Poemas neste tema
Outros
Charles Bukowski
Outra das Minhas Críticas
não escrevo um bom poema
há semanas. ela tem 15
e entra.
"seu filho da mãe, quando é que você vai
sair da cama?"
são dez para o meio-dia
então eu me levanto e vou até a máquina de escrever.
ela entra com um boné de beisebol dos Yankees e
me encara.
"NÃO ME ENCHE?", eu grito. "EU ESTOU ESCREVENDO!"
"imbecil", ela diz e sai da sala.
olhando para aquela página de papel em branco
começo a achar que alguns dos meus críticos têm
razão.
ela entra de novo na sala e olha para
mim.
"babaca", ela diz, "olá, babaca."
eu a ignoro.
ela chega perto e puxa a minha barba.
"ei, quando é que você vai tirar essa máscara?
estou cheia dessa máscara."
em seguida ela vai ao banheiro
e com a porta aberta ela caga na privada.
ela se esforça: "urrg, urrg, urrg..."
dou uma olhada.
"ouça, você supostamente deveria
fechar a porta do banheiro quando você faz isso."
"bem, então feche, panaca", ela diz.
levanto e fecho a porta.
conheço um escritor que gastou 2 mil dólares
para ter um quarto revestido de cortiça para
ele mas isso não adiantou nada para melhorar seu
trabalho. acho que vou tentar a sorte
desse jeito.
há semanas. ela tem 15
e entra.
"seu filho da mãe, quando é que você vai
sair da cama?"
são dez para o meio-dia
então eu me levanto e vou até a máquina de escrever.
ela entra com um boné de beisebol dos Yankees e
me encara.
"NÃO ME ENCHE?", eu grito. "EU ESTOU ESCREVENDO!"
"imbecil", ela diz e sai da sala.
olhando para aquela página de papel em branco
começo a achar que alguns dos meus críticos têm
razão.
ela entra de novo na sala e olha para
mim.
"babaca", ela diz, "olá, babaca."
eu a ignoro.
ela chega perto e puxa a minha barba.
"ei, quando é que você vai tirar essa máscara?
estou cheia dessa máscara."
em seguida ela vai ao banheiro
e com a porta aberta ela caga na privada.
ela se esforça: "urrg, urrg, urrg..."
dou uma olhada.
"ouça, você supostamente deveria
fechar a porta do banheiro quando você faz isso."
"bem, então feche, panaca", ela diz.
levanto e fecho a porta.
conheço um escritor que gastou 2 mil dólares
para ter um quarto revestido de cortiça para
ele mas isso não adiantou nada para melhorar seu
trabalho. acho que vou tentar a sorte
desse jeito.
1 050
Charles Bukowski
Adolf
tenho um amigo que tem um
álbum de recortes dedicado a Hitler
e seus companheiros nazistas
e as paredes estão
cobertas de velhos
instantâneos de Al Capone
Fatty Arbuckle
Roy Rogers e
muitos muitos outros.
as paredes estão tortas de cola apodrecendo
e memórias, e há
interruptores escondidos que disparam
um frenesi de luzes
coloridas -
cada padrão diferente, nunca
o mesmo -
e descendo até seu porão há toneladas de
papéis inchados pela chuva
e comidos pelos
ratos: é muito
escuro lá embaixo
e há muitas pinturas meio inacabadas com
um olho que o encara
do assoalho.
saímos e
subimos por uma
escada sifilítica e voltamos
à cozinha onde
uma cabeça de porco está nadando
em uma panela branca
muito grande junto com
cebolas
cenouras
batatas,
uma cebola pequena flutuando em um
olho vazio,
e aí está a
filha dele
com a altura de 65 centímetros
que se lembra de mim
do outro
dia.
ela nos diz algumas coisas genuinamente
divertidas
depois se retira para
um quarto de dormir
no andar de cima
enquanto seu pai e eu ficamos por lá
ouvindo antigas canções
alemãs de marchas
e fumando
Picayunes.
