fez quem
há grand'amor; mais pois sanha prendedes,
aqui ante todos leix'eu a tençom;
ca, se quiséssedes caber razom,
dig'eu verdad', esto nom duvidedes.
810
João Baveca
Amiga, Dizem Que Meu Amig'há
Amiga, dizem que meu amig'há
por mi tal coita que nom há poder
per nulha guisa d'um dia viver
se per mi nom; e vedes quant'i há:
se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.
E tam coitad'é, com'aprendi eu,
que o nom pode guarir nulha rem
de morte já, se lh'eu nom faço bem;
mais vedes ora com'estou end'eu:
se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.
Dizem que é por mi coitad'assi
que quantas cousas eno mundo som
nom lhi podem dar vida, se eu nom;
e este preito cae-m'ora assi:
se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.
E, amiga, por Deus, conselho tal
mi dade vós que nom fique end'eu mal.
por mi tal coita que nom há poder
per nulha guisa d'um dia viver
se per mi nom; e vedes quant'i há:
se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.
E tam coitad'é, com'aprendi eu,
que o nom pode guarir nulha rem
de morte já, se lh'eu nom faço bem;
mais vedes ora com'estou end'eu:
se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.
Dizem que é por mi coitad'assi
que quantas cousas eno mundo som
nom lhi podem dar vida, se eu nom;
e este preito cae-m'ora assi:
se por mi morre, fic'end'eu mui mal,
e se lh'ar faç'algum bem, outro tal.
E, amiga, por Deus, conselho tal
mi dade vós que nom fique end'eu mal.
543
João Baveca
Maior Garcia Sempr'oi[U] Dizer
Maior Garcia sempr'oi[u] dizer
por quem quer que [se] podesse guisar
de sa mort'e se bem maenfestar,
que nom podia perdudo seer;
e ela diz, por se de mal partir,
que, enquant'houver per que o comprir,
que nom quer já sem clérigo viver.
Ca diz que nom sab'u x'há de morrer,
e por aquesto se quer trabalhar,
a como quer, de se desto pagar;
e diz que há bem per u o fazer
con'o que tem de seu, se d'alhur nom:
dous ou três clérigos, um a sazom,
[pode mui bem consigo sempr'haver].
E Maior Garcia, por nom perder
sua alma, quando esto oiu, foi buscar
clérigo e nom s'atreveu albergar
[tam senlheira u quer que há viver];
e já três clérigos pagados tem,
que, sem um deles, sabede vós bem
que a nom pode a morte tolher.
por quem quer que [se] podesse guisar
de sa mort'e se bem maenfestar,
que nom podia perdudo seer;
e ela diz, por se de mal partir,
que, enquant'houver per que o comprir,
que nom quer já sem clérigo viver.
Ca diz que nom sab'u x'há de morrer,
e por aquesto se quer trabalhar,
a como quer, de se desto pagar;
e diz que há bem per u o fazer
con'o que tem de seu, se d'alhur nom:
dous ou três clérigos, um a sazom,
[pode mui bem consigo sempr'haver].
E Maior Garcia, por nom perder
sua alma, quando esto oiu, foi buscar
clérigo e nom s'atreveu albergar
[tam senlheira u quer que há viver];
e já três clérigos pagados tem,
que, sem um deles, sabede vós bem
que a nom pode a morte tolher.
556
João Baveca
Cuidara Eu a Mia Senhor Dizer
Cuidara eu a mia senhor dizer
o mui gram bem que lhi quer'e pavor
houvi d'estar com ela mui peor
ca estava, e nom lh'ousei dizer
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
E nom cuidei haver de nulha rem
med'e, por esto m'esforcei entom
e foi ant'ela, se Deus mi perdom,
por lho dizer, mais nom lhi dixi rem
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
Bem esforçado fui por lhi falar
na mui gram coita que por ela hei,
e fui ant'ela, e siv'e cuidei
e catei-a, mais nom lh'ousei falar
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi,
e quer'e querrei sempre des aqui.
o mui gram bem que lhi quer'e pavor
houvi d'estar com ela mui peor
ca estava, e nom lh'ousei dizer
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
E nom cuidei haver de nulha rem
med'e, por esto m'esforcei entom
e foi ant'ela, se Deus mi perdom,
por lho dizer, mais nom lhi dixi rem
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi.
