Poemas neste tema
Outros
António Carlos Cortez
Variação
Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no silêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no silêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
811
António Carlos Cortez
Variação
Regressas sempre aos versos
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no silêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
A arte torpe das palavras
A fala o fingimento de verdade
A arte a canção dos mais pobres
de todos os sobreviventes
Calas quanto sabes mas escreves
Por metáforas e símbolos
as ruínas do corpo e do palato
essa hostil lâmpada
sabes que corremos como cortina
escura o sentido literal da palavra
Arda no silêncio com que
nos afastamos ou morremos
a palavra da esperança
No longo silêncio que se arrasta
nenhuma flor nos basta
811
Carlos Soulié do Amaral
Tragédia da monja
Incendiou-se a virilha da monja
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
a santa monja piedosa e pura.
O hábito que usava ela despiu
e do que era sem saber saiu
imaculada, ainda que em fervura.
Então, correndo pela capela
barroca e bela,
a monja atônita esculpiu pavor
na face de todos os santos
que não sentiam sua dor.
Em seu transe transbordado
ganhou o espaço do paço.
Nem mesmo invocou a Virgem,
nem mesmo invocou Jesus.
No ardente e pânico terror
das brasas que jamais imaginara,
a monja foi correndo, quase alada,
tombar, sem lérias e sem leros,
nos braços do poeta que sonhara
o pecado de tê-la como amada.
Deslumbrado, o poeta deslumbrou
a monja com os ímpetos mais feros,
cobrindo-a de calafrios
nas aras do altar de Eros.
Apagou-se então o incêndio
num susto de duplo mistério:
santa e vate se perderam
num embate de virilhas
entre ardores e arrepios
no paço do monastério:
santa e vate se encontraram
na história de maravilhas
de um conto que me contaram.
669
Maria Lúcia Dal Farra
Natureza-morta vivente
Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
686
Maria Lúcia Dal Farra
Natureza-morta vivente
Culpa do delicado voo da andorinha,
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
o desequilíbrio da mesa
mete tremor nas fruteiras
arremessa maçãs para o Éden
faz cometa das cerejas.
Flutua o brócolis em regime de nave-mãe
enquanto põe embaraço
no impecável da toalha de almoço
– já um tanto alvoroçada e picotada
pela iminente imaginação
da faca.
É verdade que nesse terraço
(onde se perscruta o limite entre mortos e vivos)
nada perturba o mar que flui à deriva.
Tudo está plácido à tona d’água
– e o mesmo se diz daquilo que
(como o céu)
não sofre ranhuras
– ainda que abalado pela alada imagem inicial.
Há uma pera no ar.
E duas azeitonas que colho ao léu
mas com as quais mal posso preparar o drique:
álcool volatizado na direção
do arremesso.
686
Maria Lúcia Dal Farra
Desabitação
Penso que a gente morre
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
tal qual o frango no prato que destrinçamos
(alheadamente)
em prosa com os convivas.
Às vezes sem ruído, outras esmagados
sob o pecado, a falta não redimida –
como um trem que atravessasse as vísceras.
Levantamos a cabeça por cima dos talheres
e fisgamos no ar a ideia
com que debicar o vinho –
mas o odor da marmita
faz quase vomitar.
Somos os habitantes e os visitantes
dessa casa que dá para o caos.
708
António Carlos Cortez
Arte poética e não
A poesia é o signo extremado. Estremecendo, plástica, a palavra rasga. Contra a opacidade dos dias, a cristalização da frase, límpida, com seus sintagmas oferecendo ao lado de lá da tela a história original de um mundo. Estremecendo, o leitor sobrevive e insiste em reler passagens que, de algum modo, o penetram por imagens, flashes. Assim, contra os actos não há argumentos – e a poesia, se construída em verdade, produz novas formas de perceber as idades de que é feita, afinal, a nossa vida: metro, verso, estrofe, cadência rítmica, corpo a corpo, combate entre vida e morte. Extremidades da linha de fogo.
654
Mailson Furtado Viana
das amizades distantes
o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
664
Mailson Furtado Viana
das amizades distantes
o poeta escreveu algo
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
que agora não lembro de cor
mas o li
outros também
e depois outros e outros e outros
e pararipararaparara
ficou famoso
saiu no jornal
fez pose de importante
e a vida voou voou
fiquei amigo dele
depois de o matarem
no século dezenove
664
António Carlos Cortez
Ecos
Errar todo o discurso de teus anos
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
É errar de má sorte amor ausente
Erraste todo o discurso de teus anos
e és agora pedra para sempre
e o amor ausente já presente um dia
acabou por ser a rede do destino
A mão sinistra a mão mais fria
tece as malhas do naufrágio (gume fino)
Perguntas com razão o que fazer
Como ter de novo o verão antigo
Onde o casaco quente no Inverno…
Nem o vento te responde Resta escrever
os erros que trazes só contigo
na certeza de seres teu próprio inferno
725
Maria Lúcia Dal Farra
Loucura
A órbita da loucura é imensa.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
Aviso às incautas criaturas
tanto quanto
aos navegantes sem rumo.
Nela se movem constelações superiores
ilimitadas águas
e as mãos com que Deus nos acena
(segundo a segundo)
com a sua graça.
Consolos prontos a redimir o mundo
palavras ausentes de escrita
ali se asilam
e mais
o risco do iminente abissal.
É tão amplo o rosto da loucura
que podem caber nele
quaisquer
das nossas muitas faces
– inclusive esta com que agora me empenho
em apreendê-lo.
708
Maria Lúcia Dal Farra
Abóbora
Despojo-me de tudo quanto tenho
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
para a tua boca salgada ou doce:
cambuquira, massa, semente, fruto.
