Poemas neste tema
Outros
Leão Vasconcelos
Canto do Peregrino
Para louvar-te
Em versos de arte
A estreme beleza,
Vim de longe — ó Princesa!
Chegou no meu tugúrio a fama de teu nome!
E eu parti, lira às mãos, ardendo em sede e fome,
Para ver-te e contar a todos os mortais
A beleza sem par de teus olhos fatais,
Do teu perfil sereno de medalha,
Do teu sorriso trêmulo e divino...
Acolhe a prece, pois, do peregrino...
Vim de longe e parei ante a forte muralha
Do teu castelo, o rosto exangue...
Em sangue da jornada os pés, as mãos em sangue
E exposto ao vento e à chuva espero que apareça
O sol para esfolhar sobre a tua cabeça
As rosas que colhi rio meu triste caminho,
Deixando algo de mim em cada espinho
Por onde, só, passei, deslumbrado a cantar
Atrás de uma quimera...
E, ó Princesa! já choram, a tua espera
os meus olhos cansados de sonhar...
Em versos de arte
A estreme beleza,
Vim de longe — ó Princesa!
Chegou no meu tugúrio a fama de teu nome!
E eu parti, lira às mãos, ardendo em sede e fome,
Para ver-te e contar a todos os mortais
A beleza sem par de teus olhos fatais,
Do teu perfil sereno de medalha,
Do teu sorriso trêmulo e divino...
Acolhe a prece, pois, do peregrino...
Vim de longe e parei ante a forte muralha
Do teu castelo, o rosto exangue...
Em sangue da jornada os pés, as mãos em sangue
E exposto ao vento e à chuva espero que apareça
O sol para esfolhar sobre a tua cabeça
As rosas que colhi rio meu triste caminho,
Deixando algo de mim em cada espinho
Por onde, só, passei, deslumbrado a cantar
Atrás de uma quimera...
E, ó Princesa! já choram, a tua espera
os meus olhos cansados de sonhar...
1 066
Leão Vasconcelos
Canto do Peregrino
Para louvar-te
Em versos de arte
A estreme beleza,
Vim de longe — ó Princesa!
Chegou no meu tugúrio a fama de teu nome!
E eu parti, lira às mãos, ardendo em sede e fome,
Para ver-te e contar a todos os mortais
A beleza sem par de teus olhos fatais,
Do teu perfil sereno de medalha,
Do teu sorriso trêmulo e divino...
Acolhe a prece, pois, do peregrino...
Vim de longe e parei ante a forte muralha
Do teu castelo, o rosto exangue...
Em sangue da jornada os pés, as mãos em sangue
E exposto ao vento e à chuva espero que apareça
O sol para esfolhar sobre a tua cabeça
As rosas que colhi rio meu triste caminho,
Deixando algo de mim em cada espinho
Por onde, só, passei, deslumbrado a cantar
Atrás de uma quimera...
E, ó Princesa! já choram, a tua espera
os meus olhos cansados de sonhar...
Em versos de arte
A estreme beleza,
Vim de longe — ó Princesa!
Chegou no meu tugúrio a fama de teu nome!
E eu parti, lira às mãos, ardendo em sede e fome,
Para ver-te e contar a todos os mortais
A beleza sem par de teus olhos fatais,
Do teu perfil sereno de medalha,
Do teu sorriso trêmulo e divino...
Acolhe a prece, pois, do peregrino...
Vim de longe e parei ante a forte muralha
Do teu castelo, o rosto exangue...
Em sangue da jornada os pés, as mãos em sangue
E exposto ao vento e à chuva espero que apareça
O sol para esfolhar sobre a tua cabeça
As rosas que colhi rio meu triste caminho,
Deixando algo de mim em cada espinho
Por onde, só, passei, deslumbrado a cantar
Atrás de uma quimera...
E, ó Princesa! já choram, a tua espera
os meus olhos cansados de sonhar...
