Outros
João Cabral de Melo Neto
Catar Feijão
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco
João Cabral de Melo Neto
Catar Feijão
joga-se os grãos na água do alguidar
e as palavras na folha de papel;
e depois, joga-se fora o que boiar.
Certo, toda palavra boiará no papel,
água congelada, por chumbo seu verbo:
pois para catar esse feijão, soprar nele,
e jogar fora o leve e oco, palha e eco.
Ora, nesse catar feijão entra um risco:
o de que entre os grãos pesados entre
um grão qualquer, pedra ou indigesto,
um grão imastigável, de quebrar dente.
Certo não, quando ao catar palavras:
a pedra dá à frase seu grão mais vivo:
obstrui a leitura fluviante, flutual,
açula a atenção, isca-a como o risco
Al Berto
Falso Retrato de Andy Warhol
transcrevo conversas telefónicas ou falo
com a noite de new york
ou não falo e gravo a voz dos outros filmo
obsessivamente a morte
ou não filmo e multiplico cadeiras eléctricas
excito-me
sou o centro do mundo dos outros e
não existo
ou é a vida que me atravessa o sexo
e finjo a morte ou cintilo
como o diamante
Manuel António Pina
Todas as palavras
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Manuel António Pina
Todas as palavras
principalmente as que estiveram muito perto,
como uma respiração,
e não reconheci,
ou desistiram e
partiram para sempre,
deixando no poema uma espécie de mágoa
como uma marca de água impresente;
as que (lembras-te?) não fui capaz de dizer-te
nem foram capazes de dizer-me;
as que calei por serem muito cedo,
e as que calei por serem muito tarde,
e agora, sem tempo, me ardem;
as que troquei por outras (como poderei
esquecê-las desprendendo-se longamente de mim?);
as que perdi, verbos e
substantivos de que
por um momento foi feito o mundo
e se foram levando o mundo.
E também aquelas que ficaram,
por cansaço, por inércia, por acaso,
e com quem agora, como velhos amantes sem
desejo, desfio memórias,
as minhas últimas palavras.
Herberto Helder
Os Animais Carnívoros
sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia
depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um
parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais
diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-
bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava
impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o
que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e
urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às
nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então
os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha
intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora
era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos
eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era
uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas
abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.
Herberto Helder
Os Animais Carnívoros
sem voz - difundia uma colorida multiplicação de mãos, e aparecia
depois todo nu escutando-se a si mesmo, e fazia de estátua durante um
parque inteiro, de repente voltava-se e acontecera um crime, os jornais
diziam, ele vinha em estado completo de fotografia embriagada, desco-
bria-se sangue, a vítima caminhava com uma pêra na mão, a boca estava
impressa na doçura intransponível da pêra, e depois já se não sabia o
que fazer, ele era belo muito, daquela espécie de beleza repentina e
urgente, inspirava a mais terrível acção do louvor, mas vinha comer às
nossas mãos, e bastava que tivéssemos muito silêncio para isso, e então
os dias cruzavam-se uns pelos outros e no meio habitava uma montanha
intensa, e mais tarde às noites trocavam-se e no meio o que existia agora
era uma plantação de espelhos, o Amor aparecia e desaparecia em todos
eles, e tínhamos de ficar imóveis e sem compreender, porque ele era
uma criança assassina e andava pela terra com as suas camisas brancas
abertas, as suas camisas negras e vermelhas todas desabotoadas.
Herberto Helder
Cobra
defronte do ar exaltado. Também se enredava o Outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera.
E a lua unia a cúspide das artérias
às ventosas mais fundas, às rosas nos tentáculos
desde os abismos da terra. Que acordava, a lua,
as víboras nos alvéolos ou adormecia
os bichos-da-seda nas cápsulas ou punha
os dedos a luzir diante
da boca, abrindo e fechando o poema como um leque
de obsidiana.
Estive agora na memória com seus fulcros de oxigénio
e a energia das patas e as radiações
das flores paradas. Um mês
nodulunar
activo crivando todo o poema ensombrecido pelas veias do mel.
Estive em toda a parte onde pulsa o corpo com as órbitas
de amianto sob a força pensada,
virgem e severa. Desde as águas palpitando entre as bocas
e as guelras, desde o sangue
sorvido através das válvulas. Nas crateras, o fulgor
dos óvulos de faiança.
— E é o tempo, o tempo todo:
o salto dos sóis no corpo arrancado.
— Nesta criança aumenta um arbusto de cálcio.
As sementes graves revolvem-se
como um pranto. E o medo,
este favo cerebral que levo, fermenta debaixo
das radiações como um açúcar vivo
e gelado. A rotação atómica agarra,
entre os frios cabelos e a teia dos ossos e as coxas implacáveis
e o sistema planetário de pés e mãos
delgados, agarra agora
as esponjas rutilando como abelhas nas furnas ou um gás
nas câmaras da morte.
Estou deitado, e os lençóis fluem e refluem nessa ressaca
sob o ar
arqueado. As mãos no poema, o pénis
gravitando
a prumo como um corno de mármore.
A lua mexe nas estações e nas salas.
Passa á mesa sobre um litro de anis, sobre
pequenos jardins de cristal
engarrafados. E o ar gira e explode
no rosto rápido.
Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
da dança com as labaredas
a mergulhar
em baixo. Ou á frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
se debruçam na atmosfera,
e as colinas irradiam com os astros
cravados e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
fulgurante.
Vou morrer.
O ouro está perto.
A força do medo verga a constelação do sexo.
Pelos canais nocturnos entra o mel, sai
o veneno branco.
O sono estrangula as chamas da cabeça nos veios atados.
As costas crepitam numa linha lunar
de clarabóias. Rutila
a flor do alimento, talhada: o ânus.
E brilha rebrilha, uma luva puxada pelo avesso,
o corpo
puxado pelo avesso
com as estrelas desfechadas.
As casas ateiam-se.
Com linha negra a tecedeira lavra a sua flor,
com os martelos
os canteiros trazem do fundo do granito
um meteoro de púrpura afogado.
— A paixão é pura maneira de inteligência.
Deus recompensa o crime com a voracidade e a energia, a cegueira
inspira o cérebro
violento — no plexo solar do espelho.
Uma criança abisma-se no génio analfabeto: o pavor
que a arranca de tudo. Qualquer doçura lhe alimenta os esplendores
da alucinação:
pelas altas águas descontínuas, as vozes,
as frutas tecidas, movimentos, labaredas
parietais, a profundidade dos quartos como pomares
atmosféricos.
- Oh crianças de negros rostos ressurrectos.
Elas adivinham. E tombadas as luas,
No cúmulo dos dias, nuvens de mármore sobem
dos vulcões dos parques. Há crianças paradas nas cavidades
como os olhos das casas.
Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno.
