Poemas neste tema
Outros
Afonso Mendes de Besteiros
Fals'amigo, Per Bõa Fé
Fals'amigo, per bõa fé,
m'eu sei que queredes gram bem
outra molher, e por mi rem
nom dades, mais, pois assi é,
oimais fazede des aqui
capa doutra, ca nom de mim.
Ca noutro dia vos achei
falar no voss'e nom em al
com outra, e foi m'ende mal,
mais, pois que a verdade sei,
oimais fazede des aqui
capa doutra, ca nom de mim.
E quando vos eu vi falar
com outra, log'i bem vi eu
que seu érades, ca nom meu,
mais quero-vos eu desenganar:
oimais fazede des aqui
capa doutra, ca nom de mim.
m'eu sei que queredes gram bem
outra molher, e por mi rem
nom dades, mais, pois assi é,
oimais fazede des aqui
capa doutra, ca nom de mim.
Ca noutro dia vos achei
falar no voss'e nom em al
com outra, e foi m'ende mal,
mais, pois que a verdade sei,
oimais fazede des aqui
capa doutra, ca nom de mim.
E quando vos eu vi falar
com outra, log'i bem vi eu
que seu érades, ca nom meu,
mais quero-vos eu desenganar:
oimais fazede des aqui
capa doutra, ca nom de mim.
694
Afonso Mendes de Besteiros
Amigos, Nunca Mereceu
Amigos, nunca mereceu
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
homem, com'eu mereci, mal,
em meu cuidar, ca nom em al;
mais ando-me por en sandeu:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Mais leixade-mi andar assi!
Pero vós hajades poder,
meus amigos, de me valer,
sol nom vos doades de mi:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca sei que per nẽum logar,
amigos, que nom haverei
dela bem, por quanto cuidei;
mais leixade-m'assi andar:
por quanto mi faz cuidador
d'haver eu bem de mia senhor.
Ca o sandeu, quanto mais for
d'amor sandeu, tant'é milhor.
828
Virgílio Martinho
Ouro
O ouro é o amado, o longínquo,
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
Barco à vela esguio quase gaivota,
Desejo latente no meter do corpo,
Luz lateral na vaguidão das coisas.
Não falo do ouro metal, falo do ouro,
Falo da raiz, do fruto, falo do prado,
Da origem, da seiva, que o ouro é dança
Quando ao sonho vem o amor amado.
Que sonhar ouro é sonhar desejo,
Na vigília das noites compridas,
Quando as veias são pulsações vivas,
Quando os sonhos emanam das fendas.
Abismos que envolvem segredos vagos,
Distantes, enevoados, que no coração,
Castelo pulsante, trincheira de vida,
Existe a pepita, tu, madona paixão.
Saberia dizer-te ouro se fosse inocente,
Se tudo que sou começasse hoje, agora,
Se o sono, na insónia, no sonho contigo,
Houvesse o teu brilho, a tua aurora.
Fazer de ti o eu sonhado é a ideia,
O ouro de antiquíssimas histórias,
No laboratório da matéria, a fusão,
No borbulhar da retorta o sonho vão.
1 107
Virgílio Martinho
O Jovem Azul
O jovem azul não é o amor,
O jovem azul chama-se sonho,
O jovem azul é espacial,
É azul,
Mas não tem asas de anjo,
Não tem.
Azul é uma cor não é um jovem azul,
É coisa sem asas, quase um barco,
Com um coração de fora,
Talvez um cogumelo,
Nunca saberei o que o jovem azul é.
Neste saber e não saber,
Percorro lento o sonho antigo,
Enquanto subo a escadaria,
Passo a passo,
Como qualquer um a que o azul assiste.
Chego assim ao limite de cima,
De sonho feito com máscara arlequim,
Sem conhecer o meu sonho azul,
Sem ao menos lhe conhecer o fim.
O jovem azul chama-se sonho,
O jovem azul é espacial,
É azul,
Mas não tem asas de anjo,
Não tem.
