Poemas neste tema
Outros
Manuel Bandeira
Louvado do Centenário de Iracema
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Idem louvo, exalto e canto
O prosador, grande filho
Do Norte, e que no deserto
Do romance nacional,
Ergueu, escorreito e diserto,
Seu mundo, — um mundo imortal.
Além, muito além da serra
Que lá azula no horizonte,
Inventou a donzela insonte,
Símbolo da nossa terra,
E escreveu o que é mais poema
Que romance, e poema menos
Que um mito, melhor que Vênus:
A doce, a meiga Iracema.
E o mito inda está tão jovem
Qual quando o criou Alencar.
Debalde sobre ele chovem
Os anos, sem o alterar.
Nem uma ruga no canto
Dos olhos de moço brilho!
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Agosto, 1965
E louvo o Espírito Santo.
Idem louvo, exalto e canto
O prosador, grande filho
Do Norte, e que no deserto
Do romance nacional,
Ergueu, escorreito e diserto,
Seu mundo, — um mundo imortal.
Além, muito além da serra
Que lá azula no horizonte,
Inventou a donzela insonte,
Símbolo da nossa terra,
E escreveu o que é mais poema
Que romance, e poema menos
Que um mito, melhor que Vênus:
A doce, a meiga Iracema.
E o mito inda está tão jovem
Qual quando o criou Alencar.
Debalde sobre ele chovem
Os anos, sem o alterar.
Nem uma ruga no canto
Dos olhos de moço brilho!
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Agosto, 1965
1 123
Manuel Bandeira
Rio de Janeiro
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.
Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)
Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
E louvo o Espírito Santo.
Louvado Deus, louvo o santo
De quem este Rio é filho.
Louvo o santo padroeiro
— Bravo São Sebastião —
Que num dia de janeiro
Lhe deu santa defensão.
Louvo a cidade nascida
No morro Cara de Cão,
Logo depois transferida
Para o Castelo, de então
Descendo as faldas do outeiro,
Avultando em arredores,
Subindo a morros maiores,
— Grande Rio de Janeiro!
Rio de Janeiro, agora
De quatrocentos janeiros...
Ó Rio de meus primeiros
Sonhos! (A última hora
De minha vida oxalá
Venha sob teus céus serenos,
Porque assim sentirei menos
O meu despejo de cá.)
Cidade de sol e bruma,
Se não és mais capital
Desta nação, não faz mal:
Jamais capital nenhuma,
Rio, empanará teu brilho,
Igualará teu encanto.
Louvo o Padre, louvo o Filho
E louvo o Espírito Santo.
1 542
Manuel Bandeira
Mozart no Céu
No dia 5 de dezembro de 1791 Wolfgang Amadeus Mozart entrou no céu, como um artista de circo, fazendo piruetas extraordinárias sobre um mirabolante cavalo branco.
Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
Os anjinhos atônitos diziam: Que foi? Que foi?
Melodias jamais ouvidas voavam nas linhas suplementares superiores da pauta.
Um momento se suspendeu a contemplação inefável.
A Virgem beijou-o na testa
E desde então Wolfgang Amadeus Mozart foi o mais moço dos anjos.
1 352
Manuel Bandeira
Ana Margarida Maria
Ana — Sant'Ana — principia.
Maria acaba. Entre elas brilha
Uma flor branca. E eis, maravilha
De pureza, graça, alegria,
Ana Margarida Maria.
Maria acaba. Entre elas brilha
Uma flor branca. E eis, maravilha
De pureza, graça, alegria,
Ana Margarida Maria.
1 376
Manuel Bandeira
A Alphonsus de Guimaraens Filho
Scorn not the sonnet, disse o inglês. Ouviste
O conselho do poeta e um dia, quando
Mais o espinho pungiu da ausência triste,
O primeiro soneto abriu cantando.
Musa do verso livre, hoje ela insiste
Na imortal forma, da paterna herdando.
Todos em louvor dessa que ora assiste
Em teu lar, dois destinos misturando.
No molde exíguo, onde infinita a mágoa
Humana vem caber, como o universo
A refletir-se numa gota d'água,
Disseste o mal da ausência. E ais e saudades
E vigílias e castas soledades
Choram lágrimas novas no teu verso.