álbum de recortes dedicado a Hitler
e seus companheiros nazistas
e as paredes estão
cobertas de velhos
instantâneos de Al Capone
Fatty Arbuckle
Roy Rogers e
muitos muitos outros.
as paredes estão tortas de cola apodrecendo
e memórias, e há
interruptores escondidos que disparam
um frenesi de luzes
coloridas -
cada padrão diferente, nunca
o mesmo -
e descendo até seu porão há toneladas de
papéis inchados pela chuva
e comidos pelos
ratos: é muito
escuro lá embaixo
e há muitas pinturas meio inacabadas com
um olho que o encara
do assoalho.
saímos e
subimos por uma
escada sifilítica e voltamos
à cozinha onde
uma cabeça de porco está nadando
em uma panela branca
muito grande junto com
cebolas
cenouras
batatas,
uma cebola pequena flutuando em um
olho vazio,
e aí está a
filha dele
com a altura de 65 centímetros
que se lembra de mim
do outro
dia.
ela nos diz algumas coisas genuinamente
divertidas
depois se retira para
um quarto de dormir
no andar de cima
enquanto seu pai e eu ficamos por lá
ouvindo antigas canções
alemãs de marchas
e fumando
Picayunes.
662
Charles Bukowski
A Garota Lá Fora
é 1:30 da tarde
segunda feira
temperatura de 18 graus em novembro
na Western Avenue.
uma garota sai pela porta de uma casa
e fica parada na frente.
uma mulher mais velha sai e se apoia
no marco da porta.
a garota de 20 e poucos anos
em um vestido vermelho
bem justo e de saia curta, ela também está de
meia-calça e chinelos cor de laranja
e tem o jeito de alguém
que acabou de acordar.
ela sorri na tarde.
faz uma breve dança sexy e sorri.
ela é pálida. ela é loira.
de repente ela acena para alguém que passa
de carro.
a vida é interessante.
ela é jovem.
ela é uma garota.
ela dança de novo. ela acena. ela
sorri.
isso tudo é muito bonito para 1:30 da
tarde com 18 graus.
ela quer dinheiro.
ela acena. ela dança.
ela sorri.
a mulher mais velha está entendiada e volta
para dentro.
eu dou partida em meu carro no estacionamento do outro lado
da rua.
dirijo na direção oeste para Oakwood e não vejo mais
a garota.
é tão estranho. eu acho,
todos precisamos de dinheiro.
então eu ligo o rádio e tento
esquecer
tudo isso.
segunda feira
temperatura de 18 graus em novembro
na Western Avenue.
uma garota sai pela porta de uma casa
e fica parada na frente.
uma mulher mais velha sai e se apoia
no marco da porta.
a garota de 20 e poucos anos
em um vestido vermelho
bem justo e de saia curta, ela também está de
meia-calça e chinelos cor de laranja
e tem o jeito de alguém
que acabou de acordar.
ela sorri na tarde.
faz uma breve dança sexy e sorri.
ela é pálida. ela é loira.
de repente ela acena para alguém que passa
de carro.
a vida é interessante.
ela é jovem.
ela é uma garota.
ela dança de novo. ela acena. ela
sorri.
isso tudo é muito bonito para 1:30 da
tarde com 18 graus.
ela quer dinheiro.
ela acena. ela dança.
ela sorri.
a mulher mais velha está entendiada e volta
para dentro.
eu dou partida em meu carro no estacionamento do outro lado
da rua.
dirijo na direção oeste para Oakwood e não vejo mais
a garota.
é tão estranho. eu acho,
todos precisamos de dinheiro.
então eu ligo o rádio e tento
esquecer
tudo isso.
1 153
Charles Bukowski
A Galinha
passei por aqui, ela disse,
e pendurei essa galinha assada na maçaneta da sua porta
e dois dias depois ainda estava dependurada lá
balançando ao vento.
você devia ter visto aquela coisa!
e seu carro estava parado lá fora
e a galinha continuava balançando
e eu disse a meu marido,
o que é esse fedor?
ele deve estar morto.
o vento realmente estava fazendo aquela
galinha balançar, você devia ter visto aquela
galinha balançando, e eu disse a meu marido,
esse louco filho de uma puta deve estar morto
lá dentro.
e então ele pegou a chave e entrou.
e aí, eu disse, o que você encontrou?
só garrafas vazias e lixo. você
tinha ido embora. você não estava
lá.
você olhou em todos os armários?
nós olhamos em todo lugar, debaixo da cama,
em todo lugar.
onde será que eu estava?
sei lá. onde você arrumou essa ferida na sua cabeça?