Azul é uma cor não é um jovem azul,
É coisa sem asas, quase um barco,
Com um coração de fora,
Talvez um cogumelo,
Nunca saberei o que o jovem azul é.
Neste saber e não saber,
Percorro lento o sonho antigo,
Enquanto subo a escadaria,
Passo a passo,
Como qualquer um a que o azul assiste.
Chego assim ao limite de cima,
De sonho feito com máscara arlequim,
Sem conhecer o meu sonho azul,
Sem ao menos lhe conhecer o fim.
1 143
Afonso Mendes de Besteiros
Oimais Quer'eu Punhar de Me Partir
Oimais quer'eu punhar de me partir
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
daqueste mund', e farei gram razom,
poilo leixou a mia senhor, e nom
pud'i viver e fui alhur guarir.
E por esto quer'eu, por seu amor,
leixá'lo mundo falso, traedor,
desemparado, que me foi falir.
E nom haverá pois quen'o servir
com'eu servi, nem tam longa sazom;
e ficará desemparad'entom,
pois m'end'eu for, que mia senhor fez ir.
E pois que já nom há prez nem valor
eno mundo d'u se foi mia senhor,
Deus me cofonda se eu i guarir!
E pois que eu i mia senhor nom vir,
e vir as outras que no mundo som,
nom me podia dar o coraçom
de ficar i. E por vos nom mentir,
quero-m'end'ir; e pois que m'end'eu for
daqueste mundo, que est a peor
cousa que sei, querrei-me del riir!
494
Afonso Mendes de Besteiros
Coitado Vivo, Há Mui Gram Sazom
Coitado vivo, há mui gram sazom,
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
que nunca home tam coitado vi
viver no mundo, des quando naci.
E pero x'as mias coitas muitas som,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
Vivo coitado no meu coraçom,
[e] vivo no mundo mui sem prazer,
e as mias coitas nom ouso dizer.
E meus amigos, se Deus mi perdom,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E de chorar quitar-s'-iam os meus
olhos e poderia en perder
as coitas que a mim Deus faz sofrer.
E meus amigos, se mi valha Deus,
nom querria deste mundo outro bem
senom poder negar quem quero bem!
E per negá-lo eu cuidaria bem
a perder coitas e mal que mi vem!
694
Virgílio Martinho
Viver Amarelo
Um dia descobri uma cidade amarela
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
Com dois cubos no começo e no fim,
No primeiro havia uma estátua cega,
No segundo um tigre real alado.
Percorri as ruas havia tristeza,
Visitei os jardins não havia maçãs,
Só havia um animal livre hiante,
Tanto que era um lobo uivante.
Os prédios eram como almas alinhadas,
Respiravam arfantes como o fole respira,
Em vez de janelas tinham olhos cegos,
Em vez de portas tinham bocas cerradas.
No palácio da cidade o eco sussurrante
De livros esfarrapados a vogarem soltos,
Não mais que indícios, um nevoeiro,
Fumo que pairava num mundo amarelo.
Para não ser diferente pintei o rosto,
E tudo ficou igual, da cor do doce mel,
Comigo a estátua cega, o tigre alado,
Comigo o lobo uivante, o sono eternal.
964
Virgílio Martinho
Deus
Deus é a porta, a cadeira, a cama
Deus é um bolo de anos, açúcar,
Deus é a digestão da Fada-Madrinha,
Deus tem o hálito da romã rosada.
Um dia vi Deus, tinha corrido no prado,
chamava-se Deus, vinha de amar a criança,
nos seus olhos cintilantes havia a luz coada
de um céu com pinhões e favas salgadas.
Amo Deus e a sua igreja alada, papal,
amo Deus e sua mãe, e seu pai, e seu tio,
amo a sagrada família, sou ferveroso,
ser Deus
Deus é um bolo de anos, açúcar,
Deus é a digestão da Fada-Madrinha,
Deus tem o hálito da romã rosada.