Bem esforçado fui por lhi falar
na mui gram coita que por ela hei,
e fui ant'ela, e siv'e cuidei
e catei-a, mais nom lh'ousei falar
de quanta coita por ela sofri,
nem do gram bem que lhe quis, poila vi,
e quer'e querrei sempre des aqui.
616
João Garcia de Guilhade
U M'eu Parti D'u M'eu Parti
U m'eu parti d'u m'eu parti,
log'eu parti aquestes meus
olhos de veer e, par Deus,
quanto bem havia perdi,
ca meu bem tod'era 'm veer;
e mais vos ar quero dizer:
pero vejo, nunca ar vi.
Ca nom vej'eu, pero vej'eu:
quanto vej'eu nom mi val rem,
ca perdi o lume por en,
porque nom vej'a quem me deu
esta coita que hoj'eu hei,
que jamais nunca veerei,
se nom vir o parecer seu.
Ca já ceguei, quando ceguei;
de pram ceguei eu log'entom,
e já Deus nunca me perdom,
se bem vejo, nem se bem hei;
pero, se me Deus ajudar
e me cedo quiser tornar
u eu bem vi, bem veerei.
log'eu parti aquestes meus
olhos de veer e, par Deus,
quanto bem havia perdi,
ca meu bem tod'era 'm veer;
e mais vos ar quero dizer:
pero vejo, nunca ar vi.
Ca nom vej'eu, pero vej'eu:
quanto vej'eu nom mi val rem,
ca perdi o lume por en,
porque nom vej'a quem me deu
esta coita que hoj'eu hei,
que jamais nunca veerei,
se nom vir o parecer seu.
Ca já ceguei, quando ceguei;
de pram ceguei eu log'entom,
e já Deus nunca me perdom,
se bem vejo, nem se bem hei;
pero, se me Deus ajudar
e me cedo quiser tornar
u eu bem vi, bem veerei.
683
João Baveca
Par Deus, Amigos, Gram Torto Tomei
Par Deus, amigos, gram torto tomei
e de logar onde m'eu nom cuidei:
estand'ali ant'a porta d'el-rei
preguntando por novas da fronteira,
por ũa velha que eu deostei,
deostou-m'ora Maria Balteira.
Veed'ora se me devo queixar
deste preito, ca nom pode provar
que me lhe oísse nulh'homem chamar
senom seu nome, per nulha maneira;
e pola velha que foi deostar,
deostou-m'ora Maria Balteira.
Muito vos deve de sobérvia tal
pesar, amigos, e direi-vos al:
sei mui bem que [se] lh'est[o] a bem sal,
todos iremos per ũa carreira;
ca, porque dixe d'ũa velha mal,
deostou-m'ora Maria Balteira.
e de logar onde m'eu nom cuidei:
estand'ali ant'a porta d'el-rei
preguntando por novas da fronteira,
por ũa velha que eu deostei,
deostou-m'ora Maria Balteira.
Veed'ora se me devo queixar
deste preito, ca nom pode provar
que me lhe oísse nulh'homem chamar
senom seu nome, per nulha maneira;
e pola velha que foi deostar,
deostou-m'ora Maria Balteira.
Muito vos deve de sobérvia tal
pesar, amigos, e direi-vos al:
sei mui bem que [se] lh'est[o] a bem sal,
todos iremos per ũa carreira;
ca, porque dixe d'ũa velha mal,
deostou-m'ora Maria Balteira.
