Poemas neste tema
Outros
Eucanaã Ferraz
O ATOR
Pensei em mentir, pensei em fingir,
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
dizer: eu tenho um tipo raro de,
estou à beira,
embora não aparente. Não aparento?
Providências: outra cor na pele,
a mais pálida; outro fundo para a foto:
nada; os braços caídos, um mel
pungente entre os dentes.
Quanto à tristeza
que a distância de você me faz,
está perfeita, fica como está: fria,
espantosa, sete dedos
em cada mão. Tudo para que seus olhos
vissem, para que seu corpo
se apiedasse do meu e, quem sabe,
sua compaixão, por um instante,
transmutasse em boca, a boca em pele,
a pele abrigando-nos da tempestade lá fora.
Daria a isso o nome de felicidade,
e morreria.
Eu tenho um tipo raro.
704
Joaquim Manuel Magalhães
Cru e de bergamota
Cru e de bergamota.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.
Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.
Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.
Semblante, engulho,
a calça, ui a calça, tenro tom
de alça toupeira,
cobiça.
Engoles, encanto,
o objecto humilhado.
Conquanto no anelar
correta aliança te finja.
Âmbito árido.
O novelo da demanda
uma trave,
cimitarra turba do olvido.
A ribalta um sigilo,
decrépito revés e desacato.
E se interpretou no aqui
um exercício de sintaxe,
uma retórica minada de prosódia,
independente de biografia,
por favor não atrapalhe.
Uma cápsula de arrependimento,
um bourbon e triplo.
1 145
Carlito Azevedo
ABERTURA
Desta janela
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
811
Carlito Azevedo
ABERTURA
Desta janela
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
domou-se o infinito à esquadria;
desde além, aonde a púrpura sobre a serra
assoma como fumaça desatando-se da lenha,
até aqui, nesta flor quieta sobre o
parapeito – em cujas bordas se lêem
as primeiras deserções da
geometria.
811
Eucanaã Ferraz
VINHETA
Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa
e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.
Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa
e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.
Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
743
Eucanaã Ferraz
VINHETA
Ame-se o que é, como nós,
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa
e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.
Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
efêmero. Todo o universo
podia chamar-se: gérbera.
Tudo, como a flor, pulsa
e arde e apodrece. Sei,
repito ensinamento já sabido
e lições não dizem mais
que margaridas e junquilhos.
Lições, há quem diga,
são inúteis, por mais belas.
Melhor, porém, acrescento,
se azuis, vermelhas, amarelas.
743
Eucanaã Ferraz
INTERVALO
É o que lhe digo: a medida.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?
A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você
e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:
que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,
as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto
entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?
A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você
e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:
que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,
as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto
entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
815
Eucanaã Ferraz
INTERVALO
É o que lhe digo: a medida.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?
A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você
e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:
que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,
as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto
entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
Quantos de nós entre nós
se tantos os vazios a preencher
entre querermos e a distância?
A delicadeza dá dois passos.
A vontade avança. A dúvida
recua. Quantos de você entre
você e Camus, entre você
e a casa, entre você e quase,
entre você e o nó que lentamente
vai desatando entre você
e nós? Há muitos entre nós:
que somos, que não somos,
que seríamos, entre a sua voz
e ouvi-la entre a vertigem
de tocar, por sobre o Saara,
as mãos e o jardim que nelas
se abre, agora que não há
senão um sim e um sim,
e temos sede, e rimos alto
entre livros, arrebatamentos,
amendoeiras e a impressão
de que, sem deixar traço,
todos desapareceram.
815
Eucanaã Ferraz
TRAÇO
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
772
Eucanaã Ferraz
TRAÇO
Por vezes, não raro,
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
basta um gesto, sua borracha,
um quase nada de alvaiade,
um rasgo e só.
No entanto, o carvão
de certas palavras,
de alguns nomes,
não se apaga fácil.
Afogá-lo, inútil:
o maralto traz
de volta cada sílaba
em sal fortalecida.
Enterrá-lo? Logo renascerá:
árvore alta, trigo, praga.
No fogo, irrompe a letra,
inda mais sólida liga.
Há que esperar do esquecimento
o dente miúdo
e lento roer a nódoa na língua,
o travo no peito.
772
Eucanaã Ferraz
VERDE-CLARO
Coroa, manto, brasão
e cetro, pousa.
Minúsculo,
só, nenhum exército.
Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.
Não sei que nome tem,
insigne inseto,
senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
e cetro, pousa.
Minúsculo,
só, nenhum exército.
Seu domínio: o ar,
onde governa em silêncio.
Não sei que nome tem,
insigne inseto,
senhor de toda beleza.
Chamem-no alteza.
656
Carlito Azevedo
NA NOITE FÍSICA
(desentranhado de um poema de Charles Peixoto)
A luz do quarto apagada,na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
A luz do quarto apagada,na escuridão se destaca
a insônia que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
Ao despertar levo as marcas
que de noite rabiscavas
em minha pele com a sarna
ávida de tua raiva?
E em você a cega trama
algum mal pôde? ou maltrata
ainda, que penetrava
concha, espádua, gargalhada?
E, em nosso rosto essa raiva
aberta? que estranha lava
é essa que, rubra (baba
de algum diabo), se espalha?
A luz do quarto apagada,
na escuridão se destaca
a fúria que nos atraca,
dois gêmeos na bolsa d'água.