eu estava assando um marshmallow em um cabide
e queimei minha
testa.
ah, achei que alguém havia batido em você.
ahã, eu disse, ahã.
e pendurei essa galinha assada na maçaneta da sua porta
e dois dias depois ainda estava dependurada lá
balançando ao vento.
você devia ter visto aquela coisa!
e seu carro estava parado lá fora
e a galinha continuava balançando
e eu disse a meu marido,
o que é esse fedor?
ele deve estar morto.
o vento realmente estava fazendo aquela
galinha balançar, você devia ter visto aquela
galinha balançando, e eu disse a meu marido,
esse louco filho de uma puta deve estar morto
lá dentro.
e então ele pegou a chave e entrou.
e aí, eu disse, o que você encontrou?
só garrafas vazias e lixo. você
tinha ido embora. você não estava
lá.
você olhou em todos os armários?
nós olhamos em todo lugar, debaixo da cama,
em todo lugar.
onde será que eu estava?
sei lá. onde você arrumou essa ferida na sua cabeça?
eu estava assando um marshmallow em um cabide
e queimei minha
testa.
ah, achei que alguém havia batido em você.
ahã, eu disse, ahã.
1 085
Charles Bukowski
Foi Uma Underwood
meus poemas ficam repudiando
uns aos outros -
esse aqui diz isso
e aquele outro diz aquilo,
e o outro ainda diz alguma outra coisa
mas eu acho engraçado
como se enfrentam
- ferozes pesos-pena, bem,
talvez pesos meio-médios,
e aí eu entro em uma papelaria -
depois de toda essa batalha furiosa -
olho as fitas de máquina de escrever
e não consigo lembrar
o nome da
máquina.
até minha máquina de escrever
repudia a si mesma -
"desculpe", eu passo apertado pela garota
no caixa, "eles não tinham
o que eu queria."
depois eu atravesso a rua
até onde eles têm
e compro 6 daquelas
geladas que tornaram
Milwaukee
famosa.
uns aos outros -
esse aqui diz isso
e aquele outro diz aquilo,
e o outro ainda diz alguma outra coisa
mas eu acho engraçado
como se enfrentam
- ferozes pesos-pena, bem,
talvez pesos meio-médios,
e aí eu entro em uma papelaria -
depois de toda essa batalha furiosa -
olho as fitas de máquina de escrever
e não consigo lembrar
o nome da
máquina.
até minha máquina de escrever
repudia a si mesma -
"desculpe", eu passo apertado pela garota
no caixa, "eles não tinham
o que eu queria."
depois eu atravesso a rua
até onde eles têm
e compro 6 daquelas
geladas que tornaram
Milwaukee
famosa.
998
Charles Bukowski
Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha
rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
972
Charles Bukowski
Você Não Pode Passar À Força Pelo Buraco Da Agulha
rasgar poemas é minha
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
especialidade.
em uma noite
sou capaz de escrever entre 5 e uma
dúzia
sentindo-me muito bem com relação a
todos
eles.
no dia seguinte
à luz da manhã
fria
eu os encaro de
novo:
alguns têm
quando muito
apenas um verso decente
ou dois.
rasgar e mandar para a cesta
esses fracassos
é puro
prazer.
há alguns
dias
em que todos eles
se vão.
o poema dificilmente é o
centro da nossa
existência
embora tenha havido muitos
poetas
que sentiam
assim.
sejam quem forem,
os deuses não são
bobos.
eles devem rir
e admirar-se
da nossa febre
por fama.
972
Charles Bukowski
Licença Médica
aqui estou deitado de barriga para baixo, Hem está morto, Shake está
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
765
Charles Bukowski
Licença Médica
aqui estou deitado de barriga para baixo, Hem está morto, Shake está
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
morto,
os peixes que pesquei e comi e caguei estão mortos
e o médico está martelando um tubo de vidro em meu rabo,
um tubo de vidro com uma luzinha no final,
e estou torcendo por um atestado médico
para mais 2 dias de licença
e o doutor faz o jogo direitinho: "você tem umas belezas aí,
você deveria ser cortado..." bem, os russos brancos costumavam
cavar um buraco em um homem e agarrar a ponta do seu intestino
e pregá-lo a uma árvore e em seguida obrigavam o homem a
correr dando voltas e voltas na árvore.
ele puxa o tubo de vidro para fora do meu rabo
e uma parte de mim vem junto
ele tem uma cara de castanha e quando sua enfermeira
se debruça (o que é frequente)
a bunda dela é como um travesseiro macio ou
uma rosquinha açucarada, nada de sangue, só nuvens,
e digo, "Doutor, acrescente um dia à licença médica,
posso sentir a dor até lá embaixo nos meus bagos..."