572
João Baveca
Amigo, Vós Nom Queredes Catar
Amigo, vós nom queredes catar
a nulha rem, se ao vosso nom,
e nom catades tempo nem sazom
a que venhades comigo falar;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
Ca noutro dia chegastes aqui
a tal sazom que houv'en tal pavor
que, por seer deste mundo senhor,
nom quisera que veessedes i;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
E quem molher de coraçom quer bem,
a meu cuidar, punha de s'encobrir
e cata temp'e sazom pera ir
u ela est, e a vós nom avém;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
Vós nom catades a bem nem a mal,
nem do que nos pois daquest'averrá,
se nom que pass'o vosso ũa vez já,
mais em tal feito muit'há mester al;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
a nulha rem, se ao vosso nom,
e nom catades tempo nem sazom
a que venhades comigo falar;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
Ca noutro dia chegastes aqui
a tal sazom que houv'en tal pavor
que, por seer deste mundo senhor,
nom quisera que veessedes i;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
E quem molher de coraçom quer bem,
a meu cuidar, punha de s'encobrir
e cata temp'e sazom pera ir
u ela est, e a vós nom avém;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
Vós nom catades a bem nem a mal,
nem do que nos pois daquest'averrá,
se nom que pass'o vosso ũa vez já,
mais em tal feito muit'há mester al;
e nom que[i]rades, amigo, fazer,
per vossa culpa, mi e vós morrer.
585
João Garcia de Guilhade
Que Muitos Me Preguntarám
Que muitos me preguntarám,
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
quando m'ora virem morrer,
por que moir', e quer'eu dizer
quanto x'ende pois saberám:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E preguntar-m'-am, eu o sei,
da dona que diga qual é,
e juro-vos, per bõa fé,
que nunca lhis en mais direi:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E dirám-mi que parecer
virom aqui donas mui bem,
e direi-vo-lhis eu por en
quanto m'ora oístes dizer:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
E nom dig'eu das outras mal
nem bem, nem sol nom falo i;
mais, pois vejo que moir'assi,
dig'est', e nunca direi al:
moir'eu, porque nom vej'aqui
a dona que nom vej'aqui.
798
João Garcia de Guilhade
Amigos, Nom Poss'eu Negar
Amigos, nom poss'eu negar
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
a gram coita que d'amor hei,
ca me vejo sandeu andar,
e com sandece o direi:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero quem quer x'entenderá
aquestes olhos quaes som,
e dest'alguém se queixará;
mais eu, já quer moira quer nom:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
Pero nom devia a perder
home que já o sem nom há
de com sandece rem dizer,
e com sandece dig'eu já:
os olhos verdes que eu vi
me fazem ora andar assi.
937
João Baveca
Ai Amiga, Hoje Falou Comigo
- Ai amiga, hoje falou comigo
o voss'amigo e vi-o tam coitado
por vós que nunca vi tant'home nado,
ca morrerá, se lhi vós nom valedes.
- Amiga, quand'eu vir que é guisado,
valer-lh'-ei, mais nom vos maravilhedes
d'andar por mi coitado meu amigo.
- Per bõa fé, amiga, bem vos digo
que, u estava mig'em vós falando,
esmoreceu, e bem assi andando
morrerá, se vos del dóo nom filha.
- Si, filhará, ai amiga, já quando,
mais nom tenhades vós por maravilha
d'andar por mi coitado meu amigo.
- Amiga, tal coita d'amor há sigo
que já nunca dorme noite nem dia
coidand'em vós, e, par Santa Maria,
sem vosso bem non'o guarirá nada.
- Guarrei-o eu, amiga, todavia,
mais nom vos façades maravilhada
d'andar por mi coitado meu amigo.
o voss'amigo e vi-o tam coitado
por vós que nunca vi tant'home nado,
ca morrerá, se lhi vós nom valedes.
- Amiga, quand'eu vir que é guisado,
valer-lh'-ei, mais nom vos maravilhedes
d'andar por mi coitado meu amigo.
- Per bõa fé, amiga, bem vos digo
que, u estava mig'em vós falando,
esmoreceu, e bem assi andando
morrerá, se vos del dóo nom filha.
- Si, filhará, ai amiga, já quando,
mais nom tenhades vós por maravilha
d'andar por mi coitado meu amigo.
- Amiga, tal coita d'amor há sigo
que já nunca dorme noite nem dia
coidand'em vós, e, par Santa Maria,
sem vosso bem non'o guarirá nada.
- Guarrei-o eu, amiga, todavia,
mais nom vos façades maravilhada
d'andar por mi coitado meu amigo.
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