Poemas neste tema
Outros
Nuno Júdice
Retrato com véu
Um espaço branco que se atravessa nos olhos de
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quem viaja por dentro da noite, com o tédio da chegada
preso a um desejo de eternidade. Alguém a espera,
ainda, cheio de uma certeza que se dissipa
no horizonte da manhã. Um traço de luz rodeia
o seu rosto; e logo se apaga, quando todas as convicções
a envolvem com o halo da sua estranheza. Os críticos
falaram de tudo o que habitou o seu sonho; e deram
uma interpretação exacta do que ela dá a ver
a quem se atravessa no seu caminho. O que não
dizem, porém, é o que se torna cada vez mais evidente,
à medida que o tempo irrompe pela frase
que os seus lábios fecharam. Ninguém ouviu
o murmúrio que nasceu desse breve silêncio; e
uma forma pesada como a nuvem do outono desceu
sobre ela, cobrindo-a com a teia de aranha
dos séculos antigos, ou como o véu que
não voltou a usar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 68 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
951
Nuno Júdice
Odalisca
Contam que se entrega aos ventos favoráveis
do amor. Estátua de mármores nocturnos,
assistiu a uma debandada de desejos
na pele dos amantes. No olhar calcinado
pela espera, derrama-se o fogo já frio
das vésperas inúteis. Para que lhe servem os braços,
agora que todos partiram, e só uma corrente
de silêncio a prende ao leito?
No entanto, deito-me com ela. Um degelo
de pálpebras limpa-nos de uma cinza
de solidão. E diz-me: «Quero perder-me
numa encruzilhada de abraços; afogar-me
num poço de gemidos; esquecer-me de mim
no fundo da tua memória.» Deixo-a
entregue a si própria; e pergunto o que fazer
do calor dos seus lábios, da ânsia
que os seus dedos soltam, do tempo
que estremece no seu corpo?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 97 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do amor. Estátua de mármores nocturnos,
assistiu a uma debandada de desejos
na pele dos amantes. No olhar calcinado
pela espera, derrama-se o fogo já frio
das vésperas inúteis. Para que lhe servem os braços,
agora que todos partiram, e só uma corrente
de silêncio a prende ao leito?
No entanto, deito-me com ela. Um degelo
de pálpebras limpa-nos de uma cinza
de solidão. E diz-me: «Quero perder-me
numa encruzilhada de abraços; afogar-me
num poço de gemidos; esquecer-me de mim
no fundo da tua memória.» Deixo-a
entregue a si própria; e pergunto o que fazer
do calor dos seus lábios, da ânsia
que os seus dedos soltam, do tempo
que estremece no seu corpo?
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 97 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 264
Nuno Júdice
Anatomia
Olho este rosto, com a surpresa
da sua imobilidade. Que suspiro suspendem
os seus lábios? Que imagem se esconde
sob as pálpebras fechadas? Digo-lhe:
«Amo-te». Como se a pudesse
despertar. São outras as palavras
que a poderiam trazer de volta,
dissipando-se em nuvem no céu
da sua cabeça. «Nenhuma vida passa
duas vezes
pelo mesmo lugar», digo-lhe. E ela
sorri, como se me tivesse
ouvido.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 89 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
da sua imobilidade. Que suspiro suspendem
os seus lábios? Que imagem se esconde
sob as pálpebras fechadas? Digo-lhe:
«Amo-te». Como se a pudesse
despertar. São outras as palavras
que a poderiam trazer de volta,
dissipando-se em nuvem no céu
da sua cabeça. «Nenhuma vida passa
duas vezes
pelo mesmo lugar», digo-lhe. E ela
sorri, como se me tivesse
ouvido.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 89 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 060
Nuno Júdice
O repouso do modelo
A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 062
Nuno Júdice
O repouso do modelo
A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 062
Nuno Júdice
O repouso do modelo
A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 062
Nuno Júdice
O repouso do modelo
A tela prolonga-se para o lado em que ela olha,
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
seguindo as notas como se as visse ao mesmo
tempo que as ouve. Uma harmonia entre o traço que
envolve o seu corpo, nítido e forte como a tarde
que se faz na rua, e o olhar que o acompanha,
inscreve-se no intervalo entre as teclas, como
se os seus dedos a procurassem, daí nascendo
a música. Por vezes, uma indecisão prende-lhe
os ombros, como se uma renda de lágrimas
lhe descesse sobre as costas, ocultando-as (mas
logo as mãos substituem a fragilidade da alma,