"com certeza," ele diz, "com certeza, eu conheço um monte de rapazes
da agência dos correios, todos bons rapazes."
em casa saco a tampa da garrafa
e tomo o primeiro gole da boa: chovia enquanto ele remexia em mim:
a chuva continua a luzir na janela
como moscas comendo sonhos,
e abro o boletim de apostas com meu polegar,
em seguida telefono para meu agente
"...dê-me 2 para Indian Blood,
5 na ponta para Lady Fanfare, 5 de placê em The Rage."
desligo e penso suavemente em Kafka
dormindo sob patas de esquilos
enquanto a senhora do outro lado do corredor canta para seu canário.
o amor se acendeu e se apagou
como um isqueiro
e agora o amor dela é um
pássaro.
é assim quando não acontece muita coisa
e você atua em um palco pequeno,
e eu espeto minha licença médica
sobre um dos meus velhos quadros
esfrego um pouco de unguento em meu rabo
e me sirvo de mais um drinque.
765
Charles Bukowski
Nota Sobre a Tigresa
primeiro, uma terrível discussão.
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
em seguida, nós fizemos amor.
agora, finalmente, estou pacificamente deitado
em sua vasta cama
que está
coberta por um prado de graciosas flores espalhadas nela,
minha cabeça e barriga para baixo,
cabeça de lado,
borrifado pela luz através da cortina
enquanto ela se banha silenciosa no
outro aposento.
tudo está além de mim
assim como está a maioria das coisas.
ouço música clássica em um pequeno rádio.
ela toma banho.
ouço a água a escorrer.
três
enquanto a maioria das pessoas
joga toda a conversa fora
eu
1 092
Charles Bukowski
Homem Cortando A Grama do Outro Lado Da Rua
eu o vejo seguindo em frente com sua máquina.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
ah, você é estúpido demais para ser cortado como grama,
você é estúpido demais para qualquer coisa o violar -
as garotas não usarão suas lâminas em você
elas não querem
que suas lâminas afiadas sejam desperdiçadas em você,
você está interessado apenas em partidas de beisebol e
filmes de faroeste e lâminas cortadoras de grama.
você não pode ficar com uma só das minhas lâminas?
aqui está uma bem velha - enfiada em mim em 1955,
agora está morta, não o machucará muito.
não posso lhe dar esta última -
eu ainda não posso arrancá-la,
mas aqui está esta outra de 1964, que tal arrancar
esta de 1964 de mim?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada em suas entranhas
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não tem uma lâmina enfiada bem fundo em seu coração
onde o amor o largou?
homem cortando a grama do outro lado da rua
você não vê as garotas passeando pelas calçadas agora
com lâminas em suas bolsas?
você não vê seus lindos olhos e vestidos e
cabelos?
você não vê suas lindas bundas e joelhos e
tornozelos?
homem cortando a grama do outro lado da rua
isso é tudo o que você consegue enxergar - essas lâminas de cortar
grama?
isso é tudo o que você consegue ouvir - o ronco do cortador de grama?
eu posso enxergar o caminho todo até a Itália
o Japão
as Honduras
eu posso ver as garotinhas afiando suas lâminas
pela manhã e ao meio-dia e à noite, e
especialmente à noite, ah,
especialmente à noite.
1 155
Charles Bukowski
O Que Fez Você Perder Sua Inspiração?
Norman goteja uma imbecilidade
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
626
Charles Bukowski
O Que Fez Você Perder Sua Inspiração?
Norman goteja uma imbecilidade
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
626
Charles Bukowski
O Que Fez Você Perder Sua Inspiração?