1 066
Madi
Príncipe
Príncipe
Eu sou uma mulher moderna, mas que ainda acredita em príncipes
Não sou nenhuma princesa, mas tenho um príncipe
O meu gosta de bebidas amargas,
não tem cavalo branco, tem mais de meio século
e os meus olhos o enxergam na flor da idade
Ele gosta de vinho. Eu gosto do príncipe
e tudo nele vale o meu carinho
Meu príncipe é o homem menos moderno que eu conheço
Sua pressão é alta, sua alegria é contida,
mas ao lado dele eu me sinto solta
como quando soltos ficam os laços de fita
Ele não tem alma de artista
Veste a cara do Poder mais sizudo da República
mas é meigo como todo príncipe deve ser
e tem voz doce como todos devem ter
Vejo meu príncipe, assim, com os olhos da paixão
Dele sou tão dependente e carente
que, ao meu coração, até o seu silêncio é eloqüente
Eu sou uma mulher moderna, mas que ainda acredita em príncipes
Não sou nenhuma princesa, mas tenho um príncipe
O meu gosta de bebidas amargas,
não tem cavalo branco, tem mais de meio século
e os meus olhos o enxergam na flor da idade
Ele gosta de vinho. Eu gosto do príncipe
e tudo nele vale o meu carinho
Meu príncipe é o homem menos moderno que eu conheço
Sua pressão é alta, sua alegria é contida,
mas ao lado dele eu me sinto solta
como quando soltos ficam os laços de fita
Ele não tem alma de artista
Veste a cara do Poder mais sizudo da República
mas é meigo como todo príncipe deve ser
e tem voz doce como todos devem ter
Vejo meu príncipe, assim, com os olhos da paixão
Dele sou tão dependente e carente
que, ao meu coração, até o seu silêncio é eloqüente
953
Mário Linhares
Antífona
Musa, chega-te a mim! Despe o manto inconsútil
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
876
Mário Linhares
Antífona
Musa, chega-te a mim! Despe o manto inconsútil
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
876
Mário Linhares
Antífona
Musa, chega-te a mim! Despe o manto inconsútil
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
876
Mário Linhares
Antífona
Musa, chega-te a mim! Despe o manto inconsútil
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
E, com a nudez pagã de uma Vênus de Milo,
Modela a frase heril no mármore do Estilo,
Na Harmonia orquestral da estrofe egrégia e dútil.
Traze a tua energia ao meu esforço inútil
Dando a cada hemistíquio a sonância de um trilo,
E faze imune passe o Verso que burilo
À baba do invejoso e à crítica do Fútil.
Toma do bloco informe e empunha, em febre, o escopro,
Talha, esculpe, lapida o busto da Poesia
E anima-o triunfalmente ao teu divino sopro.
Se, como Pigmalião, — dados todos os traços —
Não lhe puderes dar Alma, Vida e Energia,
Parte a escultura vã desfeita em mil pedaços!
876
Júlio Maciel
Jacarecanga
Rebelde e forte, aqui, outrora se implantava
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.
Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!
E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —
Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!
A taba indiana — aqui, onde a alma lua cheia,
Pródiga, a derramar em cachões a luz fiava,
— Agora a estes casais a fachada clareia.
Quanta vez trom de inúbia, entrechocar de clava
Não vibrou pelo azul que sobre mim se arqueia!
Praia! o tropel da tribo em correria brava
Quanta vez não sentiste a sacudir-te a areia!
E embora tu, Passado, a lenda antiga escondas,
Eu sei que o amor também floriu aqui: — no treno
Da aragem, no marulho eloqüente das ondas, —
Parece-me inda escuto, em meio à noite clara,
— O selvagem rumor dos beijos de Moreno
E as falas de paixão da meiga Tabajara!
1 099
Jonas da Silva
Barro Amarelo
Do cemitério o chão, aqui, a cova,
Parece de oiro: é lindo este amarelo.
Aqui vieram fazer o seu castelo
Os que passaram pela Grande Prova.
Os que têm fome de oiro, os que uma trova
À auricídia cantaram com desvelo,
Aqui o têm sob a folha do cutelo
Da Morte, curvo como a Lua Nova.
As raízes das árvores tenazes
Não penetram no solo socalcado;
No entanto viçam rosas e lilases.
— Vais em visita a alguém que tua alma chora?
Liga-te a argila os pés ao chão... Cuidado!
Este barro amarelo te devora! ...
Parece de oiro: é lindo este amarelo.
Aqui vieram fazer o seu castelo
Os que passaram pela Grande Prova.
Os que têm fome de oiro, os que uma trova
À auricídia cantaram com desvelo,
Aqui o têm sob a folha do cutelo
Da Morte, curvo como a Lua Nova.
As raízes das árvores tenazes
Não penetram no solo socalcado;
No entanto viçam rosas e lilases.
— Vais em visita a alguém que tua alma chora?
Liga-te a argila os pés ao chão... Cuidado!
Este barro amarelo te devora! ...
1 330
Moranno Portela
Tempo Íntimo
Inscreve teu poema no tempo
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral
e o silêncio.
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral
e o silêncio.
953
Moranno Portela
Tempo Íntimo
Inscreve teu poema no tempo
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral
e o silêncio.
como no tempo estás inscrito: —
um silencioso grito
juntando os cacos da solidão.
Estás partido,
e teu poema é só um eco
sem raízes ou audível chão.
Contudo cantas,
e tua voz, rouca, vai desvendando
as faces do mundo
sob tua pele escondidas.
Canta, canta que aprenderás
o tempo, teu relógio de pulso
ecoando efêmero teu coração
— o relógio enorme da catedral
e o silêncio.