794
Carlito Azevedo
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
724
Carlito Azevedo
NOVA PASSANTE
1. sobre
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
esta pele branca
um calígrafo oriental
teria gravado sua escrita
luminosa
— sem esquecer entanto
a boca: um
ícone em rubro
tornando mais fogo
suor e susto
tornando mais ácida e
insana a sede
(sede de dilúvio)
2. talvez
um poeta afogado num
danúbio imaginário dissesse
que seus olhos são duas
machadinhas de jade escavando o
constelário noturno:
a partir do que comporia
duzentas odes cromáticas
— mas eu que venero (mais que o ouro verde
raríssimo) o marfim em
alta-alvura de teu andar em
desmesura sobre uma passarela de
relâmpagos súbitos, sei que
tua pele pálida de papel
pede palavras
de luz
3. algum
mozárabe ou andaluz
decerto
te dedicaria
um concerto
para guitarras mouriscas
e cimitarras suicidas
(mas eu te dedico quando passas
no istmo de mim a isto
este tiroteio de silêncios
esta salva de arrepios)
724
Manuel Gusmão
As mãos da noite
As mãos da noite postas sobre a mesa : uma palma
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.
Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite : as figuras quebradas.
A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou
a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde
O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa
oblíqua à espera da surda cabeça da manhã:
– a outra escura como se abrem as folhas do chá.
Uma recordação e a sua névoa; um rosto indeciso
entre o sono e o sonho, entre o corpo do brilho
e a cintilação da noite : as figuras quebradas.
A ondulação é mais pressentida que avistada. Pode
ser apenas a circulação do sangue no animal erecto,
a tremulante auréola dos fetos arbóreos. Ou
a luz que sobe da mesa onde as mãos esperam, ou
do chão sobre que dançamos a dança. Tomo
irrepetível a curva infinita de uma linha, onde
O teu corpo não cessa de ter nascido. Não cessa
1 521
Manuel de Freitas
CÉLINE BLUES
Estas coisas perdem-se. Primeiro
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
1 101
Manuel de Freitas
CÉLINE BLUES
Estas coisas perdem-se. Primeiro
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
a disponibilidade para a paixão, depois
a própria capacidade de alguém
se vir noutro alguém. Estas coisas
estão sempre a perder-se – e não faz mal,
contanto que nos reste para isso
uma canção decadente.
Falo de órgãos, artérias, tendões.
Do mesmo modo que a alma
é um órgão proscrito que sem vigor
assediamos, adivinhando talvez
que o vazio saberá devorar os traços
que de si próprio deixou: bagatelas,
massacres e aflitas circuncisões
de sentido. Paga-se nisso tudo,
de costas para a retórica,
e faz-se uma canção decadente e sem vigor
E é ainda para ninguém
que estamos a falar coisa nenhuma, supostamente evidente porque
estas coisas se perdem, como dizia
no primeiro verso o arrogante sujeito
poético que em boa hora se cala.
1 101
Eucanaã Ferraz
A BELA E A FERA I
Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
638
Eucanaã Ferraz
A BELA E A FERA I
Em cruzar
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
a sala zumbindo
sua navalha o besouro-ébano espanta
o piano que se ergue atrapalhado,
plantado na ponta das
patas
sem poder,
do chão, tocar o ouro
absoluto da negra couraça que inseta
o ar ali com sua canção. E o pobre
Steinway supõe ser
a nave
um
sinal, um
seu semelhante, um filho talvez.
638
Eucanaã Ferraz
PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA
O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
571
Eucanaã Ferraz
PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA
O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
571
Eucanaã Ferraz
PAISAGEM PARA ANNA AKHMÁTOVA
O corpo, ainda corpo,
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
sabe de cor
a dor. Dizer adeus,
carpir, esconder,
bater palavras contra o muro.
Ruas de São Petersburgo
sob a neblina - o corpo
sabe de cor
onde se morre.
Mas, por entre o estridor
de soldados e funcionários,
cava uma saída:
o próximo poema
(promessa de delicadeza e silêncio)
- ouve cantar uma cereja.
571
Eucanaã Ferraz
PEDIDO
Houvesse Deus e os deuses
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
A fim de que lhes pedisse:
o coração em que penso, por
mais frases e bocas que beije
todas ache feias e frias, e que,
amanhã, ao despertar, ou à saída
da boate, pense em mim quando
a luz do dia sobre ele se desate.
800
Eucanaã Ferraz
O MÁGICO
De mim o que trará em sua capa
enigmática o mágico? De mim
o que haverá em sua urna aguda
e bem guardada? O que se mudará
de mim para o fundo falso e fundo
de seus olhos sem que eu perceba
nem queira dar por isso? Depois
do espanto, depois do óbvio
sob o fingimento das mangas e de
quantas ciências ocultas em suas
mãos abertas (hora de ir embora)
o que seremos? O que serei de
mim quando sair de cena o mágico?
Que restará do encanto? Há de ficar
comigo a música de agora? Algum
espinho? Um ás? O espanto?
enigmática o mágico? De mim
o que haverá em sua urna aguda
e bem guardada? O que se mudará
de mim para o fundo falso e fundo
de seus olhos sem que eu perceba
nem queira dar por isso? Depois
do espanto, depois do óbvio
sob o fingimento das mangas e de
quantas ciências ocultas em suas
mãos abertas (hora de ir embora)
o que seremos? O que serei de
mim quando sair de cena o mágico?
Que restará do encanto? Há de ficar
comigo a música de agora? Algum
espinho? Um ás? O espanto?
833