Poemas neste tema
Outros
Marina Colasanti
RED POPPY
Na testa do meu amado
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
947
Marina Colasanti
RED POPPY
Na testa do meu amado
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
estremece uma papoula
rubra flor de fogo
e seda
assinada Georgia O'Keeffe.
Virou selo, essa flor sexo
trinta e dois, USA. Red Poppy,
serrilhados ao redor - e como selo
está presa entre moldura e retrato
em cima da minha mesa.
Que tão distante
e tão perto
das flores de branco osso
pélvis beijando a lua
Minotauro no deserto
e o labirinto
exposto.
Viaja a flor de O'Keeffe
ópio e memoria
lacre
da carta ausente
sem carimbo ou endereço
só selo
e remetente.
947
Marina Colasanti
TARDE E CASA VAZIA
O pudim amorna
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
sobre a grade do forno
o cheiro de canela deita-se
entre frestas.
Há um silêncio na casa
um zumbido de inseto
e o sangue que lateja
na cabeça.
No casulo da rede
o corpo
falsamente dormido
arrasta leve a mão para a virilha.
E não há mais silêncio
nem ruídos
somente esse querer
que chama
e que se atende.
1 000
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 093
Marina Colasanti
POR UMA LUZ
O que foi que te fez
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
Modigliani
você que sempre preferiu mulher
despida
despida não apenas por sem roupa
despida porque vestida por sua forma
apenas
o que foi que te fez
e em que momento
pintar a cabeça
o retrato
a metafórica lembrança de
Madame Pompadour?
O chapéu emplumado
o enviesado rosto
o busto
e ao alto
grafito
inscrito
o nome da Marquesa.
Logo você
que depurava a linha em busca
da pureza.
Terá sido um deboche?
ou a força irresistivel de uma luz
pousada sobre a pele cor de fruta
sobre a pele maçã
obrigando tua mão a retratar
em toda a sua volúpia
a cortesã?
1 093
Allen Ginsberg
Crepúsculo “S.S. Azemour”
Enquanto a laranja luz-do-ocaso cai numa velha ideia
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
702
Allen Ginsberg
Crepúsculo “S.S. Azemour”
Enquanto a laranja luz-do-ocaso cai numa velha ideia
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
Eu atravesso minha mão na página
sentindo por fora o confuso estranho ser que Eu sou por dentro
E procuro uma cabeça disto — Seraphim
avanço em flash lampejo através da tempestade de éter
Mensageiros chegam chifrudos barbados da esfera Magnética
Rádios que desaparecem recebem galáxias anciãs
Rodas da imensidão espelhadas em cada direção
Anúncio passando de Invisível para Invisível
A cauda do dragão-Eternidade perdida pelo olho
Morte estranha, nascimentos esquecidos, vozes chamando no passado
“Eu era” que saúda “Eu sou” que escreve agora “Eu serei”
Exércitos marcham sempre e sempre no velho campo de batalha —
Que poderes sentam em suas tendas redondas e decretam a Eterna Vitória?
Eu sento em minha mesa e escrevo a mensagem sem-fim de mim mesmo para minha própria mão.
Marselha-Tanger, 1961.
702
Marina Colasanti
INSTRUMENTO SEM SOM
Tua nuca macha
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
cachos
e os músculos das costas
cordas
retesadas em curva
que as unhas tangem,
calada música
vibrando
em minhas coxas.
1 272
Marina Colasanti
DO MAIS VIRGEM
No vaso quadrado de vidro verde
quase negro
vaso que eu quis vaso
porque antes garrafa de azeite
do mais verde e virgem azeite da Toscana
e que depois vaso porque
se não o azeite de denso perfume
só flores podia conter
jasmim
mimosa
madressilva
no vaso de verde vidro negro, pois,
um ramo.
E a luz do abajur sobre os dois.
