Poemas neste tema
Outros
Sânzio de Azevedo
Se Procuro
Para José Valdivino
Se procuro no cérebro as imagens
que em meu olhar, há tempos, embebi,
ouço o ranger de dentes de engrenagens
a triburar os sonhos que perdi...
O que é que vim fazer nestas paragens?
Que tempestade me arrojou aqui?
Por que não me lancei noutras viagens
Já que deixei a terra onde nasci?
Tive a ambição dos nômades nos olhos!
Hoje, nem sei, cercado por escolhos,
que tempestade me arrojou aqui!
E vivo agora assim, perdido e absorto,
entre a saudade do primeiro porto
e a tentação das terras que não vi!
Se procuro no cérebro as imagens
que em meu olhar, há tempos, embebi,
ouço o ranger de dentes de engrenagens
a triburar os sonhos que perdi...
O que é que vim fazer nestas paragens?
Que tempestade me arrojou aqui?
Por que não me lancei noutras viagens
Já que deixei a terra onde nasci?
Tive a ambição dos nômades nos olhos!
Hoje, nem sei, cercado por escolhos,
que tempestade me arrojou aqui!
E vivo agora assim, perdido e absorto,
entre a saudade do primeiro porto
e a tentação das terras que não vi!
1 080
Jonas da Silva
Anátema
Pois que o Mal te fascina e os céus insultas
E não vês nas estrelas fulgurantes
Mais que rochas perdidas, que diamantes
Atirados da terra em catapultas;
Pregarás entre as gentes mais incultas
O teu Verbo de púrpuras flamantes
E em torno a Paz e o Caos, como era dantes,
E o silêncio das cousas já sepultas.
Falarás a linguagem dos videntes
E ninguém nunca há de prestar ouvido
a essas trostes parábolas gementes.
Baterás aos palácios de cem portas
Dos corações e encontrarás, vencido,
Os corações como cidades mortas.
E não vês nas estrelas fulgurantes
Mais que rochas perdidas, que diamantes
Atirados da terra em catapultas;
Pregarás entre as gentes mais incultas
O teu Verbo de púrpuras flamantes
E em torno a Paz e o Caos, como era dantes,
E o silêncio das cousas já sepultas.
Falarás a linguagem dos videntes
E ninguém nunca há de prestar ouvido
a essas trostes parábolas gementes.
Baterás aos palácios de cem portas
Dos corações e encontrarás, vencido,
Os corações como cidades mortas.
1 057
Jonas da Silva
Anátema
Pois que o Mal te fascina e os céus insultas
E não vês nas estrelas fulgurantes
Mais que rochas perdidas, que diamantes
Atirados da terra em catapultas;
Pregarás entre as gentes mais incultas
O teu Verbo de púrpuras flamantes
E em torno a Paz e o Caos, como era dantes,
E o silêncio das cousas já sepultas.
Falarás a linguagem dos videntes
E ninguém nunca há de prestar ouvido
a essas trostes parábolas gementes.
Baterás aos palácios de cem portas
Dos corações e encontrarás, vencido,
Os corações como cidades mortas.
E não vês nas estrelas fulgurantes
Mais que rochas perdidas, que diamantes
Atirados da terra em catapultas;
Pregarás entre as gentes mais incultas
O teu Verbo de púrpuras flamantes
E em torno a Paz e o Caos, como era dantes,
E o silêncio das cousas já sepultas.
Falarás a linguagem dos videntes
E ninguém nunca há de prestar ouvido
a essas trostes parábolas gementes.
Baterás aos palácios de cem portas
Dos corações e encontrarás, vencido,
Os corações como cidades mortas.
1 057
Leopoldo Brígido
Visão Noturna
Como surge do linho alvo e fragrante
Esplêndida mulher formosa e nua,
Já despida das brumas do Levante
Pálida e bela me parece a Lua.
Sobe, forma de sonho deslumbrante,
No manso lago sideral flutua,
E límpido lhe brilha o corpo amante,
E o seio à tepidez da vaga estua.
Avança sem temor, Náiade ousada,
Serenamente, airosamente nada,
E as mansas vagas osculando-a pelas
Úmidas pomas, pela espádua albente,
Ela vai-se, enredada docemente
Nos nenúfares brancos das estrelas.