Passo por jardins zodiacais, entre
flores cerâmicas e rostos zoológicos
que fosforescem. Lavra-me uma doença fixa.
Ilumina polarmente os quartos.
Todos os dias faço uma idade
bubónica. Quem vem por fora vê
camisas apoiadas à luz, a doçura, partes
vidradas do corpo. Perto, deslumbra-se com o pénis como um chifre
de coral intacto. Às vezes não sei gritar com a boca
toda luzindo.
E queima-se em mim nervo a nervo
a flor do diamante.
Fulgura o oxigénio na sua caixa de vidro e a cerveja gelada
como uma estrela num copo. Não
falo com ninguém quando o sangue
é arrancado pelas
luas, à porta, o ar sibilante cheio de paisagens.
As víboras sonham no ninho,
turquesas, pedras, mas eu estou
com um braço de ouro sobre a cama.
E vou deixar a terra eléctrica na sua renda concavamente
leve. O mundo — este arrepio concêntrico:
olho fixo por onde toda a matéria contempla o espaço
descentrado. E um jorro desencadeia-se pela coluna
com uma rosa mental arrastada
para o alto. Nenhum lugar
é ouvido nos silêncios que tem
de dentro para fora. Posso
atar um laço em volta de cada coisa, com um sussurro
estreito. Os meus pés resplandecem sepultados nos sapatos.
— Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo,
sem sonhos,
movendo-se nos aros do seu próprio corpo, um feixe
de chamas de cada lado.
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos.
E vou deixar o mundo, eu, cometa expulso
dos buracos da pedra. De dedo
para dedo
os anéis luzem, terríveis, de ouro forte, fechados como serpentes
fio a fio.
Pela força dessa ressaca, a limalha salta
entre a boca e o sexo. Abisma-se o mistério
animal até ao centro da caça. Atraio Deus.
Leão vermelho
a brilhar nas clareiras à frente das incessantes
mãos do caçador. Porque eu nunca falo,
de noite,
com ninguém. A minha arte de ser é venenosa, quieta
e aterrada. Mexem no leite, as salas
recuam pela casa, nos alvéolos do corpo desatam-se
os pequenos astros. E o silêncio torrencial da atmosfera
televisionada
irrompe pelos quartos amontoados.
A parede contempla a minha brancura no fundo:
paisagem
resvalada. E com o olhar redondo
de ouro ríspido, da parede me fita
o cometa, entre
as omoplatas,
onde começa o nervo da flor toda unida ao cimo
da labareda. E rola à noite a luz
sobre os lençóis, e os nós
do rosto absorvem
todos os átomos. Porque sobe um soluço dos centros
gravitacionais
de um bicho. Um soluço, um tétano.
A água escoa-se pelas esponjas dos órgãos e dos fatos.
São corpos celestes nos recantos
dos salões engolfados, ressumando
luz própria
— e dos intensos poros da madeira exalam-se
os bosques completos. Ou são estrelas
negras, os corpos, se a noite se chega para diante,
assim depressa, pedra que se desloca
varada pelos astros. E as flores nunca baixam as pálpebras
sobre os olhos.
O umbigo brilha, cego. O púbis brilha,
alto
como talha.
Todo o corpo é um espelho torrencial com as fibras
dentro das grutas. Cobra
que acorda no fundo
de si mesma, o halo
ovovivíparo
levantado anulo a anulo;
ou grande raiz fria sustentando o seu ovo soprado;
ou as guelras de uma rosa ferozmente
em arco.
Pela ciência e a paixão do medo, arranco à parede
esse nó cristalográfico com a luz
estrangulada.
Corpo celeste antípoda.
Os chifres de ouro afloram na treva.
Deus caça-me com uma lança
radiosa. Na selva dos meus quartos húmidos, orbitais, volumosos,
com uma flecha sonora.
As folhas ressumam da luz, os cometas escoam-se
pelos orifícios
vivos das casas. E fundem-se as ramas de ouro
nos músculos vorazes, os dedos
nas massas dos espelhos.
E vibra a bolha expelida da carne curva, um rosto
a que ceifaram o caule.
Não ames roupas, azáleas, água cortada, louça
— a leveza. Ama — digo —
o que é carregado: as frutas, ou a noite
e o calor, e os negros laços atados
dos animais.
E gravava-se o ouro nos centros
ávidos
e o ar no espaço e a seda
no tacto. O sexo brilhava sobre as mãos
no fundo expansivo dos quartos,
crepitando com a lepra.
Senti nas falangetas o leite manso e a madeira alumiada
pelos poros ferozes: o centrípeto feixe das coisas.
Senti o mundo tenso como o halo de um
dióspiro. Vi a serpente concentrada como um nó de cobalto.
— O sonho tão severo e a labareda
dentro e o trabalho dos dedos e dos olhos.
Pulsava o ar nas costas
da pedra
deitada ao dia com as crateras fortes:
— as narinas e a boca e o ânus. Dia vazado
de ponta a ponta branco. Entrava o oxigénio pelas artérias
agravadas, a insónia
pelas aurículas sombriamente do crânio.
A casa cheia tremia vergada pelas
luas frontais e veementes a os sóis astrológicos.
E estas aram as visões, os maus símbolos
Perigosos: a demência, a nudez, o dom,
O hipnotismo, o terror, o transe, a graça terrestre
e hermética.
Sob o choque do ouro estagnado no tórax
com a camélia radial explodindo,
a brancura ameaçava cada morte.
— Violência, claridade, sobressalto.
o espelho é uma chama cortada, um astro.
E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
ás janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata,
a própria seda do lenço
o desata. E o rosto que jorra do espelho
volta aos centros
arteriais.
Todos os anos fundos, essa extensa criança
sente brotar da terra como as árvores
do petróleo
a peste bubónica, fina na temperatura, alastrada nos bordados
das paredes ou nas crateras da cama. Os lençóis
nascem do linho que trepida
no abismo da terra, das sementes abraçadas pelas ramas
das nebulosas.
É perfeito o espelho quando apanha
um rosto nuclear.
Morre-se muito mais em cada doença, nesses
apartamentos que as noites sufocam
nos braços de mármore.
A energia das jóias.
O nó do sexo no espelho, as chamas agarradas
entre o umbigo e o ânus.
Esse trabalho da claridade quando as válvulas
se destapam.
Correntes atómicas passam de lado a lado.
E ficam os buracos furiosos por onde o mundo
sopra
um meteoro a jacto, uma cara.
Os jardins deslocam-se através de si próprios
com as centelhas, defronte
das planas constelações dos espelhos.
E então, na assimetria severa, ela amaria
transformar-se, súbita e solar — equinocialmente no espelho o relâmpago
côncavo de um girassol
espacial. Que sai assim do corpo: os filões arrancados
desse mesmo espelho.
E ela imagina na teia de fogo a argila que se transmuda
em porcelana: a curva labareda de uma chávena
expelida dos fornos.