Norman goteja uma imbecilidade
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
autocomplacente enquanto fica sentado em meu sofá e
dá risadinhas, puxa
sua barba doentia
e fala de sua namorada Katrinka,
Eugene Debs, F. Scott Fitzgerald e
LSD.
um mau escritor, quase inédito, isso lhe
dá forças enquanto
ele fica ali e me conta
que minha própria escrita desceu ladeira abaixo de
uma erupção vulcânica para uma faísca
de isqueiro.
eu lhe dou algo para beber e
ele desce para o assoalho e
começa a falar para dentro do meu gravador.
acendo um charuto e
Ouço.
"quero ser o escritor Número Um do Nosso
Tempo. quero andar pelas ruas e ouvir as pessoas
dizerem, "ei, veja, lá vai Norman! quero que as pessoas
gostem de meus poemas, quero que as pessoas enlouqueçam com meus
poemas..."
resolvo que essa provavelmente é uma gravação honesta
mas de má qualidade
e não ouço
mais.
uns 30 minutos e 3 latas de cerveja mais tarde
a fita termina de
rodar. Norman ajusta sua gravata,
ergue-se da posição de joelhos e fica
sentado.
"Jack M. diz que tem que faturar 8 mil este ano ou ele estará
acabado."
eu começo outro
charuto.
"vou almoçar com Ray
Bradbury, na terça."
eu não respondo.
"Jesus!"
ele de repente dá um pulo, corre para o meu banheiro e
começa a vomitar. isso prossegue por algum
tempo.
"eu me sinto melhor", ele diz
voltando
para a sala.
"tome mais um drinque", eu digo.
"eu o levarei de carro para a sua aula
de manhã."
"ótimo", ele diz, tirando a espuma do topo de uma cerveja.
aí ele me olha e pergunta,
"onde você tem sido publicado
ultimamente?"
eu estendo a palma das mãos e
dou de ombros.
"Jesus, ora essa! o que fez você perder sua
inspiração?"
"bebida. gente. casamento. gente.
casamento outra vez. um filho. bebida.
gente. empregos. desempregos. bebida e
gente."
"meu professor gostaria que você conversasse com
seus alunos. ele ganhou o Prêmio Lamont de Poesia e
gosta de você."
"diga ao seu professor para ir para o inferno. diga-lhe que
eu estou acabado."
"você é sensível."
"não, sou apenas um lampejo na
frigideira."
nós bebemos e bebemos. logo ele está dormindo
no sofá, 120 quilos dele sacudindo o telhado
com sua poesia.
eu vou para o quarto e ligo o despertador para as
10 da manhã da aula de inglês dele. a bebida desce
melhor agora, mas ao subir na cama
eu penso, de onde vêm esses desgraçados e
o que aconteceu com todo mundo? verdade, eu
estou enlouquecendo.
a luz se apaga
e então um alarme contra ladrões
em algum lugar por perto
se intromete em seus
roncos. muito pertinente, eu penso,
pertinente demais
para uma noite muito desperdiçada
em dezembro de
1965 ou
qualquer outro tempo
que for.
626
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
874
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
874
Charles Bukowski
O Caixão da Criação
o talento para sofrer e suportar,
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
isso é nobreza, amigo.
o talento para sofrer e suportar
por uma ideia, um sentimento, um caminho,
isso é arte, meu amigo.
o talento para sofrer e suportar
quando o amor fracassa,
isso é o inferno, velho amigo.
nobreza, arte e inferno,
vamos falar um pouco de arte.
o destino é minha filha aleijada.
veja, é difícil,
eu contra eles,
com eles.
Kafka, deixe-me entrar!
Hemingway, cuidado!
Hegel, você é engraçado!
Cervantes, quer dizer que você escreveu aquele
romance com a idade de
80 anos?
grandes escritores são pessoas indecentes
eles vivem de modo injusto
guardando a melhor parte para o papel.
bons seres humanos salvam o mundo
para que desgraçados como eu possam continuar a criar arte,
a tornar-se imortais.
se você ler isto depois de eu estar morto há muito tempo
quer dizer que consegui.
assim, escritores do mundo
agora é a sua Vez
de abusar da sua mulher
e abusar de seus filhos
amem-se a si mesmos
vivam dos recursos dos outros
desgostem de toda arte criada antes e
durante seu tempo,
e desgostem ou até odeiem a humanidade
individualmente ou em massa.
desgraçados, mesmo se lerem isto
muito tempo depois de eu ter morrido
esqueçam-me. eu
provavelmente não era tão
bom assim.
