Poemas neste tema
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António Ramos Rosa
Nunca Será Música, Nunca Será Bosque
Nunca será música, nunca será bosque
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.
1 205
António Ramos Rosa
Nunca Será Música, Nunca Será Bosque
Nunca será música, nunca será bosque
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.
nem o torso de uma pomba
nem a pedra rutilante
nem uma garganta do mar.
Não, não quero mais do que a saliva do vento
e o rumor dos abismos.
Nenhuma mensagem, nenhum voo.
Apenas os inviolados signos de um fundo mágico.
1 205
António Ramos Rosa
Na Plenitude do Espaço
Um rumor de jardim, luzes sobre as águas, num ramo de espaço em firme esplendor, calor de flancos brancos, estrela de sílex. Estou fixo e livre neste centro com uma intensidade monótona, habitado pelo vento, ao rumor das lâmpadas. Contente de ser teu e de ser meu, na expressão plana do desenho e na expressão redonda do volume, alto em densidade e transparente, animal de fundo e de ar, no equilíbrio fluido de um movimento sólido, glória claríssima que não explode, que não arde, imensa, imensa, mas à medida do corpo ardente, límpido, unificado. A integridade canta, a voluptuosidade canta em pássaro em ar em palavra em lábio em silêncio em corpo. Estou com a luz, na harmonia segura, nesta água viva do universo, alegre, alegre de ser a placidez imensa do azul, quase como um pássaro humilde, delicado, universal.
1 220
António Ramos Rosa
Na Plenitude do Espaço
Um rumor de jardim, luzes sobre as águas, num ramo de espaço em firme esplendor, calor de flancos brancos, estrela de sílex. Estou fixo e livre neste centro com uma intensidade monótona, habitado pelo vento, ao rumor das lâmpadas. Contente de ser teu e de ser meu, na expressão plana do desenho e na expressão redonda do volume, alto em densidade e transparente, animal de fundo e de ar, no equilíbrio fluido de um movimento sólido, glória claríssima que não explode, que não arde, imensa, imensa, mas à medida do corpo ardente, límpido, unificado. A integridade canta, a voluptuosidade canta em pássaro em ar em palavra em lábio em silêncio em corpo. Estou com a luz, na harmonia segura, nesta água viva do universo, alegre, alegre de ser a placidez imensa do azul, quase como um pássaro humilde, delicado, universal.
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António Ramos Rosa
O Sono do Espaço
Um sono sem superfície nem fundo. Um sono sem sonhos, um sono totalmente obscuro e branco. E, através da sua espessura, a calma intensa de um olhar ilimitado.
1 119
António Ramos Rosa
O Sono do Espaço
Um sono sem superfície nem fundo. Um sono sem sonhos, um sono totalmente obscuro e branco. E, através da sua espessura, a calma intensa de um olhar ilimitado.
1 119
António Ramos Rosa
No Espaço
Vejo e respiro o azul como o sopro de um imenso animal. Inalterável, transparente, no seu mudo esplendor. Uma suavidade de pedra e de horizonte. Um voo suspenso que é todo o espaço e o majestoso fulgor de um espelho que é todo ar. Na profundidade do ar sou um animal do ar. Nudez da inocência, respiração do sol. Corpo sem sombra, sem segredo, íntimo, evidente, ardente, translúcido. Mundo volátil em expansão segura, mundo do princípio do desejo e da sua plenitude inicial. Em vez de palavras, a fragrância feliz e inexaurível de uma inocência solar. O sim do espaço, o sim do esquecimento.
1 212
António Ramos Rosa
A Voz do Papel
Aqui: mas não há um aqui para o ser perdido. Dilaceração do que perdeu o pulso e mal respira, sem ritmo, sem horizonte. Quem fala em voz baixa, voz de terra, idêntica, sussurrante? Nenhuma árvore próxima, nenhuma palavra habitável, nenhuma pulsação terrestre. Espaço, espaço, talvez o espaço de uma palavra perdida. Extrema tenuidade nas frases esparsas, enubladas, nulas. Nada se concentra em clareira ou sombra, nada fustiga o centro da ausência. Nula e nua é a voz branca do papel que não figura, que não abre, que, sem interstícios, repercute uma única matéria inerte.
1 220
António Ramos Rosa
A Voz do Papel
Aqui: mas não há um aqui para o ser perdido. Dilaceração do que perdeu o pulso e mal respira, sem ritmo, sem horizonte. Quem fala em voz baixa, voz de terra, idêntica, sussurrante? Nenhuma árvore próxima, nenhuma palavra habitável, nenhuma pulsação terrestre. Espaço, espaço, talvez o espaço de uma palavra perdida. Extrema tenuidade nas frases esparsas, enubladas, nulas. Nada se concentra em clareira ou sombra, nada fustiga o centro da ausência. Nula e nua é a voz branca do papel que não figura, que não abre, que, sem interstícios, repercute uma única matéria inerte.