Um dia vi Deus, tinha corrido no prado,
chamava-se Deus, vinha de amar a criança,
nos seus olhos cintilantes havia a luz coada
de um céu com pinhões e favas salgadas.
Amo Deus e a sua igreja alada, papal,
amo Deus e sua mãe, e seu pai, e seu tio,
amo a sagrada família, sou ferveroso,
ser Deus
1 011
Afonso Mendes de Besteiros
Mia Madre, Venho-Vos Rogar
Mia madre, venho-vos rogar
como roga filh'a senhor:
o que morre por mi d'amor,
leixade-m'ir co el falar;
quanta coita el sigo tem
sei que toda lhi por mi vem.
E sodes desmesurada
que vos nom queredes doer
do meu amigo, que morrer
vejo, e and'eu coitada;
quanta coita el sigo tem
sei que toda lhi por mi vem.
Vee-lo-ei eu, per bõa fé,
e direi-lhi tam gram prazer
per que [m']el dev'a gradecer,
poilo seu mal cedo meu é;
quanta coita el sigo tem
sei que toda lhi por mi vem.
como roga filh'a senhor:
o que morre por mi d'amor,
leixade-m'ir co el falar;
quanta coita el sigo tem
sei que toda lhi por mi vem.
E sodes desmesurada
que vos nom queredes doer
do meu amigo, que morrer
vejo, e and'eu coitada;
quanta coita el sigo tem
sei que toda lhi por mi vem.
Vee-lo-ei eu, per bõa fé,
e direi-lhi tam gram prazer
per que [m']el dev'a gradecer,
poilo seu mal cedo meu é;
quanta coita el sigo tem
sei que toda lhi por mi vem.
737
Virgílio Martinho
Uma Canção de Amor
Na cidade a noite
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
Entre nós o peixe
Estamos sós, amor,
Somos um do outro,
É simples.
Quando nos conhecemos,
Chovia.
Era inverno no mar.
Havia dinheiro,
Fomos ao baile.
Uma luz tinha nome,
Não era Deus, não era,
Havia também uma cama
E os nossos corpos eram macios.
Viajámos vezes sem conta,
Porque somos pessoas humildes,
Com um segredo apenas:
Vermo-nos no dia seguinte.
Por isso,
Lemos nos intervalos dos gestos,
Aprendemos a tabuada dos sentidos,
Bebemos cerveja gelada,
Fazemos canções castas.
Somos puros, é verdade,
Tanto que ninguém nos quer,
E tão inocentes no dia a dia,
Que temos dívidas.
Devemos os olhos que temos,
Devemos o vermelho dos lábios,
Devemos todos os sonhos,
Devemos o pão e o sal.
Certo temos sinais diferentes,
Luas que não acertam com eles,
Por vezes chegamos a ser perversos,
Porque eles são redondos, nós esguios,
Amor.
Mas o beijo que nos une
É um silêncio justo, alegre,
E o amor que fazemos
É como o vento sobre o vento.
925
Afonso Mendes de Besteiros
Senhor Fremosa, Vejo-Me Morrer
Senhor fremosa, vejo-me morrer;
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en.
Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
e a mi praz, e mui de coraçom,
co'a mia mort', assi Deus mi perdom,
por aquesto que vos quero dizer:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
Per bõa fé, de mia mort'hei sabor,
e bem vos juro que há gram sazom
que rog'a Deus por mort', e por al nom,
por aquesto que vos digo, senhor:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E, per bõa fé, gram sabor per hei
com mia morte, per quant'eu entendi
que vos prazia; e pois est assi,
muito mi praz polo que vos direi:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en.
Ca de viver mais nom m'era mester;
e praz-mi muit'em morrer des aqui
por vós. E tenho que mi Deus [faz] i
bem, mia senhor, polo que vos disser:
moiro por vós, a que praz, e muit'en,
de que moir'eu, e praz a mim por en!