Petrópolis, 5.1.1944
O conselho do poeta e um dia, quando
Mais o espinho pungiu da ausência triste,
O primeiro soneto abriu cantando.
Musa do verso livre, hoje ela insiste
Na imortal forma, da paterna herdando.
Todos em louvor dessa que ora assiste
Em teu lar, dois destinos misturando.
No molde exíguo, onde infinita a mágoa
Humana vem caber, como o universo
A refletir-se numa gota d'água,
Disseste o mal da ausência. E ais e saudades
E vigílias e castas soledades
Choram lágrimas novas no teu verso.
Petrópolis, 5.1.1944
1 113
Manuel Bandeira
Guilherme de Almeida
"Ó Poesia! Ó mãe moribunda"
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
1 015
Manuel Bandeira
Guilherme de Almeida
"Ó Poesia! Ó mãe moribunda"
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
1 015
Manuel Bandeira
Guilherme de Almeida
"Ó Poesia! Ó mãe moribunda"
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
1 015
Manuel Bandeira
Guilherme de Almeida
"Ó Poesia! Ó mãe moribunda"
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
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Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
1 015
Manuel Bandeira
Guilherme de Almeida
"Ó Poesia! Ó mãe moribunda"
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Assim clamou Banville um dia
Na Europa, terra sem segunda
Da grande, da nobre poesia.
Aqui ficara sem sentido
Esse grito de descoragem:
Vives, Guilherme, e eu, comovido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Toda a alma humana, da mais funda
Mágoa à mais etérea alegria,
Vibra, ora grave, ora jucunda,
Em teus poemas de alta mestria.
Por isso, e porque sempre hás sido
Em captar as vozes da aragem
Mais sutil o mais fino ouvido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
Se no artesanato se funda
Aquela apurada euritmia
Da arte melhor e mais fecunda,
Há que ver na longa teoria
De teus livros, no tom subido
De tua lírica mensagem
Il miglior fabro, como és tido:
Ponho a teus pés minha homenagem.
OFERTA
— Príncipe do verso medido
Ou livre, e da rima, e da imagem,
Irmão admirado e querido,
Ponho a teus pés minha homenagem.
1 015
Manuel Bandeira
Ouro Preto
Ouro branco! Ouro preto! Ouro podre! De cada
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto d'El-Rei, para a glória do imposto.
Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras... templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agência postal era a Casa de Entrada...
Este escombro foi um solar... Cinza e desgosto!
O bandeirante decaiu — é funcionário.
Ultimo sabedor da crônica estupenda,
Chico Diogo escarnece o último visionário.
E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão lavrada como renda,
— Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!
Ribeirão trepidante e de cada recosto
De montanha o metal rolou na cascalhada
Para o fausto d'El-Rei, para a glória do imposto.
Que resta do esplendor de outrora? Quase nada:
Pedras... templos que são fantasmas ao sol-posto.
Esta agência postal era a Casa de Entrada...
Este escombro foi um solar... Cinza e desgosto!
O bandeirante decaiu — é funcionário.
Ultimo sabedor da crônica estupenda,
Chico Diogo escarnece o último visionário.
E avulta apenas, quando a noite de mansinho
Vem, na pedra-sabão lavrada como renda,
— Sombra descomunal, a mão do Aleijadinho!
1 765
Manuel Bandeira
Soneto Italiano
Frescura das sereias e do orvalho,
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
Graça dos brancos pés dos pequeninos,
Voz das manhãs cantando pelos sinos,
Rosa mais alta no mais alto galho:
De quem me valerei, se não me valho
De ti, que tens a chave dos destinos
Em que arderam meus sonhos cristalinos
Feitos cinza que em pranto ao vento espalho?
Também te vi chorar... Também sofreste
A dor de ver secarem pela estrada
As fontes da esperança... E não cedeste!
Antes, pobre, despida e trespassada,
Soubeste dar à vida, em que morreste,
Tudo — à vida, que nunca te deu nada!