E entre guardanapos, da mesa à boca,
arde em seu anel de estrela metalúrgica
a colher em órbita
— a assombrosa força terrestre da chávena.
E a infância desaparece nas funduras das casas,
nos jardins envoltos em nebulosas. O corpo
com os electrões fechados.
o rosto espera no seu abismo animal.
Vejo agora os estúdios enclavinhados na luz. Depois,
serão aspirados pelas ressacas
das trevas.
E a serpente dorme e fulgura entrançada nos braços.
O génio das coisas é baixo como o ouro
amarrado
em torno do sexo.
E nas cavernas de coral vivente pulsam
os animais dos horóscopos
— andróginos, lunáticos —
de cabeças trepanadas por radiações de urânio, movendo-se
com as lentas sedas dos corpos
pelos sóis à frente e as luas
deitadas. E as pupilas ferozes dos mortos contemplam
o brilho dos meus poros, o pénis
entre as centelhas da minha pele de vitelo
brando.
A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.
Desenvolvem-se nas noites descentradas
estes quartos engrandecidos
pelo jorro incendiário. Tocam o meio do mundo
com os raios.
São opacos, vulcânicos.
De anel para anel, a garganta por onde o corpo
Se arranca de dentro.
Rosas expiram pelo intenso orifício no meio. As massas de cristal dos
quartos
planetários
Ele queria coar na cabeça da mulher aprofundada
uma labareda,
a luz fundida nas clareiras.
Tocava-lhe abismadamente o rosto directo, o sexo
de ouro bivalve, a jóia do ânus aberto
— negra garganta de uma camélia baixando.
Queria que ela absorvesse a radiação dos astros centrais,
o oxigénio a entrelaçar-se no interior das constelações da carne.
E que o membro do corpo inteiro se embrenhasse
no sangue
que a ligava dentro de estrela a estrela
por grandes fibras
vibrantes.
Os sexos fechados pelas bocas claras, que tudo
luzisse anelarmente
— e o poder corresse neles, incessante, num insondável
quarto,
as imagens alinhando-se
num incêndio:
gárgulas, máquinas redondas, os rostos giratórios.
E que em noites soldadas pela respiração nó a nó,
sobre lençóis brilhando no seu arrepio de ouro,
num sítio de toda a idade com seus animais
enredados, estremecessem
as roseiras de onde as rosas sorvem o suspiro
subterrâneo, o intrínseco movimento
atónito.
E então a antiga criança estelar pulsava nele com o oxigénio
No extremo dos cordões maternos, soprada interiormente
pela claridade dos órgãos
afinados
na dor e na paixão —
suas casas astrológicas movidas pelo fogo baixo
e em cima
pelo ar muito alto.
A doçura, a febre e o medo sombriamente agravam
um forte jardim nos limites
da luz olhada. O mel dói, o sangue
assalta, o espelho recua até às costas. Também no interior
do mundo pesa e palpita um punhado
de pérolas. Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio.
Não é doce usar a paixão do medo, esta
maneira de tocar no ouro escurece as mãos.
Há crianças que apanham completamente a maçã
caída no sono: morrem
no coração fotográfico.
Porque as labaredas se despenharam nos espelhos.
O fogo moveu essa fruta fechada, estrelas
congenitais
voltaram-se por dentro
das crisálidas.
Entra uma nuvem se as crianças se afastam,
ou reflui a ofuscante madeira
dos armários, ou são os lençóis que se arrepiam
arrastados
pela voltagem dos astros. De baixo para o alto,
um incêndio artesiano,
um enxame de rosas ferozes.
A infância é central como os ramais da água
circulando na pedra.
Ou a ilha atravessada pela volta
Dos ecos. Ou a primavera escoada. Ou a espuma que rebenta
Na fotografia retendo o mundo
direito.
Através da infância vêem-se os dias botânicos
aumentados
e os planetas de mármore ascendendo nos quartos e os fotões
das abelhas.
É um modo límpido de voltar a cabeça
para as grutas de ouro, ou expor
o ânus branco,
ou aproximar ainda o coração dos ávidos
sorvedouros da noite.
Os mortos reluzem nas cavernas, os nossos mortos
de corpo fechado pela perfeição das lágrimas.
Seus órgãos sustidos têm o peso
das jóias.
Porque a infância é uma visão terrífica, hipnótica.
Um transe, os olhos que se tornam secretos, o extremo lunar da casa
— pedra queimada no centro
da terra.
Tomo o poder nas mãos dos animais — quer dizer:
a força quando se soltam as labaredas
dos abismos dos quartos.
Tudo se agarra no instante em que
a casa
dorme no centro ateado. Chegar
muito lentamente e arrancar a maçã,
a mais limpa chama coada pela árvore.
A energia das lunações reflui nos nervos
do espelho,
e a queimadura brilha
a pique — flor pulmonar moldada, e em baixo
as estrelas pontiagudas
das mãos.
Assim se reserva nos apartamentos agachados,
entre roupas deitadas, o tesouro de um rosto
soberano.
E a claridade evapora-se do cérebro, ao alto
do candelabro:
o olho activo de uma flor sonhada.
Ascendem dos abismos da elegância os mamíferos
arrebatados pela violência
astrológica. Ficam de bruços, entre pressões,
rotativos, poderosos:
fotografias cheias de ar e fogo. E usa-se a morte,
uma lembrança genial ou um absoluto
inquilinato.
- O movimento das casas com os castiçais contínuos como artérias,
Como terríveis ceptros.
Amo este verão negro com as furnas de onde se arrancam
as constelações, um jardim espasmódico
quando
se atravessam as membranas dos quartos.
Resplandeço como um cristal talhado estelarmente
na voragem entre a boca e o ânus, como os arcos de um espelho.
Toco
o nó dos favos — e ferve o mel ao cimo da haste
vertebral. Eu amo o tremor das veias que enxameiam
as tábuas, amo as colinas de aço nas paisagens.
A água sopra nas esponjas que luzem no frio caudal
secreto.
Vibra a roupa aberta ao longo das cavernas
das casas. Com seus passos de pantera
a noite avança e bate as pálpebras.
— Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai
os bichos. Deus é atraído pelas canções venosas
com os diamantes inteiros.
Amo as cabeças, esses laços de pedra.
Respira no verão largo a flor com um feixe
de artérias.
Que eu atinja a minha loucura na sua estrela expelida
pela força dos ventrículos
por uma crua boca
animal. Nas salas reflectindo os jardins
a reluzir
com as cadeiras e as mesas sobre as patas de madeira,
nos precipícios das casas.
— E atrás, a queimadura do rosto
repentinamente
selado.
Eu brilho nos corredores,
entre os renques das folhagens e a fogueira de bestas
terrestres. Encandeia-me a fundura dos armários
que se ateiam
pela tensão das roupas encurvadas. Eu amo
o ouro baixo nas chamas do dançarino aberto
entre a boca e o ânus.