953
João Quental
Os Salmões
Olhos que pela primeira vez vêm: uma sala
onde sempre estiveram, encontrar perdida
entre montinhos de lixo e poeira uma fotografia
vender um carro usado amar uma mulher feia
ser fiel a um apartamento à beira-mar tudo o que
já tantas vezes foi feito refeito novamente feito
mansardas onde os mortos se encontram nos corredores
virei e comprarei mais um lote de sentimentos normais.
Encontrar uma mulher feia perdida no meio de um montinho
de fronhas e lençóis, vender um apartamento usado, amar
à visão de um carro encostado à beira-mar tudo isso são
novos motivos novas chances sítios distantes onde nada
acontece de verdade onde manchas castanhas sob os olhos
nada são além de cansaço, hora carmesim
dias vulgares o sol depositando pequeninas faces de perfil
duas peles insensíveis no alto das árvores.
Encontrei-me, olhos que olham, feio enroscado na cama
de algum apartamento à beira dágua com um carro
de segunda-mão encostado ao meio-fio movendo noites
pelo apalpar, a carne cede claro
sempre sede, encontrar um dia inteiro com você
uma navegação entre cachoeiras, proporções
estranhas de uma máxima realidade tudo
o que te menospreza.
Dias de fascínio, dias em que não mais
é ridículo falar de ti, lembrar os mortos
observar o que for quando for
o desovar infeliz, pobres salmões nostálgicos.
(1988)
onde sempre estiveram, encontrar perdida
entre montinhos de lixo e poeira uma fotografia
vender um carro usado amar uma mulher feia
ser fiel a um apartamento à beira-mar tudo o que
já tantas vezes foi feito refeito novamente feito
mansardas onde os mortos se encontram nos corredores
virei e comprarei mais um lote de sentimentos normais.
Encontrar uma mulher feia perdida no meio de um montinho
de fronhas e lençóis, vender um apartamento usado, amar
à visão de um carro encostado à beira-mar tudo isso são
novos motivos novas chances sítios distantes onde nada
acontece de verdade onde manchas castanhas sob os olhos
nada são além de cansaço, hora carmesim
dias vulgares o sol depositando pequeninas faces de perfil
duas peles insensíveis no alto das árvores.
Encontrei-me, olhos que olham, feio enroscado na cama
de algum apartamento à beira dágua com um carro
de segunda-mão encostado ao meio-fio movendo noites
pelo apalpar, a carne cede claro
sempre sede, encontrar um dia inteiro com você
uma navegação entre cachoeiras, proporções
estranhas de uma máxima realidade tudo
o que te menospreza.
Dias de fascínio, dias em que não mais
é ridículo falar de ti, lembrar os mortos
observar o que for quando for
o desovar infeliz, pobres salmões nostálgicos.
(1988)
854
Moranno Portela
Poethomem
É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
962
Moranno Portela
Poethomem
É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
962
Moranno Portela
Poethomem
É pouco o peito do homem
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
para o poeta guardar:
ele está como represa
Quando vai arrebentar.
É pouco o peito do homem
para o rio que dentro dele
quer, sôfrego, navegar.
Mas o homem é necessário,
dele o poeta precisa:
um é uno — o outro vário,
um voa — o outro pisa.
962
Madi
Um Dia
Um Dia
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
Eu pedi um dia
E um dia é tanto tempo que não da nem pra contar
Um dia pode demorar horas, meses, anos...
Custa a passar
Um dia, por si só, soa o distante, o quase inatingível
Um dia é tão indefinido que tanto pode estar muito perto
como pode estar muito longe
Demore ou não a chegar, não importa
Um dia é o fim da espera derradeira
E se é para esperar por esse beijo eu espero
a minha vida inteira
878
Jonas da Silva
O Mestre
Bato um dia, cansado, à porta da oficina,
No Pont-Vieux, em Florença, uma tarde de Maio:
Cinzelando, escandindo uma obra ou um ensaio
Vi B. Lopes, Celini e Bilac e Bartrina.
Havia em torno a unção da Capela Sixtina.
Cruz e Souza, orgulhoso, olhou-me de soslaio;
Vi Cervantes, cantor do berço de Pelayo,
Victor Hugo — o albatroz, o condor, a águia alpina.
Vi Dante, que desceu do inferno e a funda gorja
E os revéis encontrou nas fogueiras terríveis...
Castro Alves temperava uma espada na forja.
Antero de Quental dialogava com a Glória...
Só B. Lopes me ouviu, dos deuses impassíveis,
— O Mestre dos Brasões, de eviterna memória!
No Pont-Vieux, em Florença, uma tarde de Maio:
Cinzelando, escandindo uma obra ou um ensaio
Vi B. Lopes, Celini e Bilac e Bartrina.
Havia em torno a unção da Capela Sixtina.