874
Charles Bukowski
Embaçado
fui ver minha filha.
ela está com 11 anos e havia acabado de
tomar banho e estava se
vestindo no banheiro de modo que eu não
a visse, e sua
mãe disse, "você sabe, você gosta
de fazer um enorme drama sobre
essa coisa das suas mulheres,
você adora isso, você adora que elas
briguem e berrem por
você, você acha isso engraçado,
não é?"
"ora, querida...", eu disse.
"algum dia uma mulher vai
enfiar uma faca em seu coração,
você vai ser morto e
enquanto estiver morrendo você vai
dizer, "você enfiou essa coisa
em mim depressa demais!"
minha filha saiu, toda
vestida, e eu disse à mãe dela
que a traria de volta em
3 horas.
a umas 4 milhas de distância achamos
um lugar para comer.
minha filha pediu um hambúrguer
e leite.
eu pedi camarão frito com
sopa, fritas, mais café.
comemos, dei gorjeta para a garçonete,
paguei no caixa, depois
saímos e entramos em meu
carro. era um dia escuro, com nuvens
baixas, não dava para ver nenhum
sol. "sua mãe", eu lhe disse
enquanto íamos embora, "não passa
de uma sabe-tudo."
ela está com 11 anos e havia acabado de
tomar banho e estava se
vestindo no banheiro de modo que eu não
a visse, e sua
mãe disse, "você sabe, você gosta
de fazer um enorme drama sobre
essa coisa das suas mulheres,
você adora isso, você adora que elas
briguem e berrem por
você, você acha isso engraçado,
não é?"
"ora, querida...", eu disse.
"algum dia uma mulher vai
enfiar uma faca em seu coração,
você vai ser morto e
enquanto estiver morrendo você vai
dizer, "você enfiou essa coisa
em mim depressa demais!"
minha filha saiu, toda
vestida, e eu disse à mãe dela
que a traria de volta em
3 horas.
a umas 4 milhas de distância achamos
um lugar para comer.
minha filha pediu um hambúrguer
e leite.
eu pedi camarão frito com
sopa, fritas, mais café.
comemos, dei gorjeta para a garçonete,
paguei no caixa, depois
saímos e entramos em meu
carro. era um dia escuro, com nuvens
baixas, não dava para ver nenhum
sol. "sua mãe", eu lhe disse
enquanto íamos embora, "não passa
de uma sabe-tudo."
750
Charles Bukowski
Calor
se alguma vez você esboçou seu último plano em
uma velha cartolina de camisa em um hotel do inverno na Zona Leste
com o aluguel da semana passada atrasado e um aquecedor morto
você saberá como são grandes as pequenas coisas
como você subindo pela escada
talvez pela última vez
com sua garrafa de vinho
pensando na mulher do 449
pondo sua cinta-liga
e na cômoda dela há um
copo vermelho escuro
que capta a luz da lâmpada do teto como um
suave sonho de Jerusalém
e ela se empoa
e desliza para dentro das suaves sedosas bainhas
pelas pontas dos pés
e desempregada e procurando emprego
e talvez procurando você
ela passa por você na
escadaria;
tamanha graça perturbadora
nos transforma.
assim como uma mosca azul explodindo no
céu de verão
você decide ficar por aí e
morrer mais tarde; você entra em seu quarto e serve-se de vinho como
sangue, para dentro, e decide que pela manhã você
acordará cedo e
lerá os classificados de oferta
de empregos.
uma velha cartolina de camisa em um hotel do inverno na Zona Leste
com o aluguel da semana passada atrasado e um aquecedor morto
você saberá como são grandes as pequenas coisas
como você subindo pela escada
talvez pela última vez
com sua garrafa de vinho
pensando na mulher do 449
pondo sua cinta-liga
e na cômoda dela há um
copo vermelho escuro
que capta a luz da lâmpada do teto como um
suave sonho de Jerusalém
e ela se empoa
e desliza para dentro das suaves sedosas bainhas
pelas pontas dos pés
e desempregada e procurando emprego
e talvez procurando você
ela passa por você na
escadaria;
tamanha graça perturbadora
nos transforma.
assim como uma mosca azul explodindo no
céu de verão
você decide ficar por aí e
morrer mais tarde; você entra em seu quarto e serve-se de vinho como
sangue, para dentro, e decide que pela manhã você
acordará cedo e
lerá os classificados de oferta
de empregos.