E bem vos juro, senhor, que m'é bem
co'[a] mia morte, pois a vós praz en.
730
Baltazar Dias
Conselho para bem casar
Escolha, quem quer casar;
contente-se com sua sorte,
pois a não pode enjeitar
e esta lhe há-de durar
até que os aparte a morte.
Não queira só fermosura
mas busque dote também;
porque se esta o não tem,
terá muito má ventura
e não no verá ninguém.
Porque é muito arriscada
fermosura com pobreza,
em uma mulher casada;
e se lhe falta, desespera;
virá ser mulher errada.
Porque o não ter que gastar
e sustentar vaidades,
dá ao mundo em que falar
e, às vezes, o murmurar
vem a parar em verdades.
Pois se acaso não tiver
um pouco de fermosura,
que há-de o pobre fazer?
E quem tal vida atura
melhor lhe fôra morrer.
Busca logo outra fermosa,
com quem gasta quanto tem,
e disto, tanto mal vem,
que sua mulher, de irosa,
se faz má mulher, também.
E ao fim desta jornada,
depois da bolsa estar raza
de não deitar de si nada,
logo a fazenda é gastada,
e tem a mulher em casa.
contente-se com sua sorte,
pois a não pode enjeitar
e esta lhe há-de durar
até que os aparte a morte.
Não queira só fermosura
mas busque dote também;
porque se esta o não tem,
terá muito má ventura
e não no verá ninguém.
Porque é muito arriscada
fermosura com pobreza,
em uma mulher casada;
e se lhe falta, desespera;
virá ser mulher errada.
Porque o não ter que gastar
e sustentar vaidades,
dá ao mundo em que falar
e, às vezes, o murmurar
vem a parar em verdades.
Pois se acaso não tiver
um pouco de fermosura,
que há-de o pobre fazer?
E quem tal vida atura
melhor lhe fôra morrer.
Busca logo outra fermosa,
com quem gasta quanto tem,
e disto, tanto mal vem,
que sua mulher, de irosa,
se faz má mulher, também.
E ao fim desta jornada,
depois da bolsa estar raza
de não deitar de si nada,
logo a fazenda é gastada,
e tem a mulher em casa.
719
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 120
Virgílio Martinho
Biografia Inventada
Sou Úrsula, chamo-me Luísa,
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
Tenho olhos de distância,
Cresci na neve, vivo no sol.
De mulher tenho o feminino,
Medalha que me enfeita,
O meu sorriso é espelho.
Nele me vi, havia música,
Também anjos, também guerras,
Também dores, também amores.
Cantei no espaço, uma voz branca,
Voz de mulher, minha do nascer,
Soube a matéria, tentei o destino.
Depois pisei a água fria
E mergulhei até ao peixe,
Das escamas fiz um colar.
Cada escama era uma pedra
Colorida para enfeitiçar,
de todas escolhi a do cantar.
O canto é o meu hálito,
Escorre-me pelos lábios,
Na garganta tenho éguas.
Uma é céu, outra é terra,
Uma é mar, outra é fogo,
Juntas são o meu cantar.
Canto sobre o canto, o canto,
Uma Úrsula chamada Luísa
Na aventura do mundo.
1 120
Afonso X
Ai Eu Coitada, Como Vivo Em Gram Cuidado
Ai eu coitada, como vivo em gram cuidado
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
por meu amigo que hei alongado;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
Ai eu coitada, como vivo em gram desejo
por meu amigo que tarda e nom vejo;
muito me tarda
o meu amigo na Guarda.
1 485
Afonso Mendes de Besteiros
Senhor Fremosa, Mais de Quantas Som
Senhor fremosa, mais de quantas som
donas no mundo, pol'amor de Deus,
doede-vos vós de mim e dos meus
olhos que choram, há mui gram sazom,
por muito mal, senhor, que a mi vem
por vós, senhor, a que quero gram bem!