28 de janeiro de1939
1 462
Manuel Bandeira
Josefina
Em Josefina
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
1 338
Manuel Bandeira
Josefina
Em Josefina
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
Modos, linguagem,
Ar, expressão,
Olhos e riso,
Riso e sorriso,
É tudo imagem
Graciosa e fina
Do coração.
1 338
Manuel Bandeira
Testamento
O que não tenho e desejo
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
25 de janeiro de 1943
É que melhor me enriquece.
Tive uns dinheiros — perdi-os...
Tive amores — esqueci-os.
Mas no maior desespero
Rezei: ganhei essa prece.
Vi terras da minha terra.
Por outras terras andei.
Mas o que ficou marcado
No meu olhar fatigado,
Foram terras que inventei.
Gosto muito de crianças:
Não tive um filho de meu.
Um filho!... Não foi de jeito...
Mas trago dentro do peito
Meu filho que não nasceu.
Criou-me desde eu menino,
Para arquiteto meu pai.
Foi-se-me um dia a saúde...
Fiz-me arquiteto? Não pude!
Sou poeta menor, perdoai!
Não faço versos de guerra.
Não faço porque não sei.
Mas num torpedo-suicida
Darei de bom grado a vida
Na luta em que não lutei!
25 de janeiro de 1943
1 795
1
Manuel Bandeira
Na Boca
Sempre tristíssimas estas cantigas de carnaval
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
— Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados
Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro: — Na boca! Na boca!
Paixão
Ciúme
Dor daquilo que não se pode dizer
Felizmente existe o álcool na vida
E nos três dias de carnaval éter de lança-perfume
Quem me dera ser como o rapaz desvairado!
O ano passado ele parava diante das mulheres bonitas
E gritava pedindo o esguicho de cloretilo:
— Na boca! Na boca!
Umas davam-lhe as costas com repugnância
Outras porém faziam-lhe a vontade.
Ainda existem mulheres bastante puras para fazer vontade aos viciados
Dorinha meu amor...
Se ela fosse bastante pura eu iria agora gritar-lhe como o outro: — Na boca! Na boca!
1 214
Manuel Bandeira
Magu
Magu, Magu, maga magra,
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!
Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
Magra Magu... Mas no corpo
— Como as pequeninas ilhas —
Tem as suas redondezas,
Redonduras, redondelas,
Redondilhas!
Magu é Maria Augusta,
Mas não tem nada de augusta
E é bem pouco mariana.
Magu! Magu?... Maguzinha!
Magra Magu, besourinho
Cor de havana.
747
Manuel Bandeira
Mulheres
Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).
1 297
Manuel Bandeira
Mulheres
Como as mulheres são lindas!
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).
Inútil pensar que é do vestido...
E depois não há só as bonitas:
Há também as simpáticas.
E as feias, certas feias em cujos olhos vejo isto:
Uma menininha que é batida e pisada e nunca sai da cozinha.
Como deve ser bom gostar de uma feia!
O meu amor porém não tem bondade alguma.
É fraco! fraco!
Meu Deus, eu amo como as criancinhas...
És linda como uma história da carochinha...
E eu preciso de ti como precisava de mamãe e papai
(No tempo em que pensava que os ladrões moravam no morro atrás de casa e tinham cara de pau).
1 297
Manuel Bandeira
Embalo
Ao balanço das águas,
Ao trépido pulsar
Da máquina, embalar
As persistentes mágoas
Das peremptas feridas...
Beber o céu nos ventos
Sabendo a sonolentos
Sais e iodados-relentos.
Anseios de insofridas
Esperas e esperanças
Diluem-se na bruma
Como na vaga a espuma
— Flores de espumas mansas —
Que a um lado e outro abotoa
Da cortadora proa.
Azuis de águas e céus...
Sou nada, e entanto agora
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
— Estou onde está Deus.
Ao trépido pulsar
Da máquina, embalar
As persistentes mágoas
Das peremptas feridas...
Beber o céu nos ventos
Sabendo a sonolentos
Sais e iodados-relentos.
Anseios de insofridas
Esperas e esperanças
Diluem-se na bruma
Como na vaga a espuma
— Flores de espumas mansas —
Que a um lado e outro abotoa
Da cortadora proa.
Azuis de águas e céus...