Até outro acolho em mim,
ramo duplo das artes.
Bandolim? Violão?
Para meu desconcerto,
abelhas afinam-se no fundo diapasão da minha flor,
na zona mais erógena;
e então, ah, com que cócegas me torço em vivos contornos,
e cresço, esculpindo curvas,
a cor exalando túrgida a úmida temperatura
do meu mistério gozoso:
íntimo encontro do delgado pescoço com quadris –
coito.
Concórdia de contrários,
senhora das duas naturezas
(andrógina)
Ainda assim rastejo
– menina que sou! –
a entregar-me ao gosto da lagarta-rosca
e das brocas.
841
Mailson Furtado Viana
as sandálias ao canto
as sandálias ao canto
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte
guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa
guardam teus passos
e não sabem pra diante
o horizonte
guardam caminhos
guardam distâncias
guardam a próxima esquina
guardam o fim do mundo
__________que nelas começa
727
Carlos Soulié do Amaral
Soneto da Alegria
De nada, ou quase nada, uma alegria
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
820
Carlos Soulié do Amaral
Soneto da Alegria
De nada, ou quase nada, uma alegria
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
Criar e permitir que nos aqueça
E acenda o vôo* e a voz da fantasia
Provando-se à exaustão adversa e avessa.
Uma alegria que dê fogo à fria
E brumosa jornada e não se esqueça
De transbordar, cravando-se travessa
E incontida, no coração do dia.
E que por ela os nossos corações
Se deixem, sem constrangimento, ser
E fluir, como fluem as canções,
Como fluem os rios, sem saber
Nem indagar as mil ou mais razões
De tudo quanto vive e vai morrer.
820
António Carlos Cortez
S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO
Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
691
António Carlos Cortez
S. PEDRO DE ALCÂNTARA, MIRADOURO / MEMÓRIA DO VERÃO
Como cinzento-rosa a cidade
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
na cor mental surge noutra idade
Outra cor suspende o fim da tarde
Há um negrume do rio que nos alcança
O barco ao longe cruza o exíguo porto
e bairros pobres circundam este lodo
Imaginas terramotos tempos de nojo
... Neste jardim caindo sobre colinas
pára na memória uma onda de lama
(Lisboa... o casario velho de alfama
imagens do gume do amor derrama)
Cidade: corpo artérias expostas ao sol posto
(uma luz negra eclipsa a luz de agosto)
691
Mailson Furtado Viana
no teatro tudo é presente
no teatro tudo é presente
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.
a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo
_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome
a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
700 anos a 10 metros
e qual o quê velocidade da luz
piada. piada.
a cortina a guilhotinar o tempo
a vida toda a caber naquele oco de mundo
e nós
a 10 metros de tudo
_____por trás num bar
_____num quarto de apartamento
_____numa parada de ônibus
_____ou mesmo assistindo a gente
estamos
nem coubemos na vista
_____deve ser coxia
____________camarim
____________qualquer canto sem luz
____________qualquer canto sem nome
a vida ali toda cabe
não se sabe do tempo
(nem se vê, parece)
não se sabe muita coisa
670
Maria Lúcia Dal Farra
Artes
Evito rimas, recuso acrobacias
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
apenas do frugal me ocupo inteira:
tomo como medida o arame do varal
e entremeio nele (sensual, promíscua)
toalha de mesa com lençol.
A casa deságua no quintal,
alta se amolda aos ramos das mangueiras.
De quando em vez faz rumo, sai pra rua
(sem pelo) presa pela lua cheia
ou terna atrás de longe realejo.
Fica tudo quarando enquanto
cozinho ou vasculho a cumeeira
(esteio onde é mais vivo o espírito do meu pai)
e escapa das molduras uma aura, um certo enleio
com que apanho luz para as candeias,
com que canto funcionando este tear.
612
Mailson Furtado Viana
crônica de um homem de fé
não era de frequentar igrejas
mas era crente nalguma coisa
na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima
sentiu medo
ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
mas era crente nalguma coisa
na volta do trabalho
na barraca de cachorro-quente
um senhor discursava
preâmbulos do fim do mundo
o juízo final se aproxima
sentiu medo
ao chegar em casa
perguntou à mulher
como se rezava o pai-nosso
646
Maria Lúcia Dal Farra
La dame à la Licorne
A Vanessa Droz
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
707
Maria Lúcia Dal Farra
La dame à la Licorne
A Vanessa Droz
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
707
Maria Lúcia Dal Farra
La dame à la Licorne
A Vanessa Droz
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
A dama se faz acompanhar do unicórnio
em todas as telas
– ele passeia pelos sentidos dela.
Faz gosto vê-lo assim,
doméstico,
mimoso animal de estimação
indeciso entre cão e gato.
Dela,
a vista se espraia
pelo corno branco de lua
enquanto tateia na pluma que o recobre
a ave de cascos suspensa
sobre o espírito da tapeçaria.
Dele,
o focinho inspira flores ao derredor,
ramagens, maçã, perfumes:
o meigo bichinho ensina à dama o regime do sol.
Sua voz indivisa é guia
e a dama apanha as cifras:
são raízes, fósseis que se desprendem das pedras,
ocultas nascentes reclamando o ouvido.
Ele passa-lhe tudo o que sabe.
Mas é o amor dela que lhe dá sentido.
707
António Carlos Cortez
Argila do sono
A mesma «argila do sono»
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
o deserto silencioso da noite
e tantas vezes um corpo
não encontrou posição
para a entrega à paz dos mortos
Uma névoa solar o rasgava
Um tampo de mesa era claro
Havia que escrever mas tardava
da névoa o sol e seu gelo
Só na argila do sono a escrita
era corte de carne mais óbvio
(por flashes construía a palavra)
665