As pedras fizeram agora os seus laços.
E as luvas vermelhas do escafandrista explodem nas câmaras.
— Um bicho em lágrimas, a casa atravessada pelas correntes
da paisagem de água, a criança
aurífera
direita nos recantos dos quartos com um olho radial,
um espinho de mármore implantado
na testa sumptuosa.
E sobe a estrela terrestre
com a placenta assente
nos feixes desde o umbigo até aos cornos.
Eu trouxe serpentes de onde a luz mais ferve,
arranquei-as ao mel, eu, criança
de boca truculenta, alumiada, bivalve. Nunca vi água
que não varasse as casas
de lado a lado. Pulsam em mim os fulcros
do sal, os cactos.
Quando a paisagem sopra pelas janelas, durmo
olhando
os centros memoriais. Deu-me a inteligência
aquilo que toquei: o pénis que vem desde os astros das costas,
os ovos no fundo dos alvéolos, as pálpebras
negras. Somente o mundo
é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
aos laços
das constelações. E das cavernas, onde
suas garras se prendem como pólipos,
e através da minha roupa,
fitam
o espelho: sangue e ouro
e cálcio e mel
brilhando. Porque o corpo é uma gruta de onde saltam
os sóis, uma insónia que liga
o dia ao dia,
pelos jardins trespassando os estúdios
ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
astros brancos.
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Detidos: hei-de de partir quando as flores chegarem
a sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me ás janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
Cada noite é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Herberto Helder
Cobra
defronte do ar exaltado. Também se enredava o Outono
nos pulmões das casas. E guardavam-se lentas estrelas
nas arcas, a roupa onde
o brilho se dobra. O inverno fazia
um remoinho nas câmaras, seus buracos expulsavam a espuma
para as ininterruptas paisagens
cinematográficas.
Um dia era redonda a primavera.
E a lua unia a cúspide das artérias
às ventosas mais fundas, às rosas nos tentáculos
desde os abismos da terra. Que acordava, a lua,
as víboras nos alvéolos ou adormecia
os bichos-da-seda nas cápsulas ou punha
os dedos a luzir diante
da boca, abrindo e fechando o poema como um leque
de obsidiana.
Estive agora na memória com seus fulcros de oxigénio
e a energia das patas e as radiações
das flores paradas. Um mês
nodulunar
activo crivando todo o poema ensombrecido pelas veias do mel.
Estive em toda a parte onde pulsa o corpo com as órbitas
de amianto sob a força pensada,
virgem e severa. Desde as águas palpitando entre as bocas
e as guelras, desde o sangue
sorvido através das válvulas. Nas crateras, o fulgor
dos óvulos de faiança.
— E é o tempo, o tempo todo:
o salto dos sóis no corpo arrancado.
— Nesta criança aumenta um arbusto de cálcio.
As sementes graves revolvem-se
como um pranto. E o medo,
este favo cerebral que levo, fermenta debaixo
das radiações como um açúcar vivo
e gelado. A rotação atómica agarra,
entre os frios cabelos e a teia dos ossos e as coxas implacáveis
e o sistema planetário de pés e mãos
delgados, agarra agora
as esponjas rutilando como abelhas nas furnas ou um gás
nas câmaras da morte.
Estou deitado, e os lençóis fluem e refluem nessa ressaca
sob o ar
arqueado. As mãos no poema, o pénis
gravitando
a prumo como um corno de mármore.
A lua mexe nas estações e nas salas.
Passa á mesa sobre um litro de anis, sobre
pequenos jardins de cristal
engarrafados. E o ar gira e explode
no rosto rápido.
Eu iria até ao centro onde flutua a constelação
da dança com as labaredas
a mergulhar
em baixo. Ou á frente, os relâmpagos do corpo culminando.
Toco-lhe as campânulas quando os balcões
se debruçam na atmosfera,
e as colinas irradiam com os astros
cravados e desorientam
os olhos. A minha idade escapa-se de um lado
para o outro, sob os dedos, como um nervo
fulgurante.
Vou morrer.
O ouro está perto.
A força do medo verga a constelação do sexo.
Pelos canais nocturnos entra o mel, sai
o veneno branco.
O sono estrangula as chamas da cabeça nos veios atados.
As costas crepitam numa linha lunar
de clarabóias. Rutila
a flor do alimento, talhada: o ânus.
E brilha rebrilha, uma luva puxada pelo avesso,
o corpo
puxado pelo avesso
com as estrelas desfechadas.
As casas ateiam-se.
Com linha negra a tecedeira lavra a sua flor,
com os martelos
os canteiros trazem do fundo do granito
um meteoro de púrpura afogado.
— A paixão é pura maneira de inteligência.
Deus recompensa o crime com a voracidade e a energia, a cegueira
inspira o cérebro
violento — no plexo solar do espelho.
Uma criança abisma-se no génio analfabeto: o pavor
que a arranca de tudo. Qualquer doçura lhe alimenta os esplendores
da alucinação:
pelas altas águas descontínuas, as vozes,
as frutas tecidas, movimentos, labaredas
parietais, a profundidade dos quartos como pomares
atmosféricos.
- Oh crianças de negros rostos ressurrectos.
Elas adivinham. E tombadas as luas,
No cúmulo dos dias, nuvens de mármore sobem
dos vulcões dos parques. Há crianças paradas nas cavidades
como os olhos das casas.
Os lençóis brilham como se eu tivesse tomado veneno.
Passo por jardins zodiacais, entre
flores cerâmicas e rostos zoológicos
que fosforescem. Lavra-me uma doença fixa.
Ilumina polarmente os quartos.
Todos os dias faço uma idade
bubónica. Quem vem por fora vê
camisas apoiadas à luz, a doçura, partes
vidradas do corpo. Perto, deslumbra-se com o pénis como um chifre
de coral intacto. Às vezes não sei gritar com a boca
toda luzindo.
E queima-se em mim nervo a nervo
a flor do diamante.
Fulgura o oxigénio na sua caixa de vidro e a cerveja gelada
como uma estrela num copo. Não
falo com ninguém quando o sangue
é arrancado pelas
luas, à porta, o ar sibilante cheio de paisagens.
As víboras sonham no ninho,
turquesas, pedras, mas eu estou
com um braço de ouro sobre a cama.
E vou deixar a terra eléctrica na sua renda concavamente
leve. O mundo — este arrepio concêntrico:
olho fixo por onde toda a matéria contempla o espaço
descentrado. E um jorro desencadeia-se pela coluna
com uma rosa mental arrastada
para o alto. Nenhum lugar
é ouvido nos silêncios que tem
de dentro para fora. Posso
atar um laço em volta de cada coisa, com um sussurro
estreito. Os meus pés resplandecem sepultados nos sapatos.
