Poemas neste tema
Outros
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
1 002
Renato Rezende
Ensaio
Deitado na cama, sozinho, escrevo
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
porque escrever
é a única coisa que me dá prazer:
Penso em morrer.
Em acercar-me de ti, Deus, humildemente:
Senhor, já cumpri 32 anos
e a minha vida está completa.
Não quero ser poeta nem santo,
deixa-me partir.
Mas não se morre quando se quer
e sim quando se pode.
Deitado na cama, olhos fechados
ensaio a minha morte.
Nova York, 10 de março 1996
1 002
Renato Rezende
História
Ontem revi o livro História do Brasil
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
990
Renato Rezende
História
Ontem revi o livro História do Brasil
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
que quando menino estudei no ginásio.
Havia uma foto da família real: Dom Pedro II,
a Princesa Isabel, o Conde D'Eu. Essas pessoas
realmente existiram, um dia, e hoje estão mortas.
A noite, relendo Orlando Furioso
pensei nesse jovem Roland, morto
em 778, numa emboscada basca
contra os francos de Carlos Magno.
Esse anônimo Roland, que sem suspeitar
inspirou a Chanson, o Innamorato, o Furioso.
Hoje estou aqui, sob a luz, mas a vida
com suas razões fugidias, é arisca, e já
(sorrateiramente) a sombra se aproxima.
Virgínia, 9 de maio 1995
990
Renato Rezende
Concepção
(Como em "Las ruinas circulares"
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
1 112
Renato Rezende
Concepção
(Como em "Las ruinas circulares"
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
o sonhador sonha e é sonhado),
O homem criou Deus, da criatura
Sendo criado. Pai e filho
Em um espelho mítico unificado.
Assim, num tempo estático e revertido
Nasceram, escritor- e escrito, da poesia.
(Como misteriosamente é Fátima
mãe e filha do o poeta:
Filho da sua filha.
1 112
Renato Rezende
A Mão
...
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados
por esta mão
(qual?)
que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
depois
o ardor do corpo se faz demasiado
e não queremos mais o gozo
e sim
somente o delicado
acariciar de nossos corpos
abandonados
por esta mão
(qual?)
que nos acariciava
enquanto nos acariciávamos.
Roma, abril 1991
1 012
Renato Rezende
Dentro do Mar
Dentro do mar
nós quatro
em silêncio
Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil
em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar
infinito --
e o céu infinito
Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
nós quatro
em silêncio
Onda vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Um vem e vai
dentro do mar
em silêncio
Nós quatro
cada um quatro
cada quatro mil
em silêncio
lavando nossos passados
dentro do mar
infinito --
e o céu infinito
Cidade dos Arrecifes (Recife), 16 de novembro 1994
1 027
Renato Rezende
Sombras
Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
940
Renato Rezende
Sombras
Comprei uma biografia de Joan Miró
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
com algumas fotografias velhas, uma delas
mostra o pintor-poeta no fundo de um bar
bebendo, admirando La Chunga dançar. A foto
é escura e os dois parecem mortos.
É difícil acreditar que isso realmente aconteceu, a sombra
de toda história mais parece um sonho.
Nova York, 29 de maio 1995
940
Renato Rezende
Cupido
Quando te vi
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
deixei cair minhas asas.
Caí como uma pluma
de pedra.
Flecha
presa na carne.
Nova York, maio 1994
1 048
Renato Rezende
O Elo Perdido
Porque eu sabia que havia um poema escondido ali
li um artigo inteiro no National Geographic
sobre arqueologia.
Na Etiópia, ingleses e nativos
descobriram ainda mais antigos restos de hominídios
que os famosos vestígios de Lucy.
Dentes
e ossos de um indivíduo, que certamente
não se considerava indivíduo, mas vagamente
sentia ser parte indivisível de um todo.
Talvez esse sentimento seja o elo perdido.
Nova York, 3 de março 1996
li um artigo inteiro no National Geographic
sobre arqueologia.
Na Etiópia, ingleses e nativos
descobriram ainda mais antigos restos de hominídios
que os famosos vestígios de Lucy.
Dentes
e ossos de um indivíduo, que certamente
não se considerava indivíduo, mas vagamente
sentia ser parte indivisível de um todo.
Talvez esse sentimento seja o elo perdido.