994
Charles Bukowski
Também Gosto de Olhar Para O Teto
há policiais na rua
e anjos nas nuvens
e jóqueis cavalgando em suas roupas de seda.
manhãs abaixo
noites acima
emparelhados às tardes
há cães aleijados em
East Kansas City
vampiros em Eugene, Oregon
e uma longa caminhada até um copo d'água nas
Cidades Gêmeas.
eu pretendia escrever para Angela
eu realmente pretendia
e agradecê-la por tudo
porque eu sinceramente
gostava do modo como ela enrolava xales em sua
escada
e seu chá de ervas
e as verdes trepadeiras em seu
banheiro
a vista de seu quarto de dormir
e sua coleção de
Vivaldi.
mas eu não o fiz.
acho que sou mais cruel
do que penso que sou.
e anjos nas nuvens
e jóqueis cavalgando em suas roupas de seda.
manhãs abaixo
noites acima
emparelhados às tardes
há cães aleijados em
East Kansas City
vampiros em Eugene, Oregon
e uma longa caminhada até um copo d'água nas
Cidades Gêmeas.
eu pretendia escrever para Angela
eu realmente pretendia
e agradecê-la por tudo
porque eu sinceramente
gostava do modo como ela enrolava xales em sua
escada
e seu chá de ervas
e as verdes trepadeiras em seu
banheiro
a vista de seu quarto de dormir
e sua coleção de
Vivaldi.
mas eu não o fiz.
acho que sou mais cruel
do que penso que sou.
1 003
Charles Bukowski
Os Anarquistas
certa vez passei a andar lá em casa
com uns sujeitos com longas barbas negras
que eram muito intensos.
muitas pessoas vêm me ver mas
costumo dispensá-las depois de um tempo.
nenhuma delas traz mulheres,
escondem suas mulheres.
tomo cerveja e ouço, mas não muito
atentamente.
mas esse bando em particular continuava sempre
voltando. para mim era principalmente cerveja e
papo. reparei que eles
costumavam chegar em caravana e tinham
alguma organização central, embora confusa.
eu continuava a dizer-lhes que estava me
lixando - tanto para a América quanto para
eles. eu apenas ficava sentado lá e a cada
manhã quando acordava eles haviam ido embora -
e isso era a melhor parte.
enfim, eles pararam de vir e uns
meses depois eu escrevi um conto
sobre seu bate-papo político - o qual,
é claro, arrasava seu idealismo.
o conto foi publicado em algum lugar e
coisa de um mês mais tarde
o líder entrou,
sentou-se e abriu um engradado de meia dúzia de cervejas:
"quero lhe dizer uma coisa, Chinaski,
nós lemos aquele conto. fizemos uma reunião
e votamos se deveríamos matar
você ou não. você foi poupado, 6 a 5".
eu ri então, isso faz alguns anos,
mas eu não rio mais. e embora
eu até mesmo pagasse a maior parte da cerveja e
embora até mesmo
alguns dos caras mijassem na
tampa da privada, eu agora agradeço por aquele
voto a mais.
com uns sujeitos com longas barbas negras
que eram muito intensos.
muitas pessoas vêm me ver mas
costumo dispensá-las depois de um tempo.
nenhuma delas traz mulheres,
escondem suas mulheres.
tomo cerveja e ouço, mas não muito
atentamente.
mas esse bando em particular continuava sempre
voltando. para mim era principalmente cerveja e
papo. reparei que eles
costumavam chegar em caravana e tinham
alguma organização central, embora confusa.
eu continuava a dizer-lhes que estava me
lixando - tanto para a América quanto para
eles. eu apenas ficava sentado lá e a cada
manhã quando acordava eles haviam ido embora -
e isso era a melhor parte.
enfim, eles pararam de vir e uns
meses depois eu escrevi um conto
sobre seu bate-papo político - o qual,
é claro, arrasava seu idealismo.
o conto foi publicado em algum lugar e
coisa de um mês mais tarde
o líder entrou,
sentou-se e abriu um engradado de meia dúzia de cervejas:
"quero lhe dizer uma coisa, Chinaski,
nós lemos aquele conto. fizemos uma reunião
e votamos se deveríamos matar
você ou não. você foi poupado, 6 a 5".
eu ri então, isso faz alguns anos,
mas eu não rio mais. e embora
eu até mesmo pagasse a maior parte da cerveja e
embora até mesmo
alguns dos caras mijassem na
tampa da privada, eu agora agradeço por aquele
voto a mais.