— Fala-se de um tigre, talvez, um tigre profundo,
sem sonhos,
movendo-se nos aros do seu próprio corpo, um feixe
de chamas de cada lado.
Mudo a floresta, vejo os planetas passar, os cavalos.
E vou deixar o mundo, eu, cometa expulso
dos buracos da pedra. De dedo
para dedo
os anéis luzem, terríveis, de ouro forte, fechados como serpentes
fio a fio.
Pela força dessa ressaca, a limalha salta
entre a boca e o sexo. Abisma-se o mistério
animal até ao centro da caça. Atraio Deus.
Leão vermelho
a brilhar nas clareiras à frente das incessantes
mãos do caçador. Porque eu nunca falo,
de noite,
com ninguém. A minha arte de ser é venenosa, quieta
e aterrada. Mexem no leite, as salas
recuam pela casa, nos alvéolos do corpo desatam-se
os pequenos astros. E o silêncio torrencial da atmosfera
televisionada
irrompe pelos quartos amontoados.
A parede contempla a minha brancura no fundo:
paisagem
resvalada. E com o olhar redondo
de ouro ríspido, da parede me fita
o cometa, entre
as omoplatas,
onde começa o nervo da flor toda unida ao cimo
da labareda. E rola à noite a luz
sobre os lençóis, e os nós
do rosto absorvem
todos os átomos. Porque sobe um soluço dos centros
gravitacionais
de um bicho. Um soluço, um tétano.
A água escoa-se pelas esponjas dos órgãos e dos fatos.
São corpos celestes nos recantos
dos salões engolfados, ressumando
luz própria
— e dos intensos poros da madeira exalam-se
os bosques completos. Ou são estrelas
negras, os corpos, se a noite se chega para diante,
assim depressa, pedra que se desloca
varada pelos astros. E as flores nunca baixam as pálpebras
sobre os olhos.
O umbigo brilha, cego. O púbis brilha,
alto
como talha.
Todo o corpo é um espelho torrencial com as fibras
dentro das grutas. Cobra
que acorda no fundo
de si mesma, o halo
ovovivíparo
levantado anulo a anulo;
ou grande raiz fria sustentando o seu ovo soprado;
ou as guelras de uma rosa ferozmente
em arco.
Pela ciência e a paixão do medo, arranco à parede
esse nó cristalográfico com a luz
estrangulada.
Corpo celeste antípoda.
Os chifres de ouro afloram na treva.
Deus caça-me com uma lança
radiosa. Na selva dos meus quartos húmidos, orbitais, volumosos,
com uma flecha sonora.
As folhas ressumam da luz, os cometas escoam-se
pelos orifícios
vivos das casas. E fundem-se as ramas de ouro
nos músculos vorazes, os dedos
nas massas dos espelhos.
E vibra a bolha expelida da carne curva, um rosto
a que ceifaram o caule.
Não ames roupas, azáleas, água cortada, louça
— a leveza. Ama — digo —
o que é carregado: as frutas, ou a noite
e o calor, e os negros laços atados
dos animais.
E gravava-se o ouro nos centros
ávidos
e o ar no espaço e a seda
no tacto. O sexo brilhava sobre as mãos
no fundo expansivo dos quartos,
crepitando com a lepra.
Senti nas falangetas o leite manso e a madeira alumiada
pelos poros ferozes: o centrípeto feixe das coisas.
Senti o mundo tenso como o halo de um
dióspiro. Vi a serpente concentrada como um nó de cobalto.
— O sonho tão severo e a labareda
dentro e o trabalho dos dedos e dos olhos.
Pulsava o ar nas costas
da pedra
deitada ao dia com as crateras fortes:
— as narinas e a boca e o ânus. Dia vazado
de ponta a ponta branco. Entrava o oxigénio pelas artérias
agravadas, a insónia
pelas aurículas sombriamente do crânio.
A casa cheia tremia vergada pelas
luas frontais e veementes a os sóis astrológicos.
E estas aram as visões, os maus símbolos
Perigosos: a demência, a nudez, o dom,
O hipnotismo, o terror, o transe, a graça terrestre
e hermética.
Sob o choque do ouro estagnado no tórax
com a camélia radial explodindo,
a brancura ameaçava cada morte.
— Violência, claridade, sobressalto.
o espelho é uma chama cortada, um astro.
E há uma criança perpétua, por dentro, quando se vive em recintos
cheios de ar alumiado. De fora, arremessam-se
ás janelas
as ressacas vivas dos parques. Ela toca o nó
do espelho de onde salta
uma braçada de luz. Cada lenço que ata,
a própria seda do lenço
o desata. E o rosto que jorra do espelho
volta aos centros
arteriais.
Todos os anos fundos, essa extensa criança
sente brotar da terra como as árvores
do petróleo
a peste bubónica, fina na temperatura, alastrada nos bordados
das paredes ou nas crateras da cama. Os lençóis
nascem do linho que trepida
no abismo da terra, das sementes abraçadas pelas ramas
das nebulosas.
É perfeito o espelho quando apanha
um rosto nuclear.
Morre-se muito mais em cada doença, nesses
apartamentos que as noites sufocam
nos braços de mármore.
A energia das jóias.
O nó do sexo no espelho, as chamas agarradas
entre o umbigo e o ânus.
Esse trabalho da claridade quando as válvulas
se destapam.
Correntes atómicas passam de lado a lado.
E ficam os buracos furiosos por onde o mundo
sopra
um meteoro a jacto, uma cara.
Os jardins deslocam-se através de si próprios
com as centelhas, defronte
das planas constelações dos espelhos.
E então, na assimetria severa, ela amaria
transformar-se, súbita e solar — equinocialmente no espelho o relâmpago
côncavo de um girassol
espacial. Que sai assim do corpo: os filões arrancados
desse mesmo espelho.
E ela imagina na teia de fogo a argila que se transmuda
em porcelana: a curva labareda de uma chávena
expelida dos fornos.
E entre guardanapos, da mesa à boca,
arde em seu anel de estrela metalúrgica
a colher em órbita
— a assombrosa força terrestre da chávena.
E a infância desaparece nas funduras das casas,
nos jardins envoltos em nebulosas. O corpo
com os electrões fechados.
o rosto espera no seu abismo animal.
Vejo agora os estúdios enclavinhados na luz. Depois,
serão aspirados pelas ressacas
das trevas.
E a serpente dorme e fulgura entrançada nos braços.
O génio das coisas é baixo como o ouro
amarrado
em torno do sexo.
E nas cavernas de coral vivente pulsam
os animais dos horóscopos
— andróginos, lunáticos —
de cabeças trepanadas por radiações de urânio, movendo-se
com as lentas sedas dos corpos
pelos sóis à frente e as luas
deitadas. E as pupilas ferozes dos mortos contemplam
o brilho dos meus poros, o pénis
entre as centelhas da minha pele de vitelo
brando.