obrigando-a a voltar ao ritmo inicial). E nada
a interrompe, para que não se volte, e o seu
rosto não venha apagar, com o brilho dos
olhos, a luz obscura que nasce deste lugar.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 72 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 062
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (IV)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrependida, a ser possível, seja
invisível a Deus, torrão para uma igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 119 e 120 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
Terras e tempos, tudo assume esse pião
que rodopia e rouba o chão à folha solta
Rasga o espaço num gesto ríspido de vida
reergue o braço a prumo, arrisca - nessa roda
possível da maçã ao muro - a infância toda
Tudo é redondo e torna ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? - Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada:
que a vida arrependida, a ser possível, seja
invisível a Deus, torrão para uma igreja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, págs. 119 e 120 | Editorial Presença Lda., 1984
764
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 1
Assim os vivos também se tornam fantasmas: Bato-lhes à porta da alma, vagueio num descampado de sentimentos, chamo-os - e vejo-os partir. Construo a solidão com os pedaços das imagens que me deixaram. Ergo edifícios a partir de memórias, de palavras, de gestos que ficaram das nossas conversas, quando o tempo se reduzia ao instante que vivíamos, e nenhum futuro nos impunha a sua sombra. Agora, porém, a que estação te irei buscar? Em que banco de jardim te irei surpreender, olhando essa manhã que marca a separação dos amantes? Limito-me a esperar que esta porta se abra, uma vez mais, e a Primavera entre para este quarto onde a noite se instalou.
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
No entanto, és tu que eu quero guardar neste canto onde as aves fugiram. Sei que um pressentimento de Outono fez cair todas as folhas, deixando à vista o horizonte seco como esse espelho onde nada se reflecte, com o seu descanso mais negro. Será isso aquilo a que se chama amor? Ouve: os murmúrios que nascem de uma entrega de corpos, por entre os silêncios da casa, ou então sobrepondo-se a um vago ruído de chuva, nos vidros, enquanto o desejo corre pelos teus lábios como a nuvem mais frágil do destino. E ainda: a música quem impões a plenitude de uma recompensa, como se ela pudesse durar mais do que o tempo que nos é imposto? Dizes-me: um dom doloroso. Mas o que é o amor senão esse trabalho de renúncia e entrega, a lenta bebida que nos impregna com o seu veneno, e nos concede a única vida possível?
Então, regressa da tua ausência; ou dá-me ao menos a tua sombra, para que ela me cubra com esse manto de obstinação que só os tristes arrastam.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 49 e 50 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 244
Nuno Júdice
Noite
Assim a noite, o
céu vazio de estrelas, a própria
luz que te escorre dos olhos,
como lágrimas, encharca o lenço
que guardas no bolso do casaco.
E uma linha
de ecos frios baixa do
céu para onde já não
olhas, pesa-te nos ombros, e
obriga-te a esquecer
todas as ausências.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 38 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
céu vazio de estrelas, a própria
luz que te escorre dos olhos,
como lágrimas, encharca o lenço
que guardas no bolso do casaco.
E uma linha
de ecos frios baixa do
céu para onde já não
olhas, pesa-te nos ombros, e
obriga-te a esquecer
todas as ausências.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 38 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 593
Nuno Júdice
Carta de Orfeu a Eurídice - 3
A brevidade: por vezes, a mais longa das linhas
do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência
que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos
impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,
com a melancolia que arrasta o sentimento da
passagem, como se o rio pudesse parar para sempre
no instante em que a felicidade parece suspender
o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações
que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol
do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja
com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas
emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde
uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação
da morte.
Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto
cada uma das olheiras construídas no trabalho
do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento
as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas
palavras trocaram esses amantes que o passado
vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã
não chegasse, trazendo a separação que corrói
a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão
de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que
vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como
se não soubesses que nada o substitui? Não
te enganes, como não se engana esse des cego às concessões
do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,
e levando no bater das asas o mais fundo
dos abraços.
Segue esse voo com o impulso antigo; e
não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios
trocaram, no mais solitário dos instantes.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 51 e 52 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
do tempo, cruzando-se com o desejo de permanência
que sustenta a sua ilusão. Logo, porém, a realidade nos
impõe a sua regra. O que é transforma-se no que foi,
com a melancolia que arrasta o sentimento da
passagem, como se o rio pudesse parar para sempre
no instante em que a felicidade parece suspender
o seu curso. Avançamos, então, contra essas sensações
que nos trazem um esplendor de rosa, aberta ao sol
do meio-dia, antes que a sombra da tarde a atinja
com a sua seta obscura. Uma ferida sangra entre pétalas
emurchecidas; e o ramo sugere a queda nocturna, onde
uma perseguição de prazer se confunde com a inquietação
da morte.
Olho-te, então, contra a perspectiva do efémero. Conto
cada uma das olheiras construídas no trabalho
do amor, sabendo que um vórtice de esquecimento
as restituirá à insónia da madrugada. Nessa hora, quantas
palavras trocaram esses amantes que o passado
vestiu com o seu manto de memória... Como se a manhã
não chegasse, trazendo a separação que corrói
a pele da alma, e prende toda a esperança a uma ilusão
de saudade. Por que lhe resistes?, pergunto. Em que
vazio afogarás este amor que insiste em respirar, como
se não soubesses que nada o substitui? Não
te enganes, como não se engana esse des cego às concessões
do presente, voando para os espaços mais inacessíveis,
e levando no bater das asas o mais fundo
dos abraços.
Segue esse voo com o impulso antigo; e
não percas o sabor desse filtro que os nossos lábios
trocaram, no mais solitário dos instantes.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", págs. 51 e 52 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
948
Nuno Júdice
A bela irlandesa
A construção da beleza não é difícil,
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 009
Nuno Júdice
A bela irlandesa
A construção da beleza não é difícil,
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 009
Nuno Júdice
A bela irlandesa
A construção da beleza não é difícil,
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
quando o objecto se apresenta aos olhos de quem
o vê com a exactidão dos seus traços,
as linhas certas da memória, e um desfiar
de impressões por cada poro da sua pele. Por
exemplo, os dedos em que os cabelos
passam numa displicência de gesto,
enquanto a outra mão segura o cabo do espelho,
trazem consigo o oceano em que os sentidos
se perderam, numa procura de enseadas
e corais; e, noutro exemplo,
o olhar que segue a direcção da imagem, e
nos arrasta com a indicação segura
de que o caminho é este, sem desvios
nem demoras.
O que me distrai deste sonho, porém,
é a exigência do próprio poema. Vou somando
as palavras às palavras, como se através
do verso que elas formam o corpo da beleza
me surgisse, à transparência da música,
saído do espelho em que o rosto
se contempla. E este exercício ocupa-me,
enquanto ouço o tempo passar, trazendo
até mim o tempo deste instante, preso
aos dedos que agora separo, um a um,
para ver o que escondem.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 103 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 009
Ruy Belo
Variações sobre O Jogador do Pião (II)
Faz rodar o pião redondo tudo em volta
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
Atira a primavera e recupera o verão
O pátio gira, a mão que pega no pião
disputará um dia o chão à folha solta
Joga tudo no gesto ríspido de vida
Levanta o braço a prumo, arrisca nessa roda
riscada nesse chão a tua infância toda
tudo é redondo e volta ao ponto de partida
O sol a sombra a cal os pássaros os pés
o adro a pedra o frio os plátanos... Quem és?