Cruz e Souza, orgulhoso, olhou-me de soslaio;
Vi Cervantes, cantor do berço de Pelayo,
Victor Hugo — o albatroz, o condor, a águia alpina.
Vi Dante, que desceu do inferno e a funda gorja
E os revéis encontrou nas fogueiras terríveis...
Castro Alves temperava uma espada na forja.
Antero de Quental dialogava com a Glória...
Só B. Lopes me ouviu, dos deuses impassíveis,
— O Mestre dos Brasões, de eviterna memória!
958
Jonas da Silva
O Mestre
Bato um dia, cansado, à porta da oficina,
No Pont-Vieux, em Florença, uma tarde de Maio:
Cinzelando, escandindo uma obra ou um ensaio
Vi B. Lopes, Celini e Bilac e Bartrina.
Havia em torno a unção da Capela Sixtina.
Cruz e Souza, orgulhoso, olhou-me de soslaio;
Vi Cervantes, cantor do berço de Pelayo,
Victor Hugo — o albatroz, o condor, a águia alpina.
Vi Dante, que desceu do inferno e a funda gorja
E os revéis encontrou nas fogueiras terríveis...
Castro Alves temperava uma espada na forja.
Antero de Quental dialogava com a Glória...
Só B. Lopes me ouviu, dos deuses impassíveis,
— O Mestre dos Brasões, de eviterna memória!
No Pont-Vieux, em Florença, uma tarde de Maio:
Cinzelando, escandindo uma obra ou um ensaio
Vi B. Lopes, Celini e Bilac e Bartrina.
Havia em torno a unção da Capela Sixtina.
Cruz e Souza, orgulhoso, olhou-me de soslaio;
Vi Cervantes, cantor do berço de Pelayo,
Victor Hugo — o albatroz, o condor, a águia alpina.
Vi Dante, que desceu do inferno e a funda gorja
E os revéis encontrou nas fogueiras terríveis...
Castro Alves temperava uma espada na forja.
Antero de Quental dialogava com a Glória...
Só B. Lopes me ouviu, dos deuses impassíveis,
— O Mestre dos Brasões, de eviterna memória!
958
Garcia Rosa
Esquiva
Quando passas altiva e desdenhosa,
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
1 052
Garcia Rosa
Esquiva
Quando passas altiva e desdenhosa,
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
Como uma deusa em mármore esculpida,
Lembras-me a Grécia antiga e luminosa
E, adorando a Mulher, bendigo a Vida.
Toda a força do amor misteriosa
Trazes soberbamente refletida
Na perfeição da plástica mimosa
E na graça do andar, indefinida...
Mas quando te acompanho na esperança
De penetrar os íntimos refolhos
Dessa alma em flor, que a amar não se abalança,
Volves em torno, distraída, os olhos,
Na pertinácia vã de uma esquivança
Que semeia ilusões em vez de abrolhos.
1 052
Frutuoso Ferreira
Sousa Andrade
Erguem brumas do mar do etéreo brilhantismo,
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.
E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.
É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.
Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.
E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.
É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.
Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.
906
Frutuoso Ferreira
Sousa Andrade
Erguem brumas do mar do etéreo brilhantismo,
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.
E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.
É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.
Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.
Num faustoso Ocidente umas exéquias grandes...
Loira tarde no céu. Desse cristal dos Andes
Rola um Sol a cair nas vastidões do Abismo.
E na augusta amplidão daquela tarde enorme
Surge um vulto de azul de esplêndida safira:
É a bela Guimarães... A Pátria que delira
Na opala sideral do Ocaso que ali dorme.
É que entra nos Panteons da cérula turquesa,
O Gênio imorredoiro, escultural do Guesa,
O Gênio que entre nós chamou-se Sousa Andrade.
Como as que ele sonhara eternamente belas,
Possam novas coroas desfolhar-lhe estrelas,
Por sobre a noite azúlea da ampla Eternidade.
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José Paulo Moreira da Fonseca
Paisagem Noturna
Era uma hora isenta de toda a melancolia,
uma certeza ainda mais densa
contra a qual nada havia a fazer.
Já o ouro se fôra,
restava aquele azul de vidro que acende as constelações
e o céu pareceu-me a pupila de um rei
morrendo, e a sombra iluminava as coisas
de um lívido rigor.
Senti-me aflito
como o homem a quem revelassem um segredo extremo
que a própria memória temeria não esquecer.
uma certeza ainda mais densa
contra a qual nada havia a fazer.
Já o ouro se fôra,
restava aquele azul de vidro que acende as constelações
e o céu pareceu-me a pupila de um rei
morrendo, e a sombra iluminava as coisas
de um lívido rigor.
Senti-me aflito
como o homem a quem revelassem um segredo extremo
que a própria memória temeria não esquecer.
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