Esplêndida mulher formosa e nua,
Já despida das brumas do Levante
Pálida e bela me parece a Lua.
Sobe, forma de sonho deslumbrante,
No manso lago sideral flutua,
E límpido lhe brilha o corpo amante,
E o seio à tepidez da vaga estua.
Avança sem temor, Náiade ousada,
Serenamente, airosamente nada,
E as mansas vagas osculando-a pelas
Úmidas pomas, pela espádua albente,
Ela vai-se, enredada docemente
Nos nenúfares brancos das estrelas.
945
João Quental
Aurora
"vôo sem pássaro dentro"
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
(Adolfo Casais Monteiro)
Não há dinheiro, vai-te embora, porque o telefone
não toca, alta madrugada? sei acordaria a famí1ia
que cavou um buraco na noite e não pode ser
incomodada mesmo que às vezes a fumaça histérica do
cigarro torne o nosso sono rancoroso dúbio estivemos
a conversar não adiantou nada novidades?
Não há dinheiro pois não venha quando quiser
amo-te com decepção nem tive o que olhei
em teus olhos resgatados, vírgulas para os amores,
assim não virão roer todos ao mesmo tempo
e o que peço é alguma coisa o que é eu não sei.
Não há dinheiro se o antes foi velho e o
depois pacífica compreensão difícil conhecer-te
os desejos de cegueira em cegueira permaneço
inocente esta raiva contra quem perguntaria
estamos aqui mas a vigília cansa dirige?
Vai, adormece logo, quantas vezes será
preciso dizer-te não sairei mais estou feliz
vigiarei ainda a porta a tranca não foi esquecida
desaconselho, qualquer, rancores, dorme, anos
gastei esperando, reuniu meus papéis velhos.
Vai, onde puseste as mãos nasceu logo
um segredo indócil quantas tardes lerás
essas bobagens boa literatura aqui no
canto da estante deves tentar o mundo
se vinga a gratidão teu prazer não é o meu.
Vai, ver-se doido é um despropósito e
não chegaremos a nos divertir sempre alguém
aparece sem dúvida cansaço homenagens constantes
ao mesmo deus assíduo irei só mas espero
concluir algo nem que seja fim nem que durma.
Não há noite que não acabe em
um final nada impede os finais a
escuridão é prévia mas não interessa
povoamos, cálculo puro, de civilizadas estrelas
os olhos desse pássaro morto em viagem.
(1989)
805
Madi
Espelho
Espelho
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
Chegará o tempo
em que irão olhar e enxergar em mim o seu rosto
Chegará o tempo
em que eu não vou precisar dizer o meu nome:
o seu estará escrito em minha vida,
claro, exposto, legível
949
João Quental
Cartas
Para Alejandra Pizarnick
1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.
2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.
3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.
4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.
5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]
6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.
7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.
(1987)
1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.
2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.
3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.
4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.
5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]
6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.
7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.
(1987)
782
João Quental
Cartas
Para Alejandra Pizarnick
1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.
2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.
3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.
4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.
5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]
6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.
7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.
(1987)
1.
Tua rosa é rosa.
A nossa, quem poderá dizer?
Não é o problema: são as palavras.
2.
Algumas palavras são tão preciosas
como distinguir nosso nome
entre duas pessoas que murmuram.
3.
Frio é o lugar onde se forma o pensamento.
Entre gestos elementares, um jardim inacessível.
Frias eram as horas.
4.
É triste possuir um corpo e não possuí-lo.
Nevoada, triste quando você sorri.
E quando não.
5.
quando a noite estiver em minha memória
minha memória será noite]
6.
Uma mulher de noites.
Flutuar e escolher. Exí1io estranho.
7.
Golpeando à esmo - inadequada enquanto música.
(1987)
782
Leopoldo Brígido
Dona Inês de Castro
Cai a tarde. Na quieta soledade
Do prado em flor, a sombra lentamente
Se espalha, e Dona Inês de Castro sente
Na alma subir-lhe uma onda de saudade.
Vai sozinha a cismar. Do Infante ausente
Doce lembrança o coração lhe invade:
Suspira, e suas mãos com suavidade
Colhem cecéns e rosas juntamente.