Arestas de mel contra o escuro
recorte de folhas no ar
pousada no nada
a asa
da flor.
quase negro
vaso que eu quis vaso
porque antes garrafa de azeite
do mais verde e virgem azeite da Toscana
e que depois vaso porque
se não o azeite de denso perfume
só flores podia conter
jasmim
mimosa
madressilva
no vaso de verde vidro negro, pois,
um ramo.
E a luz do abajur sobre os dois.
Arestas de mel contra o escuro
recorte de folhas no ar
pousada no nada
a asa
da flor.
1 127
Marina Colasanti
NO APARTAMENTO EM COLÔNIA
Um silêncio alemão
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
naquela casa
um edredom dobrado sobre a cama
e lá fora o verão.
Havia cisnes no lago que eu não via
uma fêmea no choco
uma mansa alegria
andando em bicicletas.
E na janela em frente
ao sol da tarde
vinha um pássaro negro
bicar negras cerejas
enquanto no tapete serpejavam
longos fios de cabelos japoneses.
Colona 1952
1 051
Marina Colasanti
MADRUGADA EM CARDEIROS
Para Stella Marinho
Atados ao alto do mastro
peixes japoneses ondeiam
nadando contra a corrente do vento.
Lutam as escamas pintadas
para defender
seu vermelho na escuridão.
Quando a manhã chegar
- bocas abertas -
depositarão ovos de seda
nas nascentes do Sudoeste.
Atados ao alto do mastro
peixes japoneses ondeiam
nadando contra a corrente do vento.
Lutam as escamas pintadas
para defender
seu vermelho na escuridão.
Quando a manhã chegar
- bocas abertas -
depositarão ovos de seda
nas nascentes do Sudoeste.
937
Marina Colasanti
NOTURNO DE HOPPER
Ninguém na rua
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas.
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.
a madrugada oculta suas insônias
mas a luz é uma guilhotina amarela
no bar do Phillies
e um café morno e aguado sairá
das duas máquinas cromadas.
Sou a mulher ruiva vestida de vermelho
sou o homem de chapéu e terno escuro
sentado ao lado dela
e o outro, sozinho, que me volta as costas.
Talvez um dia venha a ser o garçom de roupa branca
mas por enquanto não
porque o garçom trabalha entre suas louças,
não espera
e só os outros sabem
que quando a manhã chegar sobre a cidade
continuarão ali na esquina escura
e ainda será noite atrás dos vidros
atrás dos vidros inexistentes
do bar do Phillies.
1 122
Marina Colasanti
COMO SE FAZ
Como se faz um pão
se faz um prato.
Água, terra
- ou farinha -
e o trabalhar das mãos.
Depois a forma
e o forno.
Até que a nova cor
diga do acerto.
Só não se põe fermento.
Para o prato crescer
basta a comida.
se faz um prato.
Água, terra
- ou farinha -
e o trabalhar das mãos.
Depois a forma
e o forno.
Até que a nova cor
diga do acerto.
Só não se põe fermento.
Para o prato crescer
basta a comida.
1 071
Marina Colasanti
COMO SE FAZ
Como se faz um pão
se faz um prato.
Água, terra
- ou farinha -
e o trabalhar das mãos.
Depois a forma
e o forno.
Até que a nova cor
diga do acerto.
Só não se põe fermento.
Para o prato crescer
basta a comida.
se faz um prato.
Água, terra
- ou farinha -
e o trabalhar das mãos.
Depois a forma
e o forno.
Até que a nova cor
diga do acerto.
Só não se põe fermento.
Para o prato crescer
basta a comida.
1 071
Marina Colasanti
Pietá
Foi com os dedos
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo.
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.
Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
com a lingua suave e áspera
dos dedos
não com o duro osso
que Michelangelo poliu
o corpo do Cristo
morto
o morto
corpo do Cristo.
Mármore feito mel
favo escorrendo
na doçura da carne
abandonada.
Inútil é teu esforço
Buonarroti
tentando erguer
o Cristo
pelos braços.
Teu rijo rosto envolto
no capuz
teu patético olhar
já traem o que bem sabes,
que a vida
a vida que o deixou
você só lhe dará esculpindo-lhe a morte.