Nova York, 3 de março 1996
791
Renato Rezende
Cogumelos
Quando o coração se inflama
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.
Nova York, setembro 1993
incendiado pela paixão
esse fogo não ilumina;
é como o cogumelo venenoso
que brota durante a noite úmida:
não alimenta, queima, apenas queima
o organismo, e alucina.
Nova York, setembro 1993
1 140
Renato Rezende
À Beira do Mar, Esta Manhã
À beira do mar, esta manhã
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
eu fui um homem
à beira do mar.
Apenas um homem,
sem nome, sem memória:
Deus
à beira do seu mar.
Rio de Janeiro, 23 de novembro 1994
1 000
Renato Rezende
Aleijadinho
O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
963
Renato Rezende
Aleijadinho
O tempo passa pelo mundo
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
e nós somos os ponteiros.
Aqui estou eu outra vez,
depois de muitos anos,
em Congonhas do Campo.
Os profetas
continuam olhando para o horizonte
verde mar, azul de Minas
sem sentirem nada,
maiores que a vida, calados,
absortos em si mesmos.
Nova York, julho 1996
963
Renato Rezende
Piazza San Marco
Gerações de homens
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
de pombas
de gôndolas
no entanto o ar está fresco
e como se pela primeira vez
o sol nasce
Veneza, julho 1984 --
São Paulo, abril 1996
1 110
Renato Rezende
Formigas
Talvez isso ajude a compreender o Destino
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
ou a Graça:
Num pátio de mármore, duas formigas
tentam escalar uma pilastra.
Mas não conseguem.
Uma desiste.
A outra prossegue,
insiste.
Até que eu
pego essa formiga com a mão
e a coloco um palmo acima do chão.
Bombaím, novembro 1991
1 003
Renato Rezende
Ao Redor do Fogo
O fogo consome
a madeira
na lareira ardente.
Enquanto um outro fogo
chamado tempo
nos consome
-- mais lentamente.
Nova Jersey, fevereiro 1996
a madeira
na lareira ardente.
Enquanto um outro fogo
chamado tempo
nos consome
-- mais lentamente.
Nova Jersey, fevereiro 1996
1 136
Renato Rezende
Aroma
a S.M.A.
Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.
Nova York, 12 de julho 1996
Atravesso o jardim, mas páro
para cheirar as flores.
Logo não sentirei perfume algum
porque estarei morto --
ainda estarei neste jardim
mas não terei um corpo.
Nova York, 12 de julho 1996
1 196
Renato Rezende
A Perna
Numa esquina perto da minha casa
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
vive uma mendiga
de perna amputada.
Tenho vontade de beijar
a perna que falta.
Acariciar
aquele pedaço de nada.
A mão dela está queimada
e parece que foi costurada
de volta ao braço.
Com essa mão ela pede esmola.
Hoje passei por lá
e vi que a perna dela
(a outra)
estava bronzeada.
Ela é loira, ela é moça, é a flor
da perna amputada.
Me deu vontade
de entrar em seu corpo
(fragmentado)
a meio metro da calçada.
Entrar em seu corpo e ser ela,
ser a perna que falta.
Ser a falta da perna dela.
Tive vontade de amar
e ser nada.
São Paulo, 6 de agosto 1992
1 111
Renato Rezende
Poema Mudo
Quero escrever uma poesia calada.
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
1 171
Renato Rezende
Poema Mudo
Quero escrever uma poesia calada.
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
Que cada palavra exista em si, um corpo.
Que cada palavra seja tempo, pedra, rosto.
Que, principalmente, a poesia seja amor, e cada palavra
o amor feito palavra. Quero um poema
que tenha o significado da vida.
(A palavra esboçada e jamais dita;
o corpo, frágil, refletido no espelho).
Quero um verso forte e passageiro.
(Um rosto amado, e nunca mais visto;
o filho que sonhamos, e que não velo).
1 171
Renato Rezende
Poemas
Sou ainda muito moço,
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
mas quando me lembro
dos tantos momentos que já vivi na minha vida
sinto que todo o passado tem sido um sonho
desaparecendo,
e quero mesmo que desapareça
e somente sobre a essência,
o supra-sumo
como cápsulas de amor preservadas em poemas.
Nova York, 23 de julho 1995
1 114