Voltas? rodas? regressas? rodopias? Nada
Mão do breve pião, levanta ao céu a enxada
e que a vida que esqueço - a ser possível - seja
coberta de torrão, que Deus mesmo a não veja
Ruy Belo | "Obra Poética de Ruy Belo" - Vol. 1, pág. 118 | Editorial Presença Lda., 1984
1 137
Nuno Júdice
Acordar
Terá chegado a dormir? Os olhos não
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 456
Nuno Júdice
Acordar
Terá chegado a dormir? Os olhos não
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 456
Nuno Júdice
Acordar
Terá chegado a dormir? Os olhos não
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
o mostram; e as mãos, agarradas
à almofada, debaixo da cabeça, procuram
um apoio para o vazio em que mergulha. No
entanto, a linha paralela dos braços,
que a empurra para fora do quadro, é
contrariada pelo triângulo que se constrói a
partir dos vértices, doces e fundos,
dos mamilos e do umbigo. Algures,
num espaço em que o olhar se perde,
um mar sem fim convida à navegação
do amor, sem rumo nem porto à vista.
E limito-me a desenhar, mentalmente,
o triângulo invisível, hermético,
simétrico desse que o
lençol esconde. Então, peço-lhe
que feche os olhos e entreabra os lábios,
para que o desejo se solte do seu corpo,
como pássaro, e voe para o dia.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 66 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 456
Nuno Júdice
Campo
Imagino paisagens como quem
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 042
Nuno Júdice
Campo
Imagino paisagens como quem
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 042
Nuno Júdice
Campo
Imagino paisagens como quem
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
sonha. Um quadro em que vou pondo outras
coisas: casas, terrenos vagos, uma ou outra
árvore, o sol da tarde. Até agora, uma
natureza morta. Na mesa da imaginação, o tampo
enche-se com estas imagens que vêm dos espaços
diversos em que a vida se passa. Por baixo
da mesa, então: para onde nenhuma imagem nos
perturbe, e aí ficaremos sós, no espaço em branco
do amor.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 40 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 042
Nuno Júdice
Luz
São as mais estranhas memórias: as
que descem pela parede, como a humidade dos
invernos, e se deixam apanhar com os dedos,
para que as erga à luz da lâmpada. Aí brilham
devagar. Um halo de pirilampo
envolve-as. É como se a noite as transformasse
num cristal secreto: e o teu rosto brotasse
de dentro da sua luz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 39 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
que descem pela parede, como a humidade dos
invernos, e se deixam apanhar com os dedos,
para que as erga à luz da lâmpada. Aí brilham
devagar. Um halo de pirilampo
envolve-as. É como se a noite as transformasse
num cristal secreto: e o teu rosto brotasse
de dentro da sua luz.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 39 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
1 281
Nuno Júdice
Modelo no atelier do artista
As telas amontoam-se por trás da mulher que
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
949
Nuno Júdice
Modelo no atelier do artista
As telas amontoam-se por trás da mulher que
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
se despe, deitando a roupa para cima do banco.
À sua frente, o pintor interrompeu o quadro
para lhe tirar uma fotografia; e vejo nos
olhos dela a surpresa de quem não esperava o
flash, como se estivesse cansada de ver
a sua imagem roubada, dia após dia,
em poses intermináveis que a obrigam
ao silêncio, sob os secos gestos da mão
que comanda o pincel. No reflexo do espelho,
porém, a cena é outra: molduras vazias;
e uma cabeça esculpida que mal se vê,
de olhos tapados pela blusa com que ela
a cobriu, como se quisesse impedi-la
de a ver, enquanto se despe.
Nuno Júdice | "A pura inscrição do amor", pág. 67 | Publicações Dom Quixote, 1ª. edição. Jan. 2018
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