1 115
Marina Colasanti
PISANELLO, AL LOUVRE
La Principessa Estense
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
1 056
Marina Colasanti
PISANELLO, AL LOUVRE
La Principessa Estense
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
che hai ritratta
su un fondo di farfalle
e di fioretti
cosa pensava mentre stava in posa?
Sorride appena appena
lo sguardo basso
il volto quasi chino
l'espressione serena.
Era sposa da poco
Margherita
di nome fiore anch'essa
e in piena fioritura
nessun vento la sfiora
la morte non l'adombra
sebbene sia vicina
Offre il profilo
e attende che il futuro
la prenda
Cicco il futuro alla sua fronte alta
alla gola di stelo passerà oltre
consegnandola al nulla
E a salvarla
sara solo il ritratto.
1 056
Marina Colasanti
Gardênias e um espelho
As cinco e vinte e cinco
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.
Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.
Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
uma luz sem relógio
lança-se de viés contra a vidraça
e estilhaça
as quatro flores brancas
frente ao espelho.
Prata despetalada
breves cacos
suspensos.
Cego o seu corte
já se desfaz a luz
e sem espada
a sombra cicatriza.
Rola decapitado o sol
atrás do monte.
Na sala o espelho è poço
de noturnas areias
que lento traga as flores
recompostas.
1 119
Marina Colasanti
NUM MESMO CÉU
Neste hotel de aeroporto
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
856
Marina Colasanti
NUM MESMO CÉU
Neste hotel de aeroporto
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
não se ouvem aviões.
Nada me chega atrás de triplos vidros.
O único barulho é o respirar suave
do ar condicionado
e um estalar distante
quase inseto
que vem do frigobar
Ninguém me trouxe aqui.
Vim arrastando malas
sobre rodas
armada de uma chave
e direito de posse pela noite.
Só este espaço é meu
o resto desconheço.
Olho os aviões que sobem
e que descem num mesmo céu
cinzento.
E colhendo o silêncio
me pergunto
quantos já se mataram
nesses quartos
de quatrocentos dólares por dia
e tão acarpetado isolamento
Frankfurt 1994
856
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 112
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 112
Marina Colasanti
COLEÇÃO ALBERTINA OU A FELICIDADE DE PAPEL
Que serena se põe a minha alma
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
nessa poltrona preta entre colunas.
Do espelho em frente
meu contorno confuso pela falta de óculos
me diz que ainda estou bem
embora encasacada.
Ecos chegam e passam
sem dar por mim
um tilintar de chaves se entrelaça
com a visão que guardo de um desenho
com o bater de saltos sobre a escada
e sons viajantes vêm de sala em sala
bater de portas
vozes
chamados
abafados relatos que o curador não vê
nem inclui no catálogo
legados que se aninham
na moldura de um quadro
na franja espessa da tapeçaria
esperando o esvaziar-se do museu
para calar-se enfim
ou fazer-se poeira.
Viena 1995
1 112
Marina Colasanti
A mão de quem
Se tua boca, Holoferne
essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.
Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.
essa tua boca aberta pelo espanto
ou pelo último grito
pudesse falar
talvez me dissessem quem
te cortou a cabeça
se Judite
ou Caravaggio.
Foi ela mesma que empunhou a espada
abrindo passo ao sangue
rijo jato
sobre o branco lençol
ou foi o pincel que a fez surgir das sombras
para seu próprio horror
com a mão armada?
Os dedos de Judite seguram teus cabelos
leves como um afago
e não terão força, não
não terão
para amparar o peso da cabeça.
Pobre Judite, pálida assassina
a quem morte repugna.
afasta o rosto e quase se surpreende
ao ver que a espada a leva
no seu corte
Tomba ao fundo
entre os dois
um rubro pano
que Caravaggio quis
talhado em carne.
Na orelha de Judite
pende a pérola em gota
o leve laço.
E Merisi olha a cena
pelos olhos da aia
à espera de que o desejado se cumpra
e lhe caiba
sem culpa
a colheita do crime.
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