A voz ascende como um membro das suas tramas de sangue.
Desenvolvem-se nas noites descentradas
estes quartos engrandecidos
pelo jorro incendiário. Tocam o meio do mundo
com os raios.
São opacos, vulcânicos.
De anel para anel, a garganta por onde o corpo
Se arranca de dentro.
Rosas expiram pelo intenso orifício no meio. As massas de cristal dos
quartos
planetários
Ele queria coar na cabeça da mulher aprofundada
uma labareda,
a luz fundida nas clareiras.
Tocava-lhe abismadamente o rosto directo, o sexo
de ouro bivalve, a jóia do ânus aberto
— negra garganta de uma camélia baixando.
Queria que ela absorvesse a radiação dos astros centrais,
o oxigénio a entrelaçar-se no interior das constelações da carne.
E que o membro do corpo inteiro se embrenhasse
no sangue
que a ligava dentro de estrela a estrela
por grandes fibras
vibrantes.
Os sexos fechados pelas bocas claras, que tudo
luzisse anelarmente
— e o poder corresse neles, incessante, num insondável
quarto,
as imagens alinhando-se
num incêndio:
gárgulas, máquinas redondas, os rostos giratórios.
E que em noites soldadas pela respiração nó a nó,
sobre lençóis brilhando no seu arrepio de ouro,
num sítio de toda a idade com seus animais
enredados, estremecessem
as roseiras de onde as rosas sorvem o suspiro
subterrâneo, o intrínseco movimento
atónito.
E então a antiga criança estelar pulsava nele com o oxigénio
No extremo dos cordões maternos, soprada interiormente
pela claridade dos órgãos
afinados
na dor e na paixão —
suas casas astrológicas movidas pelo fogo baixo
e em cima
pelo ar muito alto.
A doçura, a febre e o medo sombriamente agravam
um forte jardim nos limites
da luz olhada. O mel dói, o sangue
assalta, o espelho recua até às costas. Também no interior
do mundo pesa e palpita um punhado
de pérolas. Que a infância é estranha, é uma doença imóvel.
Tem um íman no meio.
Não é doce usar a paixão do medo, esta
maneira de tocar no ouro escurece as mãos.
Há crianças que apanham completamente a maçã
caída no sono: morrem
no coração fotográfico.
Porque as labaredas se despenharam nos espelhos.
O fogo moveu essa fruta fechada, estrelas
congenitais
voltaram-se por dentro
das crisálidas.
Entra uma nuvem se as crianças se afastam,
ou reflui a ofuscante madeira
dos armários, ou são os lençóis que se arrepiam
arrastados
pela voltagem dos astros. De baixo para o alto,
um incêndio artesiano,
um enxame de rosas ferozes.
A infância é central como os ramais da água
circulando na pedra.
Ou a ilha atravessada pela volta
Dos ecos. Ou a primavera escoada. Ou a espuma que rebenta
Na fotografia retendo o mundo
direito.
Através da infância vêem-se os dias botânicos
aumentados
e os planetas de mármore ascendendo nos quartos e os fotões
das abelhas.
É um modo límpido de voltar a cabeça
para as grutas de ouro, ou expor
o ânus branco,
ou aproximar ainda o coração dos ávidos
sorvedouros da noite.
Os mortos reluzem nas cavernas, os nossos mortos
de corpo fechado pela perfeição das lágrimas.
Seus órgãos sustidos têm o peso
das jóias.
Porque a infância é uma visão terrífica, hipnótica.
Um transe, os olhos que se tornam secretos, o extremo lunar da casa
— pedra queimada no centro
da terra.
Tomo o poder nas mãos dos animais — quer dizer:
a força quando se soltam as labaredas
dos abismos dos quartos.
Tudo se agarra no instante em que
a casa
dorme no centro ateado. Chegar
muito lentamente e arrancar a maçã,
a mais limpa chama coada pela árvore.
A energia das lunações reflui nos nervos
do espelho,
e a queimadura brilha
a pique — flor pulmonar moldada, e em baixo
as estrelas pontiagudas
das mãos.
Assim se reserva nos apartamentos agachados,
entre roupas deitadas, o tesouro de um rosto
soberano.
E a claridade evapora-se do cérebro, ao alto
do candelabro:
o olho activo de uma flor sonhada.
Ascendem dos abismos da elegância os mamíferos
arrebatados pela violência
astrológica. Ficam de bruços, entre pressões,
rotativos, poderosos:
fotografias cheias de ar e fogo. E usa-se a morte,
uma lembrança genial ou um absoluto
inquilinato.
- O movimento das casas com os castiçais contínuos como artérias,
Como terríveis ceptros.
Amo este verão negro com as furnas de onde se arrancam
as constelações, um jardim espasmódico
quando
se atravessam as membranas dos quartos.
Resplandeço como um cristal talhado estelarmente
na voragem entre a boca e o ânus, como os arcos de um espelho.
Toco
o nó dos favos — e ferve o mel ao cimo da haste
vertebral. Eu amo o tremor das veias que enxameiam
as tábuas, amo as colinas de aço nas paisagens.
A água sopra nas esponjas que luzem no frio caudal
secreto.
Vibra a roupa aberta ao longo das cavernas
das casas. Com seus passos de pantera
a noite avança e bate as pálpebras.
— Toda a dança atrai a força, toda a caça atrai
os bichos. Deus é atraído pelas canções venosas
com os diamantes inteiros.
Amo as cabeças, esses laços de pedra.
Respira no verão largo a flor com um feixe
de artérias.
Que eu atinja a minha loucura na sua estrela expelida
pela força dos ventrículos
por uma crua boca
animal. Nas salas reflectindo os jardins
a reluzir
com as cadeiras e as mesas sobre as patas de madeira,
nos precipícios das casas.
— E atrás, a queimadura do rosto
repentinamente
selado.
Eu brilho nos corredores,
entre os renques das folhagens e a fogueira de bestas
terrestres. Encandeia-me a fundura dos armários
que se ateiam
pela tensão das roupas encurvadas. Eu amo
o ouro baixo nas chamas do dançarino aberto
entre a boca e o ânus.
As pedras fizeram agora os seus laços.
E as luvas vermelhas do escafandrista explodem nas câmaras.
— Um bicho em lágrimas, a casa atravessada pelas correntes
da paisagem de água, a criança
aurífera
direita nos recantos dos quartos com um olho radial,
um espinho de mármore implantado
na testa sumptuosa.
E sobe a estrela terrestre
com a placenta assente
nos feixes desde o umbigo até aos cornos.
Eu trouxe serpentes de onde a luz mais ferve,
arranquei-as ao mel, eu, criança
de boca truculenta, alumiada, bivalve. Nunca vi água
que não varasse as casas
de lado a lado. Pulsam em mim os fulcros
do sal, os cactos.