1 084
Charles Bukowski
Um Antigo Amor
não lembro nossas idades:
devíamos ter entre 5 e 7,
havia essa menina na casa ao lado mais ou menos da minha idade.
lembro seu nome: Lila Jane.
e uma coisa ela fazia todo dia,
uma vez por dia, perguntava-me:
"você está pronto?"
e eu dizia que estava
e ela erguia a saia e
me mostrava suas calcinhas e elas eram
de uma cor diferente a cada dia.
várias décadas depois ela me achou de alguma maneira
e veio aqui com seu namorado
um cara que fumava cachimbo
e que havia lido meus livros
e ela cruzou suas longas e lindas pernas
bem alto
mas não alto o bastante para que eu visse as calcinhas.
e quando eles estavam para ir embora
eu lhe dei um abraço e
apertei a mão do seu namorado
e nunca mais a vi ou a ele
ou as calcinhas dela
alguma outra vez.
devíamos ter entre 5 e 7,
havia essa menina na casa ao lado mais ou menos da minha idade.
lembro seu nome: Lila Jane.
e uma coisa ela fazia todo dia,
uma vez por dia, perguntava-me:
"você está pronto?"
e eu dizia que estava
e ela erguia a saia e
me mostrava suas calcinhas e elas eram
de uma cor diferente a cada dia.
várias décadas depois ela me achou de alguma maneira
e veio aqui com seu namorado
um cara que fumava cachimbo
e que havia lido meus livros
e ela cruzou suas longas e lindas pernas
bem alto
mas não alto o bastante para que eu visse as calcinhas.
e quando eles estavam para ir embora
eu lhe dei um abraço e
apertei a mão do seu namorado
e nunca mais a vi ou a ele
ou as calcinhas dela
alguma outra vez.
1 094
Charles Bukowski
Depois De Receber Um Exemplar De Um Editor Contribuinte
cavilosos peixinhos
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
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Charles Bukowski
Depois De Receber Um Exemplar De Um Editor Contribuinte
cavilosos peixinhos
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
mordiscando suas feridas
achadas nessas páginas mal impressas
e ainda à procura de patrocinadores
amantes
mães
fama fácil:
qual de vocês
eu vi através de uma
janela de restaurante em uma Denver gelada
comendo torta de maçãs?
dirigindo para East Hollywood com um mastim
à caça de sua ama de leite?
qual de vocês então bateu
à minha porta
querendo falar sobre POESIA?
qual de vocês é vaidoso o bastante
e miserável o bastante
e doente o bastante
para chupar o rabo de um editor?
qual de vocês vai
a todas as festinhas bacanas
e lê suas coisas para os
vermes?
qual de vocês acha
que é Pound, ou Shelley
em uma borboleta azul?
qual de vocês
modificou meu poema para lê-lo
da maneira que você PENSA
que um poema deve ser lido?
qual de vocês esgoelou
sentimentos doentios e amigáveis
como larvas rastejando no
corpo da minha mente?
e isso pode parecer forte
e injusto,
pois eu digo, deixem que todos vivam
e escrevam
se quiserem viver e escrever
mas qual de vocês
vive com sua mãe ou sua tia,
qual de vocês aplica
primeiro talco em sua bunda
e depois sobe
na cruz?
qual de vocês
(um deles um professor universitário
a quem certa vez eu castiguei
por causa de abstração sem sentido)
qual de vocês agora
escreve sobre putas e bebida
e nunca foi para a cama com uma mulher,
e nunca bebeu
mais que um copo de cerveja escura?
e qual de vocês
escreve com um dicionário sobre a barriga
como se sodomizasse uma vaca inteira?
qual de vocês faz sua alma rebolar
ao som de Bach para órgão
como um macaco em uma corda?
qual de vocês
odeia a mulher que o alimenta?
não por ela ser humana
mas porque
ela não gosta do que você faz.
qual de vocês
não conseguiria rebater uma bola de beisebol?
qual de vocês
nunca esteve na cadeia?
qual de vocês?
qual de vocês?
qual de
vocês?
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