Sou nada, e entanto agora
Eis-me centro finito
Do círculo infinito
De mar e céus afora.
— Estou onde está Deus.
971
Manuel Bandeira
Natal 64
A Moussy
Ao deitar-me para a dormida,
Desejara maior repouso
Do que adormecer, e não ouso
Desejar o jazer sem vida.
Vida é possibilidade
De sofrimento; quando menos,
Do sofrimento da saudade,
Com os seus vãos apelos e acenos.
Mas a não haver outra vida,
Aos que morrem pode a saudade
Dar-lhes, senão a eternidade,
Um prolongamento de vida.
Então, por que neste momento
Me sinto tão amargo assim?
E a saudade me é um tal tormento,
Se estás viva dentro de mim?
Ao deitar-me para a dormida,
Desejara maior repouso
Do que adormecer, e não ouso
Desejar o jazer sem vida.
Vida é possibilidade
De sofrimento; quando menos,
Do sofrimento da saudade,
Com os seus vãos apelos e acenos.
Mas a não haver outra vida,
Aos que morrem pode a saudade
Dar-lhes, senão a eternidade,
Um prolongamento de vida.
Então, por que neste momento
Me sinto tão amargo assim?
E a saudade me é um tal tormento,
Se estás viva dentro de mim?
975
Manuel Bandeira
Cantiga
Nas ondas da praia
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
Nas ondas do mar
Quero ser feliz
Quero me afogar.
Nas ondas da praia
Quem vem me beijar?
Quero a estrela-d'alva
Rainha do mar.
Quero ser feliz
Nas ondas do mar
Quero esquecer tudo
Quero descansar.
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Manuel Bandeira
Cantadores do Nordeste
Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão.
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um, a quem faltava um braço,
Tocava cuma só mão;
Mas, como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço:
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha,
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do sertão.
A Eneida estava boba;
O Cavalcanti, bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida;
Enfim, toda a Comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação,
Como faz Dimas Batista
E Otacílio, seu irmão;
Como faz qualquer violeiro
Bom cantador do sertão,
A todos os quais, humilde,
Mando a minha saudação!
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão.
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um, a quem faltava um braço,
Tocava cuma só mão;
Mas, como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço:
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha,
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do sertão.
A Eneida estava boba;
O Cavalcanti, bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida;
Enfim, toda a Comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação,
Como faz Dimas Batista
E Otacílio, seu irmão;
Como faz qualquer violeiro
Bom cantador do sertão,
A todos os quais, humilde,
Mando a minha saudação!
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Manuel Bandeira
Cantadores do Nordeste
Anteontem, minha gente,
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão.
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um, a quem faltava um braço,
Tocava cuma só mão;
Mas, como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço:
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha,
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do sertão.
A Eneida estava boba;
O Cavalcanti, bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida;
Enfim, toda a Comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação,
Como faz Dimas Batista
E Otacílio, seu irmão;
Como faz qualquer violeiro
Bom cantador do sertão,
A todos os quais, humilde,
Mando a minha saudação!
Fui juiz numa função
De violeiros do Nordeste
Cantando em competição,
Vi cantar Dimas Batista,
Otacílio, seu irmão.
Ouvi um tal de Ferreira,
Ouvi um tal de João.
Um, a quem faltava um braço,
Tocava cuma só mão;
Mas, como ele mesmo disse,
Cantando com perfeição,
Para cantar afinado,
Para cantar com paixão,
A força não está no braço:
Ela está no coração.
Ou puxando uma sextilha
Ou uma oitava em quadrão,
Quer a rima fosse em inha,
Quer a rima fosse em ão,
Caíam rimas do céu,
Saltavam rimas do chão!
Tudo muito bem medido
No galope do sertão.
A Eneida estava boba;
O Cavalcanti, bobão,
O Lúcio, o Renato Almeida;
Enfim, toda a Comissão.
Saí dali convencido
Que não sou poeta não;
Que poeta é quem inventa
Em boa improvisação,
Como faz Dimas Batista
E Otacílio, seu irmão;
Como faz qualquer violeiro
Bom cantador do sertão,
A todos os quais, humilde,
Mando a minha saudação!
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