[...]
donas no mundo, pol'amor de Deus,
doede-vos vós de mim e dos meus
olhos que choram, há mui gram sazom,
por muito mal, senhor, que a mi vem
por vós, senhor, a que quero gram bem!
[...]
688
Virgílio Martinho
Fetal
Fetal dentro do escuro da mãe,
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
formada na sua arca de vida,
sujeita à expulsão pela mater,
vim fêmea do negrume para a luz.
Ungida de matérias, tatuada de líquidos,
após o vagido, o som do chorar,
busquei o volume, o redondo do seio,
mãos hesitantes no tacto inicial.
Finda a busca, achado o alimento,
veio o crescer, a torrente viva,
soma de gestos, levedura de sons,
qual labirinto de espelhos feito.
Imagem de imagens, o desenho do rosto,
o despertar do ser inscrito nos olhos,
nas linhas enigmas da mão aberta,
no pulsante relevo da pele branca.
Estar no mundo, função minha,
ter em memória a vida que vou sendo,
no crescimento do meu crescer,
primeiro passado, depois futuro.
Agora, no ventre curvo a felpa crespa,
as pernas como funis até aos pés,
o rabo quais polpas da humana árvore,
as calotes dos seios desejo de mãos.
Do amor sei o desejo no desejar
quando o primeiro fiz e sofri
1 023
Afonso Lopes de Baião
Senhor, Que Grav'hoj'a Mi É
Senhor, que grav'hoj'a mi é
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
de m'haver de vós a partir!
Ca sei, de pram, pois m'eu partir,
que mi averrá, per bõa fé:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E pois partir os olhos meus
de vós, que eu quero gram bem,
e vos nom virem, sei eu bem
que mi averrá, senhor, par Deus:
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
E se Deus algum bem nom der
de vós, que eu por meu mal vi
(tam grave dia vos eu vi!),
se de vós grado nom houver,
haverei, se Deus me perdom!,
gram coita no meu coraçom.
888
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 164
Virgílio Martinho
A Bebida Branca
A bebida branca é o arbusto
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
que nasce na duna ventosa.
Ao longe o mar não assusta
é a nuvem que o vento agita.
Estava na rocha havia sal
nos olhos a fogueira do sol
o mar era recorte tinha rosto
parecia um ombro sem corpo.
Desci a ravina era íngreme
a rocha abismo era medo,
descê-la requeria cuidado,
havia uma estrela escura.
Entre o dia e a noite a visão
a sirene do aviso buuuuu
chegar à praia estar salvo
entrar no arbusto ser vento
corpo erecto no sol extenso
água dentro certeza de vida
vai, menino, acerta as horas,
à tua frente tens o longe.
O molhado era o reino quieto
quase azevia entre areias
só a bolha do respirar
com o mergulho do menino
Tudo vem da bebida arbusto
do entre ser, na praia da duna
nos idos da memória veja-se
isto palavras olhos poesia.
1 164
Afonso Lopes de Baião
Madre, Des Que Se Foi Daqui
Madre, des que se foi daqui
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
meu amigo, nom vi prazer,
nem mi o queredes [vós] creer,
e moir'e, se nom é assi,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
Des que s'el foi, per bõa fé,
chorei, madre, dos olhos meus
com gram coita, sab'hoje Deus,
e moir'e, se assi nom é,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
De mia mort'hei mui gram pavor,
mia madre, se cedo nom vem,
e al nom duvidedes en,
ca, se assi nom é, senhor,
nom vejades de mi prazer
que desejades a veer.
757
Afonso Mendes de Besteiros
Per Boa Fé, Nom Sabem Nulha Rem
Per boa fé, nom sabem nulha rem
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
das mias coitas os que me vam poer
culpa de m'eu mui cativo fazer
em meus cantares, tanto sei eu bem;
nem sabem qual coita mi faz sofrer
esta senhor que me tem em poder.
[...]
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