Quando a paisagem sopra pelas janelas, durmo
olhando
os centros memoriais. Deu-me a inteligência
aquilo que toquei: o pénis que vem desde os astros das costas,
os ovos no fundo dos alvéolos, as pálpebras
negras. Somente o mundo
é uma coisa sonora. E eu estou soldado por cada laço da carne
aos laços
das constelações. E das cavernas, onde
suas garras se prendem como pólipos,
e através da minha roupa,
fitam
o espelho: sangue e ouro
e cálcio e mel
brilhando. Porque o corpo é uma gruta de onde saltam
os sóis, uma insónia que liga
o dia ao dia,
pelos jardins trespassando os estúdios
ainda imóveis, dentro das portas fechadas pelos próprios
astros brancos.
Deixarei os jardins a brilhar com seus olhos
Detidos: hei-de de partir quando as flores chegarem
a sua imagem. Este verão concentrado
em cada espelho. O próprio
movimento o entenebrece. Chamejam os lábios
dos animais. Deixarei as constelações panorâmicas destes dias
internos.
Vou morrer assim, arfando
entre o mar fotográfico
e côncavo
e as paredes com as pérolas afundadas. E a lua desencadeia nas grutas
o sangue que se agrava.
Está cheio de candeias, o verão de onde se parte,
ígneo nessa criança
contemplada. Eu abandono estes jardins
ferozes, o génio
que soprou nos estúdios cavados. É a dor que me leva
aos precipícios de agosto, a mansidão
traz-me ás janelas. São únicas as colinas de ar
palpitando fechado no espelho. É a estação dos planetas.
Cada noite é um abismo atómico.
E o leite faz-se tenro durante
os eclipses. Batem em mim as pancadas do pedreiro
que talha no cálcio a rosa congenital.
A carne, sufocam-na os astros profundos nos casulos.
O verão é de azulejo.
É em nós que se encurva o nervo do arco
contra a flecha. Deus ataca-me
na candura. Fica, fria,
esta rede de jardins diante dos incêndios. E uma criança
dá a volta à noite, acesa completamente
pelas mãos.
Ruy Belo
Cadernos de Poesia - Cólofon ou Epitáfio
e muitas horas o dia
todo o tempo se lhe ia
em polir o seu poema
a melhor coisa que fez
ele próprio coisa feita
Ruy Belo, portugalês
Não seria mau rapaz
quem tão ao comprido jaz
Ruy Belo, era uma vez
Al Berto
Encomenda Postal
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica
depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu
e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta
Al Berto
Encomenda Postal
no segredo mineral da noite
com um lápis e uma máquina fotográfica
depois
fica atento ao correio
do secular laboratório nocturno enviar-te-ei
devidamente autografado
o retrato da solidão que te pertenceu
e numa encomenda à parte receberás
a revelação desta arte
onde a vida cinzelou o precário corpo
na luz afiada de um vestígio de tinta
Aníbal Machado
A Casa Rouca
Ficara o galo, sobrevivência da ruína.
Rouco o seu canto. Canto que não parecia mais de galo, senão a própria voz da casa abandonada. Casa rachada ao sol, aluindo-se ao vento de chuva.
Não mais agora figuras humanas entrando; apenas lagartixas e morcegos para recepção às sombras.
Casa rouca submersa no matagal, teu galo ficou. E seu canto perdeu o timbre de sol, já não inaugura os dias. E se fez adequado aos estragos do reboco, à podridão das esquadrias – última secreção de pareces gemidas.
Galo rouco. Casa rouca.
Sophia de Mello Breyner Andresen
Assim o Amor
Espantando meu olhar com teus cabelos
Espantando meu olhar com teus cavalos
E grandes praias fluidas avenidas
Tardes que oscilavam demoradas
E um confuso rumor de obscuras vidas
E o tempo sentado no limiar dos campos
Com seu fuso sua faca e seus novelos
Em vão busquei eterna luz precisa
Sophia de Mello Breyner Andresen
Manhã
Em vão busquei meu pranto e minha sombra
*
O perfume do orégão habita rente ao muro
Conivente da seda e da serpente
*
No meio-dia da praia o sol dá-me
Pupilas de água mãos de areia pura
*
A luz me liga ao mar como a meu rosto
Nem a linha das águas me divide
*
Mergulho até meu coração de gruta
Rouco de silêncio e roxa treva
*
O promontório sagra a claridade
A luz deserta e limpa me reúne
Al Berto
é no silêncio
que melhor ludibrio a morte
não
já não me prendo a nada
mantenho-me suspenso neste fim de século
reaprendo os dias para a eternidade
porque onde termina o corpo deve começar
outra coisa outro corpo
ouço o rumor do vento
vai
alma vai
até onde quiseres ir
Maria Manuela Margarido
Paisagem
do negro reluzente
a caminho do terreiro.
Papagaios cinzentos
explodem na crista das palmeiras
e entrecruzam-se no sonho da minha infância,
na porcelana azulada das ostras.
Alto sonho, alto
como o coqueiro na borda do mar
com os seus frutos dourados e duros
como pedras oclusas
oscilando no ventre do tornado,
sulcando o céu com o seu penacho
doido.
No céu perpassa a angústia austera
da revolta
com suas garras suas ânsias suas certezas.
E uma figura de linhas agrestes
se apodera do tempo e da palavra.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Sol o Muro o Mar
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e atentos: silêncio vigiando o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte, os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa — tinta que se despinta — porta aberta para o pátio de chão verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de manchas nebulosas e sonhadoras.
A porta desenha sua forma perfeita à medida do homem: as cores do cortinado de fitas contam a nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do homem.
No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do lugar sagrado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Sol o Muro o Mar
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e atentos: silêncio vigiando o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte, os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa — tinta que se despinta — porta aberta para o pátio de chão verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de manchas nebulosas e sonhadoras.
A porta desenha sua forma perfeita à medida do homem: as cores do cortinado de fitas contam a nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do homem.
No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do lugar sagrado.
Sophia de Mello Breyner Andresen
O Sol o Muro o Mar
Pequenas cidades: muros caiados e recaiados para manter intacto o alvoroço do início.
Ruas metade ao sol metade à sombra.
Janelas com as portadas azuis fechadas: violento azul sem nenhum rosto.
Lugares despovoados, labirinto deserto: ausência intensa como o arfar de um toiro.
Exterior exposto ao sol, senhor dos muros dos pátios dos terraços.
Obscuros interiores rente à claridade, secretos e atentos: silêncio vigiando o clamor do sol sobre as pedras da calçada.
Diz-se que para que um segredo não nos devore é preciso dizê-lo em voz alta no sol de um terraço ou de um pátio.
Essa é a missão do poeta: trazer para a luz e para o exterior o medo.
Muros sem nenhum rosto morados por densas ausências.