Senta-se à beira do Mondego. Mira
O rosto na água, e pétalas atira
À água, que manso e manso se renova...
E vê-se, imagem na água mergulhada,
De cecéns e de rosas coroada,
Já Rainha, no fundo de uma cova!
Do prado em flor, a sombra lentamente
Se espalha, e Dona Inês de Castro sente
Na alma subir-lhe uma onda de saudade.
Vai sozinha a cismar. Do Infante ausente
Doce lembrança o coração lhe invade:
Suspira, e suas mãos com suavidade
Colhem cecéns e rosas juntamente.
Senta-se à beira do Mondego. Mira
O rosto na água, e pétalas atira
À água, que manso e manso se renova...
E vê-se, imagem na água mergulhada,
De cecéns e de rosas coroada,
Já Rainha, no fundo de uma cova!
983
Leal de Souza
A Dama de Luto
Entre as musas e ao som das liras, na negrura
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
771
Leal de Souza
A Dama de Luto
Entre as musas e ao som das liras, na negrura
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
Das vestes retratando a dor a que está presa,
Sob o teto feliz da glória e da beleza,
Encontrei, linda e grave, essa nobre figura...
Em seu lábio o ouro vibra e, olente, a voz fulgura,
E sua alma, em clarões espirituais acesa,
Põe, como halos de sombra, auréolas de tristeza
A cabeça pagã da imortal formosura.
Dela, que o agro pesar consola a quem a aviste,
—Fora do mundo, além da vida, sob a Terra,
Na escura paz da morte o bem mais alto existe.
E porque eu meço o horror de suas mágoas, — erra
O meu vulto espectral de cavaleiro triste,
Nas paisagens cristãs que o seu olhar encerra.
771
Jonas da Silva
Vesperal
Erma tarde litúrgica em declínio...
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
O apunhalado príncipe sanguíneo.
Que na terra haja o luto, haja o assassínio
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto à corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.
Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,
Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.
Há no espaço uma estranha barcarola
E o cadáver do Sol em nuvens rola,
O apunhalado príncipe sanguíneo.
Que na terra haja o luto, haja o assassínio
Mas ao crente amedronta e desconsola
O crime junto aos céus, junto à corola
Das estrelas — as rosas de alumínio.
Logo depois que os mármores vetustos
Desças, ó Noite, do pesar, dos sustos,
Depois que as asas de albatroz envergues,
Há de a Lua surgir pálida e etérea,
A Lua, a triste lâmpada sidérea,
O sorriso do azul para os albergues.
1 180
Madi
Procuro
Procuro
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
Da janela eu procuro um ponto
Procuro sua direção e não vejo
Meus olhos atravessam os postes,
os muros, as ruas,
vazam as fibras, os vidros, os prédios
Mas minha vista não te alcança
Para que lado fica a minha vida?
As luzes de longe são pequeninas
e através delas nada de ti eu avisto
Elas não me apontam os campos
E os campos alheios que me habitam
são sempre os mais belos
904
Jonas da Silva
Coração
Meu coração é um velho alpendre em cuja
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.
Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.
Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,
Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!
Sombra se escuta pela noite morta
o som de um passo e o gonzo de uma porta
Que a umidade dos tempos enferruja.
Quem vai passando pela estrada torta
Que leva ao alpendre, dessa estrada fuja!
Lá só se encontra a fúnebre coruja
E a Dor, que a prece ao caminhando exorta.
Se um dia abrindo o casarão sombrio
Um abrigo buscasses contra o frio
E entrasses, doce criatura langue,
Fugirias tremente vendo a um lado
A Crença morta, o Sonho estrangulado
E o cadáver do Amor banhado em sangue!
1 823
João Quental
Natureza Morta
Quando o horror estanca as feridas da noite
A morte, emaranhado tecido de escuridão,
Passeia seus cabelos por entre as árvores.
O abandono
Pisam macios os pés no quarto de dormir:
na sala
Desmoronam, palidamente,
as flores do vaso.
(1989)
A morte, emaranhado tecido de escuridão,
Passeia seus cabelos por entre as árvores.
O abandono
Pisam macios os pés no quarto de dormir:
na sala
Desmoronam, palidamente,
as flores do vaso.
(1989)
935
Moranno Portela
Maturidade
Tudo finda.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.
Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.
Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.
Tudo um dia finda
e nem percebemos
essa morte súbita
e escorregadia a carcomer
os nervos do que foi espanto.
Vem desde antes
mesmo ainda antes
da elaboração do existir
esse morrer constante
que dá-se à vida.
Vida:
nome tanto para
tão pouca fruta
que não cessa de madurar seu fruto
e infalível apodrecer
em semente.
960
Leão Vasconcelos
In Solitudine
Quando o jardim se ensombra e a noite desce,
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
Deste fogo, que em vão julguei sepulto,
Sinto que a extinta chama reaparece...
E o incenso em espirais sobe a teu culto...
Desde que vi o teu sereno vulto
Vivo assim, de mãos postas, numa prece!
Mas enquanto por ti anseio e exulto,
— Teu corpo — imenso lírio — alto, floresce...
Passaste em tua glória e não me viste.
E hoje até mesmo do meu ser prescindo
Para rever-te o olhar sereno e triste.
E por te desejar numa ânsia louca,
À noite sonho que tu vens sorrindo
Povoar de beijos minha fria boca...
878
Nana Corrêa de Lima
São Tomé das Letras
São Tomé das Letras
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
1 476
Nana Corrêa de Lima
São Tomé das Letras
São Tomé das Letras
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
Me calo frente ao teu verde.
Pedra ramada verde-amarela.
Fonte telúrica,
No seio da serra.
1 476
Madi
Eu sei
Eu sei
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
Toda mulher sabe os limites do seu amor
O meu é daqueles que parece não ter fim
Sobrevive a mares, tempestades, invernadas
e a longos períodos de estiagem
Toda mulher sabe os limites do seu amor
E o meu é daqueles que resiste à luz ou à escuridão,
à paz ou à guerra
Não é um amor resignado
É daqueles que a gente carrega anos e anos a fio e nem sente o fardo
689
Mário da Silveira
Coroa de Rosas e de Espinhos
Sedenta de ódio, cega de despeito,
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.
Dizem: "Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, — porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.
Um grande amor é corno o resto... A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão da ignota chama."
Eu sei que tudo é como o fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia mais para quem ama.
Nesta penosa e transitória lida,
A alma dos homens, pérfida e atrevida,
Perde às cousas mais nobres o respeito.
Dizem: "Tudo o que sentes no teu peito
Há de um dia passar, — porque na vida
Tudo é incenso sutil, poeira diluída,
O que é terreno é efêmero e imperfeito.
Um grande amor é corno o resto... A gente
Quando menos espera, logo sente
Apagar-se o clarão da ignota chama."
Eu sei que tudo é como o fumo leve:
Foge: mas, porque a vida seja breve,
Há sempre um dia mais para quem ama.
1 326
Madi
Cacto e Violeta
Cacto e Violeta
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
Ele se parece com as violetas, pela delicadeza
E eu com os cactos, mais pelos espinhos do que pela resistência
Não sabia que cactos pudessem amar tanto as violetas
Mas cacto, por amor, também muda a natureza
Aprende a podar seus espinhos
para encurtar o caminho entre ele e as violetas
1 210
Maranhão Sobrinho
Equatorial
Bóiam verdes lodões no lago quieto em frissos
de topázio. Flechando as ralas talagarças
dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços
dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.
Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços
soberbos, o esplendor das aquáticas sarças
beira o líquido espelho em que, de espantadiços
olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.
Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos
de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes
de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.
E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,
rojando-se em espirais de gelatina, enormes
arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...
de topázio. Flechando as ralas talagarças
dos ramos vibram, no ar, os vírides caniços
dos juncos. Funde a luz as nuvens de oiro esgarças.
Sobre o lodo escorrega o musgo a renda. Em viços
soberbos, o esplendor das aquáticas sarças
beira o líquido espelho em que, de espantadiços
olhos, banham-se, ao sol, as branquicentas garças.
Trapejam no horizonte uns trêmulos farrapos
de púrpura. Banando, entre os juncos, disformes
de luxúria, a coaxar, pulam, glabros, os sapos.
E, na lama, que a lesma azul meandra de rugas,
rojando-se em espirais de gelatina, enormes
arrastam-se, pulsando, as moles sanguessugas...
1 676