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António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
1 245
António Ramos Rosa
No Cimo
Abolido no cimo com o deus nulo do ar. A verdade apaga-se sem caminho, sem trama, sem as consoantes de pedra. Nudez com a terra e o sol no prisma flexível, no extremo círculo do silêncio. Veias abertas. Sulcos subtis. O corpo abriu-se inteiramente às brancas nascentes do vazio. Enraizado num lugar errante onde tudo respira, o deserto já não é o exílio, mas o astro único onde a sombra reverdece. Terra, ainda, dos ardentes cabelos, das primaveras vivas. O segredo indizível, maravilha discreta, ondula no ar como um aroma, como um murmúrio ou um nome leve que perpassa sem sentido, um sabor apenas, uma luz breve na morada móvel, uma trémula ilha transparente.
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António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 279
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 279
António Ramos Rosa
No Ar
Ouves a pequena pergunta dos pássaros? O vento sopra o meu corpo apagado entre palavras dispersas. Os olhos abertos no espaço, não tenho nome nem história. Sou uma semente, uma folha entre folhas. A respiração cresce. Sou exactamente o que sou. Redondo, transparente, nulo. O meu sangue é uma colmeia aberta. Meandros, mil meandros luminosos, rapidíssimos, por onde circulo, ébrio, de sopro em sopro. Sou uma rapariga aérea que ora se apaga na luz, ora se acende com o vento. Para nascer, para continuar nascendo, escrevo como se estas linhas fossem de vento.
1 279
António Ramos Rosa
É No Vazio Que Alcanço a Identidade
É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
1 114
António Ramos Rosa
É No Vazio Que Alcanço a Identidade
É no vazio que alcanço a identidade
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
compacta
em que nunca me repito e sou
a luz e a sombra de um acto único
de indomável tremor
que se desintegra em miríades de palavras.
1 114
António Ramos Rosa
Palavras Terrestres
Ante a imensa e silenciosa insistência de um céu imaculado, os lábios libertam-se, dilatam-se, dissipam-se e reúnem-se, flexíveis, numa boca de sombra e esquecimento. Palavras ou não palavras, nomes silenciosos, ascendem de um fundo ilimitado e obscuro. Um corpo em formação dilata-se, volátil. Na velocidade lenta que se espraia, corola imensa, a felicidade grita. Impaciência ou paciência, a vigilância infinita do poema. Escreve-se agora surpresa, sabor, sílex, espaço, palavras talvez, palavras terrestres, mas nada mais que folhagem, brancura e sopro.
1 179
António Ramos Rosa
Palavras Terrestres
Ante a imensa e silenciosa insistência de um céu imaculado, os lábios libertam-se, dilatam-se, dissipam-se e reúnem-se, flexíveis, numa boca de sombra e esquecimento. Palavras ou não palavras, nomes silenciosos, ascendem de um fundo ilimitado e obscuro. Um corpo em formação dilata-se, volátil. Na velocidade lenta que se espraia, corola imensa, a felicidade grita. Impaciência ou paciência, a vigilância infinita do poema. Escreve-se agora surpresa, sabor, sílex, espaço, palavras talvez, palavras terrestres, mas nada mais que folhagem, brancura e sopro.
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António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 187
António Ramos Rosa
Corpo Nocturno
Suspenso de uma varanda nocturna, na densa evanescência da noite, quem escuta, quem vê as sílabas derrubadas, as vogais e as gotas noctâmbulas, as miríades estilhaçadas de um dédalo que é talvez o corpo incendiado, o corpo inacessível? Todo o desejo é desejo de espaço e das gargantas que o habitam, despertas, vivíssimas. Um sombrio sangue mistura-se à espuma do ar, combina-se com o silêncio das árvores, penetra nas bocas com um delicado calor. Breve maravilha imóvel. Que música de minúcias leves! É apenas um lábio ou uma boca que crepita na sombra? Os ombros respiram como barcos, as palavras enrolam-se como folhas calmas no corpo que se abandona à terra numa obscura e ardente lucidez.
1 187
António Ramos Rosa
Entre o Papel E As Árvores
Entre o papel e as árvores, no apoio frontal do ar visível, vazio, vento, vocábulos, breves incoerências, ar no ar. Nadador intermitente, sou, uma e outra vez, reconduzido ao centro das folhas e palavras.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
1 240
António Ramos Rosa
Entre o Papel E As Árvores
Entre o papel e as árvores, no apoio frontal do ar visível, vazio, vento, vocábulos, breves incoerências, ar no ar. Nadador intermitente, sou, uma e outra vez, reconduzido ao centro das folhas e palavras.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
O texto circula, a golpes de ar, em obscuras feridas, em claros movimentos.
Corpo que se enrola no corpo, outro ar cintilante e desenhado, outra água escrita pelos mesmos braços da água que, ondulando, escrevem a longa incoerência unânime. Frases em que o papel respira, frases que logo esquecem no espaço que se abre e que se perde, energia visível em volume, em espaço, em nítido contorno, em fluxo de folhas, em espiral rasa e branca ao nível da terra. Sem reservas, compactamente, banal e inexpugnável, o instante apaga o que o precede, inicia a vigia sonhada dos sulcos brancos do dia.
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