Não o homem mas os sinais do homem, a sua arte, os seus hábitos, o seu violento azul, o espesso amarelo, a veemência da cal.
Muro de taipa que devagar se esboroa — tinta que se despinta — porta aberta para o pátio de chão verde: soleira do quotidiano onde a roupa seca e espaço de teatro. Mas também pórtico solene aberto para a vida sagrada do homem.
Muro branco que se descaia e azula irisado de manchas nebulosas e sonhadoras.
A porta desenha sua forma perfeita à medida do homem: as cores do cortinado de fitas contam a nostalgia de uma festa.
Lá dentro a penumbra é fresca e vagarosa.
Nenhum rosto, nenhum vulto.
As marcas do homem contando a história do homem.
No promontório o muro nada fecha ou cerca.
Longo muro branco entre a sombra do rochedo e as lâmpadas das águas.
No quadrado aberto da janela o mar cintila coberto de escamas e brilhos como na infância.
O mar ergue o seu radioso sorrir de estátua arcaica.
Toda a luz se azula.
Reconhecemos nossa inata alegria: a evidência do lugar sagrado.
Casimiro de Abreu
Segredos
Nos tempos antigos! — Amar não faz mal;
As almas que sentem paixão como a minha
Que digam, que falem em regra geral.
— A flor dos meus sonhos é moça e bonita
Qual flor entreaberta do dia ao raiar,
Mas onde ela mora, que casa ela habita,
Não quero, não posso, não devo contar!
Seu rosto é formoso, seu talhe elegante,
Seus lábios de rosa, a fala é de mel,
As tranças compridas, qual livre bacante,
O pé de criança, cintura de anel;
— Os olhos rasgados são cor das safiras,
Serenos e puros, azuis como o mar;
Se falam sinceros, se pregam mentiras,
Não quero, não posso, não devo contar!
Oh! ontem no baile com ela valsando
Senti as delícias dos anjos do céu!
Na dança ligeira qual silfo voando
Caiu-lhe do rosto seu cândido véu!
— Que noite e que baile! — Seu hálito virgem
Queimava-me as faces no louco valsar,
As falas sentidas que os olhos falavam
Não posso, não quero, não devo contar!
Depois indolente firmou-se em meu braço,
Fugimos das salas, do mundo talvez!
Inda era mais bela rendida ao cansaço,
Morrendo de amores em tal languidez!
— Que noite e que festa! e que lânguido rosto
Banhado ao reflexo do branco luar!
A neve do colo e as ondas dos seios
Não quero, não posso, não devo contar!
A noite é sublime! — Tem longos queixumes,
Mistérios profundos que eu mesmo não sei:
Do mar os gemidos, do prado os perfumes,
De amor me mataram, de amor suspirei!
— Agora eu vos juro... Palavra! — não minto!
Ouvi-a formosa também suspirar;
Os doces suspiros que os ecos ouviram
Não quero, não posso, não devo contar!
Então nesse instante nas águas do rio
Passava uma barca, e o bom remador
Cantava na flauta: — "Nas noites d'estio
O céu tem estrelas, o mar tem amor!" —
— E a voz maviosa do bom gondoleiro
Repete cantando: — "viver é amar!" —
Se os peitos respondem à voz do barqueiro...
Não quero, não posso, não devo contar!
Trememos de medo... a boca emudece
Mas sentem-se os pulos do meu coração!
Seu seio nevado de amor se entumece...
E os lábios se tocam no ardor da paixão!
— Depois... mas já vejo que vós, meus senhores,
Com fina malícia quereis me enganar.
Aqui faço ponto; — segredos de amores
Não quero, não posso, não devo contar!
Rio, 1857
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Publicado no livro As primaveras (1859). Poema integrante da série Livro II.
In: GRANDES poetas românticos do Brasil. Pref. e notas biogr. Antônio Soares Amora. Introd. Frederico José da Silva Ramos. São Paulo: LEP, 1959. v.
Alda Lara
Presença Africana
ainda sou a mesma!
Livre esguia,
filha eterna de quanta rebeldia
me sagrou.
Mãe-África!
Mãe forte da floresta e do deserto,
ainda sou,
a Irmã-Mulher
de tudo o que em ti vibra
puro e incerto...
A dos coqueiros,
de cabeleiras verdes
e corpos arrojados
sobre o azul...
A do dendém
nascendo dos abraços das palmeiras...
A do sol bom, mordendo
o chão das Ingombotas...
A das acácias rubras,
salpicando de sangue as avenidas,
longas e floridas...
Sim!, ainda sou a mesma.
A do amor transbordando
pelos carregadores do cais
suados e confusos,
pelos bairros imundos e dormentes
(Rua 11!...Rua 11!...)
pelos meninos
de barriga inchada e olhos fundos...
Sem dores nem alegrias,
de tronco nu e musculoso,
a raça escreve a prumo,
a força destes dias...
E eu revendo ainda, e sempre, nela,
aquela
longa história onconsequente...
Minha terra...
Minha, eternamente...
Terra das acácias, dos dongos,
dos colios baloiçando, mansamente...
Terra!
Ainda sou a mesma.
Ainda sou a que num canto novo
pura e livre,
me levanto,
ao aceno do teu povo!
Florbela Espanca
A Mulher Ii
Como sabes ser doce e desgraçada!
Como sabes fingir quando em teu peito
A tua alma se estorce amargurada!
Quantas morrem saudosas duma imagem
Adorada que amaram doidamente!
Quantas e quantas almas endoidecem
Enquanto a boca ri alegremente!
Quanta paixão e amor às vezes têm
Sem nunca o confessarem a ninguém
Doces almas de dor e sofrimento!
Paixão que faria a felicidade
Dum rei; amor de sonho e de saudade,
Que se esvai e que foge num lamento!
Ruy Belo
Atropelamento mortal
um fugitivo brilho no olhar de Deus
-a vida havia de lho lembrar muitas vezes.
Atravessou as nossas ruas entre gatos,
a chuva molhou-lhe as pobres botas cambadas.
Teve um banco de jardim, teve amigos, um deles o sol.
Sempre sem o saber procurou Deus.
Um dia foi campos fora atrás dele, perdeu o emprego
na Câmara Municipal. Teve mãe mas depois
nunca mais foi solução para ninguém.
Naquele dia a morte instalou-o
confortavelmente no céu. Lá se foi
com seus modos humanos, seus caprichos
e um notório acanhamento em público
(há-de a princípio faltar-lhe à-vontade entre os anjos).
Tinha o nome no registo, agora habita
nas planícies ilimitadas de Deus.
Nas suas costas ainda se derrama
a tarde interrompida.
Manhãs e manhãs desfilarão sobre ele,
caracóis cobrirão a memória daquele
que foi da sua infância como qualquer de nós.
Teve um nome de aqui, andou de boca em boca,
agora é Deus que para sempre o tem na voz.